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terça-feira, junho 04, 2013

O papel do Estado: a mentira muito repetida

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 4 de Junho de 2013
Crónica 21/2013

O Estado é sempre apresentado como um buraco sem fundo, que tudo destrói, tudo queima e nada produz

“Os trabalhadores portugueses vão precisar de trabalhar este ano até ao dia 4 de Junho só para pagar impostos”. A notícia invadiu há uns dias todos os meios de comunicação social portugueses, das rádios às televisões e dos jornais aos sites da Internet, com honras de primetime e de manchete. A redacção quase idêntica de todos os textos revelava a eficácia da operação de comunicação que difundiu as conclusões de um estudo, "The tax burden of typical workers in the EU 27" ("O fardo fiscal dos trabalhadores médios na Europa a 27"), realizado pela organização New Direction - Fundação para a Reforma Europeia. As notícias não identificavam a orientação ideológica do think tank, mas o seu site identifica-o como uma organização “euro-realista” e “defensora do mercado livre”, criada em 2010 em Bruxelas e filiada na Aliança dos Conservadores e Reformistas Europeus, um grupo da direita ultraliberal. Mais revelador: a patrona do grupo é a baronesa Thatcher e a capa do estudo é ocupada por uma fotografia de uma grilheta, com a sua corrente e a respectiva bola de ferro. O símbolo dos impostos, claro.

O teor e o tom das notícias é idêntico: o estudo é apresentado como um trabalho científico; a organização que o produziu como “um think tank” ou “um grupo de reflexão”, a imagem da objectividade e do rigor; as suas conclusões como objectivas. A inflexão dos pivots da televisão é sempre grave: os portugueses tiveram de trabalhar em 2011 até 29 de Maio para pagar os seus impostos, em 2012 até 3 de Junho e este ano terão de trabalhar mais um dia para chegar ao "Dia da Libertação de Impostos" - a expressão usada no relatório e que as notícias repetem. Só depois desse dia começam a trabalhar “para si”.

Para quem estarão a trabalhar antes disso, se não é para si? O estudo explica: para o monstro do Estado, que lhes come os rendimentos, para quem havia de ser? Para funcionários públicos parasitas que não fazem nada e que é bem feito que sejam depedidos aos milhares. Para aquele buraco sem fundo, que tudo destrói, tudo queima, que nada produz, sem o qual a vida dos trabalhadores seria um paraíso. Onde é gasto esse dinheiro pelo Estado? Será que o Estado, com esse dinheiro, produz bens e serviços que são disponibilizados aos cidadãos? Será que o Estado, com esse dinheiro, paga centros de saúde, hospitais, escolas, universidades, laboratórios de investigação, vacinas, bibliotecas públicas, estradas e esgotos, tribunais e polícia? As notícias não dizem. Como não dizem que um alto nível de impostos pode significar uma elevada qualidade dos serviços fornecidos pelo Estado ou um Estado mal gerido. O que se consegue perceber pelas notícias é que cada vez se paga mais para o Estado e que isso é mau. O que as notícias não explicam é por que razão os países onde o nível de vida é mais elevado e onde há maior bem-estar, a Finlândia, a Holanda, a Alemanha, ainda se paga muito mais impostos. O que importa é dizer que em todos os países se paga demais. Muito, muito mais do que se devia pagar.

E porque se paga cada vez mais ao Estado em Portugal? Será que isso se deve ao facto de o Estado oferecer aos seus cidadãos cada vez mais e melhores serviços? Ao facto de os serviços do Estado serem cada vez mais inclusivos e terem uma cobertura geográfica cada vez mais alargada? Ou ao facto de a política de austeridade estar a destruir a economia e estar a canalizar para o pagamento de juros agiotas cada vez mais recursos dos cidadãos? O estudo não diz, as notícias não dizem. Aliás: austeridade é uma palavra que não aparece no relatório do think-tank. A sugestão é que o Estado gasta cada vez mais porque é mau.

O que temos é o pior dos mundos: o Governo começa por roubar os contribuintes para pagar juros aos seus amigos financeiros e difama em seguida o Estado-gastador, através de instrumentos como este think tank, acusando-o de malbaratar dinheiro em sistemas de protecção social de luxo insustentáveis. De uma cajadada, três coelhos: reduzem-se os trabalhadores à miséria e à submissão, enriquecem-se os amigos ricos e reúnem-se argumentos para destruir o Estado Social, para alienar património público e para transferir os bons negócios da saúde e da educação para as empresas privadas.

O tratamento da notícia é típico das notícias de economia. Explicita ou implicitamente, o pano de fundo das notícias que os noticiários de televisão e os artigos de jornal nos fornecem é uma ideologia ultraliberal que considera o papel do Estado na economia e na sociedade em geral sempre excessivo, que considera a protecção dos trabalhadores sempre perniciosa e contrária ao interesse da economia, os impostos pagos ao estado sempre injustificados, o mercado desregulado como o maior dos bens, a “flexibilização das relações de trabalho” como algo cuja bondade está estabelecida cientificamente. Pouco importa que tudo isso seja cientificamente falso ou eticamente abjecto ou ambas as coisas. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, janeiro 22, 2013

Valsa macabra no salão dos espelhos

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 22 de Janeiro de 2013
Crónica 3/2013


Uma discussão de dois dias, à porta fechada, com acesso por convite e uma imprensa submetida a exame prévio

Começou por ser a “refundação do memorando de entendimento”. A expressão não quer dizer absolutamente nada (não se refunda um documento) mas foi lançada pelo primeiro-ministro num discurso partidário e corresponde ao perfil do sujeito: letras escassas, empenho em utilizar expressões pomposas que possam dar aparência de profundidade de pensamento e uma predilecção por frases que permitam diferentes interpretações para defesa futura, enunciadas com uns maxilares tão cerrados que receio que comecem a causar-lhe problemas nos molares. O mundo político e a sociedade em geral lançou-se em peso na exegese do discurso petropassicunículo e concluiu que a) o homem queria dizer “refundação do Estado” mas não lhe tinha chegado a língua b) o homem queria dizer “refundação do Estado” mas queria poder dizer que não tinha dito c) o homem queria dizer “reforma do Estado” mas achou que isso não lhe dava um ar de estadista porque os estadistas são gajos que fundam e refundam e não apenas gajos que reformam d) o homem queria mesmo dizer “refundação do memorando” e só ele e Deus Nosso Senhor sabiam o que isso queria dizer.


A expressão não merecia o esforço de análise. O que PPC queria dizer, como aliás era claro no mesmo discurso, era cortar drasticamente os gastos do Estado, sem olhar a meios, custe o que custar, mas apenas nas áreas sociais e nunca nos benefícios dados ao 1% do topo, para agradar aos credores e eternizar a dependência de Portugal em relação ao sistema financeiro. Considerando PPC que o Memorando de Entendimento assinado com a troika de credores é a Nova Constituição do Novo Estado, foi natural a confusão entre “memorando” e “Estado”. A intenção de PPC era deixar bem claro que não pretendia em caso algum discutir ou renegociar o memorando mas sim reforçá-lo, aumentá-lo, eternizá-lo. “Refundação” foi a palavra que lhe pareceu mais patrícia, depois de ter considerado “aprofundação” e “reforcionamento”, sobre as quais teve dúvidas que o Google não conseguiu esclarecer.


Rapidamente, porém, a “refundação do memorando” passou a “reforma do Estado” e “reforma do Estado Social”, sendo prometido que haveria sobre esta questão um amplo debate nacional, envolvendo toda a sociedade, sem ideias preconcebidas, onde todas as sugestões seriam bem-vindas, com total transparência e participação dos cidadãos, de forma a construir um amplo consenso nacional.


E foi exactamente assim que o Governo fez, cumprindo escrupulosamente as promessas repetidas pelo PM e pelos dirigentes da maioria, através de uma reunião organizada no Palácio Foz por uma ex-dirigente do PSD (o facto de se tratar de uma dirigente “ex” é, em si, prova da independência de todo o processo).


As únicas diferenças consistiram no facto de a) não ter havido tempo para um debate amplo porque era preciso acabar a discussão em Fevereiro, que está aí à porta b) não ter havido possibilidade de um debate nacional, que seria demasiado complicado organizar atendendo ao pouco tempo disponível e c) não ter havido tempo para debate porque um debate demora imenso tempo e nunca se sabe o que é que vai dar.


Mas, pelo menos, o amplo debate nacional envolveu uma parte da sociedade civil, tendo sido convidadas algumas dezenas de pessoas amigas do Governo para ir debater as ideias do Governo segundo as regras definidas pelo Governo.


Quanto a ideias preconcebidas o debate esteve delas totalmente isento, com a excepção da conclusão que era preciso encolher o Estado e pô-lo ao serviço do serviço da dívida  e cortar desde já 4.000 milhões de euros na despesa - mas aqui tratou-se de mero realismo.
Pelo menos, a reunião esteve aberta a todas as correntes de opinião, excepto aquelas que, por se situarem fora da esfera de influência dos actuais dirigentes do PSD, não valia a pena considerar. A reunião era aliás totalmente aberta a quem quisesse participar, desde que tivesse sido previamente convidado pela organização.


A transparência foi outra característica deste amplo debate nacional, se exceptuarmos o facto de a imprensa ter sido impedida de o relatar livremente, de não ter havido a transmissão directa das discussões que já se tornou habitual nas reuniões académicas e políticas e do facto de ter sido imposta unilateralmente uma regra que efectivamente impôs o exame prévio à imprensa. 


(Mensagem privada para enviar pelo Facebook esta noite: “Cara Sofia Galvão: A Chatham House Rule pode ser usada em certas circunstâncias, mas não nestas. Nem tudo é matéria de amimparecemq, sei lá. Há coisas que é conveniente saber. Cumprimentos. jvm”)
Ainda que pouco se saiba do que lá se passou, sabemos que o evento foi um êxito. Carlos Moedas apareceu repetidamente na televisão, resplandescente no meio nos dourados e dos espelhos. Pedro Passos Coelho e o próprio Moedas foram filmados e citados, tudo sempre com a devida autorização prévia. Estava tudo lindíssimo e eles estavam ambos elegantíssimos. Naquele décor setecentista, lembraram-me imenso a Maria Antonieta, com o seu fatinho de pastora. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, setembro 06, 2011

O Estado amputado

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 6 de Setembro de 2011
Crónica 36/2011

Um Estado mais eficiente deve combater a corrupção e a evasão fiscal, simplificar processos, eliminar actividades e organismos inúteis

1. Quando um médico recomenda a um paciente que perca peso não lhe está a sugerir que ampute uma perna, apesar de isso se traduzir numa descida de peso. Há perdas de peso onde reduzimos a gordura em excesso e beneficiamos a nossa saúde, mas há outras que nos debilitam e aumentam os riscos de doenças e de morte.

O caso das chamadas gorduras do Estado é semelhante. Quando se sugere que se emagreça o Estado, pretende-se duas coisas em simultâneo: reduzir o seu consumo de recursos e melhorar o seu desempenho. Pretende-se que faça o mesmo que faz agora ou mais e melhor, mas gastando menos. As pessoas continuam a compreender e a querer que o Estado se ocupe da Segurança Social e proporcione serviços de Educação e Saúde aos seus cidadãos – para além da defesa, da segurança e da justiça.

Quando se ouvem vozes reclamando a redução das despesas do Estado as pessoas sensatas falam disto: de um emagrecimento que torne o Estado mais eficiente, que reduza a corrupção, que corte despesas inúteis, que elimine redundâncias, que simplifique processos. É difícil porque isso só se faz com conhecimento das organizações e dos processos, com transparência e mobilização de vontades. É fácil reduzir gastos às cegas, mas é como obter uma perda de peso por amputação. O resultado não é brilhante.

Quando se exigia que o Governo de Pedro Passos Coelho anunciasse a redução da despesa do Estado, em vez de apenas recorrer ao aumento de impostos, os mais optimistas esperavam isso. Que o Governo reduzisse os boys, que combatesse a corrupção e a evasão fiscal que sorve os dinheiros públicos, que anunciasse a simplificação de processos, que provasse a inutilidade de certas despesas, actividades ou instituições e que as eliminasse. Mas o que Passo Coelho fez foi anunciar cortes cegos na Saúde, na Educação e na Segurança Social. É a escolha da amputação. É fácil ser ministro. “É este ficheiro Excel? Como é que selecciono esta coluna? Onde é o Delete, é aqui?”

Que há pessoas a quem estes cortes cegos vão prejudicar, que há economia que vai desaparecer, que há qualidade de vida que vai piorar, parece algo secundário.

Conhecem aquele método de atirar a moeda ao ar em que quando sai cara ganho eu e quando sai coroa perdes tu? É semelhante. O Governo aumenta os impostos com uma mão e reduz os serviços que o Estado presta aos cidadãos com a outra. Não é inesperado, mas não tem nada a ver com redução de gorduras. Essas, vão manter-se. Os boys, a corrupção.

2. A propósito de obrigar os ricos a pagar os impostos que devem, grassa uma enorme confusão de que o Governo se aproveitou. A subida das taxas do IRS foi apresentada pelo Governo (e lida pelo povo, hélas) como uma penalização dos ricos. O povo pobre acha que quem ganha mais de 66.000 euros por ano é rico e exulta. Mas estes não são os ricos. Nem sequer as famílias que ganham 150.000 euros brutos por ano. Os ricos não são os que vivem do seu salário, ainda que seja um excelente salário. São os que detêm os meios de produção, os que possuem património e rendimentos de capital que lhes permitem viver com desafogo – e até sem trabalhar, se quiserem. Enquanto os impostos aumentam para os trabalhadores da classe média, os ricos, com as suas empresas registadas no offshore da Madeira e sem pagar um cêntimo de IRC nem de IRS, sorriem.

3. Um dos argumentos da direita contra a exigência que os ricos paguem impostos como os outros é que, ainda que o fizessem, isso não resolveria o défice. É ridículo ter de o dizer, mas cá vai: os ricos devem pagar não porque isso é preciso para as finanças públicas, mas por uma questão de justiça. A evasão e elisão fiscal dos ricos não é apenas má para as contas do Estado: é imoral. E sobrecarrega os contribuintes cumpridores, que o Estado sobretaxa para poder chegar ao fim do mês. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, março 10, 2009

A imprensa e o Estado

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 10 de Março de 2009
Crónica 8/2009

O grau mínimo do apoio do Estado à imprensa deve consistir na promoção da leitura de jornais

Sendo a imprensa essencial à democracia e havendo uma crise da imprensa, parece razoável que - pelo menos entre quem se preocupa com a democracia - haja preocupação em resolver essa crise.
Entre as medidas que nos últimos tempos se re/começou a discutir estão os apoios do Estado à imprensa. As pessoas reagem aos apoio do Estado, antes de mais, de acordo com a sua inclinação ideológica ("o Estado pode ser parte de solução" versus "o Estado é sempre parte do problema") e muitos, dos dois lados do espectro político, opõem-se com desconfiança a apoios que poderiam instrumentalizar os media. O receio é compreensível.
Mas a verdade é que há inúmeras coisas que o Estado pode (e deve) fazer e que não põem minimamente em risco a liberdade de imprensa e a pode até reforçar (é, aliás, precisamente por isso que o Estado as deve fazer).
Uma das coisas que o Estado deve fazer é promover a imprensa - mais uma vez, porque a imprensa é um dos fundamentos da democracia. Promover a imprensa não significa financiar directamente os órgãos de comunicação social - o que é de evitar e pode ser evitado.
O grau mínimo de apoio do Estado deve consistir na promoção da leitura de jornais, através de campanhas dirigidas a jovens, à população em geral e a grupos específicos. Mas isso também pode (e deve) ser feito através de compras regulares de jornais por vários organismos públicos (escolas, bibliotecas, etc.), com base em critérios claros.
As regras da acção do Estado devem ser a transparência de todos os processos; a definição de critérios através do debate democrático; a competência e a independência dos responsáveis escolhidos para dirigir todos os programas e projectos; a criação de instâncias que garantam o isolamento destes programas dos órgãos políticos (buffering); e o controlo público. Se for assim, o risco de manipulação pode ser minimizado.
Outras medidas que o Estado pode (e deve) lançar incluem programas de investigação e desenvolvimento em parceria com as associações industriais e profissionais do sector. Esta é uma área que o Estado tem negligenciado - algo indefensável perante o actual panorama de revolução tecnológica e perante os protestos de apoio à "sociedade do conhecimento" e à "produção de conteúdos em português". Além de que também podemos (e devemos) perguntar por que razão o Estado não apoia um programa de modernização da imprensa - quando o faz (melhor ou pior) em tantos outros sectores. Este apoio poderia (e deveria) estender-se à realização de estudos (tecnológicos, de mercado, etc.) regulares, a partilhar por todo a sector.
Pode dizer-se que já há programas a que as empresas e associações se podem candidatar - e há. Mas, perante um panorama de escassa iniciativa privada e de depressão instalada nas empresas de media, uma competente acção de intermediação (brokerage) por parte do Estado poderia dar consistência ao que são hoje estudos avulsos e de utilidade duvidosa. O Estado pode (e deve) convidar os interessados a sentar-se à volta da mesma mesa.
O Estado pode (e deve) criar programas de formação avançada para jornalistas em exercício (e outros profissionais da imprensa). E o Estado pode (e deve) apoiar a criação de infra-estruturas. É lamentável que as escassas bases de dados de imprensa existentes - infra-estruturas de uso comum preciosas para a imprensa, mas também para o ensino, a investigação e até a administração pública - tenham sido criadas tão tarde entre nós e tenham uma utilização tão limitada.
Não seria difícil acrescentar umas ideias a esta lista. Jornalista (jvm@publico.pt)