por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 1 de Julho de 2014
Crónica 32/2014
Pode não se gostar das cores usadas pelo artista, mas Portugal na forca é apenas um retrato do país.
Um estudante de Artes Visuais da Universidade do Algarve foi recentemente acusado de ter cometido o crime de “ultraje à bandeira nacional” devido a uma obra que apresentou e exibiu publicamente no final do seu curso. A obra, apresentada há já cerca de um ano, consistia numa forca de cuja corda pendia uma bandeira nacional e chamava-se, algo literalmente, Portugal na forca, tendo valido ao artista a nota final de curso de 17 ou 18 valores (segundo as fontes).
Na sequência de uma denúncia, o estudante foi acusado pelo Ministério Público de desrespeitar o artigo 332 do Código Penal e foi apresentado a tribunal, devendo a leitura da sua sentença ter lugar no próximo dia 7 de Julho. O artigo do Código Penal em causa diz, no seu parágrafo primeiro, que “quem publicamente, por palavras, gestos ou divulgação de escrito, ou por outro meio de comunicação com o público ultrajar a República, a bandeira ou o hino nacionais, as armas ou emblemas da soberania portuguesa, ou faltar ao respeito que lhes é devido, é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa até 240 dias”.
Esta história é tanto mais surpreendente quanto desde há anos que todos nós vemos um grupo de cidadãos, com deveres constitucionais muito mais exigentes que os que se podem atribuir a um estudante de Belas-Artes, desrespeitar não só a bandeira, como os compromissos solenes que assumiram perante o povo, único soberano que existe em Portugal.
De facto, há anos que vemos os membros do actual Governo ultrajar reiteradamente a bandeira nacional, ostentando-a na lapela, ao mesmo tempo que minam a soberania nacional que essa bandeira representa, sem que o Ministério Público tenha tido o mesmo sobressalto.
É para mim difícil conceber o que seja o “ultraje à bandeira”, porque uma bandeira não passa de um pedaço de pano colorido, mas parece evidente que um crime contra um símbolo apenas pode ser considerado um crime porque simboliza um verdadeiro crime. Ou seja: apenas se pode considerar que o “ultraje à bandeira nacional” é um crime, se se considerar que o ultraje à soberania nacional é um crime. Trata-se, de alguma forma, de um crime por metonímia. O que não faz absolutamente nenhum sentido é considerar que o “ultraje à bandeira nacional” é um crime porque a bandeira representa a soberania nacional, mas que um atentado contra a soberania nacional, submetendo o país aos interesses de potências estrangeiras e ignorando os direitos do povo soberano, não tem a mínima importância.
É verdade que essa foi a atitude do Estado Novo que, como todos os regimes nacionalistas, tentou impor um culto religioso e temeroso dos símbolos, das bandeiras, dos hinos, das fardas e dos emblemas nacionais, ao mesmo tempo que atropelava os direitos do povo, mas nesse caso tratava-se de impor o medo, criando tabus cujos juízes eram os usurpadores. Esta atitude não tem sentido num país democrático. É tão ridículo o processo movido contra o estudante Élsio Menau, como o que foi aberto (mas logo fechado) contra Cavaco Silva e António Costa por terem içado a bandeira nacional de pernas para o ar no 5 de Outubro. Se, no último caso, se tratou de um acidente, no primeiro tratou-se não só de um acto de criação artística, mas de uma declaração política, em que se denuncia uma situação de absoluta indignidade e de risco de sobrevivência para o país. Portugal na forca é, apenas, um retrato do país. Pode não se concordar com a perspectiva ou não se gostar das cores usadas pelo artista, mas é apenas um retrato. Em que consiste o seu suposto atentado a valores essenciais? Em nada. Que prejuízos causa? Nenhum. O processo e julgamento contra o seu autor não pode ser considerado outra coisa que não um processo político, que pretende domesticar o protesto cívico – tantas vezes de mãos dadas com a liberdade artística. Um péssimo serviço à soberania e, pior ainda, à democracia.
Os seus defensores sublinham que o estudante tratou a bandeira “com respeito” – e, de facto, é difícil ver aqui algum ultraje a alguém ou a algum valor moral –, mas a questão não é essa. A liberdade artística, que não é mais do que a liberdade de expressão, contém um valor que é socialmente superior ao “respeito” dos símbolos e das instituições. O “respeito” dos símbolos e das instituições não é mais do que uma imposição do statu quo, que está na base de todas as limitações de liberdade e da perpetuação de todas as opressões. O discurso dos direitos humanos sempre foi um discurso contra o “respeito” das autoridades instituídas e dos seus símbolos. É evidente que pode haver abusos da liberdade de expressão que sejam sentidos como uma agressão e que provoquem uma repulsa violenta generalizada, mas Portugal na forca não se encaixa nessa categoria. Tudo o que faz é obrigar-nos a discutir o país. E a reparar naquelas bandeirinhas de lapela que os governantes ostentam, com um sorriso descarado de impunidade.
jvmalheiros@gmail.com
Crónica no Público: http://www.publico.pt/portugal/noticia/ultrajes-a-bandeira-so-sao-permitidos-na-lapela-1661092
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terça-feira, julho 01, 2014
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Our daily heaven - Version 2.0
Versão reduzida
Versão original em português - Versão 2.0
Texto incluído no catálogo da exposição "Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações", de Rosário Rebello de Andrade.
Museu da Electricidade, Lisboa, de 29 de Março a 17 de Junho de 2012
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58Versão original em português - Versão 2.0
The first question is a classic one. So classic that it is one of the questions we hear most frequently in the movies: Where am I? What is this place?
Or, to be more precise, since what matters here is not where the body is, but where the eyes are: Where am I looking from? What am I looking at? What do I see?
The second question is philosophical. Why is there this instead of nothing? Why am I here and not there? Who is there? Who might be there? Who might be looking at me? What does the gaze of the one who is looking at me tell me? What is the relationship between me and what I see?
The third question is scientific. What are those lights? Why do they have different colors? Do they move or are they fixed? What patterns do I see in those dots? How far are they? How can I get closer?
None of these questions is new. For centuries, we have felt them and asked them as we looked at the starry night sky. That sky schoolbooks tell us about but which is not there anymore over the cities. For centuries, that sky has inspired poems, geometries, terrors, devotions, oaths, dreams and sleepless nights.
But soon, we feel that this sky is strange, that these galaxies are somewhat organized, intelligent, geometrical. This sky was made with ruler and compass. What sky is this? Where did our everyday sky go?
The absence of chaos in these galaxies is spooky. Is some extraterrestrial civilization looking at us? What are those strange constellations that cover this sky as if they were zodiacal signs? There is something mythological, rather than mythical, in their design. Who made these galaxies?
The subtitles help us understand. That world is, in fact, our own. That’s where we are. We are there, here, looking up, looking at a mirror that puts us in the sky. We are those constellations. We are down here looking up there and up there looking down and we think we see the same thing. "As above, so below; as below, so above." Impossible not to think of the hermetic principles.
There’s nothing as far away and as alien as a galaxy, and nothing as close and familiar as a city. Here, those two worlds collide and coincide, meet one another, and familiarity becomes distance, distance becomes familiar. The cold and sidereal barrenness fuses with the frantic and hot urban space. And when we again manage to imagine the microscopic chaos that inhabits these galaxies, the people, the cars, the neon lights, the crimes, the failed encounters, we are able to breathe again. There is, after all, no intelligence behind the organization of the Universe. These images that we project onto the sky were made by us. They are human after all. The straight lines are still only human. No god can draw like us.
When we finally see the cities, when we recognize the alignment of avenues, the first thing that comes to mind are the maps of the urbanist Richard Florida. But these lights we see are not city lights, they are not the economy, not the arts. They are not even the city. They are city signs. They are dots created by lines crossing each other. Reflexions in a mirror. Markings made with a pencil on a sheet of paper. They are a cartography of the city. A cartography that puts them up in the sky.
There is a cold sadness in these cities. The barren distance that separates us from these cities, where we live, is filled with an icy ether which may prove impossible to cross. We can sense an archaeological approach in these images. These mirror images show us our cities travelling through space, they show us our cities as they could be seen, when they no longer existed, if there were someone to look at them. They are Celestial Cities, as Beijing’s Forbidden City or Damascus dreamed to be, as we are told were the cities of the Golden Age, that time that never was, when all of us were happy. There is an alternative story in the maps of these cities, but we’ll never know how it would be.
These images are a possible future for cities. One day, an astronomer from the future, in a distant civilization, will be able to see, projected in the mirror of his telescope, the old image of our cities, long dead, light-less, and he will see an inverted image that will look like these. When he sees this image, the cities will have long disappeared.
These paintings are an obvious proof of the illegal practice of astronomy, just as the observations and drawings of the German lithographer Wilhelm Tempel (1821-1889), self-made comet discoverer that all through his life had to justify before a corporatist and classist scientific community his lack of academic training. Max Ersnt made a book about him, “Maximiliana or the Illegal Practice of Astronomy”, considered to be one of the most beautiful books of the 20th century and a work of reference for asemic writing, where he himself graphically commits the same crime, which invades in fact all of his work, filled with stars and suns.
It is also asemic writing we’re dealing with here, in these Celestial Maps. Someone is saying something here. We do not know what, or to whom, but something is being said. These cities talk, in their regular and cold calligraphy, like an airport talks to an airplane, a page to a pen, a spectrum to an astrophysicist. Something is written and something is inscribed in this background black matter.
Oddly, these maps give us back a sky that the city lights robbed us of, and oddly they lack light. The dots here are mere crossings, they’re not lamps. The stars in these maps are squares, encounters, not dazzling lights. That is why they lack concentrations, why they don’t have centers, why they are so distributed. That’s why space is treated democratically. There are no strange attractors absorbing everything around. They may be imposing, mysterious and seductive, but none of these celestial cities is imperial. And they are put alongside their cemeteries, the quintessential metaphor for the silence of sidereal space, as if to whisper in their ears that they are mortal.
José Vítor Malheiros
February 2012
Our daily heaven - Version 1.0
Texto escrito para inclusão no catálogo da exposição "Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações", de Rosário Rebello de Andrade, que seria depois reduzido, por imperativos de espaço.
Museu da Electricidade, Lisboa, de 29 de Março a 17 de Junho de 2012
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58
The first question is a classic one. So classic that it is one of the questions we hear most frequently in the movies: Where am I? What is this place?
Or, to be more precise, since what matters here is not where the body is, but where the eyes are: Where am I looking from? What am I looking at? What do I see?
The second question is philosophical. Why is there this instead of nothing? Why am I here and not there? Who is there? Who might be there? Who might be looking at me? What does the gaze of the one who is looking at me tell me? What does my gaze reflect back to me? What is the relationship between me and what I see?
The third question is scientific. What are those lights? Why do they have different colors? Why do they have different sizes? Do they move or are they fixed? What patterns do I see in those dots? How far are they? How can I get closer?
None of these questions is new. For centuries, we have felt them and asked them as we looked at the starry night sky. That sky schoolbooks tell us about but which is not there anymore over the cities. For centuries, that sky has inspired poems, geometries, terrors, devotions, oaths, dreams and sleepless nights.
But soon, we feel that this sky is strange, that these galaxies are somewhat organic, organized, intelligent, geometrical. We see design here; this sky was made with ruler and compass. What sky is this? What foreign place is this? Where did our everyday sky go?
It is paradoxical that, for the ancients, organizing the sky into constellations was the most comforting way to put some order in it – imbuing the heavenly confusion with the relative rationality of the Olympus and a meaningful narrative – but that, for us, the intelligence we sense in these celestial maps is so unsettling. The absence of chaos in these galaxies is spooky. Is some extraterrestrial civilization looking at us? What are those strange constellations that cover this sky as if they were zodiacal signs? There is something mythological, rather than mythical, in their design. Who made these galaxies?
The subtitles help us understand. That world is, in fact, our own. That’s where we are. We are there, here, looking up, looking at a mirror that puts us in the sky. We are there, in those constellations. We are those constellations. That’s where we live, that’s where we move, that’s where we dream we are going. We are down here looking up there and up there looking down and we think we see the same thing. "As above, so below; as below, so above." Impossible not to think of the hermetic principles.
There’s nothing as far away and as alien as a galaxy, and nothing as close and familiar as a city. Here, those two worlds collide and coincide, meet one another, and familiarity becomes distance, distance becomes familiar. The cold and sidereal barrenness fuses with the frantic and hot urban space. And when we again manage to imagine the microscopic chaos that inhabits these galaxies, the people, the cars, the neon lights, the crimes, the failed encounters, we are able to breathe again. There is, after all, no intelligence behind the organization of the Universe. These images that we project onto the sky were made by us. They are human after all. The straight lines are still only human. No god can draw like us.
When we finally see the cities, when we recognize the alignment of avenues, the first thing that comes to mind, almost immediately, are the maps of the urbanist Richard Florida. But in this case the cities are not lit up by the virtual reality of statistics. There are no urban or regional rankings here, there is no competition between constellations for attracting more talent than their neighbor, this is not about creativity or innovation, and if there is some bohemian life in these cities, it is beyond the resolution of our telescope. Each constellation is a world in itself, indifferent to the rest.
And these lights we see are not city lights, they are not the economy, not the creativity, not the agitation, not the markets, not the arts. They are not even the city. They are city signs. They are dots created by lines crossing each other. Reflexions in a mirror. Markings made with a pencil on a sheet of paper. They are a cartography of the city. A possible cartography. A cartography that puts them up in the sky. A cartography in the manner of Hubble.
There is a cold sadness in these cities. The barren distance that separates us from these cities, where we live, is filled with an icy ether which may prove impossible to cross. We can sense an archaeological approach in these images. These mirror images show us our cities travelling through space – and the images of our cities do in fact travel in space, at the speed of light, as all images do –, they show us our cities as they could be seen, when they no longer existed, if there were someone to look at them. They are Celestial Cities, as Beijing’s Forbidden City or Damascus dreamed to be, as we are told were the cities of the Golden Age, that time that never was, when all of us were happy. There is an alternative story in the maps of these cities, but we’ll never know how it would be.
These images are a possible future for cities. One day, an astronomer from the future, in a distant civilization, will be able to see, projected in the mirror of his telescope, the old image of our cities, long dead, light-less, and he will see an inverted image that will look like these. And he may see, in the crossings, in the squares, some signs of encounters. When he sees this image, the cities will have long disappeared.
These paintings are an obvious proof of the illegal practice of astronomy, just as the observations and drawings of the German lithographer Wilhelm Tempel (1821-1889), self-made comet discoverer that all through his life had to justify before a corporatist and classist scientific community his lack of academic training. Tempel’s discoveries were usually met with the establishment’s disdain until confirmed by an “official” astronomer. Max Ersnt made a book about him, “Maximiliana or the Illegal Practice of Astronomy”, considered to be one of the most beautiful books of the 20th century and a work of reference for asemic writing, where he himself graphically commits the same crime, which invades in fact all of his work, filled with stars and suns.
It is also asemic writing we’re dealing with here, in these Celestial Maps. Someone is saying something here. We do not know what, or to whom, but something is being said. The cities talk, in their regular and cold calligraphy, like an airport talks to an airplane, a page to a pen, a spectrum to an astrophysicist. Something is written and something is inscribed, necessarily, in this background black matter.
Oddly, these maps give us back a sky that the city lights robbed us of, and oddly they lack light. The dots here are mere crossings, they’re not lamps. The stars in these maps are squares, encounters, coincidences, not dazzling lights. That is why they lack concentrations, why they don’t have centers, why they are so distributed. That’s why space is treated democratically. There are no strange attractors absorbing everything around. They may be imposing, mysterious and seductive, but none of these celestial cities is imperial. And they are put alongside their cemeteries, the quintessential metaphor for the silence of sidereal space, as if to whisper in their ears that they are mortal.
José Vítor Malheiros
February 2012
O céu nosso de cada dia - Versão 2.0
Versão reduzida
Versão integral - Versão 1.0
A primeira pergunta é clássica. Tão clássica que é uma das perguntas que mais vezes ouvimos no cinema: Onde estou? Que lugar é este?
Ou, sendo mais preciso, porque o que importa aqui não é o lugar do corpo mas o lugar do olhar: De onde olho? Para onde olho? O que vejo?
A segunda pergunta é filosófica. Porque há aquilo e não o nada? Porque estou aqui e não ali? Quem está ali? Quem poderá olhar-me? Que me diz o olhar de quem me olha? Que relação existe entre mim e o que vejo?
A terceira pergunta é científica. O que são estas luzes? Por que têm cores diferentes? Movem-se ou estão fixas? Que padrões distingo nestes pontos? A que distância estão? Como posso aproximar-me?
Não há nenhuma novidade nestas perguntas. Há séculos que as sentimos e que as fazemos quando olhamos o céu estrelado. Aquele céu de que nos falam nos livros de escola e que já não existe nas cidades. Há séculos que esse céu alimenta poemas, geometrias, terrores, devoções, juras, sonhos e insónias.
Só que depressa reparamos que este céu é estranho, que estas galáxias têm algo de organizado, inteligente, geométrico. Há régua e esquadro neste céu. Que céu é este? Onde está o céu nosso de cada dia?
A ausência de caos destas galáxias arrepia. São civilizações extraterrestres que nos espreitam? O que são estas constelações estranhas que se espalham neste céu como signos no Zodíaco? Há qualquer coisa de mitológico no seu desenho, mais do que mítico. Quem fez estas galáxias?
As legendas ajudam-nos a perceber. Aquele mundo é afinal o nosso. É ali que nós estamos. Estamos ali, aqui, a olhar para cima, para este espelho que nos põe no céu. Somos nós, aquelas constelações. Estamos em baixo olhando para cima e em cima olhando para baixo e pensamos ver a mesma coisa. "O que está em cima é igual ao que está em baixo. O que está em baixo é igual ao que está em cima”. É impossível não evocar o princípio hermético.
Não há nada tão longínquo e tão desconhecido como as galáxias e nada tão próximo e tão familiar como a cidade onde vivemos. Aqui, os dois mundos colidem e coincidem, atravessam-se, a familiaridade torna-se distante, a distância familiar. A desolação sideral e fria do espaço funde-se com o espaço urbano frenético e quente. E quando conseguimos imaginar de novo o caos microscópico que habita estas galáxias, as pessoas, carros, néons, crimes, desencontros, conseguimos respirar de novo. Afinal não há nenhuma inteligência que tenha organizado o universo. Estas imagens que projectámos no céu fomos nós que as fizemos. São afinal humanas. As linhas rectas continuam a ser apenas humanas. Nenhum deus desenha como nós.
Quando vemos enfim as cidades, quando reconhecemos o alinhamento das avenidas, a primeira correspondência é com os mapas do urbanista Richard Florida. Mas estas luzes que vemos não são as luzes da cidade, não são a economia, nem a arte. Nem são a cidade. São sinais da cidade. Pontos criados pelo cruzamento de linhas. Reflexos num espelho. Marcas feitas a lápis num papel. São um levantamento possível. Um levantamento que as coloca no céu.
Há uma tristeza fria nestas cidades. A distância deserta que nos separa destas cidades, onde vivemos, está preenchida por um éter gelado, talvez impossível de percorrer. Adivinha-se uma démarche arqueológica nestas imagens. Estas imagens especulares mostram-nos as nossas cidades como elas poderiam viajar no espaço, como elas poderiam ser vistas quando já não existirem, se houvesse alguém para as olhar. São Cidades Celestiais, como a Cidade Proibida de Pequim ou Damasco sonharam ser, como nos dizem que foram as cidades da Idade do Ouro, aquele tempo que nunca existiu onde todos fomos felizes. Há uma história alternativa nas cartas destas cidades, que nunca saberemos como poderia ter sido.
Estas imagens são um futuro possível das cidades. Um dia, um astrónomo do futuro numa civilização distante poderá ver projectada no espelho do seu telescópio a imagem velha das nossas cidades, já mortas, sem luz, e verá uma imagem invertida que se assemelhará a estas. Quando ele vir essa imagem, as cidades, essas, terão desaparecido há muito.
Estas pinturas são prova evidente de prática ilegal da astronomia, como as observações e os desenhos do alemão Wilhelm Tempel (1821-1889), litógrafo transformado em descobridor de cometas que toda a vida teve de justificar perante uma comunidade científica corporativa e classista a sua falta de formação académica. Max Ernst dedicou-lhe um livro, “Maximiliana ou o exercício ilegal da astronomia”, considerado um dos mais belos livros do século XX e uma obra de referência para a escrita assémica, onde ele próprio comete graficamente o mesmo crime, que invade aliás toda a sua obra, recheada de astros e de sóis.
É também de escrita assémica que se trata aqui, nestas Cartas Celestes, uma acepção facilitada pela polissemia da palavra “carta”. Alguém diz aqui alguma coisa. Não sabemos o quê, nem a quem, mas alguma coisa é dita. Estas cidades falam, na sua caligrafia regular e fria, como um aeroporto fala a um avião, uma pauta a uma pena, um espectro a um astrofísico. Algo se escreve e algo se inscreve, necessariamente, nesta matéria negra de fundo.
É curioso como estas cartas nos devolvem um céu que a luz das cidades nos roubou e como delas essa luz está ausente. Os pontos são aqui apenas encruzilhadas e não lâmpadas. As estrelas destas cartas assinalam cruzamentos, encontros, mas não ofuscamentos. Daí a sua falta de concentração, a fraca centralidade, o seu carácter distribuído. Daí o tratamento democrático do espaço. Não há nenhum atractor estranho que arrebate tudo à sua volta. Podem ser imponentes, misteriosas ou sedutoras, mas nenhuma destas cidades celestes é imperial. E todas são postas em diálogo com os seus cemitérios, metáfora por excelência do hostil e mudo espaço sideral, como que para lhes segredar ao ouvido que são mortais.
José Vítor Malheiros
Fevereiro 2012
Texto incluído no catálogo da exposição "Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações", de Rosário Rebello de Andrade.
Museu da Electricidade, Lisboa, de 29 de Março a 17 de Junho de 2012
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58Versão integral - Versão 1.0
A primeira pergunta é clássica. Tão clássica que é uma das perguntas que mais vezes ouvimos no cinema: Onde estou? Que lugar é este?
Ou, sendo mais preciso, porque o que importa aqui não é o lugar do corpo mas o lugar do olhar: De onde olho? Para onde olho? O que vejo?
A segunda pergunta é filosófica. Porque há aquilo e não o nada? Porque estou aqui e não ali? Quem está ali? Quem poderá olhar-me? Que me diz o olhar de quem me olha? Que relação existe entre mim e o que vejo?
A terceira pergunta é científica. O que são estas luzes? Por que têm cores diferentes? Movem-se ou estão fixas? Que padrões distingo nestes pontos? A que distância estão? Como posso aproximar-me?
Não há nenhuma novidade nestas perguntas. Há séculos que as sentimos e que as fazemos quando olhamos o céu estrelado. Aquele céu de que nos falam nos livros de escola e que já não existe nas cidades. Há séculos que esse céu alimenta poemas, geometrias, terrores, devoções, juras, sonhos e insónias.
Só que depressa reparamos que este céu é estranho, que estas galáxias têm algo de organizado, inteligente, geométrico. Há régua e esquadro neste céu. Que céu é este? Onde está o céu nosso de cada dia?
A ausência de caos destas galáxias arrepia. São civilizações extraterrestres que nos espreitam? O que são estas constelações estranhas que se espalham neste céu como signos no Zodíaco? Há qualquer coisa de mitológico no seu desenho, mais do que mítico. Quem fez estas galáxias?
As legendas ajudam-nos a perceber. Aquele mundo é afinal o nosso. É ali que nós estamos. Estamos ali, aqui, a olhar para cima, para este espelho que nos põe no céu. Somos nós, aquelas constelações. Estamos em baixo olhando para cima e em cima olhando para baixo e pensamos ver a mesma coisa. "O que está em cima é igual ao que está em baixo. O que está em baixo é igual ao que está em cima”. É impossível não evocar o princípio hermético.
Não há nada tão longínquo e tão desconhecido como as galáxias e nada tão próximo e tão familiar como a cidade onde vivemos. Aqui, os dois mundos colidem e coincidem, atravessam-se, a familiaridade torna-se distante, a distância familiar. A desolação sideral e fria do espaço funde-se com o espaço urbano frenético e quente. E quando conseguimos imaginar de novo o caos microscópico que habita estas galáxias, as pessoas, carros, néons, crimes, desencontros, conseguimos respirar de novo. Afinal não há nenhuma inteligência que tenha organizado o universo. Estas imagens que projectámos no céu fomos nós que as fizemos. São afinal humanas. As linhas rectas continuam a ser apenas humanas. Nenhum deus desenha como nós.
Quando vemos enfim as cidades, quando reconhecemos o alinhamento das avenidas, a primeira correspondência é com os mapas do urbanista Richard Florida. Mas estas luzes que vemos não são as luzes da cidade, não são a economia, nem a arte. Nem são a cidade. São sinais da cidade. Pontos criados pelo cruzamento de linhas. Reflexos num espelho. Marcas feitas a lápis num papel. São um levantamento possível. Um levantamento que as coloca no céu.
Há uma tristeza fria nestas cidades. A distância deserta que nos separa destas cidades, onde vivemos, está preenchida por um éter gelado, talvez impossível de percorrer. Adivinha-se uma démarche arqueológica nestas imagens. Estas imagens especulares mostram-nos as nossas cidades como elas poderiam viajar no espaço, como elas poderiam ser vistas quando já não existirem, se houvesse alguém para as olhar. São Cidades Celestiais, como a Cidade Proibida de Pequim ou Damasco sonharam ser, como nos dizem que foram as cidades da Idade do Ouro, aquele tempo que nunca existiu onde todos fomos felizes. Há uma história alternativa nas cartas destas cidades, que nunca saberemos como poderia ter sido.
Estas imagens são um futuro possível das cidades. Um dia, um astrónomo do futuro numa civilização distante poderá ver projectada no espelho do seu telescópio a imagem velha das nossas cidades, já mortas, sem luz, e verá uma imagem invertida que se assemelhará a estas. Quando ele vir essa imagem, as cidades, essas, terão desaparecido há muito.
Estas pinturas são prova evidente de prática ilegal da astronomia, como as observações e os desenhos do alemão Wilhelm Tempel (1821-1889), litógrafo transformado em descobridor de cometas que toda a vida teve de justificar perante uma comunidade científica corporativa e classista a sua falta de formação académica. Max Ernst dedicou-lhe um livro, “Maximiliana ou o exercício ilegal da astronomia”, considerado um dos mais belos livros do século XX e uma obra de referência para a escrita assémica, onde ele próprio comete graficamente o mesmo crime, que invade aliás toda a sua obra, recheada de astros e de sóis.
É também de escrita assémica que se trata aqui, nestas Cartas Celestes, uma acepção facilitada pela polissemia da palavra “carta”. Alguém diz aqui alguma coisa. Não sabemos o quê, nem a quem, mas alguma coisa é dita. Estas cidades falam, na sua caligrafia regular e fria, como um aeroporto fala a um avião, uma pauta a uma pena, um espectro a um astrofísico. Algo se escreve e algo se inscreve, necessariamente, nesta matéria negra de fundo.
É curioso como estas cartas nos devolvem um céu que a luz das cidades nos roubou e como delas essa luz está ausente. Os pontos são aqui apenas encruzilhadas e não lâmpadas. As estrelas destas cartas assinalam cruzamentos, encontros, mas não ofuscamentos. Daí a sua falta de concentração, a fraca centralidade, o seu carácter distribuído. Daí o tratamento democrático do espaço. Não há nenhum atractor estranho que arrebate tudo à sua volta. Podem ser imponentes, misteriosas ou sedutoras, mas nenhuma destas cidades celestes é imperial. E todas são postas em diálogo com os seus cemitérios, metáfora por excelência do hostil e mudo espaço sideral, como que para lhes segredar ao ouvido que são mortais.
José Vítor Malheiros
Fevereiro 2012
O céu nosso de cada dia - Versão 1.0
Texto integral
Texto escrito para inclusão no catálogo da exposição "Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações", de Rosário Rebello de Andrade, que seria depois reduzido, por imperativos de espaço.
Museu da Electricidade, Lisboa, de 29 de Março a 17 de Junho de 2012
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58
A primeira pergunta é clássica. Tão clássica que é uma das perguntas que mais vezes ouvimos no cinema: Onde estou? Que lugar é este?
Ou, sendo mais preciso, porque o que importa aqui não é o lugar do corpo mas o lugar do olhar: De onde olho? Para onde olho? O que vejo?
A segunda pergunta é filosófica. Porque há aquilo e não o nada? Porque estou aqui e não ali? Quem está ali? Quem poderá estar ali? Quem poderá olhar-me? Que me diz o olhar de quem me olha? O que me devolve o meu olhar? Que relação existe entre mim e o que vejo?
A terceira pergunta é científica. O que são estas luzes? Por que têm cores diferentes? Por que têm tamanhos diferentes? Movem-se ou estão fixas? Que padrões distingo nestes pontos? A que distância estão? Como posso aproximar-me?
Não há nenhuma novidade nestas perguntas. Há séculos que as sentimos e que as fazemos quando olhamos o céu nocturno estrelado. Aquele céu de que nos falam nos livros de escola e que já não existe nas cidades. Há séculos que esse céu alimenta poemas, geometrias, terrores, devoções, juras, sonhos e insónias.
Só que depressa reparamos que este céu é estranho, que estas galáxias têm algo de orgânico, organizado, inteligente, geométrico. Há desenho aqui, há régua e esquadro neste céu. Que céu é este? Que lugar irreconhecível é este? Onde está o céu nosso de cada dia?
É paradoxal que, para os antigos, a organização em constelações fosse a forma mais repousante de organizar o céu - fornecendo à confusão do firmamento a relativa racionalidade do Olimpo e uma narrativa com sentido -, e que, para nós, a inteligência que intuímos nestas cartas celestes seja tão perturbadora. A ausência de caos destas galáxias é arrepiante. São civilizações extraterrestres que nos espreitam? O que são estas constelações estranhas que se espalham neste céu como signos na faixa do Zodíaco? Há qualquer coisa de mitológico no seu desenho, mais do que mítico. Quem fez estas galáxias?
As legendas ajudam-nos a perceber. Aquele mundo é afinal o nosso. É ali que nós estamos. Estamos ali, aqui, a olhar para cima, para este espelho que nos põe no céu. Estamos ali, naquelas constelações. Somos nós, aquelas constelações. É ali que vivemos, que viajamos, que sonhamos ir.
Estamos em baixo olhando para cima e em cima olhando para baixo e pensamos ver a mesma coisa. "O que está em cima é igual ao que está em baixo. O que está em baixo é igual ao que está em cima”. É impossível não evocar o princípio hermético.
Não há nada tão longínquo e tão desconhecido como as galáxias e nada tão próximo e tão familiar como a cidade onde vivemos. Aqui, os dois mundos colidem e coincidem, atravessam-se, a familiaridade torna-se distante, a distância familiar. A desolação sideral e fria do espaço funde-se com o espaço urbano frenético e quente. E quando conseguimos imaginar de novo o caos microscópico que habita estas galáxias, as pessoas, carros, néons, crimes, desencontros, conseguimos respirar de novo. Afinal não há nenhuma inteligência que tenha organizado o universo. Estas imagens que projectámos no céu fomos nós que as fizemos. São afinal humanas. As linhas rectas continuam a ser apenas humanas. Nenhum deus desenha como nós.
Quando vemos enfim as cidades, quando reconhecemos o alinhamento das avenidas, a primeira correspondência, quase imediata, é com os mapas do urbanista Richard Florida. Mas aqui não vemos as cidades iluminadas pela realidade virtual das estatísticas. Aqui não há rankings de cidades ou regiões, não há concorrência entre constelações, nenhuma tenta atrair mais talentos que a sua vizinha, não se trata de criatividade ou de inovação e, se existe boémia nestas cidades, está para além da resolução do nosso telescópio. Cada constelação vale por si, é um mundo por si, indiferente aos outros.
E estas luzes que vemos não são as luzes da cidade, não são a economia, nem a criação, nem a agitação, nem os mercados, nem a arte. Nem são a cidade. São sinais da cidade. Pontos criados pelo cruzamento de linhas. Reflexos num espelho. Marcas feitas a lápis num papel. São um levantamento das cidades. Um levantamento possível. Um levantamento que as coloca no céu. Um levantamento à maneira de Hubble.
Há uma tristeza fria nestas cidades. A distância deserta que nos separa destas cidades, onde vivemos, está preenchida por um éter gelado, talvez impossível de percorrer. Adivinha-se uma démarche arqueológica nestas imagens. Estas imagens especulares mostram-nos as nossas cidades como elas poderiam viajar no espaço - as imagens das nossas cidades viajam de facto no espaço, à velocidade da luz, como todas as imagens -, como elas poderiam ser vistas quando já não existirem, se houvesse alguém para as olhar. São Cidades Celestiais, como a Cidade Proibida de Pequim ou Damasco sonharam ser, como nos dizem que foram as cidades da Idade do Ouro, aquele tempo que nunca existiu onde todos fomos felizes. Há uma história alternativa nas cartas destas cidades, que nunca saberemos como poderia ter sido.
Estas imagens são um futuro possível das cidades. Um dia, um astrónomo do futuro numa civilização distante poderá ver projectada no espelho do seu telescópio a imagem velha das nossas cidades, já mortas, sem luz, e verá uma imagem invertida que se assemelhará a estas. E talvez veja nas encruzilhadas, nas praças, sinais de algum encontro. Quando ele vir essa imagem, as cidades, essas, terão desaparecido há muito.
Estas pinturas são prova evidente de prática ilegal da astronomia, como o foram as observações e os desenhos do alemão Wilhelm Tempel (1821-1889), litógrafo transformado em descobridor de cometas que toda a vida teve de justificar perante uma comunidade científica corporativa e classista a sua falta de formação académica. As descobertas de Tempel costumavam enfrentar o desdém do establishment até serem confirmadas por um astrónomo “oficial”. Max Ernst dedicou-lhe um livro, “Maximiliana ou o exercício ilegal da astronomia”, considerado um dos mais belos livros do século XX e uma obra de referência para a escrita assémica, onde ele próprio comete graficamente o mesmo crime, que invade aliás toda a sua obra, recheada de astros e de sóis.
É também de escrita assémica que se trata aqui, nestas Cartas Celestes, uma acepção facilitada pela polissemia da palavra “carta”. Alguém diz aqui alguma coisa. Não sabemos o quê, nem a quem, mas alguma coisa é dita. Estas cidades falam, na sua caligrafia regular e fria, como um aeroporto fala a um avião, uma pauta a uma pena, um espectro a um astrofísico. Algo se escreve e algo se inscreve, necessariamente, nesta matéria negra de fundo.
É curioso como estas cartas nos devolvem um céu que a luz das cidades nos roubou e como delas essa luz está ausente. Os pontos são aqui apenas encruzilhadas e não lâmpadas. As estrelas destas cartas assinalam cruzamentos, encontros, coincidências, mas não ofuscamentos. Daí a sua falta de concentração, a fraca centralidade, o seu carácter distribuído. Daí o tratamento democrático do espaço. Não há nenhum atractor estranho que arrebate tudo à sua volta. Podem ser imponentes, misteriosas ou sedutoras, mas nenhuma destas cidades celestes é imperial. E todas são postas em diálogo com os seus cemitérios, metáfora por excelência do hostil e mudo espaço sideral, como que para lhes segredar ao ouvido que são mortais.
José Vítor Malheiros
Fevereiro 2012
Texto escrito para inclusão no catálogo da exposição "Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações", de Rosário Rebello de Andrade, que seria depois reduzido, por imperativos de espaço.
Museu da Electricidade, Lisboa, de 29 de Março a 17 de Junho de 2012
http://www.fundacaoedp.pt/exposicoes/cartas-celestes-cruzamentos-largos-bifurcacao/58
A primeira pergunta é clássica. Tão clássica que é uma das perguntas que mais vezes ouvimos no cinema: Onde estou? Que lugar é este?
Ou, sendo mais preciso, porque o que importa aqui não é o lugar do corpo mas o lugar do olhar: De onde olho? Para onde olho? O que vejo?
A segunda pergunta é filosófica. Porque há aquilo e não o nada? Porque estou aqui e não ali? Quem está ali? Quem poderá estar ali? Quem poderá olhar-me? Que me diz o olhar de quem me olha? O que me devolve o meu olhar? Que relação existe entre mim e o que vejo?
A terceira pergunta é científica. O que são estas luzes? Por que têm cores diferentes? Por que têm tamanhos diferentes? Movem-se ou estão fixas? Que padrões distingo nestes pontos? A que distância estão? Como posso aproximar-me?
Não há nenhuma novidade nestas perguntas. Há séculos que as sentimos e que as fazemos quando olhamos o céu nocturno estrelado. Aquele céu de que nos falam nos livros de escola e que já não existe nas cidades. Há séculos que esse céu alimenta poemas, geometrias, terrores, devoções, juras, sonhos e insónias.
Só que depressa reparamos que este céu é estranho, que estas galáxias têm algo de orgânico, organizado, inteligente, geométrico. Há desenho aqui, há régua e esquadro neste céu. Que céu é este? Que lugar irreconhecível é este? Onde está o céu nosso de cada dia?
É paradoxal que, para os antigos, a organização em constelações fosse a forma mais repousante de organizar o céu - fornecendo à confusão do firmamento a relativa racionalidade do Olimpo e uma narrativa com sentido -, e que, para nós, a inteligência que intuímos nestas cartas celestes seja tão perturbadora. A ausência de caos destas galáxias é arrepiante. São civilizações extraterrestres que nos espreitam? O que são estas constelações estranhas que se espalham neste céu como signos na faixa do Zodíaco? Há qualquer coisa de mitológico no seu desenho, mais do que mítico. Quem fez estas galáxias?
As legendas ajudam-nos a perceber. Aquele mundo é afinal o nosso. É ali que nós estamos. Estamos ali, aqui, a olhar para cima, para este espelho que nos põe no céu. Estamos ali, naquelas constelações. Somos nós, aquelas constelações. É ali que vivemos, que viajamos, que sonhamos ir.
Estamos em baixo olhando para cima e em cima olhando para baixo e pensamos ver a mesma coisa. "O que está em cima é igual ao que está em baixo. O que está em baixo é igual ao que está em cima”. É impossível não evocar o princípio hermético.
Não há nada tão longínquo e tão desconhecido como as galáxias e nada tão próximo e tão familiar como a cidade onde vivemos. Aqui, os dois mundos colidem e coincidem, atravessam-se, a familiaridade torna-se distante, a distância familiar. A desolação sideral e fria do espaço funde-se com o espaço urbano frenético e quente. E quando conseguimos imaginar de novo o caos microscópico que habita estas galáxias, as pessoas, carros, néons, crimes, desencontros, conseguimos respirar de novo. Afinal não há nenhuma inteligência que tenha organizado o universo. Estas imagens que projectámos no céu fomos nós que as fizemos. São afinal humanas. As linhas rectas continuam a ser apenas humanas. Nenhum deus desenha como nós.
Quando vemos enfim as cidades, quando reconhecemos o alinhamento das avenidas, a primeira correspondência, quase imediata, é com os mapas do urbanista Richard Florida. Mas aqui não vemos as cidades iluminadas pela realidade virtual das estatísticas. Aqui não há rankings de cidades ou regiões, não há concorrência entre constelações, nenhuma tenta atrair mais talentos que a sua vizinha, não se trata de criatividade ou de inovação e, se existe boémia nestas cidades, está para além da resolução do nosso telescópio. Cada constelação vale por si, é um mundo por si, indiferente aos outros.
E estas luzes que vemos não são as luzes da cidade, não são a economia, nem a criação, nem a agitação, nem os mercados, nem a arte. Nem são a cidade. São sinais da cidade. Pontos criados pelo cruzamento de linhas. Reflexos num espelho. Marcas feitas a lápis num papel. São um levantamento das cidades. Um levantamento possível. Um levantamento que as coloca no céu. Um levantamento à maneira de Hubble.
Há uma tristeza fria nestas cidades. A distância deserta que nos separa destas cidades, onde vivemos, está preenchida por um éter gelado, talvez impossível de percorrer. Adivinha-se uma démarche arqueológica nestas imagens. Estas imagens especulares mostram-nos as nossas cidades como elas poderiam viajar no espaço - as imagens das nossas cidades viajam de facto no espaço, à velocidade da luz, como todas as imagens -, como elas poderiam ser vistas quando já não existirem, se houvesse alguém para as olhar. São Cidades Celestiais, como a Cidade Proibida de Pequim ou Damasco sonharam ser, como nos dizem que foram as cidades da Idade do Ouro, aquele tempo que nunca existiu onde todos fomos felizes. Há uma história alternativa nas cartas destas cidades, que nunca saberemos como poderia ter sido.
Estas imagens são um futuro possível das cidades. Um dia, um astrónomo do futuro numa civilização distante poderá ver projectada no espelho do seu telescópio a imagem velha das nossas cidades, já mortas, sem luz, e verá uma imagem invertida que se assemelhará a estas. E talvez veja nas encruzilhadas, nas praças, sinais de algum encontro. Quando ele vir essa imagem, as cidades, essas, terão desaparecido há muito.
Estas pinturas são prova evidente de prática ilegal da astronomia, como o foram as observações e os desenhos do alemão Wilhelm Tempel (1821-1889), litógrafo transformado em descobridor de cometas que toda a vida teve de justificar perante uma comunidade científica corporativa e classista a sua falta de formação académica. As descobertas de Tempel costumavam enfrentar o desdém do establishment até serem confirmadas por um astrónomo “oficial”. Max Ernst dedicou-lhe um livro, “Maximiliana ou o exercício ilegal da astronomia”, considerado um dos mais belos livros do século XX e uma obra de referência para a escrita assémica, onde ele próprio comete graficamente o mesmo crime, que invade aliás toda a sua obra, recheada de astros e de sóis.
É também de escrita assémica que se trata aqui, nestas Cartas Celestes, uma acepção facilitada pela polissemia da palavra “carta”. Alguém diz aqui alguma coisa. Não sabemos o quê, nem a quem, mas alguma coisa é dita. Estas cidades falam, na sua caligrafia regular e fria, como um aeroporto fala a um avião, uma pauta a uma pena, um espectro a um astrofísico. Algo se escreve e algo se inscreve, necessariamente, nesta matéria negra de fundo.
É curioso como estas cartas nos devolvem um céu que a luz das cidades nos roubou e como delas essa luz está ausente. Os pontos são aqui apenas encruzilhadas e não lâmpadas. As estrelas destas cartas assinalam cruzamentos, encontros, coincidências, mas não ofuscamentos. Daí a sua falta de concentração, a fraca centralidade, o seu carácter distribuído. Daí o tratamento democrático do espaço. Não há nenhum atractor estranho que arrebate tudo à sua volta. Podem ser imponentes, misteriosas ou sedutoras, mas nenhuma destas cidades celestes é imperial. E todas são postas em diálogo com os seus cemitérios, metáfora por excelência do hostil e mudo espaço sideral, como que para lhes segredar ao ouvido que são mortais.
José Vítor Malheiros
Fevereiro 2012
domingo, janeiro 01, 2006
A cor dá-se à luz
Texto escrito para o catálogo de Jorge Rodrigues, publicado pela Galeria Filomena Soares, sob a coordenação de João Pinharanda
1. Experimente-se definir luz. O desafio não nos permite chegar muito longe. Podemos tentar definir a luz a partir do conceito de visão, mas depressa concluímos que não é possível definir a segunda sem recorrermos de novo à primeira e encontramo-nos encerrados numa tautologia pouco produtiva.
A própria ciência define luz como a radiação electromagnética que é detectada pelo olho humano. A definição diz muito e pouco. A luz é um fenómeno físico, uma torrente de fotões, uma onda de partículas definível em termos objectivos de radiação, passível de ser medida por instrumentos e até divisível em categorias segundo os comprimentos de onda e as frequências, mas esta definição não dispensa o olho humano. No fundo, estamos a dizer que luz é aquilo que percebemos como luz e caímos de novo na tautologia.
A luz está no princípio de todas as suas definições, como no primeiro dia do Génesis.
Aquilo a que chamamos luz é a radiação electromagnética que vai dos 400 nanómetros de comprimento de onda (luz violeta) aos 700 nanómetros (luz vermelha) - sendo que um nanómetro é um milionésimo de milímetro – mas o aparente rigor destes números é falso: a luz não tem limites bem definidos, porque a gama de luz visível varia de pessoa para pessoa. Aquilo que para uma pessoa já é luz para outra é ainda escuridão – e não estamos aqui a falar da intensidade da luz mas da sua posição no espectro electromagnético, a que podemos chamar a sua cor ou o seu sabor. A mesma coisa se passa com o som, pois enquanto uma pessoa ouve distintamente o silvo penetrante de um apito usado para chamar os cães, outra apenas consegue ouvir o silêncio.
Os humanos também se conseguem aperceber da "luz" que está fora dos limites do visível: a nossa pele sente sob a forma de calor a radiação para lá do vermelho, a que chamamos impropriamente "luz" infravermelha. E os nossos genes sofrem constantes mutações causadas pela "luz" ultravioleta – que terá sido um dos principais instrumentos das mudanças evolutivas dos seres vivos.
Não é só a experiência da luz que é humana e intransmissível. É a sua própria natureza que é humana. Sem humanos haveria radiação, mas não luz. A luz não é o fotão mas a percepção do fotão. Só quando um fotão encontra uma retina e um córtex visual se transforma em luz.
Se não houver ninguém para ouvir o som da árvore que cai na floresta, ela também não será banhada por qualquer luz.
A luz é um axioma e está antes da definição, mas só está depois da percepção.
2. Por diferentes que sejam os dois fenómenos, a luz e o som sempre andaram de mãos dadas. Newton encontrou sete cores no espectro da luz solar (introduzindo entre o azul e o violeta um índigo que de outra forma poderia não ter entrado na lista) para forçar a analogia com as sete notas da escala musical. E sabemos que há telas que vibram de cor.
Ao contrário dos sons que nunca se misturam, por muito que se façam coincidir, e cujos elementos constituintes são sempre reconhecíveis para o ouvido treinado, a luz (as luzes) têm tendência para a unidade, para a fusão, como se tivessem horror à separação. Se apontarmos o foco de três projectores de cores para uma parede, o resultado é indistinguível daquele que seria causado por um único foco da cor resultante. Mas um acorde de três notas nunca será confundido com uma única nota.
Enquanto a música é a arte da fusão, a pintura sempre brincou com a análise da luz e da cor.
Pintar a luz, porém, é uma tarefa tanto mais impossível quanto a luz, estritamente falando, não tem cor – apenas permite ver as cores. Não é só a luz branca que não tem cor: a luz vermelha também não é vermelha e a azul não é azul. Elas apenas nos permitem ver o vermelho e o azul. A luz é aquilo que permite ver, um meio, um caminho, um meio de transporte de uma dada informação. Para ver a luz e pintá-la, teríamos de a iluminar. E com que é que se iluminaria a luz? Tudo o que conhecemos da luz são as cores, que são as suas sombras da caverna platónica.
A luz visível não, é paradoxalmente, aquela que nós vemos, mas a que nos deixa ver. A luz é apenas aquilo que nos deixa ver as cores. Ou as inventa.
É que o paradoxo da luz prolonga-se pela cor. As cores que vemos nas coisas que nos rodeiam não são as suas cores intrínsecas, mas as cores que elas reflectem, as cores que rejeitam. Uma parede vermelha absorve todas as outras cores do espectro e atira-nos o vermelho aos olhos. No fundo, a parede "é" tudo menos vermelha. E quando não há luz, a parede não "é" vermelha. Não é que o vermelho lá esteja e nós sejamos incapazes de o ver no escuro. No escuro, a cor não está, ainda que estivéssemos lá para a ver. Um jogo de essência e aparências. Quando abrimos a cortina só um bocadinho para ver se a cor lá está vê-mo-la aparecer, mas ela nasceu da janela e não da parede. As fotografias a cores só existem depois de saírem da câmara escura. A cor dá-se à luz.
Também a cor é humana. Mais humana ainda do que a luz pois os receptores de cor que temos na retina não existem sequer na maioria dos mamíferos. Mais humana ainda do que a luz, porque as variedades da sua percepção são imensas. Há daltonismos de todas as cores e há cores cujo conceito nem sequer existe na cabeça de certas pessoas.
A textura da luz não é mais que a cor do ar ou de outro meio que ela atravesse. Por isso o céu é o lugar da luz na pintura e na teologia. A luz nunca está, passa. Como o tempo. Ou o som. A luz (como a electricidade) é uma forma de energia que não se consegue armazenar nessa forma. A luz que sai da lâmpada quando o interruptor deixa passar a electricidade esteve guardada na água parada das barragens
A luz é movimento por definição – o mais rápido movimento que se conhece. Um movimento indefinível e infinito, tão rápido que ninguém a vê mover, tão rápido que ela parece omnipresente. Com sorte, às vezes, capturamo-la furtivamente, numa aura ou numa aurora, mas a luz não é mais clara à luz da ciência que à luz da arte.
José Vítor Malheiros
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