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terça-feira, fevereiro 02, 2010

O trabalho não pode ser o lugar do desespero

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 2 de Fevereiro de 2010

Crónica 5/2010
 
É possível ter empresas competitivas a nível global e internamente coesas, onde dê prazer trabalhar
Na semana passada, o PÚBLICO publicou uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, um psiquiatra e psicanalista francês que estuda a relação entre trabalho e doença mental. A entrevista (Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal, 30/1/2010), que pode ser lida numa versão mais longa no site deste jornal, tem como tema central os suicídios de trabalhadores causados pelo assédio moral nas suas empresas e debruça-se, em particular, sobre o caso da France Telecom, mas nela Christophe Dejours faz acusações à gestão moderna que merecem consideração.
Uma das técnicas que lhe merecem mais reservas é a chamada "avaliação individual de desempenho", que praticamente hoje todas as empresas utilizam - e que tantos gestores idolatram pelo poder repressivo que lhes oferece. Para Dejours, a avaliação individual modificou totalmente o mundo do trabalho ao pôr em concorrência entre si não só as empresas, mas também os indivíduos. Como a avaliação está em geral associada a prémios ou promoções e, por vezes, mesmo à própria manutenção do emprego, ela é uma ferramenta geradora de medo, que destrói a cooperação entre trabalhadores sobre a qual se baseia todo o trabalho e o próprio tecido social do local de trabalho. "Aos poucos, todos os elos que existiam até aí - a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua - acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe..." E acrescenta: "[Antes] Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador (...). O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de se viver uma traição - a traição dos outros."

Não há, nas declarações de Dejours, para alguém que conheça minimamente o mundo do trabalho, nenhuma surpresa. Todos sabemos que as coisas são assim - à esquerda e à direita, trabalhadores e patrões, sindicalistas e directores de Recursos Humanos - mas ensinaram-nos a pensar que isso era inevitável, que essa pressão e essa submissão que os gestores tentam impor possuíam alguma racionalidade. Que os fins, em suma, justificavam os meios. Não têm e não justificam. Nunca justificam, como já devíamos ter aprendido.
O que as palavras de Dejours nos dizem, claramente, é que as empresas se transformaram muitas vezes em locais de submissão e de sofrimento inútil - às vezes de verdadeira tortura, às vezes de morte. E também nos explica - como devia ser evidente - que isso não tem de ser assim, que é melhor para todos, e também para as empresas, que as coisas não se passem assim.

Nos últimos anos, por todo o mundo, mulheres e homens de esquerda (e os sindicatos...) acederam a abdicar dos seus princípios e aceitaram que as empresas podiam ser parêntesis da democracia, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da solidariedade. Pequenas ilhas de tirania e de submissão em nome da eficiência, da produtividade, do crescimento, da competitividade global. É uma falsa equação. Toda a investigação moderna nos mostra que o stress mata a inovação, que o medo estrangula a criatividade, que a submissão não produz maior empenho, que o desânimo não estimula a cooperação - essa inovação e criatividade e empenho e cooperação que são o pão da boca da economia e da produtividade. E, mesmo que isso não acontecesse, deveria bastar a nossa consciência para traçar os limites da decência.

Agora que começamos a perceber o buraco em que nos metemos, que começamos a ver os frutos dos ovos de serpente que deixámos que fossem incubados no mundo do trabalho, não será altura de arrepiar caminho? (jvmalheiros@gmail.com)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal" - uma entrevista a não perder

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Uma entrevista ao investigador francês Christophe de Dejours por Ana Gerschenfeld. A não perder.
As condições de trabalho impostas pelos modernos métodos de gestão em nome da Santa Eficiência, da Nossa Senhora da Produtividade e da Congregação da Competitividade Global.
Quantas centenas de milhões de escravos trabalham em países ditos modernos e democráticos sob este regime?
E quantas pessoas têm a coragem de combater este regime laboral em nome da simples decência?

terça-feira, outubro 20, 2009

Gestão: o novo fascismo

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Outubro de 2009
Crónica x/2009

As histórias falam de medo, de isolamento, humilhação, perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte

Nos últimos 20 meses, houve 25 suicídios entre os empregados da empresa francesa de telecomunicações France Telecom. O último foi na semana passada, mas o caso já estava há semanas nas páginas dos jornais (desde o vigésimo suicídio) e já tinha desencadeado uma vaga de condenação, à medida que se iam tornando conhecidos pormenores sobre as condições de trabalho da empresa e as histórias pessoais dos suicidas, além de se ter sabido da existência de várias tentativas de suicídio frustradas.
Num clima de crescente indignação, as centrais sindicais francesas marcaram para hoje “uma jornada de luta” na France Telecom para exigir medidas “susceptíveis de modificar de forma durável e profunda a organização, o conteúdo e as condições de trabalho” na empresa e instaram os trabalhadores “a agir de todas as formas” possíveis para mostrar a sua recusa das condições de trabalho desumanas a que são submetidos.
Apesar de tudo isto, aquilo que sabemos das condições de trabalho e da chamada “gestão dos recursos humanos” na France Telecom não parece diferente, em essência, daquilo que se passa em milhares de outras empresas. A própria France Telecom tem aliás referido, em sua defesa, que a percentagem de suicídios é a normal e que o elevado número é de esperar numa empresa de 100.000 trabalhadores. Onde o spin é mais difícil de aplicar é nas mensagens deixadas por alguns dos suicidas, onde o ambiente desumanizado da empresa e a pressão colocada sobre os trabalhadores é responsabilizada directamente.
As histórias que ficámos a saber sobre a France Telecom nos últimos dias são terríveis: trabalhadores obrigados a mudar constantemente de posto e de funções contra sua vontade em nome da “flexibilidade”; a quem são impostos objectivos irrealistas e que são penalizados por não os atingir; destruição sistemática de equipas de trabalho e do espírito de equipa em nome da “adaptabilidade”; empregados que se vão buscar à casa de banho porque ultrapassaram os dez minutos da pausa-chichi; esquemas de “auto-avaliação” que apenas servem para intimidar os trabalhadores e para os obrigar a reconhecer que falharam e a aceitar penalizações; total ausência de discussão ou sequer de explicação dos objectivos da empresa, sempre impostos de cima; pessoas mantidas isoladas por medidas de “mobilidade” que destroem as relações pessoais entre trabalhadores; obrigadas a competir com os colegas para evitar a “redundância” e o despedimento; com medo da delação dos colegas e das punições dos capatazes, desconfiadas.
As histórias falam de medo, de isolamento, de humilhação, de perda de confiança, de ausência de solidariedade, de perda do gosto no trabalho, de perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte. E, no entanto, repito, nada disto é novo, nada disto é diferente. Cada vez mais as empresas se parecem mais com isto, cada vez mais este discurso da competitividade desumana ganha direito de cidade, cada vez mais o stress e o burnout se consideram como o preço justo a pagar pelos elos mais fracos da cadeia, cada vez mais o discurso da “aposta no capital humano”, da “promoção da criatividade” e da “prioridade à inovação” esconde uma prática esclavagista, desumana, repressiva, atentatória dos direitos, da liberdade e do espírito humano. Cada vez mais as empresas são exemplo de uma prática ditatorial, esmagadora das liberdades, da crítica, da expressão e dos indivíduos que, se acontecesse cá fora, na rua, no espaço público, todos julgaríamos inaceitáveis. Dentro da empresa, em nome da competitividade ou por medo do desemprego, aceitamos o fascismo. (jvmalheiros@gmail.com)

domingo, maio 06, 2007

Suicídios de grupo no Japão

"I don’t have any equipment ready, but my mind is ready to die anytime. I failed to commit suicide once in the past when I thought I should turn over a new leaf and try my hand at life again. But the black shadow in my heart remains. I’m always tired now. I want to go to sleep, never to wake up … I’m seeking someone who would come along to death’s river with me … "
Um perturbante artigo sobre um fenómeno crescente no Japão: o suicídio de grupo. Pessoas que não se conhecem, encontram-se em sites da Internet dedicados ao tema, conversam combinam um dia e um local e encontram-se para se suicidar em grupo. “Let’s Die Together”, por David Samuels.
"Like suicide terrorism in Iraq and elsewhere in the Muslim world, Japanese group suicide cannot be explained as a simple by-product of poverty, lack of education, or other common social ills. Many suicide victims went to good schools, had decent jobs, were raised in two-parent families, and could be seen as ordinary citizens of Asia’s safest and richest democracy. What Japanese and Arab Muslim cultures have in common is a powerful aversion to shame and a deep undercurrent of sympathy for martyrs. Those who embrace death can cancel out shame and dishonor and even become heroes through actions that make Western individualists shudder.", escreve Samuels.
Post de José Vítor Malheiros publicado no blog "Em Revista", do jornal Público, em 6 de Maio 2007: http://em-revista.blogspot.pt/2007/06/suicdios-de-grupo-no-japo.html