quarta-feira, setembro 15, 2010

A morte da compaixão

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 15 de Setembro de 2010
Crónica 30/2010

Nota: O texto publicado no jornal Público teve de ser cortado por razões de espaço, com o acordo do autor. Esta versão inclui um parágrafo, assinalado a itálico, que não integra a versão impressa.

Tal como as nossas pernas se cansam se fizermos uma longa caminhada também os nossos sentimentos se esgotam

Lembra-se da emoção que sentiu quando descobriu que os 33 mineiros chilenos que estavam soterrados há 17 dias na mina de San José estavam afinal vivos? Lembra-se da mensagem que escreveram com tinta vermelha e que enviaram para o mundo a dizer que estavam vivos? Da sua incredulidade quando viu as caras deles e viu as primeiras imagens vídeo do refúgio? Lembra-se do aperto no coração e da opressiva falta de ar que sentiu quando se imaginou no lugar deles, enterrados vivos numa galeria escaldante, sabendo que teriam de ficar aí confinados ainda durante meses, sujeitos ao risco de novas derrocadas, sabendo que ninguém lhes poderá valer em caso de acidente ou de doença, sabendo que têm de dominar a angústia e sentindo-se totalmente impotentes para participar no seu salvamento?
E lembra-se de que naquele dia 22 de Agosto já nem sequer se lembrava deles? De que já quase tinha esquecido o acidente e que considerava os anunciados esforços para os resgatar como fúteis? Lembra-se da culpa que sentiu quando se lembrou de que no seu espírito já os tinha abandonado e que eles estavam afinal vivos? De como pensou que se a equipa de resgate tivesse adoptado a mesma atitude que você eles teriam sido condenados a uma morte inimaginavelmente cruel?
Lembra-se de como nos dois primeiros dias leu todos os relatos, viu todos os vídeos no YouTube e as notícias na televisão?

E agora? Há quanto tempo não lê uma notícia sobre os mineiros? E já notou que agora, mesmo quando lê uma notícia sobre estes homens, o seu coração já não se confrange da mesma forma, que é mais difícil identificar-se com eles? Que integrou na sua rotina o drama dos mineiros, que eles se transformaram em mais um elemento do pano de fundo dos seus dias?

Não se preocupe. Somos todos assim. Os especialistas chama a isto “compassion fatigue”, a fadiga da compaixão. Tal como as nossas pernas se cansam se fizermos uma longa caminhada também os nossos sentimentos se esgotam quando os usamos muito. Nem todos, claro, e nem sempre. Mas a fadiga da compaixão é um fenómeno conhecido entre profissionais de saúde e pessoas que cuidam doentes inválidos ou terminais, principalmente quando sabem que não existe possibilidade de recuperação. O ser humano que sofre passa a ser apenas uma chatice. É um mecanismo de defesa, uma forma de burnout, de esgotamento emocional. A nossa compaixão gasta-se. É por isso que somos capazes de participar num peditório para ajudar as vítimas do genocídio do Darfur, do tsunami da Indonésia ou do Katrina nos EUA mas… só uma vez. Depois, a nossa compaixão desaparece, desfaz-se. Pode acordar de novo, mas só com uma história nova, diferente.

Os media conhecem bem este problema – que não se confina apenas à compaixão e se estende ao tratamento insistente de qualquer tema. Neste caso chama-se “media fatigue”. Por importante que seja a coisa, se ouvirmos falar dela constantemente, se os media não largarem o tema, deixamos de conseguir interessar-nos por ela. A informação torna-se ruído de fundo. Claro que isso é tanto mais assim quanto mais as notícias forem constituída de átomos de informação sem interesse, sem contexto e sem sentido, por uma névoa de factóides onde é impossível distinguir efeito e consequência, o fútil do vital. Mas é cada vez mais nesse sentido que os media evoluem, com a Internet a ser usada como justificação para a chuva de factóides, como se as pessoas precisassem de uma chuva de sound bites soltos (não precisam) e como se a Internet não soubesse viver sem eles (sabe).

O caso Casa Pia é um exemplo. Já não podemos ouvir falar daquilo. Já gastámos a compaixão. Pelas vítimas ou pelos acusados. Já não queremos saber. Estamos apenas fartos e contentes por ter acabado e alarmados por talvez ainda não ter acabado. Talvez a história esteja mal contada. Talvez haja um bode expiatório. Talvez os condenados sejam apenas o pico do icebergue. Mas já não queremos saber. A justiça e os media esgotaram-nos. Mataram a nossa compaixão, a nossa solidariedade, o nosso empenho cidadão. Sabemos que não conseguiremos perceber mais do que percebemos hoje se nos empenharmos durante mais tempo. Quando já não há pachorra já não há compaixão.
É por isso que é tão importante a justiça ser célere (sem ter pressa) e clara (sem ser ingénua). Para que o escrutínio dos cidadãos se possa exercer. Quando demora demais, só queremos que acabe. E passar para a história seguinte. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, setembro 07, 2010

França vai pôr fim à igualdade perante a lei?

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 7 de Setembro de 2010
Crónica 29/2010

Os “criminosos de origem estrangeira” são as maçãs podres que contaminam a sociedade dos ”verdadeiros franceses”
 
Os sindicatos franceses convocaram para hoje em todo o país manifestações de protesto contra as reformas da segurança social propostas pelo presidente Nicolas Sarkozy. A subida da idade de reforma dos 60 para os 62 anos constitui a principal razão da contestação sindical, mas os desfiles de rua irão certamente focar também outras razões de protesto, como as suspeitas de financiamento ilegal da campanha presidencial de Sarkozy em 2007, as suspeitas de favorecimento fiscal da multi-milionária Liliane Bettencourt e de tráfico de influências envolvendo o ministro Eric Woerth e o escândalo do tratamento policial discriminatório dado aos ciganos – dos quais cerca de mil já foram expulsos para a Roménia e Bulgária nos últimos três meses.

As expulsões de ciganos têm sido o pico do icebergue da “política de segurança” de Sarkozy, que prometeu erradicar de França os “elementos criminosos de origem estrangeira”. Estes “criminosos de origem estrangeira” são, de acordo com o discurso sarkozista, as maçãs podres que contaminam um tecido social francês de gema que é ordeiro e amante da paz.

Apesar da atenção que as expulsões de ciganos têm merecido – devido, em grande parte, às imagens pungentes captadas quando do desmantelamento de acampamentos de ciganos e da sua deportação – existe outra medida anunciada, na mesma linha, que se revela ainda mais preocupante, não apenas devido às suas intenções, mas devido à fraca contestação que a oposição lhe tem dedicado.

Trata-se da alteração (i)legal que Sarkozy preconiza, no sentido de retirar a nacionalidade francesa aos franceses naturalizados que cometam crimes graves – nomeadamente contra elementos das forças da ordem. A medida, a ser aprovada, criará duas classes de cidadãos, definindo penas diferentes pelo mesmo crime para cidadãos “franceses de gema” e para “neo-franceses”, reinstaurando um sistema penal de base étnica de triste memória.

É irrelevante que o Sarkozy-filho-de-emigrantes acredite ou não nas patranhas da particular inclinação para o crime dos “ciganos de origem romena e búlgara” – ao longo do Verão foi preciso afinar o tiro e especificar etnias com cuidados de bordadeira, quando se descobriu que a esmagadora maioria dos chamados ciganos nómadas eram afinal… franceses. O que é relevante é que a estigmatização étnica seja possível no século XXI e se traduza em votos. O que Sarkozy pretende não é evidentemente aumentar a segurança mas apenas garantir a sua reeleição em 2012 e conta com as tiradas e medidas xenófobas para recuperar uma popularidade que atingiu níveis mínimos desde a eleição.

As redes criminosas que existam no meio dos ciganos não são mais perigosas que a actividade dos banqueiros e não é por isso que se deportam os banqueiros – mas estes, como é sabido, são ricos.

Não está aqui em causa se existem redes de crime organizado entre os ciganos e se o nomadismo pode facilitar o seu encobrimento – há provas de que elas existem e a esquerda francesa faz mal em tentar recusar o óbvio. O que está em causa é o estabelecimento da equação cigano=criminoso e estrangeiro=criminoso que o presidente e o Governo francês têm feito tudo para afirmar, alimentando os mais baixos sentimentos de uma classe média e baixa em perda de poder de compra e risco de desemprego. (Veja-se o apoio popular às declarações racistas do banqueiro Thilo Sarrazin na Alemanha.)

Hoje as ruas das cidades de França vão certamente encher-se de slogans anti-Sarkozy e os manifestantes vão congratular-se na sua solidariedade humanista com os emigrantes. Mas dentro de casa ficará uma camada considerável de pessoas, talvez crescente, para quem Sarkozy fala, que está pronta a aceitar leis diferentes para cidadãos conforme a sua origem geográfica ou a sua cor da sua pele, e que o estarão tanto mais quanto mais a situação social se degradar. Algo que teríamos considerado impensável em 1945. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, agosto 31, 2010

“Obrigado pela sua reclamação…”

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 31 de Agosto de 2010
Crónica 28/2010

Suspeito que o Livro de Reclamações possa ser O Livro de Areia de Borges

No regresso de férias tinha na correspondência uma carta do Metropolitano de Lisboa. A carta era uma resposta a uma reclamação que eu tinha apresentado numa estação de Metro quando fui requisitar passes para os meus filhos em idade escolar e me foi pedido um documento de cada uma das suas escolas provando que frequentavam um estabelecimento de ensino. Fui buscar as declarações e quando as entreguei aproveitei para contestar a sua exigência. Tratando-se de crianças em idade escolar, estão obrigadas por lei a frequentar a escola. A exigência da declaração é uma burocracia inútil, que obriga a despesas e tempo perdido dos vários intervenientes e que contém o desagrado suplementar de considerar a priori que os utilizadores do Metro não cumprem a lei - a chamada presunção da culpa. A minha reclamação continha a sugestão de acabar pura e simplesmente com a exigência de tal documento para as crianças e jovens abrangidos pela escolaridade obrigatória.

A resposta do Metro (assinada misteriosamente L. Silva, a lembrar um comentário anónimo num site) é cortês e autista. A carta reproduz a regulamentação em vigor na empresa, envia-me a lista da documentação exigida para pedir um passe (incluindo a “declaração emitida pelo estabelecimento de ensino”) e despede-se “esperando ter prestado os devidos esclarecimentos” como se eu tivesse pedido algum. Sobre a matéria substantiva da reclamação/sugestão nem uma linha.

A carta do Metro obedece a um padrão. Utilizo com frequência os Livros de Reclamações e tenho recebido muitas respostas deste tipo: reproduzem a norma de que nos queixamos e garantem-nos que ela faz mesmo parte dos procedimentos definidos, sem lhes passar pela cabeça discutir a sua razão de ser ou conveniência.

Claro que há pior. Uma reclamação que enviei ao Banco de Portugal há anos teve como única resposta uma carta agradecendo a reclamação. Outra que enviei à CMVM, queixando-me de um procedimento relativo à compra de acções com intermediação dos bancos que me parecia (e parece) ilegítimo, pedia-me que provasse de que forma, quando e em quanto a referida prática me tinha prejudicado a mim pessoalmente – ainda que não fosse essa a razão da minha reclamação. Outra vez, que utilizei o Provedor do Cliente do meu banco, o BCP, para me queixar dos procedimentos de um dado departamento, recebi a resposta de que a minha queixa tinha sido enviada para o referido departamento – do qual nunca recebi outra resposta. Poderia multiplicar os exemplos. Mas a atitude do Metro é a mais comum. Queixamo-nos da actuação de uma dada instituição e a resposta garante-nos, de forma reconfortante, que sim senhor, é assim mesmo que eles fazem e que é isso que está definido na Norma 12B/34, muito obrigado pela sua reclamação estamos aqui para o esclarecer.

Não recebi até hoje uma única resposta em que a instituição objecto da queixa reconhecesse a sua falta, considerasse a possibilidade de adoptar outros procedimentos ou, alternativamente, defendesse com algum argumento racional a prática em vigor.
E, no entanto, instâncias de regulação, empresas e organismos do Estado apresentam com orgulho as suas estatísticas de reclamações “atendidas”, como se isso fosse um sinal de preocupação com o cliente ou utente e de preocupação com a melhoria da qualidade do serviço.

Suspeito que o Livro de Reclamações possa ser, de facto, o Livro de Areia de Borges. O livro de todos os livros, que contém todos os sofrimentos e todos os sonhos, onde nada é decifrável e nada pode ser usado seja para o que for. Está lá tudo mas o livro está perdido para sempre. É apenas o poço sem fundo onde gritamos que o rei tem orelhas de burro.
Ou pode ser que ele seja apenas uma metáfora da nossa sociedade. Feito para cumprir os aspectos formais do respeito pelo cidadão sem satisfazer minimamente a substância dos seus desejos, queixas e direitos, tudo isto usando um newspeak orwelliano: “Queixe-se, está no seu direito! Estamos aqui para o ouvir. Obrigado pela sua queixa. Não se sente mais aliviado? Pode voltar amanhã para se queixar de novo, se precisar. Não se preocupe. Entregue-se nas nossas mãos.” (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, julho 20, 2010

A igreja fálica, iníqua, católica e apostólica

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 20 de Julho de 2010
Crónica 27/2010

O pecaminoso sexo das mulheres e os compreensíveis excessos dos padres pedófilos, coitados

A religião serve para responder (ou tentar responder) a perguntas que não encontram resposta em nenhuma outra instância. Para que é que existimos? Por que existe o mal? Questões que vão para além do simples funcionamento e do encadeamento de causas e efeitos do mundo físico e que têm a ver com a procura do sentido da vida, da sua finalidade, com a procura de razões para as circunstâncias que a nossa racionalidade resiste a acreditar que dependam apenas do acaso.

A religião também serve para resolvermos o problema da morte. Não só a morte que acontece do lado de cá, mas a morte que se estende para o lado de lá, esse referente impossível por excelência. Essa morte simultaneamente inevitável (para que haja vida tem de haver morte) e inconcebível (como conceber o nosso nada depois do nosso tudo?).

Perante a morte, a religião oferece pacificação e continuidade. Sentido, mais uma vez – pois não há sentido sem consequência e não pode haver consequência sem continuidade.
A religião também pode ser um instrumento de coesão social e de identidade colectiva mas aqui não faz melhor serviço que um bom mito fundador, uma história e uma língua comum.

Outra função central da religião é a codificação de um sistema de valores. Os valores existem muito aquém da religião e vivem bem sem ela, mas a religião pode conceder-lhes eficácia e estatuto, poder e autoridade. As religiões sempre pretenderam aliás arvorar-se em únicos árbitros do Bem e tentam confundir Moral e Religião sempre que podem. De uma religião espera-se confiança perante o indecifrável e conforto perante o inevitável. Mas também que ajude os seus seguidores a decidir e a fazer as boas escolhas, a hierarquizar os bens e os males, a aproximar-se do bem.
 
A carta que o Vaticano enviou na semana passada aos bispos de todo o mundo com novos preceitos da lei canónica, onde se colocava ao mesmo nível o delito da ordenação de mulheres e a violação de menores pelos padres é um mau serviço prestado à religião em geral e ao catolicismo em particular - o que não teria problema nenhum. Mas o que é mais grave é que esta carta é um despudorado atentado à moral.

O que este documento nos mostra é uma igreja que parece ter perdido todo o sentido do bem e dos direitos individuais (das mulheres e das vítimas de pedofilia), todo o sentido de igualdade cristã e que apenas se preocupa em preservar a sua própria autoridade.

As autoridades eclesiásticas apressaram-se a explicar que os dois delitos eram colocados ao mesmo nível apenas em termos de sanções para os padres ao abrigo da lei canónica e que a Igreja não os considerava igualmente graves, mas é significativo que a igreja tenha tido de acrescentar a explicação.

A questão é que uma igreja que não distingue sem ambiguidades entre o mais odioso dos crimes (por ser perpetrado pelos seus próprios agentes, a coberto da sotaina, contra os seres humanos mais frágeis e mais indefesos) e um procedimento técnico do qual não vem qualquer mal ao mundo é uma igreja que não distingue o bem e o mal.

Esta igreja iníqua e fálica, mais que masculina, onde os pecados de um homem como o padre mexicano Marcial Maciel, bígamo, pedófilo, violador e vigarista mereceram o apoio do Vaticano durante toda a sua vida – como os de muitos outros padres pedófilos – e onde as mulheres representam a tentação e o diabo, é uma igreja que defende a supremacia masculina em todas as circunstâncias. É por esta mesma razão que reserva compreensão (quando não colaboração e abrigo) para os seus pedófilos, fecha os olhos aos “sobrinhos” dos padres, mantém as religiosas numa vil posição de subjugação e considera que as mulheres devem ser sempre servas e nunca companheiras ou colegas em termos de igualdade. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, julho 13, 2010

As elites, as massas, a excelência e a necessidde da democracia

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Julho de 2010
Crónica 26/2010

Não há verdadeiras elites sem verdadeira democracia nem verdadeira democracia sem verdadeiras elites

Nos últimos dias, em debates públicos onde estive presente, vi abordar por mais de uma vez, em relação ao sistema educativo e de formação, a questão da construção de élites versus democratização ou da aposta na excelência versus massificação. Em geral, quando esta questão emerge, assistimos sempre de um lado (à esquerda) a uma defesa envergonhada da suposta construção da elite. “Defesa”, por se considerar que há homens e mulheres com talentos excepcionais a quem devem ser dadas todas as possibilidades de os desenvolver (o “pleno desenvolvimento” de que fala a Declaração Universal dos Direitos Humanos) e porque um ensino de qualidade deve ser capaz de produzir homens e mulheres dotados de competências para servir da melhor forma a sociedade (uma necessidade de todos). “Envergonhada”, por se considerar que esse objectivo pode colidir de alguma forma com o objectivo do acesso generalizado ao ensino de qualidade (os recursos não chegam para tudo) e porque se sente que esta aposta na construção destas élites pode pôr em causa esse sentimento forte de igualdade entre todos os seres humanos que está na base do ideal republicano (todos são iguais mas uns são melhores que os outros).

A questão da elite versus democratização é uma falsa questão que seria bom que o sistema educativo e os seus profissionais arrumassem de vez. E é uma falsa questão porque não há verdadeiras elites sem verdadeira democracia nem verdadeira democracia sem verdadeiras elites. Sem democracia existem castas de dirigentes que concentram privilégios, mas isso não faz deles uma elite. Uma elite só o é com provas dadas.

Uma elite é o grupo dos melhores mas, para termos a certeza de que temos os melhores, temos de poder escolher de entre todos.
No fundo todos sabemos isto: se queremos ter a certeza de que vamos ter os melhores craques de futebol, sabemos que basta dar a todas as crianças do país a possibilidade de jogar futebol. Alguns vão jogar suficientemente bem para ter prazer nisso, vão continuar a jogar, a treinar, e alguns deles serão excepcionais. Basta fornecer a todos as mesmas (e boas) oportunidades: tempo, locais, equipamentos, treinadores.

As famílias judias, pobres e ricas, fazem isto desde sempre com os seus filhos na área da formação musical. Aos quatros anos os pais põem um violino ou um piano na mão dos filhos. Todos os talentos são identificados porque as oportunidades de formação são virtualmente universais, ubíquas. Ninguém deixa de aprender por falta de oportunidade, porque o seu talento não foi detectado. O resultado? Há imensos intérpretes judeus excepcionais nas elites musicais. E não é uma questão de privilégio – é mesmo o contrário do privilégio. É o acesso universal.

Em Portugal temos as elites anémicas que temos porque a nossa democracia é tão imperfeita que ainda hesitamos se devemos dar uma educação física, uma educação musical e uma educação científica decente a todas as crianças – ou reservar isso apenas para alguns – para os mais bem comportados ou para os que têm os pais mais bem comportados. Há quem faça essa selecção e lhe chame “promoção da excelência”. Não é. É apenas uma eternização de privilégios.

A falta de democratização gera fracas elites. Há menos por onde escolher. Ainda há imensas áreas onde apenas escolhemos de entre os filhos dos ricos – o ensino universitário é ainda principalmente para as classes abastadas. Ou escolhemos de entre os filhos dos educados. Noutras só escolhemos de entre as crianças que vivem nas cidades. Noutros casos só escolhemos de entre os rapazes. Em muitas áreas (na política, por exemplo) escolhemos de entre um universo que só contém metade da população porque excluímos quase todas as mulheres. A estratégia da excelência? Chama-se democracia. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, julho 06, 2010

A angústia dos media antes do penalty

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 6 de Julho de 2010
Crónica 25/2010

A Face Oculta é uma conspiração anti-Sócrates? A Casa Pia nunca existiu? O PEC é necessário? O Estado deve ter golden shares?

Em 2007, o site WikiLeaks – onde é possível divulgar anonimamente documentos classificados para denunciar comportamentos criminosos e abusos de Estados ou organizações – publicou milhares de páginas com as compras realizadas pelas forças armadas americanas para os contingentes em serviço no Iraque e no Afeganistão.
Os responsáveis do site esperavam que este filão de informação fosse explorado pelos media e que desse origem a vários trabalhos jornalísticos, já que a lista permitia levantar questões sobre as tácticas empregadas pelos militares americanos – e levantava, nomeadamente, a suspeita de uso de armas ilegais. A fuga, porém, recebeu uma atenção mínima por parte dos media convencionais.

Julian Assange, o hacker australiano que fundou o WikiLeaks, ficou furioso com a indiferença dos media, mas a verdade é que este tipo de reacção está a tornar-se cada vez mais o comportamento-padrão dos media – mesmo nos países onde o jornalismo de investigação tem pergaminhos históricos.

A fragilidade económica que afecta actualmente a imprensa traduz-se num emagrecimento dos seus quadros (em particular dos quadros de jornalistas), numa necessidade de reduzir custos no funcionamento corrente e numa urgência na captação de novas receitas. O emagrecimento das redacções tem como consequência a aposta em jornalistas generalistas, capazes de cobrir qualquer tema. Se forem jovens, melhor, porque serão mais baratos e menos reivindicativos. A redução de custos (que é geralmente chamada “procura de efi ciência” e outros eufemismos semelhantes) significa que cada jornalista tem cada vez menos tempo para estudar os temas, para se formar, para contactar fontes, para viajar, para sair da redacção e ver as coisas com os seus olhos. E menos tempo para escrever.

Analisar a lista de compras do Exército americano teria exigido um especialista na área (a um leigo a lista não diz nada), tempo suficiente para a estudar e uma equipa para confirmar dados e fazer pesquisa suplementar. E, o que não seria mais fácil, capacidade para resistir às pressões para não publicar nada que pudesse ferir a imagem dos militares americanos. Tudo isto sem nenhuma garantia à partida de que o trabalho jornalístico que daí resultasse fosse ter um grande impacto. Apenas o exercício de algo que, há uns anos, a imprensa considerava ser o seu dever central: a fiscalização dos poderes, o escrutínio das acções levadas a cabo em nome do público, a garantia do respeito dos direitos humanos.

A fragilidade económica das empresas de media é o seu pior inimigo. Porque uma empresa que não se pode dar ao luxo de hostilizar nenhuma eventual fonte de receita encontra-se à mercê de todos os poderosos. E porque um jornalista que não tem tempo nem recursos para investigar um assunto encontra-se muito mais dependente das informações que as fontes (sempre partes interessadas) lhe transmitem.

O jornalismo “eficiente” que, de forma crescente, é levado a cabo pelos media divide-se assim entre os faits divers dos jornais menos sérios e o “este disse, aquele disse” dos mais sérios. No meio, o leitor interroga-se sobre quais serão os factos e não sabe o que pensar. A Face Oculta é uma conspiração anti-Sócrates? A Casa Pia nunca existiu? O PEC é necessário? O Estado deve ter golden shares?

E este jornalismo, que deixa de ser questionador, crítico, céptico, incómodo, profundo e rigoroso, entra no nono anel do círculo vicioso quando começa a ser criticado pelos poderes pela sua falta de qualidade, de isenção e de rigor (o que é verdade) e começa a ser ameaçado “para o seu bem”, de um mais apertado controlo das autoridades. Vemo-lo em Portugal, na Grã-Bretanha (talvez o país com a melhor imprensa do mundo), por todo o lado.

A descida aos infernos vai continuar até que os jornais e os leitores percebam que o bom jornalismo vale o seu peso em ouro. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, junho 30, 2010

Portugueses: precários, com educação, sem esperança

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 30 de Junho de 2010
Crónica 24/2010

Há uma espantosa minimização da dimensão colectiva nas vidas e nas preocupações reveladas neste estudo

O estudo Necessidades em Portugal: Tradição e Tendências emergentes (1), que foi anteontem lançado em Lisboa, contém uma imensa riqueza de dados, de histórias, de conclusões e de recomendações que merecem uma leitura e análise cuidadas e que não se esgotam num simples comentário. O estudo pode ler-se como uma deprimente lista de carências. É evidente que se avançou muito na última geração (se comparássemos com o Neolítico, teríamos leituras ainda mais risonhas), mas há ainda um mar de necessidades por satisfazer. Em relação ao que queremos, ao que conhecemos, ao que é justo, ao que é possível. E esse objectivo não parece hoje mais próximo que há vinte anos. Pelo contrário.
Para além dos consabidos 20 por cento de portugueses pobres aparecem aqui os 30 por cento que vivem acima destes (“à tona da água” ou, como diz uma das pessoas entrevistadas, com uma arrepiante e tranquila lucidez, “em stand by”) mas que são, também eles, pobres. Pobres sem perspectiva de deixar de o serem, ainda que não satisfaçam os critérios quantitativos da definição, nem respeitem o estereótipo social. Praticamente todos trabalham, entre eles há muitos licenciados, mas a sua vida é vivida com a corda na garganta, na angústia das contas para pagar e na desesperança de poder oferecer melhor aos filhos do que lhes foi oferecido a eles.

“Corda na garganta”, “à tona da água”, “respirar”… há uma sensação de asfixia ao longo deste livro, de opressão física, uma asma, apesar das janelas abertas pelas recomendações, das experiências que se apontam, das esperanças que se desenham, do muito que se ganhou.

E, paralelamente a este panorama de carência, inscreve- se uma dramática quase ausência de dimensão social, de desejo colectivo, da ideia de bem comum. A palavra fado não aparece uma única vez neste estudo mas podia aparecer. A vida é algo que se abate sobre os portugueses, que lhe resistem como podem, na sua rede de apoio familiar, nos amigos próximos, contando tostões, calando desejos, investindo em qualificações que permitem encontrar um emprego precário mas que não permitem fugir à pobreza. À tona da água. Mas sem fazer ondas. Os investigadores identificam esta “incapacidade de pensar colectivamente o futuro”, a “desconfiança nos outros e nas instituições”, a “diminuta participação nas organizações de índole mais societária”, o facto de um terço se sentir “às vezes ou frequentemente” “como se não fizesse parte da sociedade”.

O estudo mostra-nos pessoas mas não se vê aqui uma sociedade, uma preocupação de construção do bem comum do qual se vai também beneficiar. Vive-se aqui e agora. Na família. Um dia de cada vez. O social é marginal.

Não se vêem exigências, reivindicações, protestos, greves. A precariedade é um facto da vida. O combate à desigualdade não está em nenhum caderno reivindicativo.

Há preocupação e receio, mas não indignação, nem revolta. E há uma desconcertante quantidade de gente que se declara “satisfeita” porque “podia ser pior”.

Este estado de espírito não nasceu por acaso: ele foi meticulosamente esculpido por uma ideologia que aproveitou a descolectivização da economia pós-industrial para vender a competição individual e o fim da solidariedade como as receitas do progresso. A pergunta é: quando não há coesão social ainda teremos uma sociedade? (jvmalheiros@gmail.com)

1) O estudo foi promovido pela Tese – Associação para o Desenvolvimento, coordenado pelo Centro de Estudos Territoriais do ISCTE, em parceria com a Fundação Gulbenkian e o Instituto da Segurança Social, e foi editado pela Tinta da China sob o título À Tona de Água (2 vol.) 

quarta-feira, junho 23, 2010

Justificações para a ausência de Cavaco Silva

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 23 de Junho de 2010
Crónica 23/2010

Os que dizem que nada justifica a ausência do PR no funeral de Saramago não têm uma pinga de razão

1ª – Cavaco Silva nunca leu José Saramago. Tentou uma vez mas sempre achou aquelas frases demasiado compridas e complicadas e com pontuação muito, mas muito mal feita. Nunca percebeu por que razão havia (e há) pessoas que dizem que Saramago é um grande escritor mas suspeita que eles também nunca o leram e que o fazem apenas por pedantaria e porque são comunistas. É verdade que Nobel veio abanar um pouco esta convicção, mas apenas durante dez minutos.
Afinal, não há nenhuma razão para que o Nobel também não tenha sido dado a Saramago por pedantaria e comunismo (os nórdicos não parece por causa do design, mas são muito comunistas).

2ª – Cavaco Silva leu Saramago. Fez sacrifício mas leu.
Leu mas não gostou. O estilo de Saramago tem um... não sei… não gosta. Não é como… como outros escritores de que gosta, prontos. E os temas não lhe interessam muito.
E o enredo parece-lhe fraco. Muita parra, pouca uva. Tudo aquilo podia-se contar de outra maneira. E há ali muito desrespeito pela tradição católica. Muito. E pela história de Portugal e pela religião. Aquilo nem é bem literatura, é quase só despeito.

3ª – Cavaco Silva não sabe se gosta ou não dos livros de Saramago. Mas sabe que antipatiza profundamente com o homem. Saramago dá-lhe cá uma raiva que ele nem sabe.
E agora que morreu ainda mais porque toda a gente diz que ele era um figura ímpar da cultura portuguesa.

4ª – Saramago era um escritor medíocre. A verdadeira crítica de Saramago foi feita por um membro do Governo de Cavaco Silva em 1992, Lara, então subsecretária de Estado da Cultura – por quem aliás o Doutor Jivago se viria a apaixonar num filme lindíssimo.

5ª – Saramago era comunista. E ateu.

6ª – Só lá iam estar comunistas e companhons de Rute e até podia ter de ouvir coisas desagradáveis.

7ª – Alguém que pode escolher os Açores e escolhe Lanzarote só merece desprezo.

8ª – Cavaco Silva tem de mostrar que é diferente de Manuel Alegre, que é um homem de cultura.

9ª – Cavaco Silva é presidente de todos os portugueses, mas o Saramago não é espanhol? A mulher pelo menos tem um sotaque.

10ª – Isso de “presidente de todos os portugueses” não pode ser visto de uma forma fundamentalista.

11ª – Os Açores estavam óptimos, óptimos.

12ª – Cavaco Silva tinha prometido à família umas férias nos Açores e não tinha prometido nada ao Saramago.

13ª – Se tivesse de ir ao funeral de todos os portugueses que ganharam um Nobel não fazia mais nada.

14ª – Os dois dias de luto nacional significam que Saramago era uma figura nacional ímpar a quem o país muito deve e que os portugueses admiram e respeitam, mas o PR só vai aos funerais de figuras de três dias de luto para cima.

15ª – Depois da triste figura que o seu Governo fez quando censurou O Evangelho segundo Jesus Cristo, Cavaco Silva jurou que odiaria Saramago para além da morte. Talvez tenha sido exagerado, mas uma jura é uma jura.

16ª – O PR só vai a funerais de amigos ou conhecidos.

17ª – Não era na outra semana?

Fica provado que há não uma mas várias justificações para a ausência do Presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago. A ausência pode ter sido devida a iliteracia, sectarismo, grosseria, mesquinhez, cálculo político, medo, provincianismo, confusão entre o gosto pessoal e pose de Estado ou outra razão. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, junho 08, 2010

“Esta caderneta de cromos vai infernizar-lhe a vida”

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 8 de Junho de 2010
Crónica 22/2010

Proibir o marketing directo dirigido a crianças é a coisa certa a fazer

Talvez tenha sido assim nos outros campeonatos mundiais de futebol, mas não reparei. Desta vez fui obrigado, porque um génio do marketing pôs rapazinhos a distribuir à borla cadernetas de cromos South Africa 2010 FIFA World Cup à porta das escolas. Um deles postou-se à porta da escola do meu fi lho mais novo e, nesse dia, ele trouxe uma caderneta para casa, excitadíssimo, e pediu-me para não me esquecer de comprar os cromos no dia seguinte. Não achei muita graça ao facto de alguém ter decidido manipular desta forma um consumidor de 7 anos de idade (milhares de crianças, provavelmente) mas, como o génio do marketing tinha calculado, não atirei a caderneta para o lixo.

No dia seguinte não comprei os cromos, mas o meu filho fez-me prometer que iria lembrar-me no dia seguinte.

Comprei dez pacotes (seis euros) e estivemos nessa noite a colá-los na caderneta. Depois de colados os quarenta e seis cromos (havia quatro repetidos) a caderneta tinha um ar de tão vazia como no princípio mas o meu filho estava satisfeito. Um dia, talvez ainda antes de o Mundial acabar, a caderneta estaria toda cheia de cromos.

Passados uns dias comprei mais uns pacotes de cromos, que colámos na caderneta depois do jantar. Foi só depois deste segundo serão que tive a curiosidade de fazer as contas ao custo total da caderneta. Foi então que concluí que, para conseguir os 637 cromos, mesmo que não saíssem cromos repetidos nas carteirinhas, seria preciso comprar 128 pacotes. A sessenta cêntimos, seriam 76,80 euros. Mas, considerando que nas cadernetas aparecem muitos cromos repetidos (não ao princípio, como é lógico, mas para o fim isso é frequente), a caderneta ficará certamente por uns 100 ou 120 euros, ou mesmo mais.

Não digam nada ao meu filho, mas ele não vai ter nunca a caderneta do Mundial toda cheia e receio que nunca mais vá ter nenhuma colecção de cromos. Para mais, a caderneta foi lançada antes de se saber qual seria a composição exacta das selecções e, por isso, os cromos representam apenas uma aproximação às verdadeiras selecções, o que reduz o seu valor como documento. A alegação do editor, a Panini, de que “a colecção incluirá as imagens dos jogadores das equipas em competição” é, portanto, falsa (digo de passagem que o facto de um cromo se chamar Cardoso ou Serafim me é absolutamente indiferente, mas não o será para os mais fiéis).

Um livro de 80 euros é um livro caro. E se for de 120 euros é muito caro. Já comprei a 120 euros livros de arte, aqueles livros de grande formato que dão pelo deselegante nome de coffee table books mas que possuem um aspecto gráfico que vai do sofisticado ao sublime. A caderneta da Panini não é nenhuma das coisas: a qualidade do papel, da impressão, das fotos ou do design é, digamos, modesta.

A que se deve o custo? Ao facto de muita gente querer aquela caderneta. Ninguém é obrigado a comprar. Compra quem quer, quando quer, se quiser. É a lei do mercado.
E não me passaria pela cabeça criticar a virtude de algo que tantos neoliberais consideram mais incontestável que a virtude das próprias progenitoras.

Há apenas um senão: é que a dependência que a oferta da caderneta pretende suscitar se dirige não só a adultos mas também a crianças. De facto, os pais possuem a capacidade de limitar a publicidade que os seus filhos vêem na televisão ou nas revistas – infelizmente, as leis sobre a publicidade dirigida às crianças são extremamente permissivas em Portugal –, mas não conseguem evitar que alguém lhes enfie na mão algo que vai obrigar as suas famílias a desembolsar uma quantia considerável sob a ameaça de choros e discussões. Proibir a distribuição destes “brindes” envenenados a crianças seria a coisa certa a fazer, mas considerando que o Governo não o queira fazer, sugiro que, pelo menos, as cadernetas levem impresso na capa um imenso quadrado a preto, como os maços de cigarros, com dizeres do género “Esta caderneta pode infernizar a sua vida” e que, como acontece com as taxas do crédito bancário, digam claramente quanto custam: “Atenção: esta caderneta pode custar 120 euros ou mesmo mais!” Assim, pelo menos, as famílias podem saber com o que contar. (jvmalheiros@gmail.com)