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quarta-feira, agosto 30, 2017

Tavira, Agosto 2017

São quase oito da manhã e a praça está quase deserta. Deserta, silenciosa e ainda fresca da noite.
Uma praça deserta e silenciosa na frescura da manhã. Parece uma cena de filme. Não porque estejam a acontecer coisas que parecem saídas de um filme mas porque a cena convida a um travelling lento, um deslizar calmo e perscrutador, que nos desafia a ver para além da superfície das coisas, as coisas escondidas à frente dos nossos olhos, coisas que nos dizem coisas sobre nós e o mundo.
No pequeno jardim central um homem rega os canteiros. Não parece um empregado da câmara. Está vestido normalmente, os seus gestos são lentos e tranquilos e a mangueira não tem o ar robusto dos equipamentos camarários. É uma mangueira de jardim e do seu extremo sai um chuveiro aberto e plácido, que cai num arco suave sobre as flores. Parece ser um vizinho apiedado das plantas que vão ter de sobreviver a mais um dia de canícula. O homem rega como quem pensa, anda de um lado para o outro, despeja o arco de chuva sobre um canteiro florido, depois sobre outro e outro e a chuva brilhante cai tão pensativamente como ele, em agulhas de luz, sob o olhar orgulhoso do busto de bronze do Doutor António Padinha, que dá o nome à praça.
O sino de igreja bate as oito horas. São exactamente 07h57. Daqui a um minuto outro sino baterá as mesmas oito. Cinco minutos depois tocará um terceiro sino e ainda serão as mesmas oito horas. As horas passam devagar em Tavira em Agosto.
Na esplanada do café Távila a empregada enrola as copas dos enormes guarda-sóis que ficaram abertos durante toda a noite.
O único ruído que se ouve é o guincho da manivela com que o dono da Pastelaria Alagoa, do outro lado da praça, desenrola o toldo. Uma mulher passa um pano nas mesas.
Um carro pára na praça e de lá de dentro saem dois rapazes a cair de bêbados. Riem-se, provocam-se, empurram-se, cambaleiam. Estão a acabar a noite. Do carro sai uma rapariga magra. Os dois rapazes falam com a rapariga que ficou no carro. A rapariga magra tenta despedir-se dos rapazes que não a ouvem. As atenções dos dois estão concentradas na rapariga que ficou no carro, que tem a cabeça fora da janela. A rapariga que saiu faz nova tentativa para chamar a atenção dos dois rapazes, sacode-os, grita-lhes, mas eles continuam a falar à rapariga que está à janela e a dizer-lhe graçolas de que ela ri. A rapariga magra encolhe os ombros e mete pela rua que leva à ponte.
Nas esplanadas da praça há só três mesas ocupadas. Um casal de turistas asiáticos, que toma um pequeno-almoço de mesa cheia e faca e garfo, uma família de turistas provavelmente franceses que toma um pequeno-almoço colorido por grandes copos de sumo de laranja com rodelas de laranja penduradas na borda e uma mulher que toma um café com a trela de um cão enfiada na perna da mesa.
A empregada do Távila senta-se na esplanada depois de enrolar os guarda-sóis. Não tem a chave e espera o patrão, que não vai vir.
Um camião branco de caixa fechada pára no meio da praça. Entrega de pão.
Uma família de ciclistas, equipada como se fosse para a Volta a Portugal, pára de pé no chão e negoceia o percurso a fazer.
Um casal idoso senta-se a meu lado e pega na ementa para escolher o pequeno-almoço. Não são portugueses. Os portugueses não escolhem o pequeno-almoço pela ementa.
Na esplanada do lado senta-se uma mulher. Olha em volta de pescoço esticado como se procurasse alguém. Não é nova mas é lindíssima. Olha em volta mas só quer ser vista. Olho-a com a segurança de que o meu olhar não lhe desagrada.
Uma mulher entra na praça com uma trela pela mão, saída de uma das ruas estreitas, também a olhar em volta e ar ligeiramente perdido, e chama “Cooper!” ou “Cuca!”. Um cão vem buscá-la, num passo alegre, e a dona abana a cauda com um sorriso. Já não está sozinha.
De vez em quando um carro passa, devagar, sem fazer demasiado ruído, em sinal de respeito pelo silêncio da praça e pela paz da hora matinal.
O único sinal do que virá depois é uma mota ruidosa, que não repara na hora, nem na calma, nem na paz e passa a acelerar como se quisesse rebentar com o dia inteiro. Mas nem isso consegue estragar a praça e atrás de si fica o mesmo silêncio de antes.
Uma mulher puxa um miúdo de uns oito anos, carregado com uma mochila de escola a abarrotar. Não é dia de aulas. Deve ir passar uns dias de férias a casa de alguém e a roupa deve ir no lugar dos livros. A mãe puxa-o e diz-lhe alguma coisa, impaciente. Estão atrasados, mas não vão nem em direcção à estação de comboios nem de autocarros.
A praça está tão calma que se vê tudo. Tão silenciosa que se ouve tudo.
O meu olhar continua a deslizar pela praça e roda em torno desta ou daquela cena para a mostrar de todos os ângulos possíveis, como no início de um filme.
Um homem de gravata deambula de mãos atrás das costas, num passo lento bem marcado, para deixar claro que é uma pessoa séria, preocupada com coisas sérias e pára de supetão em frente do busto de bronze, de pernas abertas, e olha-o pensativo.
Daqui a umas horas a praça vai encher-se de carros que passam e de gente que grita. As esplanadas vão encher-se de clientes e tudo vai deixar de fazer sentido. A praça vai tornar-se uma cacofonia, com o bulício de um formigueiro, gente a andar em todos os sentidos. O ruído de fundo vai tornar indistinguíveis os sons isolados que agora têm um significado preciso.
No café a empregada já sabe que o patrão não virá e que o café afinal não vai abrir. “Aconteceu uma coisa muito má!” O filho do dono do café deu uma queda na noite anterior. Caiu da açoteia da casa da avó. Uma criança de quatro anos. Fractura de crânio. Morte imediata. Uma altura de nada. Seis metros. Podia não ter sido nada. Pouca sorte. Açoteia. Tragédia algarvia.
Uma turista gorda e loura, máquina fotográfica em riste, levanta-se de uma mesa disposta a caçar a primeira imagem que lhe salte à vista. Vê o busto do Doutor António Padinha, aproxima-se, assesta a máquina, dispara. Olha a máquina para verificar se a foto ficou mesmo lá dentro. Ficou. O busto do Doutor António Padinha incha de orgulho. Acontece muito. Raros são os turistas que resistem a um busto de bronze. A turista avança para a presa seguinte. A fachada da igreja.

Hoje à tarde os vizinhos e os conhecidos vão vir e parar na esplanada, que vai manter os guarda-sóis fechados apesar do sol abrasador, os clientes vão interrogar-se da razão das portas fechadas e serão informados pelos que sabem a resposta. Todos olharão por entre os taipais que cobrem as janelas e para as portas cobertas por cartazes de gelados e uma ementa antiga que propõe cocktails com nomes alegres e agora sem sentido. Vão tentar procurar explicações para uma coisa sem sentido, trocarão olhares de espanto e incredulidade apesar de já saberem tudo e de não haver nada a explicar.

terça-feira, agosto 21, 2012

Verão

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 21 de Agosto de 2012
Crónica 33/2012

Os raros momentos de felicidade das crianças durante o Verão são quando imaginam o que vão fazer nas férias quando forem crescidos

1. Os veraneantes andam como pinguins. Bamboleiam-se de um lado para o outro, deixando cair o peso do corpo ora numa perna ora na outra, lentamente, indolentemente, por baixo do chapéu de palha. Deve ser do calor. Deambulam mais do que andam. Mesmo quando vão, andam como se passeassem. Avançam em ziguezagues para a esquerda e para a direita mesmo quando querem ir em frente, como se navegassem à bolina. Talvez não queiram seguir em frente. Pode ser uma declaração de princípios, uma maneira de dizer que, durante estes quinze dias, durante esta semana, aqui à beira-mar, são livres de andar por onde lhes apetece e que, se seguem em frente, bem podiam virar à esquerda ou à direita, parar ou até, suprema rebeldia, voltar para trás. Era só quererem. Claro que não é bem assim, porque a rotina das férias é tão férrea como a dos dias de trabalho na cidade, mas gostam de sonhar que podem fazer deste dia o que quiserem e que, hoje, são donos dos seus destinos. Daí o passo gingão, despreocupado. Mas também pode ser daquela combinação de suor, sal, sol, areia e o roçar do nylon dos calções de banho, que provoca aquelas assaduras no interior das pernas que obriga a sábias combinações de creme solar Nivea e de Halibut. Quem sabe?

2. George Carlin, famoso, genial e falecido humorista americano, dizia que, quando vamos na estrada, todos os que conduzem mais devagar do que nós sāo idiotas e todos os que conduzem mais depressa que nós são loucos. Não é só na estrada. Também é difícil cruzarmo-nos com gente que nos pareça cordata na praia. Só se estiver longe, sozinho e se só interromper a leitura do seu livro para fazer uma sesta. Estendal de toalhas, cadeiras e chapéus de sol, bolas de futebol, de voleibol, raquetas e frisbees, cães e filhos, discussões familiares, tudo se conjuga para nos convencer de que estamos ali a mais. Há quem se ache no direito natural a ocupar toda a praia e espalhe imperialmente os seus pertences pelo areal e nos olhe de forma sobranceira enquanto exibe as etiquetas dos seus óculos de sol e polos e bermudas e sacos e toalhas, numa profusão de heráldica de centro comercial. Mas também há os que se aproximam levados pelo sentimento comunitarista que diz que, se estamos todos na mesma praia, devemos tratar-nos como vizinhos ou parentes e nos pedem para vigiar o bebé ou a carteira enquanto vão ao banho só um bocadinho. Que a extensão democratizada dos areais não permita colocar suficiente areia entre nós e os loucos e os idiotas é uma das tristezas do Verão.

3. A razão por que há mais birras, caprichos e amuos por parte das crianças e adolescentes durante as férias que durante o resto do ano devia ser objecto de estudo por parte dos pedopsicólogos e similares. Talvez já tenha sido e eu não tenha dado por isso. É impossível encontrar uma família em férias onde as crianças estejam satisfeitas com a escolha da praia, do sítio onde se planta o chapéu de sol, do fato de banho, do boné, do lugar onde se toma banho, do que se vai comer, do que se vai fazer a seguir, de onde se vai passear à noite ou do que quer que seja. Penso que é da amplitude do leque da escolha. Depois de um ano de rotinas, de horários para levantar e comer e estudar e de ementas repetidas semanalmente, também as crianças sonham com um Verão de liberdade e de vontades satisfeitas, sem compromissos nem negociações, com pais benevolentes e sorridentes quando não ridentes e, como os adultos bem sabem, isso não existe senão nalguns anúncios da televisão.


A verdade é que a liberdade é sempre uma decepção e as crianças ainda não o sabem. É este choque entre as expectativas ilimitadas e a realidade sempre aquém do desejo que gera a frustração estival típica das crianças. É diferente, mas é um bocado como conhecer aquele escritor que sempre admirámos e constatar que cheira mal da boca.
Por que razão não se hão-de comer gelados de todos os sabores em vez de escolher só um e ficar na praia até ser noite escura? Porque é que a água está fria e tem algas e a bandeira está vermelha e a senhora romena já não tem bolas de Berlim com creme e porque é que eu não posso jantar só batatas fritas? Porquê? E porque é que este ano ainda não alugámos uma casa com piscina? E porque é que estamos sempre a  comer peixe? E porque é que, depois destes dias de praia, em vez de voltarmos para casa, não vamos fazer um cruzeiro? E porque é que não podemos pelo menos jantar fora todos os dias, como toda a gente faz? Porque é que eu não posso comprar absolutamente tudo aquilo que me apetece? E porque é que eu não posso ir passear à vila sozinha com as minhas amigas e porque é que não me deixas comprar aquele biquini com lantejoulas?
Os raros momentos de felicidade absoluta das crianças durante o Verão são quando imaginam tudo o que vão fazer nas férias quando forem crescidos, quando a sua liberdade for total e absoluta e quando os pais já não mandarem neles. Nem desconfiam que vão ter de aturar os filhos deles.


A infelicidade do Verão não tem fim. O Verão, felizmente, sim. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, junho 13, 2006

Pontes e almas

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Junho de 2006
Crónica 22/2006


Refrescar as ideias é algo que um cidadão sensato deve desejar que um ministro faça.

Uma semana com dois feriados à terça e à quinta é uma espécie de Veneza: vemos pontes por todo o lado.

Ou melhor: é como se toda a semana se transformasse numa espécie de imponente ponte de três arcos, saltando por cima de três rios de trabalho e sobrevoando-os a uma altitude prudente, ancorando os seus pilares na segurança dos dias de descanso.
A possibilidade de pontes, em Portugal, dá sempre origem a uma troca de tiradas moralistas onde uns criticam os maus exemplos do Governo e dos políticos, outros a falta de pendor para o trabalho demonstrada pelos portugueses em geral, enquanto outros preferem mesmo é fazer as pontes.

Ao ouvir certos discursos antipontícos dir-se-ia que a salvação para o desenvolvimento do país estaria na produção que se faria nestes dias e que essa salvação tinha acabado de ser destruída pelos feriados aziagos e pela preguiça de alguns inconscientes.

Que o Governo ou outra entidade pública decida oferecer pontes (leia-se feriados suplementares) aos seus funcionários é disparatado, pois todos eles têm já as suas férias e folgas. Mas isso não impede que um trabalhador, de acordo com as conveniências de serviço e com a sua chefia, goze um dia de folga ou de férias adiantado, de forma a conseguir umas agradáveis mini-férias. Da mesma maneira que parece absolutamente normal que um ministro aproveite um feriado para apanhar uns dias de sol e mar. Refrescar as ideias é algo que um cidadão sensato deve desejar que um ministro faça.

Seria um excelente sinal se os portugueses pudessem admitir que não há nada de pecaminoso no gozo de pontes, como não há no gozo de férias, folgas ou fins-de-semana.

As razões do subdesenvolvimento português não têm a ver com as folgas que se gozam, mas com a maneira como não se gozam, com a maneira como se trabalha. Nem têm a ver com as horas que se permanece no local de trabalho mas com o que se faz nessas horas e até nas outras – incluindo o caso dos ministros.

Se há algo que prejudica a produtividade nacional mais do que as pontes são a forma como as pontes são utilizadas pelos que ficam a trabalhar. O argumento "agora metem-se as pontes" serve para justificar todos os atrasos, tal como dentro de uns dias se usará o "agora mete-se o Verão" e umas semanas depois o "agora mete-se o Natal".

As pontes, as folgas e as férias, em Portugal, são algo que "se mete". O Natal também se mete, a Páscoa menos (é domingo), o Carnaval um bocadinho e as eleições idem (há a campanha, o rescaldo).

O calendário laboral nacional funciona de forma simétrica ao calendário turístico: há uma estação baixa, no Verão e Natal; uma estação alta, nos períodos mais distantes das férias; e uma estação média, que é aquela na qual estamos à espera que "se metam" as férias e similares.

Há quem pense que todo este aproveitamento dos pretextos para não trabalhar (e não falo dos que fazem as pontes) existe apesar da cultura das empresas – que seriam lugares de organização, brio, empenho produtivo e estimulante criatividade. Não parece que seja assim. É mais provável que o recurso a esses pretextos decorra da cultura das empresas, onde a gestão se confunde nem sequer com a burocracia mas com a pose burocrática no pior sentido do termo, a deslibidinização do trabalho se confunde com produtividade e o prazer do trabalho não se confunde com coisa nenhuma porque não se sabe que cor possa ter.

A ética do trabalho calvinista, segundo Max Weber, pregava a austeridade e acreditava que o trabalho trazia a salvação. Os portugueses, feitas as contas, sabem que as pontes são mais capazes de lhes salvar as almas que umas horas no escritório. É bem possível que tenham razão.