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quarta-feira, dezembro 06, 2017

Em memória da Maria Manuel Ramos Pinto

Texto lido no funeral da Maria Manuel Ramos Pinto
Igreja de S. João de Deus, Lisboa - 6 Dezembro 2017

A Manel foi uma das pessoas mais solidárias e mais generosas que conheci.
Generosa com a sua casa, sempre aberta aos amigos e aos amigos dos amigos, generosa com as suas coisas, mas, principalmente, como as pessoas verdadeiramente boas, a Manel era generosa com o seu tempo, com a sua atenção, com o seu carinho, nos pequenos e nos grandes gestos.
Generosa também com o seu interesse pelas pessoas e pelo mundo, porque a Manel era uma pessoa curiosa de tudo, da política e da cultura, da literatura e dos jornais, dos países distantes e das aldeias vizinhas, do presente e do passado, sempre disponível para ver e ouvir, para partilhar e conversar. E disponível para ler, porque a Manel era uma apaixonada leitora de largo espectro e uma crítica exigente e perspicaz de tudo o que lia.
A Manel adorava discutir e estava sempre disponível para discutir qualquer tema importante. E discutia em termos que podiam ser bem veementes, porque uma das grandes qualidades da Manel era a sua absoluta e impenitente falta de paciência para com a hipocrisia, a maldade, a injustiça, a estupidez e a arrogância, que gostava de cilindrar com uma sem-cerimónia implacável.
A Manel não tinha papas na língua e era admirável vê-la durante uma das suas justas fúrias. Ou ouvi-la contar, com a sua habitual vivacidade, com o colorido que emprestava sempre às suas histórias, uma aventura no mundo da burocracia ou das grandes empresas em defesa dos seus direitos como consumidora e como cidadã, naquelas narrativas que a inflamavam e podiam fazer a audiência rir às gargalhadas.
Porque a Manel era indómita. Educada numa grande família burguesa do Porto para ser uma menina prendada e submissa, mãe, esposa e dona de casa, temente a Deus e obediente aos homens, a Manel furou os esquemas pré-desenhados a que a sua vida devia ter obedecido e viveu até ao fim a sua vida nos seus termos, como verdadeira livre-pensadora, sem obedecer a cânones nem catecismos, sem cedências às conveniências, ao medo e aos preconceitos.
Mais do que indómita a Manel era uma rebelde. Alguém que não aceitava ditames de ninguém e que não hesitava em combater como podia o que considerava injusto.
A Manel era uma pessoa de esquerda (e estava cada vez mais radical) preocupada com a injustiça social e que acompanhava de perto a vida política, como atesta a sua actividade no Facebook, sempre com posts muito assertivos. Mas nunca deixou que os rótulos ideológicos influenciassem a apreciação que fazia das pessoas ou a sua escolha das amizades.
A Manel era também uma grande contadora de histórias e fazia verdadeiros frescos da sua infância no Douro ("vivíamos no século XIX..." era assim que começavam ou terminavam muitas das suas histórias) e relatos muito divertidos das férias da família na Granja, que algumas das pessoas que estão hoje aqui provavelmente partilharam. Eu insistia sempre para que ela escrevesse essas histórias (deliciosas ainda que as ouvíssemos pela quinta vez) para as poder partilhar com outros e, eventualmente, publicar numa recolha de memórias, mas ela minimizava-os como se se tratasse de coisas sem importância.
"Tenho para aí umas coisas escritas, mas aquilo não interessa a ninguém" dizia ela, sem nunca me ter mostrado uma dessas páginas. Gostaria, hoje ainda mais, que pudéssemos ler essas “coisas escritas” e tenho a certeza de que teríamos, de que teremos todos, gosto e proveito na leitura.
Uma das grandes qualidades da Manel era a sua capacidade para fazer amigos e, muito antes de se inventar a palavra networking, a sua capacidade para fomentar amizades entre os amigos. Pedia-me muitas vezes para convidar um amigo para Almoster porque o queria apresentar a outro amigo que achava que tinha alguma coisa em comum com o primeiro e sei que fazia isso com muitas outras pessoas.
Como todas as pessoas verdadeiramente inteligentes, a Manel tinha um grande sentido de humor, uma aguda consciência do absurdo e da fugacidade da vida e da aleatoriedade do destino e uma perfeita noção do que era realmente importante e do que era fútil e supérfluo. E nunca dedicava mais do que a atenção estritamente indispensável a estas minudências.
Conhecemo-nos há 34 anos e fomo-nos tornando amigos, naquelas aproximações mútuas que tecem cumplicidades silenciosas e uma amizade sem hesitações.
A última vez que falámos ao telefone disse-me: “​Não venhas visitar-me que os hospitais são sítios muito deprimentes. Depois de eu sair combinamos um jantar."​
Fica combinado.

Lisboa, 6 Dezembro 2017

quarta-feira, julho 01, 2009

Um marco para a civilização

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 1 de Julho de 2009
Crónica xxx/2009

Ninguém sabe como é mil milhões de pessoas com fome. Mil milhões de pessoas não são ninguém

Este ano, não se sabe exactamente em que dia, o mundo atinge um marco civilizacional: o número de pessoas que vivem com fome no planeta vai ultrapassar os mil milhões - um em cada seis seres humanos. Mais exactamente: segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO), no final deste ano deverá haver 1020 milhões de pessoas que não dispõem de comida suficiente para viver. A somar-se a estes, há mais 2000 milhões que sofrem de malnutrição.

Do ano passado para este, o número deu um salto de 100 milhões, acelerando a tendência que já se fazia sentir desde 1995. Nos anos 80 e na primeira metade dos anos 90, houve uma redução do número de pessoas com carência grave de alimentos, mas essa tendência sofreu uma inversão em meados dessa década e os números de pessoas com fome (e mortes por inanição) têm vindo a aumentar desde então. Note-se, como faz a FAO, que isto não se deve a falta de alimentos, que são cada vez mais abundantes. Deve-se à falta de dinheiro destas pessoas para comprar alimentos, agravada pela actual crise financeira - que reduz o crédito e as remessas de emigrantes. E ao facto de não possuírem capacidade autónoma de produção de alimentos devido à destruição da sua agricultura por opções políticas erradas, pela guerra, pela seca, pelas alterações climáticas, pela concorrência desleal da agricultura americana e europeia.

O triste cabo que dobramos este ano é particularmente irónico porque, em Setembro de 2000, os líderes mundiais, reunidos sob a égide das Nações Unidas, aprovaram uma Declaração que continha os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, onde se definiam metas concretas de combate à pobreza, à fome, à doença, à injustiça e à destruição do planeta entre as quais se encontrava a redução para metade até 2015 (em relação a 1990) do número de pessoas em situação de pobreza e fome extremas. E esta não foi a primeira vez que o mundo decidiu acabar com a fome. Em 1996, a Cimeira Mundial da Alimentação de Roma já tinha decidido reduzir os famintos a metade em 2015 e Jacques Diouf, que era e ainda é o director-geral da FAO, dizia na altura: "O objectivo está ao nosso alcance. Temos o conhecimento. Temos os recursos. E temos a vontade."

E ainda antes disto, na Conferência Mundial da Alimentação de 1974, o mundo já tinha até decidido acabar com a fome, a insegurança alimentar e a malnutrição "ao longo da década seguinte".

Apesar destas promessas, a fome mundial não deixou de alastrar: 825 milhões de famintos em 1995-97, 857 milhões em 2000-02, 873 milhões em 2004-06, 915 milhões em 2008, 1020 milhões este ano.

Há muitas maneiras de olhar para estes números, mas, pelo meu lado, gostaria que não olhássemos para os números. Ninguém sabe como é mil milhões de pessoas com fome. Mil milhões de pessoas não são ninguém. Não se pode conhecer mil milhões de pessoas, não se pode gostar de mil milhões de pessoas, não se pode sequer ver mil milhões de pessoas.

Pense apenas numa. Escolha uma.

Há muitas por onde escolher, ainda que os jornais e as televisões, para nossa vergonha, tenham mais gosto em publicar fotos de Paris Hilton do que uma só dos seis milhões de crianças que morrem por ano de fome. Um Holocausto por ano, um Holocausto infantil, a somar-se a outros, de homens e mulheres, um Holocausto indiferente, sem a honra de um memorial, sem protagonistas, sem ódios sequer, como se acontecesse apenas por obra do acaso, quando sabemos que se produz no mundo comida suficiente para cada uma destas crianças que deixamos morrer, quando sabemos que "temos o conhecimento e os recursos" para evitar que elas morram. Quando sabemos que até temos conhecimento e recursos suficientes para aumentar cada vez mais, de ano para ano, a riqueza dos mais ricos do planeta.

Pensemos, portanto, apenas numa delas. Por mim, vejo uma criança somali, uma coisinha de uma fragilidade extrema, de olhos cheios de surpresa, já para além da fome, ao colo da mãe, uma imagem cadavérica de dignidade, resignação e tristeza, coberta por um manto castanho, uma Pietà anónima, como uma de há dois mil anos, como qualquer uma das 16.000 que a fome vai fazer hoje. A legenda da fotografia, tirada nos anos 90, dizia que a criança tinha morrido logo depois de o fotógrafo ter feito a fotografia e sei que, de cada vez, lia a legenda com um misto de dor e de alívio.

Só sei que mil milhões é o sofrimento desta criança e desta mãe repetido sem fim, sem fim, sem alívio. Jornalista (jvm@publico.pt)

terça-feira, janeiro 20, 2009

A Tereza tinha coisas mais interessantes para fazer

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Janeiro de 2009
Crónica 2/2009

Era um privilégio ter alguém como a Tereza a olhar o mundo e a contar-nos o que via

ATereza fica ali muito mal. Muito mal. A fotografia é enorme. Devia ser uma foto pequenina, a uma coluna, como aparece sempre nos autores das crónicas, daquelas que quase não dá para se perceber nada da cara. E o nome aparece grande de mais. É uma coisa enorme. Devia aparecer mais pequeno, à cabeça, ou lá em baixo, a assinar o texto. Era assim que devia ser. É estranho ver o nome da Tereza Coelho ali tão grande em cima da foto e por baixo das duas datas, 1959-2009, como dois aperta-livros a segurar tudo e coisa nenhuma. Estes nem chegam a segurar 50 anos. É esquisito ver a vida da Tereza transformada ali num hífen. A Tereza é que escrevia os obituários. Agora houve alguém que se enganou e saiu ela no obituário. Fica muito mal no obituário.
Ela também está admirada por estar ali naquele papel, nota-se. Olha e percebe-se que sabe que não devia estar ali. Ela tinha sempre tantas coisas tão interessantes para fazer.
E o pior é que é um daqueles enganos sem remédio. O pior porque, tirando sair no obituário, a Tereza fazia quase tudo bem - pelo menos, não sei de nada que fizesse mal. Só fazia comentários justos, só falava de coisas interessantes, só escrevia textos inteligentes. Coisas trabalhadas, pensadas, surpreendentes, divertidas.
Numa prosa precisa, depurada, eficaz, contida, sempre witty, com uma fina ironia, sem um traço de pieguice e sempre poderosamente emotiva. Claro que se dissesse que os seus textos eram emotivos ela arquearia o sobrolho, blasée, com uma subtil estranheza giocôndica, como se não soubesse do que eu estava a falar, com o mesmo ar expectante e de calma surpresa com que olha desta fotografia.
A Tereza gostava de tudo o que estava debaixo da superfície, fascinavam-na as heterodoxias, as marginalidades, todas as transgressões, e gostava de escrever sobre o que a fascinava - as pessoas, no fundo. E os livros, claro. Tinha uma enorme exigência (antes de mais consigo, apesar do cultivado ar displicente) e isso reflectia-se na qualidade do seu trabalho.
A Tereza era uma daquelas pessoas que devia ter continuado a ser jornalista, mas que o jornalismo acolhe cada vez menos e que era quase inevitável que deixasse de o ser. Era um privilégio ter alguém como a Tereza a olhar o mundo e a contar-nos o que via. Não era uma jornalista do óbvio nem da espuma dos dias, mas alguém para quem a escrita e o jornalismo passavam sempre pela cultura, pelo estudo, pela crítica, pela discussão, pela reflexão, pela imersão total. A Tereza escrevia para tentar compreender e para nos fazer compreender algumas das coisas mais difíceis de perceber. E trabalhava com a paixão e com a ousadia com que aprendemos todos a trabalhar com o Vicente Jorge Silva, na Revista do Expresso dos idos de 80.
Não que não gostasse de futilidades, mas as futilidades na escrita da Tereza deixavam de o ser. No fundo era uma jornalista completamente fora de moda, uma jornalista para quem o jornalismo era antes de mais e acima de tudo uma actividade intelectual e não uma indústria de fast food.
É irónico dizer isto da Tereza, dela que gostava tanto da moda e das modas e que se deleitava em apanhar as novas tendências à saída da casca, sempre à la page em todos os sentidos. Acho que foi essa exigência que a levou a tantos jornais e revistas e depois aos livros. Onde estava muito bem.
Onde ela fica mesmo muito mal é neste obituário.
Jornalista (jvm@publico.pt)