terça-feira, janeiro 17, 2012

Filhos e septuagenários ou a política rasca

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 17 de Janeiro de 2012
Crónica 3/2012
Das pequenezas e das misérias de dois ex-ministros das Finanças do PSD

1. Somos um país pequeno, onde todos nos conhecemos, nos cruzamos na rua e temos amigos comuns. Em Portugal não há seis graus de separação. Há só dois. Se há alguém que eu não conheço, há certamente alguém que nos conhece a ambos. Para mais, como somos um país profundamente desigual e classista, com um fosso imenso a separar uma imensa massa de pobres indiferenciados de uma pequena classe média e uma pequena casta de profissionais, estes encontros são ainda mais comuns nestes últimos grupos. Na política e nos negócios (quase a mesma coisa), nas artes e na academia, estamos sempre a cruzar-nos. Os mesmos. É por isso que vemos tantas vezes os mesmos nomes, os mesmos apelidos, relações familiares. Os negócios em Portugal estão na mão de uma só família há cem anos. Estamos todos tão próximos que é quase impossível não contratar um primo, não chocar com um tio, não dar aulas a uma sobrinha. Portugal é pequeno mas, se excluirmos os pobres, que não contam, ainda somos mais pequenos. Somos o Luxemburgo. A Islândia. O Liechtenstein.

É por isso que há tantos filhos e sobrinhos. Um exercício interessante é consultar a formação dos Governos. Ou das administrações das empresas. Os apelidos repetem-se. É normal apresentarmos pessoas como sendo “filhos de”. Para não contar as vezes em que o elemento curricular é sussurrado quando a pessoa volta costas. “É filho de...” “Ah!...” E estamos constantemente a descobrir parentescos, muitas vezes discretamente ostentados. Um dia descobrimos que a Maria Fulana é filha de Fulana de Tal mas não usa o Tal para que toda a gente saiba que não se quer valer do nome. Ou descobrimos que a Maria Fulana passou a usar o Tal porque ele não tinha sido sussurrado a uma certa pessoa, com prejuízo para a sua carreira. Os filhos e os sobrinhos estão por todo o lado. E, se se levanta alguma dúvida sobre o critério da nomeação, do convite, da promoção, logo alguém nos garante que é competentíssimo e cultíssima. Não vale a pena saber se não haverá outro, com outro apelido, também competentíssimo. É provavel, aliás, que ele seja competentíssimo, pois os filhos da oligarquia tem acesso garantido à melhor formação. Podemos apostar que não haverá nos próximos trinta anos um ministro nascido na Cova da Moura, mas a maioria das pessoas não percebe que é essa a nossa desgraça.

O nepotismo é algo tão natural, a oligarquia tão habituada a não ser posta em causa, que o competentíssimo Jorge Braga de Macedo, ex-ministro do PSD, colaborador de Passos Coelho e presidente do Instituto de Investigação Científica Tropical, não se dá sequer ao trabalho de explicar por que razão o nosso instituto (que ele dirige) financiou três exposições da sua filha. E que tal definir critérios prévios para fazer as coisas? Não é difícil e até é parecido. Em vez de consultar o apelido, vê-se se a pessoa, o projecto e o processo respeitam os critérios.

3. Podia acontecer que Manuela Ferreira Leite tivesse aquele problema de ter uma língua mais rápida do que os neurónios, uma condição em que as palavras apenas são submetidas ao escrutínio da mente depois de terem sido enunciadas. Acontece. Muitos políticos parecem sofrer do mal. Nestes casos, porém, mal o cérebro escrutina o que lhe entrou pelos ouvidos, usa em geral a capacidade de corrigir a posteriori o que não teve capacidade para formatar a priori. E dizem-se coisas como “Não era bem isto que eu queria dizer”, “Deixem-me explicar melhor porque receio ter dado uma ideia errada”, “Posso responder de novo e depois vocês apagam a primeira resposta?” etc. - como fazemos todos quando falamos de uma forma irreflectida, ainda que não se sofra da patologia.

No entanto, quando a Dama de Ferro Nacional diz o que disse, em resposta a uma pergunta sobre o que pensava da possibilidade de restrição do acesso à hemodiálise aos indivíduos com mais de 70 anos (“Tem sempre direito, se pagar”) e apenas corrige o que diz depois de uma chamada de atenção do socialista António Vitorino, é provável que tenha dito da primeira vez aquilo que queria dizer. Lembre-se aliás que a pergunta (dirigida a António Barreto mas a que Ferreira Leite quis responder) já trazia suficientes sinais de alarme, porque foi colocada nestes termos: “Não acha abominável que se discuta se alguém que tem 70 anos tem direito à hemodiálise ou não?” Mas Ferreira Leite não só não achou abominável como achou muito bem, porque o SNS não dá para todos e é preciso escolher.

A resposta de Ferreira Leite foi a de uma verdadeira tecnocrata: como o SNS não pode pagar tudo e uma pessoa com mais de setenta anos possui um valor económico negativo (não produz e gasta muito), a decisão mais eficiente é deixar de pagar hemodiálise a esta pessoa - que, no entanto, se tiver meios próprios, poderá fazê-la por sua conta. A proposição, de perfil eugenista e pseudo-justificada com o habitual palavreado de gestão, vai na linha das propostas do PSD em termos de saúde, educação, segurança social e trabalho e demonstra que uma das mentiras mais descaradas da política portuguesa é a auto-definição do PSD como partido humanista.


Manuela Ferreira Leite esteve na origem da expressão “geração rasca”, cunhada numa reflexão de Vicente Jorge Silva quando, numa manifestação de estudantes, alguns decidiram mostrar o rabo à então ministra da Educação. Ferreira Leite provou mais uma vez que uma política rasca pode mostrar coisas muito mais ofensivas. (jvmalheiros@gmail.com)

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Projecto PMA-CiênciaViva - Alguns conselhos para o seu projecto multimédia - Janeiro 2012

Projecto PMA-CiênciaViva

Alguns conselhos para o seu projecto multimédia

José Vítor Malheiros



Fase preparatória

Defina os seus objectivos com o máximo rigor possível. Pense bem naquilo que quer transmitir no seu trabalho. Não basta ter uma ideia geral do que quer dizer (Exemplo: “Dar informação às pessoas sobre PMA”). Faça uma lista dos seus objectivos. Seja tão preciso/a e tão exaustivo/a quanto possível. Não deixe nenhum objectivo de fora.

Escreva os seus objectivos em frases simples – uma frase para cada objectivo. Uma boa técnica é usar pequenas folhas de papel ou post-its para fazer isto: uma frase em cada folha de papel.

Espalhe as folhas de papel em cima da mesa e organize os seus objectivos por ordem de importância. Quais são aqueles que são verdadeiramente importantes e quais são os objectivos secundários? Há algum objectivo que seja na realidade uma sub-categoria de um outro? Há algum objectivo que seja de facto irrelevante? Há algum que seja excessivamente ambicioso para os recursos de que dispõe?

Reorganize os seus objectivos de forma hierárquica, eliminando os irrelevantes e
separando claramente as duas categorias de Objectivos Primários ("Must have") e
Objectivos Secundários ("Nice to have"). Escreva-os numa folha de papel. Vai usá-la durante todo o seu trabalho.

Pense nas pessoas a quem se quer dirigir. Quem vai ler/ver o seu trabalho? A quem é que o seu trabalho deve ser útil? Jovens como você e os seus amigos? Pessoas com problemas de fertilidade? A sociedade em geral? Os políticos? Os seus professores?

Tente ser tão selectivo/a quanto possível. Era bom se toda a população portuguesa pudesse ver o seu trabalho, mas há talvez um grupo que, para si, é mais importante e a quem gostaria especialmente de chegar.

Uma vez definido o grupo (ou grupos) que quer atingir, imagine uma pessoa concreta que faça parte dele. Pode ser uma pessoa real (a sua tia) ou uma pessoa imaginária.

Pode imaginar várias pessoas. Escreva numa folha de papel uma ficha com as
características de cada pessoa (idade, sexo, ocupação, interesses). Isto permite, quando estiver a concretizar o seu projecto, responder mais facilmente a
perguntas do tipo "Será que isto responde ao que este utilizador procura? Será que isto esclarece as dúvidas desta pessoa? Será que esta linguagem é adequada para esta pessoa?"

Faça, para cada utilizador/a que imaginou, uma lista das perguntas que ele/ela fariam, das suas necessidades de informação, dos seus interesses, das suas curiosidades e dúvidas.

Fase de execução

Comece por planear o seu trabalho. Defina as diferentes fases de produção por ordem cronológica (recolha de informação, escrita, recolha de imagens, etc.) e identifique as fontes de informação que vai utilizar.

Agarre nas folhas onde escreveu os seus objectivos e alinhe-as sobre a mesa. Pense na forma de concretizar cada um deles, nos textos, nas imagens e nas funcionalidades que lhe vão dar forma. Faça uma listagem do conteúdo que lhe irá permitir responder a cada objectivo. Escreva cada item (um texto, uma foto, um vídeo, um inquérito) numa folha separada e distribua todas essas folhas pelos objectivos a que dizem respeito.

Deve ter o cuidado de fotografar as várias fases do trabalho, pois ao longo do projecto vai reorganizar as suas folhas de papel e os seus post-its de várias formas, vai fazer experiências, voltar atrás, e pode acontecer que queira recuperar uma parte do trabalho que já foi alterado.

Agarre nos vários conteúdos que quer produzir e organize-os em categorias ou
secções. Por exemplo: fotos, explicações técnicas, esquemas, inquéritos, FAQ,
moradas e contactos, legislação, problemas éticos, dados internacionais. Há várias formas de organizar estes dados, não há uma receita única. Fotografe o resultado.

Tente organizar as várias coisas que quer dizer num storyboard, numa narrativa, numa história. Por onde vai começar? Como se deve desenrolar a história? Como é a estrutura da história? O seu projecto não serve apenas as necessidades dos
utilizadores que você imaginou. Há algo que você quer transmitir e esse algo deve estar bem definido na sua cabeça. Muitas das pessoas que irão consultar o seu site ou ver o seu projecto não o fazem com uma ideia precisa, nem todos têm uma pergunta que querem ver respondida. O seu projecto deve contar uma história, deve ter uma lógica própria e deve poder interessar uma pessoa curiosa que espreite a primeira página.

Se o seu projecto for um site, deve dedicar a máxima atenção à sua homepage. A homepage é a sua capa, a sua montra, a sua apresentação. A homepage deve possuir uma personalidade e identificar claramente o que é aquele site, o que pretende, a quem se dirige.

Há um compromisso difícil quando se trata de escolher o conteúdo de uma homepage: não se pode dar a mesma visibilidade a tudo e é preciso escolher o que se põe em evidência. Um site tem apenas uma homepage e a homepage deve ter um centro de gravidade. Resista à tentação de dar o mesmo peso a tudo. Escolha. Hierarquize. Seleccione.

Lembre-se de que a homepage não tem de mostrar textos inteiros, mas apenas
destaques, pequenos textos atraentes e explicativos, com imagens e links para o texto integral.

Decida quais são as secções que aparecem na sua homepage. Deve dar o mesmo
tratamento gráfico aos links para secções do mesmo tipo (artigos, galeria de fotos, gráficos), mas deve dar tratamento diferente aos links para páginas de carácter diferente (webmaster, artigos de opinião). É conveniente criar uma barra de navegação (uma barra horizontal na parte superior da página ou uma coluna do lado esquerdo) com os links para as várias secções, que deve aparecer em todas as páginas de forma consistente. A consistência é importante no design. O link para a homepage não pode aparecer numa página do lado direito e noutra do lado esquerdo.

Reúna num único local os links “técnicos”, como o Mail, Contactos, Webmaster, links para partilhar (Facebook, Twitter, etc).

Lembre-se de que um link para a secção de Opinião, por exemplo, não deve levar a um artigo de Opinião, mas sim a um índice de artigos de Opinião. Esse índice, porém, pode e deve ter um ou mais destaques. Uma página apenas com uma lista de títulos e links não é das coisas mais aliciantes e pode não ser evidente qual é o seu conteúdo.

Lembre-se que todas as páginas devem ser devidamente identificadas. Se um
utilizador entrar na página de um artigo de Opinião do seu site, deve saber que artigo está a ler, deve saber que se encontra na secção de Opinião e deve saber em que site está. E deve poder sempre regressar a homepage e, se existir, à página índice da secção onde está.

Lembre-se de que todos os textos e todas as imagens devem ter uma data. Quem
visitar o seu site dentro de cinco anos tem o direito de saber em que altura um dado texto foi escrito.

Incite os seus leitores a enviar-lhe críticas, sugestões e comentários. O feedback dos leitores é a ferramenta mais importante que existe para melhorar o seu site. Coloque links de mail em locais visíveis.

Agarre nos post-its onde escreveu os seus conteúdos e espalhe-os pela mesa.
Organize-os numa árvore, cujo tronco é a homepage. Coloque por baixo da folha de papel que representa a homepage, numa linha horizontal, todas as páginas a que é possível aceder a partir de links existentes na homepage. Coloque por baixo de cada uma destas páginas secundárias todas as páginas a que se pode aceder a partir de links existentes nelas.

Não crie um esquema muito complexo. Deve ser possível aceder a qualquer página do seu site a partir da homepage com um máximo de três cliques.

Teste a navegação... com os seus dedos. Imagine um dos seus utilizadores
imaginários. Se essa pessoa entrar na homepage do seu site e quiser encontrar
informação sobre o tema x, como deve fazer? A navegação parecer-lhe intuitiva?
Reajuste o que for necessário.

Escreva os seus textos. Não se esqueça de pensar nos destaques que devem aparecer na homepage.

Releia os seus textos. Simplifique tudo o que puder. A linguagem está adaptada
ao/s grupo/s que pretende atingir?

Publique num domínio de acesso restrito ou publique mas sem divulgar o endereço. Peça comentários a um pequeno grupo de utilizadores, aos seus amigos.

Corrija os erros que foram detectados e faça as adaptações necessárias.

Publique. Divulgue.

Leia, analise e responda rapidamente ao mail dos utilizadores. Uma resposta rápida satisfaz o utilizador e aumenta a credibilidade do seu site. O utilizador sente que há alguém a ouvir o que ele tem a dizer.

Adapte o site de acordo com o feedback dos utilizadores mas seja prudente. Não se precipite. Avance com pequenos passos. Atenção: não pode estar sempre a mudar a estrutura do seu site. As grandes mudanças são raras, devem ser muito pensadas e discutidas, comunicadas com antecedência e bem explicadas.

Boa sorte.
José Vítor Malheiros
Janeiro 2012

terça-feira, janeiro 10, 2012

Será a Maçonaria o maior partido português?

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 10 de Janeiro de 2012
Crónica 2/2012

Em democracia, não é admissível que um político jure lealdade e obediência a uma organização secreta

Há um lado em mim que simpatiza com a ideia da Maçonaria. Simpatizo com os ideais republicanos e igualitários que estiveram na origem da moderna Maçonaria, com a sua crença na educação e na cultura como instrumentos de promoção do bem-estar social, com o princípio da solidariedade entre os seus membros e uma prática de entreajuda nos casos de necessidade, com o culto de uma certa ideia de honra, que preza de forma particular a palavra e o compromisso.

Há um lado infantil em mim que simpatiza até com a clandestinidade da Maçonaria. Com a ideia de segredo e do conhecimento privilegiado associado a esse secretismo. Com o mistério e com a promessa de aventuras que oferece a pertença a uma tal irmandade. Com o poder insuspeito que o segredo dá. E não só com isso: também com as senhas secretas, os apertos de mão secretos, os sinais secretos, os símbolos secretos, as reuniões secretas.

Há também um lado em mim que antipatiza profundamente com a ideia da Maçonaria. Com o seu esoterismo serôdio, com a piroseira hollywoodesca dos rituais (já viram aqueles aventais?), com aquela confusão de crença racionalista e de Supremos Arquitectos para todos os gostos. Com a sua cultura misógina e machista. Com as disputas entre lojas e obediências, as discussões sobre ritos e tradições, as cisões e os grupos irregulares, que fazem qualquer partido trotskista parecer um exemplo de solidez.

E, para além destas reacções perante a ideia de Maçonaria, sinto uma profunda aversão pela prática da Maçonaria. Se havia ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, generosidade e abnegação na origem da Maçonaria, eles hoje parecem estar tão presentes nas lojas maçónicas como em qualquer fast food. Claro que há muitas Maçonarias e não se pode falar como se a Maçonaria fosse uma única, mas há uma teoria e uma prática predominantes. Dizer que não se pode falar de Maçonaria porque ela representa uma realidade plural é tão sem-sentido como dizer que não se pode falar de Igreja Católica ou de socialismo ou da cidade de Lisboa pela mesma razão.

A verdade é que a Maçonaria é um grupo (vários grupos) dedicado ao tráfico de influências. Em defesa de algum valor? Em nome de alguma ideia? Em prol de alguma ideia de progresso? Não. Nem sequer isso se pode dizer em seu benefício. A Maçonaria defende a Maçonaria, sem estados de alma. Se, na origem, a ideia de entreajuda servia um interesse maior, porque se tratava de potenciar a capacidade de intervenção social dos “homens bons” em defesa de toda a comunidade, hoje em dia trata-se apenas de defender os interesses pessoais dos elementos do grupo em nome dos interesses pessoais dos elementos do grupo. Uma mão lava a outra, as duas lavam a cara. O cartão do clube garante influência, a jura de segredo reforça laços, a obrigação de entreajuda justifica todos os tráficos. A Maçonaria transformou-se numa máquina para aceder ao poder e influenciá-lo.

António Arnaut pode dizer que quem entra na Maçonaria com intuitos venais não passará de aprendiz e acabará por ser expulso e é possível que as coisas se passassem assim na sua loja, mas a realidade conta-nos outra história: da P2 à Mozart, as lojas da Maçonaria não conquistaram uma boa reputação. A reputação é aliás tão sulfurosa que é estranho que haja verdadeiros homens bons que ainda por lá andem.

Organização assumidamente secreta em tempos, hoje classificada eufemisticamente pelos membros como “organização discreta” ou “organização com segredos”, a Maçonaria é, como os próprios dizem, uma “obediência”. E é por ser uma obediência a certas ordens, por implicar uma lealdade a certas ideias e o apoio a certas pessoas, que não é admissível que um político eleito não reconheça publicamente a sua pertença ao grupo.

A Maçonaria não pertence à vida privada. A Maçonaria é uma organização política, que visa actuar na esfera pública. Que exige lealdade, obediência, segredo, que possui um programa, que milita para atingir certos objectivos. Não está em causa o seu direito à existência, nem o direito a aceitar como sócios as pessoas que bem entenda – desde que nada nos seus objectivos contrarie a lei. Mas os cidadãos têm direito a conhecer as lealdades de todos os que elegem para cargos públicos. Não se admitem lealdades secretas numa democracia. Um deputado não pode ser secretamente membro de uma organização. João Cravinho, maçon, compreende isto e defende que os maçons se identifiquem como tal. Teresa Leal Coelho, vice-presidente da bancada do PSD, acha que não é preciso e justifica que "todos os cidadãos têm interesses privados”. Teresa Leal Coelho não percebe que um deputado – ou um ministro – tem uma obrigação de transparência superior à do cidadão anonimo. E não perceber isso é não perceber o que é a democracia. Um político tem a estrita obrigação de tornar públicos todos os seus interesses e todas as suas lealdades – e não apenas algumas, de forma seleccionada, conforme os interesse do momento, como fazem actualmente nos seus currículos. Um cidadão tem o direito de saber a que organizações pertence um deputado, a que ordens obedece um ministro, que princípios defende o dirigente de um partido. Será que temos estado a eleger deputados da Maçonaria sem o sabermos? Será a Maçonaria o maior partido português? Serão a Maçonaria e a Opus Dei os verdadeiros partidos?

Não penso que o exercício de cargos políticos seja incompatível com a participação na Maçonaria ou noutra organização política ou religiosa, mas a transparência sobre essa participação é uma condição essencial para o exercício de uma actividade política em democracia. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, janeiro 03, 2012

Retrato de grupo com o país ao fundo

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 3 de Janeiro de 2012
Crónica 1/2012

Será que os jornalistas da televisão se dão conta do país que é desenhado pelas suas reportagens?

Um acidente de automóvel numa estrada qualquer. Um despiste, o carro caído na valeta. A televisão mostra o carro acidentado, o carro da polícia, a ambulância, a curva da estrada, os bombeiros, entrevista o polícia, o bombeiro, o condutor que ia a passar, a senhora que ouviu o barulho, o homem que viu uma pessoa a sair do carro, a câmara mostra vidros no chão, a casca arrancada da árvore, a vedação destruída, a mancha de sangue se houver. O repórter faz o directo indirecto: “Foi aqui que, há precisamente seis horas atrás…” Foi pena não ter sido preciso desencarcerar ninguém, porque se a equipa de reportagem tivesse chegado seis horas antes e tivesse filmado o desencarceramento isso é que era televisão, mas pronto. Mudança de plano para o parque de estacionamento do hospital onde uma médica fala, grave, do acidentado grave, “estável mas com prognóstico muito reservado”. Por acaso não foi preciso helitransportar ninguém porque isso é que era televisão, mas o INEM está preparado para helitransportar. Cinco ou seis minutos de informações inúteis mas dramáticas.

Mas aconteceram outras coisas no mundo: no Algarve, um bando não identificado assaltou durante a noite uma máquina de tabaco, no interior de um estabelecimento comercial. A câmara mostra a vitrine, os ferros torcidos, vidros partidos no chão, entrevista a empregada da loja, a polícia, torna a mostrar as mesmas imagens da vitrine, dos ferros torcidos. Há imagens captadas pelas câmaras de vigilância, a preto e branco, que mostram homens encapuçados aos saltinhos na filmagem sincopada.

Mas não, ainda não é tudo. Há ainda uma máquina Multibanco assaltada com recurso a uma escavadora. Numa demonstração de grande perícia os assaltantes conseguiram extrair o cofre com um dano mínimo no cubículo que o albergava. A câmara mostra a marca deixada pelos dentes da retroescavadora na parede do edifício. Podemos ver em detalhe cada marca de cada dente na parede e ainda temos tempo para chamar a família. “Ó Guida, vem cá ver o que eles agora fazem com uma retroescavadora!...” Mas não é tudo, há também uma ourivesaria assaltada. A camara mostra a vitrine partida, uns ferros torcidos , entrevista a dona da loja, o polícia, a senhora que viu, o homem que ouviu, outro que não deu por nada, outro que não viu mas foi por pouco porque se tivesse passado uns minutos antes ou depois, outro que comenta estes assaltos que há agora, outro que diz que não há polícia que chegue, outro que diz que não há suficientes camaras de videovigilância, porque se houvesse uma câmara a espreitar pelo rabo de cada cidadão em tempo real poderiam evitar-se todos os crimes e fazer a despistagem do cancro do cólon ao mesmo tempo.

Mas não é tudo. Finalmente uma notícia, sobre uma coisa que interessa a todos: os aumentos em 2012, os aumentos da electricidade, da saúde, dos impostos, dos restaurantes, dos transportes, de tudo. A notícia fala dos aumentos e entrevista “populares”. Há reacções resignadas, sarcásticas e discordantes. Não há ninguém indignado, nem sequer contestatário e muito menos agressivo. A sociedade portuguesa está resignada. Porque é que são os aumentos? Bom, a peça não diz mas percebe-se que é porque tem de ser. Há quem não concorde, mas são aqueles que são sempre do contra. Noutro programa, numa mesa-redonda, o moderador olha com indisfarçado ar de nojo para um sindicalista a quem pergunta com enfado: “Mas não há nestas medidas anunciadas pelo Governo nenhuma com que concorde?” O subtexto é claro: se concordasse com metade das medidas e discordasse da outra metade ainda vá lá! Mas assim… só pode ser porque é um ressabiado de maus fígados.

Mas há boas notícias! Nem tudo é mau. Uns voluntários distribuem sopa e bolo-rei a sem-abrigo durante a noite. Pessoas abnegadas e bondosas, que prescindem do conforto do lar para ajudar o próximo. A apresentadora do noticiário exulta, de sorriso rasgado, está feliz, é Natal! é Natal! A voluntária entrevistada pela repórter que acompanhou os voluntários exulta por esta experiencia de solidariedade que teve oportunidade de viver. Que bom que é haver pobrezinhos que nos dão oportunidade de sermos solidários. Que bom que é ver a sociedade civil a ocupar o lugar que o Estado não pode ocupar. “O Estado não tem vocação para gerir instituições de solidariedade social”, diz o bem-aventurado ministro Pedro Mota Soares, com a boa consciência a transbordar fatias de bolo-rei. Os sem-abrigo aceitam a sopa, o bolo-rei, quase nenhum aceita ser filmado, só do pescoço para baixo. É natural. Têm vergonha. São os únicos que não são voluntários.

Passei uma boa parte da vida a dizer que as manipulações da informação a que assistimos na imprensa – e, com maioria de razão, na televisão - eram na sua maioria acidentais, fruto de incompetências, desleixos. Seria demasiado complicado orquestrar tudo isso.

Mas, seja qual for a razão, será que os jornalistas da televisão se dão conta do retrato que fazem do país? Um país resignado, onde o único discurso pertence ao Governo, onde não há opções políticas, reais discordâncias, debates em pé de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde há apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes tão generosos que dão sete euros por mês aos mais pobres e que nos explicam que não sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das dívidas que meteram nos bolsos dos seus amigos? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 27, 2011

Desejos de Ano Novo

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 27 de Dezembro de 2011
Crónica 52/2011

Passos Coelho diz que, em 2012, vamos assistir a uma “democratização da economia”. E se alguém lhe perguntasse o que quer isso dizer?

Quando eu era pequeno, era imperativo comer 12 passas de uva na passagem do Ano.
Só que as coisas não eram assim tão fáceis, porque era preciso comer as 12 passas ao mesmo tempo que batiam as doze badaladas da meia-noite e não era fácil arranjar maneira de ouvir as doze badaladas. Acabávamos sempre por ter de encaixar as doze passas e as doze badaladas mentais nos dez segundos que os locutores da televisão e da rádio anunciavam em voz alta.
Mas a dificuldade não se ficava por aqui. Também era preciso pensar num desejo por cada passa, o que tornava a operação um sprint mental infernal. Isto limitava de forma radical os desejos. Não podíamos ter um desejo que levasse mais de um segundo a enunciar mentalmente, mas havia a possibilidade de convocar o desejo sob forma de imagem, em formato JPEG (ainda que na altura não se dissesse assim). Tínhamos de ter doze desejos curtinhos preparados, em fila indiana, para os fazer desfilar no ecrã da mente à medida que íamos comendo as passas. Os desejos não se podiam dizer a ninguém, nem escrever, porque tinham de ser mantidos secretos, o que conferia à operação um risco acrescido. Naturalmente que um desejo não expresso não se iria realizar no ano seguinte e, por isso, para reduzir o risco de esquecimento, era prudente começar pelos mais importantes e deixar os secundários para o fim. Mas se tudo o que tivéssemos de fazer fosse alinhar doze desejos em fila, com os mais altos à frente e os mais baixinhos atrás, e dizê-los por ordem sem perder mais de 12 segundos no total, seria tudo muito fácil. Ao mesmo tempo, era preciso garantir que se comia uma, mas não mais de uma, passa de cada vez, o que não era fácil porque elas se colavam umas às outras. Quando chegávamos ao desejo 10 e víamos que só nos restava uma passa era preciso pensar depressa. Ou se tinham comido duas passas com um desejo anterior, o que significava que estávamos atrasados um desejo e era preciso invocá-lo depressa e saltar para o 12º, ou significava que o nosso pacotinho de passas só continha 11 passas. Neste caso tínhamos de tirar uma passa extra da tacinha da passas, mas era preciso ter a certeza absoluta que não tínhamos mesmo comido duas passas de uma só vez porque, se tivesse sido esse o caso, isso queria dizer que estaríamos a comer 13 passas na passagem do ano, número aziago que punha em causa a realização não de um, mas de todos os desejos. Era preciso pensar depressa, pesar os riscos da não realização do 12º desejo (por falta de passa) com o risco de um ano de azares (por passa a mais) e decidir num ápice.
A contagem e embalagem das passas em pacotinhos de papel de seda de cores diferentes era, por esta razão, uma operação delicada, que o meu pai levava a cabo com minúcia e que tinha de ser depois verificada pela minha mãe, que recontava tudo e verificava que havia um pacotinho de passas para cada conviva.
Com o correr dos anos comecei a descurar a disciplina do ritual e na minha adolescência marcava a minha rebeldia engolindo o monte de passas de uma só vez e exprimindo um só desejo para o ano seguinte.
Hoje em dia, continuo a seguir o ritual mas de forma descontraída: ponho as passas numa taça e quem quiser comer que coma, quem quiser contar que conte, quem quiser desejar que deseje. Mas já pensei se as desgraças dos últimos anos não terão algo a ver com os desejos não satisfeitos que eu terei provocado com o meu método iconoclasta. E se as superstições tivessem mesmo a sua razão de ser? Isso podia explicar o subprime, a crise da dívida soberana, Putin, a Goldman Sachs, Passos Coelho.
Por isso pensei que este ano, só para experimentar, podíamos todos exprimir um desejo comum para 2012, só para ver se obrigamos as coisas a mudar no bom sentido. Como é uma experiência, podemos começar por uma coisa positiva mas simplezinha, para não sobrecarregar os lares, as parcas ou seja qual for a entidade que trata disso. Lembrei-me que podíamos desejar, por exemplo, que, quando o primeiro-ministro fala de “democratização da economia”, como falou na sua mensagem de Natal, os comentadores políticos e os portugueses em geral lhe explicassem que democracia quer dizer “poder do povo” e lhe dissessem que não querem continuar a assistir à prostituição desta e de outras palavras, cuja história contém mais nobreza do que o primeiro-ministro pode imaginar. Que democratizar a economia quereria dizer, se houvesse sinceridade nas suas palavras, recuperar para a democracia o poder que o sistema financeiro sem rosto e sem lei roubou aos cidadãos, concentrando nas mãos de alguns poucos as riquezas do globo. Que lhe dissessem que, se quer democratizar a economia, deve ter um plano para isso, contrariando tudo o que disse e fez até agora, e que temos todos curiosidade em ouvir esse plano.
Podíamos ainda desejar que os jornalistas deixassem de servir de pés de microfone e interpelassem os políticos quando eles prometem coisas como “democratizar a economia”. E que continuassem a perguntar até ter respostas. E que pedissem explicações para as contradições que encontrassem nas respostas. E que deixassem de tratar a propaganda do Governo como factos e as propostas das restantes forças políticas como inexistentes.
São desejos pequeninos, mas seriam um bom sinal.
Eu, pelo sim, pelo não, este ano vou voltar a fazer pacotinhos de uvas. Nunca se sabe e mal não faz. E pôr uma vela a Santo António. Santo António era alguém respeitável. Alguém de quem não sentiríamos vergonha se nos dirigisse uma mensagem de Natal.
Desejo a todos nós um ano onde tudo aconteça precisamente ao contrário daquilo que espera o Governo. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 20, 2011

Ainda esta semana

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 20 de Dezembro de 2011
Crónica 51/2011

Que honra é esta que sobrepõe o dever de pagamento da dívida aos ricos ao dever de alimentar os pobres?

São umas vinte e vão todas em fila indiana, de mãos dadas como se estivessem numa roda, com os seus bibes vermelhos, todas com chapéus na cabeça, com uma professora a abrir o cortejo, outra no meio, outra a fechar. Está frio à sombra, mas o sol aquece e a fila avança alegremente pelo Parque das Nações, em direcção ao Pavilhão do Conhecimento, ou talvez ao Oceanário. Terão uns cinco ou seis anos, riem-se, saltitam e chilreiam sem parar. A imagem é banal mas é assim. As crianças desta idade chilreiam como passarinhos. As professoras estão sérias, com a linguagem corporal da decisão e da atenção, a dar instruções, a contar as crianças, a vigiar os perigos, carros que podem aparecer, uma criança tresmalhada, o chapéu que voa, mas as crianças chilreiam despreocupadas. Vão passear, está um dia lindo, têm camisolas debaixo dos bibes para o frio e um chapéu na cabeça para o sol, estão com os amigos, alguém as conduz, as protege, lhes vai dar o almoço, o lanche, talvez guloseimas, uns carinhos, um penso se esfolarem o joelho. Vão abrir os olhos de surpresa, de alegria, de excitação. Paro no passeio a olhar as crianças que chilreiam. Tudo na sua atitude denota a segurança da confiança. Está tudo bem. Os adultos sabem. É só dar a mão.

E se não soubéssemos? Se os adultos não soubessem? Se não fizéssemos a mínima ideia do que estamos a fazer? Ou se a esmagadora maioria de nós tivesse desistido de compreender, de agir, de melhorar o mundo, de viver, de qualquer outra coisa que não fosse o que se passa na nossa sala de estar? E se houvesse apenas alguns, poucos, que soubessem o que se passa no mundo e que tivessem poder para intervir e se esses se estivessem a borrifar para a fila de crianças de bibe vermelho que avança a chilrear pelo Parque das Nações?
O que podemos prometer hoje a estas crianças? Que o seu mundo vai ser mais seguro que o nosso? Mais livre? Mais solidário? Mais feliz? Mais bonito? Mais humano? Mais criativo? O que podemos prometer nesta semana de Natal às filas de crianças de bibe vermelho de Atenas, de Madrid, de Dublin, ou de Amesterdão e de Berlim?

Não há nada, absolutamente nada, tristemente nada, que sinta que o Governo do meu país está a fazer pelas crianças de bibe vermelho. O mundo que lhes está prometido é um mundo de menor liberdade, de menor conforto, de menos trabalho, de menos segurança, de menos saúde, de menos educação, de menos acesso à cultura, de menos cidadania, de menos humanidade, de menos respeito pelos outros e pela Natureza. De mais desigualdade, de mais competitividade, de mais violência, de miséria. Não apenas para o ano ou para o ano seguinte, mas para os próximos dez anos, vinte anos, para sempre.

Para o Governo do meu país, os financeiros sem rosto que sobem os juros da dívida que dizem que temos são mais importantes que as crianças de bibe vermelho. Ainda que esses financeiros sem rosto tenham roubado os títulos da dívida a alguém, ainda que os tenham forjado, ainda que tenham sido eles a convencer os governantes a reduzir os impostos às empresas para depois termos de lhes pedir dinheiro emprestado, ainda que nos cobrem um juro agiota, ainda que subam o seu juro agiota sem razão, ainda que condenem à miséria crianças de bibe vermelho por todo o mundo, ainda que condenem a morrer à fome crianças que nem sequer têm um bibe vermelho. Que honra é esta que sobrepõe o dever de pagamento da dívida aos ricos ao dever de alimentar os pobres? Que honra é esta que aceita aumentos de juros de 7 por cento para as dívidas que se devem aos ricos mas apenas um aumento de 3 por cento para as pensões dos mais pobres dos pobres? Não é nenhuma honra. É apenas indignidade. É apenas falta de vergonha. É apenas desumanidade.

A mecanização e a informatização permitiu dispensar milhões de trabalhadores e os pobres deixaram de fazer falta. Mais: são acusados de ser a causa da crise. Desempregados que consomem subsídios, doentes que consomem medicamentos, velhos que consomem pensões, grávidas que consomem licenças de maternidade, parasitas todos. Solidariedade? Apenas um obstáculo a contornar no caminho da produtividade. Mas há soluções para reduzir o parasitismo. Basta ir reduzindo o Estado social que o alimenta e que, de qualquer forma, não temos dinheiro para pagar. Sim, porque depois de pagar a dívida aos bancos não sobra nada.

O discurso hegemónico é simples e condena as crianças de bibe vermelho à vida triste que já vivemos há quarenta anos, como lembrava há dias Isabel do Carmo.

Mas enquanto via a fila de crianças de bibe vermelho avançar à beira-Tejo, sem poder deixar de sorrir parvamente, como não podemos deixar de fazer quando vemos uma fila de crianças de bibe vermelho a chilrear como se o mundo não admitisse uma única preocupação, tive a certeza que nada disto ia acontecer, porque não era possível ver uma fila de crianças de bibe vermelho e deixar que isto acontecesse. Não era possível que o mundo que lhes vamos deixar fosse esta apagada e vil tristeza. E pensei na quantidade de gente que, em Portugal e no resto da Europa e no resto do mundo se mobiliza para que isso não aconteça, nos movimentos cívicos, nas artes, nos partidos e nas organizações religiosas. Já começámos a perceber como funciona o sistema da dívida, a armadilha dos juros crescentes, a matilha de agências de rating e dos bancos, empenhados em reduzir a solidariedade ao Estado Mínimo que deixa todos os negócios na mão de quem já controla os mercados, a mentira do falso mercado da falsa concorrência, a mentira dos cartéis e da corrupção, dos impostos que são apenas para os trabalhadores e dos paraísos fiscais que são apenas para os ricos. E pensei que essa era a melhor prenda de Natal possível. A ideia de que é possível mudar tudo e que vamos começar já. Ainda esta semana. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 13, 2011

A honra perdida de todos nós

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 13 de Dezembro de 2011
Crónica 50/2011


A Auditoria Cidadã à Dívida Pública não é muito e vem tarde, mas é mais do que temos feito até aqui

Enganados. Indignados. Desiludidos. Frustrados. Deprimidos. Impotentes. A proporção dos ingredientes varia, mas o estado de espírito geral anda por aqui.
Sentimo-nos enganados pelas falsas promessas que nos fizeram. Enganados por tudo aquilo que foi secretamente e indevidamente feito em nosso nome e com o nosso dinheiro. Enganados pelos políticos que juraram cumprir com lealdade as funções que lhes foram confiadas mas preferiram servir os seus bolsos, os interesses dos partidos e dos donos dos partidos. Enganados pelas nossas próprias convicções, pelas nossas esperanças, pelas nossas certezas.
Indignados com a apropriação privada daquilo que deve pertencer a todos, indignados com a desigualdade crescente, com a injustiça, com a acumulação de riquezas nas mãos de um grupo reduzido de pessoas que nem sequer contribui para o desenvolvimento e para o bem-estar, indignados com o sequestro da sociedade pelo poder financeiro, com a subserviência da política perante o dinheiro, com o estrangulamento da democracia pelos “mercados financeiros”. Indignados com a destruição do Estado, com a demolição dos serviços públicos que o nosso trabalho construiu nas últimas décadas, indignados com o futuro de pobreza, de economia musculada e de democracia diminuída que espreita os nossos filhos. Indignados também connosco, que parvos que fomos.
Desiludidos com a democracia que nasceu em Abril e que regámos mal, que desleixámos. Com a Europa que nos parecia o farol da civilização e da cultura, o clube de todas as democracias, e que é afinal um Country Club de castas bem definidas, onde todos são iguais mas uns são mais iguais que outros. Desiludidos com uma Europa utópica que se transformou num viveiro de egoísmos, de nacionalismos e xenofobia. Desiludidos connosco.
Frustrados por um presente e um futuro sem espaço, sem liberdade, sem criação, sem ideias, sem alternativas, sem sonhos, onde tudo está pré-determinado, onde os menus onde fazemos as nossas escolhas políticas, económicas, profissionais, de vida, são cada vez mais pequenos, mais pequenininhos (“una piccola vita, una speranza piccola così, una libertà piccola così”), e que um dia só terão uma única linha para assinarmos de cruz algo que não conseguimos sequer ler.
Deprimidos por tudo isto, pela tristeza, pela prisão em que esta vida se transformou, por nos dizerem que fomos nós que a construímos, esta prisão, que fomos nós que a escolhemos, que fomos nós que a desenhámos, que fomos nós que escolhemos os carcereiros e que isso foi viver acima das nossas possibilidades. Deprimidos por nos dizerem que as nossas possibilidades estavam por baixo das nossas vidas.
Impotentes porque nem sabemos que alternativa queremos, nem onde está, nem quem combatemos. Impotentes porque o nosso inimigo são coisas sem nome e sem cara e sem morada, que existem não sabemos onde, seres sem desejo mas que nos vencem a cada minuto que passa. Impotentes todos. Há algures um mecanismo que controla tudo mas ninguém sabe onde está e não se pode parar. Não é como um pesadelo. É um pesadelo. A pobreza persegue-nos e ganha terreno e estrangula-nos e nós fugimos mas as nossas pernas ficam presas no lodo, no ar pesado, na escuridão.
Protestamos, mas depois do protesto tudo fica na mesma. Vamos a manifestações e assinamos petições na Internet, mas fica tudo na mesma. Devemos esperar calmamente pelas próximas eleições para tentar mudar alguma coisa? Fazer a revolução? Já ninguém acredita nela. Mentiu-nos tanta vez que deixámos de a ouvir.
E no entanto não podemos ficar de braços cruzados. O mínimo dos mínimos que devemos fazer é tentar saber o que nos esconderam, o que nos escondem, e discutir o que sabemos.
No próximo fim de semana tem lugar em Lisboa uma Convenção que dará o pontapé de saída para a realização de uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública, a exemplo do que já foi feito – e está a ser feito - noutros países.
Não é muito e vem tarde, mas é mais do que temos feito até aqui. Há quem diga que as auditorias devem ser feitas pelas entidades oficiais, pelos organismos de regulação, pelos poderes políticos, mas a verdade é que todos eles nos têm falhado. Talvez tenha chegado o momento de explicar um pouco melhor aquilo que queremos, de defender aquilo a que temos direito, de propor algumas opções diferentes. Se temos de sacrificar os nossos primogénitos não teremos o direito de saber a que deus o fazemos?
A auditoria visa responder a perguntas simples.
Quanto é que devemos? Quem é que pediu o dinheiro emprestado? Por que razão se degradaram de tal forma as finanças públicas que só pudemos viver com dinheiro emprestado? Que decisões nos levaram a essa situação de fragilidade? Quem negociou os empréstimos? Quando? Em que condições? A quem pedimos? A quem devemos? Quem ganhou com os empréstimos? Que parte da dívida corresponde a capital? Quanto corresponde a juros? Quanto corresponde a comissões? Comissões devidas a quem? Porquê? Recebemos todo o dinheiro? O que fizemos com ele? Seguiram-se as regras de prudência, de transparência, de independencia exigíveis no manuseamento de dinheiros públicos? A que fiscalizações, auditorias e avaliações foram submetidos estes processos? Quais foram as suas conclusões e recomendações?
A auditoria cidadã à dívida pública deve ajudar-nos a encontrar respostas para algumas destas perguntas. E a ajuda de todos não é demais. Não é tudo, mas vamos poder fazer alguma coisa. Talvez possamos recuperar um pouco da nossa honra e olhar os nossos filhos nos olhos quando nos fizerem perguntas daqui a vinte anos. Já não era mau. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 06, 2011

O meu chefe é tão estúpido que...

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 6 de Dezembro de 2011
Crónica 49/2011


Mobilizar as pessoas é a única forma de garantir que se trabalha bem, que se trabalha mais, que se atingem objectivos, que se produzem as melhores ideias

A esmagadora maioria das coisas que dizemos que “só acontecem em Portugal” acontecem de facto por todo o mundo. Gostamos de pensar e de dizer que só em Portugal é que se vê uma capital com tantos buracos nas ruas ou que só cá é que se vê tantos políticos a passar da pobreza remediada para a opulência lamborghínica no tempo de uma legislatura, mas não é verdade. Há muitos outros países onde isso acontece. Não estão é na nossa lista de referências, o que é saudável.
Posto isto, é certo que há costumes e atitudes que me parecem tipicamente portugueses (ainda que talvez não o sejam).
À frente na minha lista está o hábito de pedir desculpa às visitas por a casa estar “tão desarrumada” – uma prática que nunca encontrei em nenhum outro país.
A verdade é que os desarrumados estrangeiros se estão borrifando para o facto e para o julgamento que as visitas possam fazer, enquanto nós receamos que elas pensem que somos desleixados ou – supremo pavor – que somos pobres, que nos habituámos a ter tudo assim desarrumado lá na barraca e que ainda não conseguimos adoptar o exigente protocolo de lida caseira da pequena burguesia onde acabámos de ascender.
Logo a seguir na minha lista está “dizer mal dos empregos”. Mais uma vez, não é que isso não aconteça noutros países. Mas entre nós é um desporto nacional de prática diária, uma espécie de jogging de salão. É como discutir cozinha durante o jantar: basta que alguém lance um comentário, para a discussão se generalizar com entusiasmo, com histórias que se encavalitam umas nas outras, com cada conviva a tentar (e a conseguir) suplantar o interlocutor (“oh, isso não é nada comparado com o que me disse o director do departamento quando...”). Muitas destas histórias pertencem à categoria “o meu chefe é tão estúpido, tão estúpido, tão estúpido que”, mas são mais frequentes críticas estruturais à ausência de estratégia, ao desperdício de talentos, à gestão irracional de recursos humanos, à inútil conflitualidade, à ausência de liberdade, à falta de informação e discussão, à corrupção e ao nepotismo, etc.
Pela amostra das minhas relações pessoais, Portugal é um país com uma muito baixa satisfação com o trabalho que se faz e as condições em que ele se faz. E, como confio na sensatez de muitas destas pessoas, que fazem parte do meu círculo de amigos e conhecidos, fico convencido de que predominam entre nós os chefes incompetentes, as organizações sem estratégia e as empresas esclavagistas. Os portugueses estão infelizes com os seus empregos porque muitos deles são não só melhores do que os seus chefes como são melhores do que os seus empregos. Os seus empregos não os merecem e eles não merecem aqueles empregos.
Mesmo nas actividades intelectuais, vemos dirigentes que se comportam como capatazes, capazes de fiscalizar horários e regras mas incapazes de suscitar ideias e de coordenar equipas, capazes de controlar um orçamento mas incapazes de mobilizar as pessoas. E, no entanto, mobilizar as pessoas é a única forma de garantir que se trabalha bem, que se trabalha mais, que se atingem objectivos, que se produzem as melhores ideias, que todas as pessoas contribuem com o seu melhor e que vivem mais felizes.
Pode-se perguntar (ouço uma vozinha liberal esganiçada no ouvido) por que não criam estas pessoas os seus empregos? Por que não se tornam empresários? Respondo, com paciência, à vozinha esganiçada: nem toda a gente quer ou pode fazê-lo, nem deve ser o objectivo do país ter cinco milhões de empresas unipessoais.
Vem isto a propósito da ideia peregrina da meia hora de trabalho suplementar e do fim dos feriados, que o Governo imagina que vai contribuir para resolver os nossos problemas de produtividade. Não vai.
Não há nenhuma forma de aumentar a produtividade de forma sensível e sustentável que não passe pela mobilização dos trabalhadores e pela sua inclusão no processo de tomada de decisão nas organizações. Adoptar uma pose de capataz de fábrica do século XIX e obrigar as pessoas a ficar mais meia-hora sentadas à secretária ou na cadeia de montagem não vai aumentar a produtividade – e até a pode baixar, pois a produção arrisca-se a ser a mesma.
Este tipo de medidas paternalistas, onde os trabalhadores são vistos não como o principal capital das empresas mas como adolescentes relapsos que é preciso disciplinar (como o inimigo, de facto), não só não respondem às necessidades actuais como aumentam a conflitualidade nas empresas e agudizam tensões que o Governo e os empresários deveriam estar interessados em evitar.
O Governo faria muito mais pela produtividade nacional tentando promover um ambiente de boa convivência laboral e apostando na inovação (eu sei que fazem discursos, mas estou a falar de outras coisas) do que propagandeando a ideia de que os trabalhadores portugueses são uns calões, que aproveitam todas as oportunidades para não trabalhar e que é necessário amarrá-los às bancadas através de meios legais como a extinção de feriados e a extensão de horários de trabalho.
A insatisfação generalizada suscitada por estas medidas e por esta cultura de suspeição e de confronto cria o tipo de ambiente que eu, se fosse empresário, sei que não quereria na minha empresa.
Os trabalhadores são um recurso demasiado importante para não investir neles. E o investimento em formação, em diálogo, em participação nas decisões, em confiança, em satisfação, é sempre rentável. Porque é que o investimento é algo tão fácil de perceber para um patrão quando se trata de dinheiro e tão difícil de explicar quando se trata de pessoas? (jvmalheiros@gmail.com)