quarta-feira, maio 26, 2010

O colarinho branco e a canja da ralé

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 26 de Maio de 2010
Crónica 20/2010

Quiseram aplicar a um homem como Ricardo Rodrigues os mesmos princípios éticos que aos outros deputados

1. Quando alguém mete ao bolso uma coisa que não lhe pertence dizemos que a roubou. Mas há justificações para meter coisas ao bolso. E diferentes nomes para usar nas várias circunstâncias, conforme o estatuto social e político dos autores. Uma senhora bem vestida que meta na carteira um perfume, numa loja elegante, distraiu-se – e um engano toda a gente tem. Uma mulher que o faça num supermercado suburbano comete um furto que a sociedade não pode permitir. Esta é a base da sociedade e querer subvertê-la é fomentar o caos e a anarquia. E o sistema judicial existe para garantir a sua subsistência.

Quando um deputado rouba alguma coisa também não se trata exactamente de roubo-roubo, como se fosse um maltrapilho qualquer. Pode dizer-se que o deputado se apropriou, tirou ou “roubou” e “furtou”, mas entre aspas.

Quando o deputado do PS Ricardo Rodrigues roubou dois gravadores a dois jornalistas fê-lo com um hábil golpe de mão, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida, mas esclareceu que tinha “tomado posse” deles, como teria feito se se tratasse de um cargo oficial. A hierarquia do partido compreendeu aliás o seu gesto e desculpou-o, pois foi provocado pela “violência psicológica insuportável” a que foi submetido pelos jornalistas que o entrevistavam.

Ricardo Rodrigues não roubou os gravadores para os vender na Feira da Ladra e sacar vinte euros para comprar umas ganzas. Isso seria escandaloso. Fê-lo apenas para ver se impedia a publicação de uma entrevista que abordava temas que não lhe convinham. Tratou-se de um pequeníssimo atropelo à liberdade de imprensa e de informação, mas do mais puro colarinho branco. Não é furto, mas apenas um acto irreflectido, compreensível, já esquecido. E o seu passado não é para aqui chamado porque não é disso que estamos a falar. Nem o facto de o deputado ter mentido ao Parlamento, à imprensa e ao país sobre o que fez aos gravadores. Querer que um homem como Ricardo Rodrigues obedeça aos mesmos princípios éticos que os outros deputados é uma afronta. Francisco Assis disse-o melhor que ninguém: ninguém pode julgar Ricardo Rodrigues.

2. As medidas de contenção das prestações sociais recentemente apresentadas pelo Governo no âmbito do PEC têm de ser lidas à luz da mesma lógica, que distribui direitos e deveres de acordo com os méritos das pessoas: seria impensável pedir a pessoas de posses, a pessoas de qualidade, a pessoas daquelas de que o país não pode prescindir, que pagassem a crise provocada pelos actos de contabilidade criativa que os corretores e os banqueiros fizeram nos últimos anos e pelos buracos orçamentais criados para colmatar os défices dos bancos. Como o seria combater a fuga de capitais para os paraísos fiscais, ou a fuga ao fisco de pessoas que não sejam trabalhadores por conta de outrem. Tratar-se-ia de uma violência psicológica insuportável.

Os pobres já estão habituados a poupar e a apertar o cinto e quase não vão notar a diferença. Os ricos não o sabem fazer. Fá-lo-iam mal. Os desempregados, os recipientes do rendimento mínimo, os trabalhadores precários são peritos na arte de rapar o tacho. Fazem-no há anos, há gerações, há séculos. E atingiram uma eficiência que um banqueiro nunca conseguiria. E, em alturas de crise, temos de apostar na eficiência, temos de entregar a cada um as tarefas que melhor desempenham. Alguém pensa que um gestor de uma grande empresa poderia viver com 1000 euros? Nem vale a pena tentar. Um pobre consegue alimentar uma família de seis com 800 euros. Sabe fazer canja de miúdos de frango e um guisado com um osso de vaca, sabe quais são os medicamentos da receita que não precisa de aviar, conhece as lojas onde pode comprar sapatos e sabe remendar a roupa. Ninguém o faz tão bem como os pobres. É o talento da ralé. Por que se há-de tentar que sejam os ricos a pagar mais impostos e a gastar menos? (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, maio 12, 2010

As nove virtudes teologais

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 12 de Maio de 2010
Crónica 19/2010

Isto não é uma campanha de publicidade para pasta de dentes. Isto tem de ser mesmo verdade

Confesso que não percebo a campanha “Foi o Pai que me ensinou”, que está por todas as ruas para comemorar a visita papal. Sei que este Pai se escreve com maiúscula porque foi assim que a Agência Ecclesia escreveu no despacho que anunciava a campanha. Pelos mupis e pelos cartazes não se pode saber porque está tudo em maiúsculas.
As notícias que li sobre a campanha falavam do slogan como se fosse a coisa mais evidente do mundo e não explicavam que pai era aquele. Imagino que alguns dos jornalistas que estiveram na conferência de imprensa onde a campanha foi apresentada eram católicos praticantes e perceberam logo tudo e que os outros tiveram vergonha de perguntar para não lhes chamarem ateus, mas a verdade é que eu não sei de que pai estão a falar.
Do Pai Eterno? Do pai, daquele que não costuma precisar de maiúscula? Do pai espiritual? Do Papa?
Se é do Pai Eterno, é inquestionável que foi ele que ensinou tudo isto não só aos nove protagonistas da campanha, mas também a todos nós, porque também criou todas as aves do céu e todos os peixes do mar, mas será mesmo ele? E se fosse ele porque é que fariam esta campanha para a visita do Papa? Será uma homenagem aos pais, tipo Dia do Pai católico, para sublinhar a importância das figuras tutelares masculinas no ensinamento da virtude, para contrabalançar um pouco os escândalos da pedofilia? Uma campanha pelo pai espiritual não parece ser, porque a figura está em desuso.
É provável que seja o Papa, porque a campanha foi concebida como uma homenagem prestada ao ilustre visitante e porque sei que os verbos que a compõem (“Partilhar foi o Pai que me ensinou”, Amar, Rezar, Acreditar, Confiar, Esperar, Perdoar, Escutar e Festejar) foram extraídos dos textos de Bento XVI, mas tive as minhas dúvidas, porque me pareceu algo excessivo. Será que oPapa  teve de facto esta influência naquelas nove pessoas que dão a cara pela campanha? Tanto quanto sei (a campanha tê-lo-ia dito) nenhuma destas pessoas privou com o Papa. Foi Bento XVI que ensinou aquele simpático casal de namorados a amar? Foi ele que ensinou aquela senhora a partilhar? E aquele jovem a confiar? E os outros todos? Apenas pelo seu exemplo à distância e pelos seus escritos e pelos seus sermões? Que lindo!
Ou será uma confusão propositada entre Deus e o Papa, para não sabermos muito bem de que Pai se fala, uma jogada de “culto da personalidade”, um “desvio”, como se diria se fosse na política?
O problema é aquele pronome, aquele “que”, que indica este pai como o responsável, o único responsável pela aprendizagem de todas estas coisas tão importantes. Não terá havido mais alguém que tenha ensinado estas pessoas a confiar e a escutar e a partilhar? Não terá havido um pai? Um daqueles pais normais, sem maiúscula? E não terá havido uma mãe, também normal, também sem maiúscula? E não terá havido um amigo, uma namorada, um professor, um marido, um desconhecido, um livro, um poema, um olhar, uma paisagem, um quarteto de Brahms, uma Vista de Delft? Tudo isso junto? Foi mesmo o Papa que? Deve ter sido, porque isto não é publicidade para pasta de dentes, isto tem de ser mesmo verdade.
Ou terá sido um descuido? Alguém que deixou cair um acento no Papa e o transformou em papá?
Se o Papa tivesse só ajudado a ensinar e tivesse deixado lugar para os lírios do campo ensinarem alguma coisa, era mais plausível, mas assim... se foi o Papa que, é mais difícil.
Se alguém me garantisse que foi o seu pai que o ensinou a fazer o nó da gravata e mais ninguém, isso parecer-me-ia credível. Mas para as outras coisas em geral há mais pessoas a contribuir. E livros e tal. Mas se este é o Papa, não será que um pai de letra pequena se poderá entristecer de ver chamar pai a outro? Ou será que estão mesmo a falar do pai de letra pequena?
Claro, deve ser isso! E a razão por que se faz esta campanha de glorificação do pai é porque... porque... não consigo lembrar-me de nenhuma razão especial para fazer isso com o pai e não fazer a mesma coisa com a mãe, mas pode ser que isto esteja nos planos da Igreja para os próximos dias. É isso com certeza. É isso. Estou ansioso por descobrir o que é que a mãe ensinou. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, maio 05, 2010

O maravilhoso mundo do PowerPoint

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 5 de Maio de 2010
Crónica 18/2010
 
O programa da Microsoft é óptimo para apresentar listas. O problema é que, na vida, nem tudo são listas

Na semana passada, o New York Times publicou um esquema que representava a estratégia americana no Afeganistão. O desenho, que fazia parte de uma apresentação feita aos líderes militares ocidentais no país, e que já tinha sido revelado pelo correspondente da NBC em Cabul no final do ano passado, representa as várias forças no terreno e todos os factores que interferem na situação política e militar. Tudo aquilo é depois ligado por um emaranhado de setas que, em teoria, mostra a relação entre todos os intervenientes e torna evidente o que se passa e o que se pretende (http://msnbcmedia.msn.com/i/MSNBC/ Components/Photo/2009/December/091202/091203-engelbig- 9a.jpg).
A imagem é incompreensível. “Quando conseguirmos perceber este diapositivo, vamos ganhar a guerra”, foi o comentário do general Stanley A. McChrystal, líder das forças da NATO no Afeganistão, citado pelo NYT.

O esquema, que foi comparado a um prato de esparguete, é apenas um dos muitos exemplos da praga chamada PowerPoint, um programa de gestão de apresentações da Microsoft que há anos vem poluindo o mundo político e científico, as apresentações públicas e as nossas escolas com o que de pior o marketing tem para mostrar.
As limitações do PowerPoint são conhecidas há muito.

O seu maior crítico é o designer Edward R. Tufte, que, em 2006, publicou o fascinante e demolidor The cognitive style of PowerPoint, que se debruça nomeadamente sobre a responsabilidade do uso do PowerPoint na explosão do vaivém Columbia em 2003. Mas a ferramenta continua a ser cada vez mais usada e a espalhar o seu veneno pelos auditórios de todo o mundo.

É verdade que a responsabilidade de tudo isto não é do PowerPoint em si mas do uso que as pessoas fazem dele. É possível fazer um bom uso do programa e todos nós já tivemos oportunidades de o constatar. Só que o PowerPoint e os seus templates convidam os utilizadores a fazer apresentações onde a racionalidade está rarefeita e cujo único fito parece ser hipnotizar audiências. Um dos vícios mais perniciosos que o PowerPoint generalizou foi a utilização de listas de itens com bullets – aquelas bolinhas pretas que aparecem à frente das frases. Eu adoro listas.

Só que as listas têm um problema: são óptimas para levar para o supermercado mas não são o melhor método para apresentar uma argumentação complexa. E é isso que o PowerPoint tem tendência a fazer: suprime a argumentação em favor de listas de tópicos, põe todos os argumentos ao mesmo nível, apaga o contexto que dá sentido a um raciocínio, faz desaparecer as dúvidas e as interrogações, reduz uma situação complexa a um esquema incompreensível e, o que é o pior de tudo, dá-nos a ilusão de que as coisas são mais claras do que são de facto, estimulando o uso de sound bites em vez de argumentação e de imagens em vez de discurso. Tufte dizia que o programa sacrifica o conteúdo à forma e transforma uma sessão de informação numa sessão de vendas e os apresentadores em publicitários.

Um dos militares citado pelo NYT é mais directo: “O PowerPoint torna-nos estúpidos”.
Há tantos problemas à volta do uso do PowerPoint que esta página seria pequena só para fazer a lista (e uma lista, mesmo com bullets, não serviria para muito) mas fiquemo-nos por dois dos mais terríveis: de ferramenta de apresentação, o PowerPoint está a passar a ferramenta de comunicação em geral e é usado, por exemplo, para transmitir ordens no meio militar. O problema? As ordens parecem claras, mas não são. Outro problema: o PowerPoint está a transformar-se na ferramenta de escolha para apresentação de trabalhos escolares, com as suas listas de tópicos e belas imagens a substituir o velho texto onde se podia descascar uma ideia, explicar coisas detalhadamente e até (como dizer?) reflectir em voz alta. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, abril 27, 2010

Em defesa da honra do convento

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 27 de Abril de 2010
Crónica 17/2010
 
O PSD preferiu dar um tiro no pé a correr o risco de defender o Parlamento dos ataques populistas

O conselho de administração da Assembleia da República aprovou finalmente na semana passada o pagamento das viagens semanais da deputada Inês de Medeiros a Paris – a cidade onde reside, apesar de ter sido eleita pelo círculo eleitoral de Lisboa. A decisão – tomada depois de o conselho de administração e o presidente do Parlamento terem empurrado um para o outro a decisão e depois de pedido um parecer jurídico – não é mais que a aplicação do critério utilizado na Assembleia da República relativamente aos deputados que residem nas regiões autónomas e a quem o Parlamento também paga viagens semanais à sua zona de residência.

A decisão é razoável e, o que é igualmente importante, resulta da aplicação de um critério – o que significa que respeita a indispensável equidade no tratamento dos deputados.
A decisão constitui um caso “único”, mas não é uma “excepção” a qualquer regra.
Apesar disso, a decisão foi criticada pelo PSD e foi recebida com um coro de violentos protestos na webosfera, com os habituais comentários sobre a desonestidade e o parasitismo dos deputados. Um inquérito on-line feito neste jornal dava ontem 7918 votos contra o pagamento a Inês de Medeiros (93,7 %) e 536 a favor (6,3%).

O que é surpreendente é como, perante o coro de protestos quase unânimes do género “só lá estão para nos roubar”, não haja ninguém que apareça para defender a honra do convento onde hoje funciona o Parlamento.

Como é surpreendente o evidente mal-estar do próprio presidente do Parlamento perante o desenrolar do caso.

Como é surpreendente o comportamento do respeitável e ministeriável PSD que, por razões de politiquice partidária, preferiu dar um tiro no seu pé parlamentar (o seu pé esquerdo) a correr o risco de defender a instituição dos ataques populistas de que foi alvo.
É evidente que, perante uma situação inédita como foi esta (em geral os eleitos pelo círculo X moram no círculo X ou no Y, ali ao lado, e não noutro país) se deve tentar encontrar e aplicar o mesmo critério usado em situações semelhantes. Foi isso que foi feito. É igualmente evidente que, se se considera que as regras actuais são omissas num ponto importante (como agora aconteceu) se deve colmatar essa lacuna para evitar repetições de uma situação que se considera indesejável. O Parlamento deve assim clarifi car as suas regras e pode passar a considerar expressamente que os deputados vivem sempre nos círculos pelos quais foram eleitos, mas essa medida apenas pode entrar em vigor após as próximas eleições, já que as regras do jogo não se devem alterar a meio.
Seria refrescante que alguém viesse dizer em público que as viagens de Inês de Medeiros não representam nada em termos fi nanceiros e que são de facto irrelevantes.

Porque é verdade. Como o seria se alguém viesse dizer convictamente que tem de haver regras e equidade e que sem isso não pode haver justiça.

Como o seria também que alguém viesse dizer em voz alta que os deputados ganham pouco, que as suas ajudas de custo são justas e que o que nos devia preocupar não são os seus salários elevados mas a sua lealdade à causa pública, a qualidade do seu trabalho dentro e fora do Parlamento, a sua independência de interesses privados, se o seu comportamento honra o compromisso que assumiram para connosco de defender aquilo que acreditam ser o melhor para a República. Do que precisamos é de melhores deputados e não de deputados mais baratos.

Defender este último objectivo é garantir que eles serão de facto maus – não só porque ganham pouco, mas porque a poupança na sua remuneração corresponde a uma menorização da sua actividade, ao não reconhecimento de dignidade ao seu estatuto.
Quando o Parlamento tem vergonha a democracia está em risco. Porque ou tem razões para isso, o que lamentável, ou não as tem mas falta-lhe a coragem para defender as opções menos populares que tem de tomar. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, abril 21, 2010

As batatas podres do Goldman Sachs

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 21 de Abril de 2010
Crónica 16/2010

Ser pago a peso de ouro para enganar os consumidores e os investidores

O processo levantado pela Securities and Exchange Commission (SEC) americana ao todo-poderoso banco Goldman Sachs, acusando-o de fraude, tem a virtude de refrescar na memória do público os procedimentos seguidos no mundo da finança que deram origem à crise dos últimos anos.

O prémio Nobel de Economia Paul Krugman concluía a sua última crónica no New York Times, dedicada à iniciativa da SEC, com estas palavras: “O facto é que uma grande parte da indústria financeira se transformou num racket – num jogo onde uma mão-cheia de pessoas são pagas principescamente para enganar e explorar os consumidores e os investidores. E, se não punirmos severamente estas práticas, o racket vai continuar a ser a regra”.

O Goldman Sachs não só convenceu uma quantidade de clientes a comprar milhares de milhões de dólares de produtos financeiros que sabia terem um valor e rendimento duvidosos, como apostou na queda do valor dos próprios produtos que estava a vender. Ou seja: o banco ganharia tanto mais dinheiro quanto pior fosse a qualidade dos produtos que vendia (baseados muitos deles em dívidas incobráveis). Isto não faria levantar o sobrolho de indignação a nenhum especialista de finanças se não se juntasse a isto a acusação de que o Goldman Sachs terá feito tudo o que podia para incluir nestes pacotes títulos “tóxicos” de valor virtualmente inexistente. É isto que escandaliza os analistas, já que a aposta na queda dos títulos que se vende é, segundo parece, prática corrente e legal. E não parece preocupar ninguém o facto de haver uma pequenina contradição entre o facto de que para vender seja necessário garantir a qualidade do produto e para ter lucro seja necessário ter a garantia de que o produto não tem qualidade.

O Goldman Sachs admitiu no passado que agiu de forma “claramente errada” (palavras do seu CEO, Lloyd Blankfein) mas defende-se agora dizendo que os investidores a quem vendeu os seus títulos tóxicos sabiam o que faziam. E, se o banco ganhou com a perda dos outros... é assim que funciona o mercado.

O êxito do processo levantado pela SEC está longe de estar assegurado. O que, porém, se pode dizer desde já, é o facto de a actividade do Goldman Sachs (e de outros bancos que neste momento não estão na berlinda mas fizeram a mesma coisa) ser aos olhos de qualquer cidadão de uma absoluta imoralidade.

De facto, vender algo (sejam batatas ou títulos) é um gesto que tem de transportar consigo um aval, algum grau de responsabilização pelo que se vende. Não se pode permitir que, quando mais podres sejam as batatas que se vendem, mais dinheiro ganhe o vendedor. E permitir que se façam legalmente fortunas à custa dos incautos, dizendo que deviam inspeccionar as batatas antes de as comprar, não é mais que legalizar o conto do vigário. E não falemos sequer dos bónus pagos aos gestores de todas estas empresas financeiras nos últimos anos, em recompensa pelas malfeitorias que levaram a cabo, nem do comportamento inqualificável das empresas de rating, que classificaram como boas dívidas que sabiam incobráveis.

Pode dizer-se, como diz o Goldman Sachs, que quem comprou os seus títulos conhecia o risco. Só que, mesmo que isso fosse assim, a verdade é que esses compradores acabaram por distribuir esse risco por milhões de contribuintes que não escolheram o investimento, não foram informados sobre ele e tiveram de pagar dos seus magros bolsos, coercivamente, os milhões de quem ganhou.

Os esforços da SEC poderão cortar alguns dos ramos mais podres da árvore das finanças, mas a questão de fundo é que há algo de profundamente imoral na sua lógica. E esse algo deveria ser profundamente discutido em vez de continuarmos a dizer que os banqueiros e os corretores são essenciais à economia e que devemos por isso continuar a louvar o bom gosto das casas que compram com o dinheiro que nos roubam. (jvmalheiros@gmail.com)