terça-feira, março 16, 2010

Isto é um anúncio, um anúncio, anúncio, anúncio, anúncio…

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 16 de Março de 2010
Crónica 11/2010
 
A publicidade on-line terá mesmo de repetir todos os erros da publicidade noutros suportes?

Por que razão pensarão os anunciantes que a melhor maneira de fazer publicidade aos seus produtos é serrazinar até à medula os leitores e os espectadores com imagens que surgem inopinadamente à frente dos seus olhos? Por que razão continuarão a pensar que a melhor maneira de convencer os consumidores da absoluta necessidade que eles têm dos seus excelentes produtos e dos seus inovadores serviços é interrompê-los sempre que eles querem ler uma notícia num site na Web ou ver um programa na televisão? Por que razão pensarão que interromper uma pessoa, impedi-la de fazer o que ela quer fazer, forçá-la a ver algo que não quer ver e a ouvir algo que não quer ouvir, é a melhor forma de fazer publicidade? O que será que eles ainda não perceberam?

Há quem diga que há uma boa razão para esta prática: ela funciona. No entanto, há outros critérios que gostamos de ver aplicados pelas empresas para além da eficácia.
Afinal, o Zyclon B revelou-se uma forma extraordinariamente eficaz de liquidar seres humanos em massa e não é por isso que ela passou a integrar os manuais de procedimentos das empresas modernas. A verdade, porém, é que estes métodos agressivos e repetitivos, a que o guru Seth Godin (Seth's Blog) chama apropriadamente “marketing de interrupção”, não são eficazes para chamar a atenção e muito menos são eficazes ou eficientes para despertar a atenção, o interesse ou o desejo dos futuros compradores e é por isso que os anunciantes recorrem a estas doses maciças – tentando fazer através da manipulação bruta o que não conseguem fazer através da criatividade.

Na televisão, por exemplo, os marketeers descobriram essa subtil forma de chamar a nossa atenção que consiste em subir o volume dos anúncios para um nível tal que conseguiram criar o reflexo condicionado de carregar no botão mute do comando mal surge a ficha técnica do filme que estávamos a ver. Há anos que só por descuido ouço o som de um anúncio e nunca por muitos segundos.

Penso que muitos outros farão o mesmo. E, no entanto, a publicidade poderia ser algo interessante, se soubesse considerar os seus alvos como seres pensantes e não como carneiros lobotomizados com cartão de crédito.
Godin lançou em 1999 o seu livro Permission Marketing, onde alertava os anunciantes e publicitários para o risco do “marketing de interrupção” (as pessoas não gostam, irritam-se, não compram e a tecnologia oferece-lhes cada vez mais meios para contornar a publicidade) e onde defendia o advento do “marketing de permissão”.

Neste modelo, os consumidores declaram o que lhes interessa, a publicidade que estão interessados em receber e de que forma. Ainda que os números de pessoas atingidas sejam menores, como se trata de clientes potenciais, o seu valor para as empresas é maior. E a liberdade (os anunciantes que não se lembrem do significado do conceito podem fazer uma busca no Google) dos utilizadores é preservada.

A Web oferece formas relativamente simples de concretizar estas práticas de opt in na publicidade – como fazemos quando compramos uma revista de moda ou de informática, cheia de anúncios, mas sem os quais a revista não teria para nós o mesmo valor. O que é lamentável é que, com as potencialidades que a Web abre a uma publicidade mais criativa e mais respeitadora dos direitos dos consumidores, os anunciantes e os “criativos” continuem a oferecer-nos a mesma publicidade invasiva de sempre, tapando as notícias que queremos ver e cobrindo as páginas que queremos ler, intrometendo-se malcriadamente à nossa frente e gritando na nossa cara.

E isto quando não optam pela escrita de artigos falsamente publicados como informação nos jornais ou pela “colocação de produtos” nas mãos dos personagens dos filmes que mostramos aos nossos filhos. A publicidade gosta de se apresentar como um dos exemplos cimeiros de criatividade na nossa sociedade. Será que isto é o melhor que consegue fazer? (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, março 10, 2010

Chuva

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 10 de Março de 2010
Crónica 10/2010

O vulto que eles acabam de encharcar semi-distraidamente pertence à categoria dos sub-humanos: um peão

São só umas centenas de metros, um quilómetro no máximo, talvez um pouco mais. Uns trezentos metros pela Alameda da Universidade, depois é só atravessar o Campo Grande e seguir em frente pela Avenida do Brasil. A chuva não dá mostras de querer parar, não há autocarros nem Metro neste trajecto e não vale a pena sonhar que vai passar um taxi livre. As alternativas são esperar num portal por uma aberta que pode não vir nunca ou meter-me à chuva, o que não me assusta muito, protegido como estou com o meu impermeável, uns sapatos de inverno com provas dadas e o meu guarda-chuva. E não chove tanto como isso. Chove, mas não é uma tempestade. É uma chuva que ainda não parou verdadeiramente desde a manhã mas não é um dilúvio. E para que serve um impermeável e um guarda-chuva se não para andar à chuva?

Pelo sim, pelo não vou deitando o olho aos carros que descem a alameda não vá aparecer o taxi improvável. A rua está coberta de água e as sarjetas fazem aquela coisa lisboeta que é golfar água suja aos borbotões em vez de a engolir, como deviam.

Passa um carro, numa velocidade excessiva, que me lança para as pernas o manto de água que cobria o pavimento e me encharca até aos joelhos. Antes que tenha tempo de me afastar do lancil e fugir a novo ataque passa outro carro e outro, seguindo o mesmo rasto e com a mesma determinação, que acabam de me encharcar. As imprecações não me servem de alívio. Estou molhado até ao tutano e os sapatos não chegaram para me proteger os pés.

Pode parecer difícil imaginar o espírito da pessoa que está ao volante e que nem consegui ver, através da chuva e dos vidros molhados e embaciados, mas não é. Para estes motoristas apressados, ao seco, dentro dos seus carros, o vulto que avança pelo passeio e que eles acabam de encharcar semi-distraidamente pertence à categoria dos sub-humanos: um peão.

É claro que poderiam ter reduzido a minha molha se reduzissem a velocidade, mas a Câmara é que deve zelar pelo estado das vias, garantir que os esgotos não se entopem, que as ruas não se inundam, que estes charcos e estas poças e estes lagos não se formam. Como a Câmara não faz isso, não se pode evitar molhar os peões e se não se pode evitar molhar os peões... não vale a pena tentar. E se tentássemos mesmo não os molhar tínhamos de andar a passo de caracol. Já bem chega o atraso com que vou chegar por causa da chuva. E eles já sabem: quem anda à chuva, molha-se. Já que estão molhados, coitados, ficam um bocado mais molhados. Eles aliás não se importam tanto como nós porque esta gente é muito resistente. Se se importassem não andavam a pé, não era? Andavam de carro, não era? E se não tivessem carro iam logo a correr comprar um carro.

Na paragem de autocarro a meio do Campo Grande estão meia dúzia de pessoas, tão molhadas como eu e pela mesma causa: a água da rua, não a do céu. Os carros passam em contínuo e molham-nos em contínuo.

Metade dos carros reduz a velocidade, para que o leque de água só salpique os pés dos peões. Mas muitos percebem que não vale a pena ter grandes cuidados porque afinal eles até já estão molhados e passam à vontade. É verdade que há uns olhares furibundos e gritos de protesto quando passa um carro mais petulante, mas como ninguém pega numa pedra da calçada para lhes rebentar com o vidro traseiro não há azar. E o anonimato protege os audazes, com esta chuva e os vidros molhados. Se lhes víssemos a cara talvez se inibissem um pouco, mas tudo o que há lá dentro é uma coisa disforme, sem olhar.

Carrinhos utilitários ou de alta cilindrada comprazem-se no mesmo desporto displicente, comungando dessa cumplicidade de classe que une os que não precisam de passar uma hora à chuva numa paragem de autocarro com os pés molhados, os sacos das compras molhados, o guarda-chuva molhado encostado ao corpo, os miúdos desesperados de cansaço e frio, as mochilas molhadas, a alma enxovalhada e a cabeça a sonhar com uma pedra da calçada. Não há nada mais triste que estar à chuva numa paragem de autocarro a ser regado pelos carros que passam, indiferentes. Não há nada de Gene Kelly num dia de chuva em Lisboa. (jvmalheiros@gmail.com)

sábado, março 06, 2010

Web: milhares de revoluções nos últimos vinte anos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 6 de Março de 2010
Suplemento P2 (número especial dedicado aos 20 anos do Público)

A Web tem vinte anos. Nestes vinte anos, não houve quase nenhuma actividade humana que não tenha sido tocada por ela e, em muitos casos, revolucionada por ela. A sociedade que emergiu desta revolução tecnológica é radicalmente diferente da que existia há vinte anos. Mas a sociedade que a Internet parece desenhar para o futuro é uma sociedade centrada no controlo e onde as liberdades individuais podem vir a ocupar um papel secundário.

Em cada minuto que passa, há vinte horas de vídeo que são colocadas nos servidores do YouTube. Mil e duzentos minutos de vídeo em cada minuto. Se quiséssemos reunir uma equipa capaz de visionar o material que lá fosse colocado de hoje em diante, teríamos de contratar mais de 5.000 pessoas. E a equipa teria de ir crescendo.

E, em cada dia que passa, mais de mil milhões de vídeos do YouTube são descarregados e vistos por utilizadores em todo o mundo. Vídeos que vão desde uma interpretação da 6ª Sinfonia de Tchaikovsky pela Filarmónica de Berlim a um clip de um jovem sul-coreano no seu quarto a arrancar da guitarra eléctrica o cânone de Pachelbel. Ou um vídeo do cozinheiro britânico Jamie Oliver a explicar as maneiras de cozinhar arroz. Ou um documentário sobre as eleições birmanesas deste ano, filmado por activistas que combatem o regime.

O YouTube só existe há cinco anos, mas transformou-se num ponto de encontro mundial, de todas as línguas, de todas as imagens, um desses sítios indispensáveis onde vamos ver notícias, ouvir música, aprender receitas, investigar novas ideias, conhecer pessoas, estudar história, divertirmo-nos... E é apenas um dos milhões de sites que existem no mundo.

Há vinte anos, quando o PÚBLICO dava os primeiros passos em Lisboa e no Porto, a Web também dava os seus primeiros passos em Genebra, no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), pela mão do engenheiro britânico Timothy Berners-Lee. A certidão de nascimento da Web tem a data de Dezembro de 1990, mas quando os fundadores do PÚBLICO faziam as suas primeiras reuniões, na primavera de 1989, já Berners-Lee e o seu amigo belga Robert Cailliau congeminavam as primeiras versões do que viria a ser a WWW.

Como era antes?

Nada mudou tanto os vinte anos que se seguiram como esta coisa, que permitiu que toda a gente que tivesse um computador ligado a uma linha telefónica folheasse a informação armazenada em milhões de bases de dados e contactasse centenas de milhões de pessoas no mundo. E tudo com mais facilidade do que quando programávamos os nossos gravadores de vídeo para gravar um programa na televisão nos anos 90.

A Web não fez uma revolução. Fez muitas revoluções. E não há muitos paralelos na história em termos de impacto – podemos pô-la a par do computador, da televisão, do telefone e do automóvel, para ficarmos pela era industrial.

Consegue identificar uma área que não se tenha tornado irreconhecível nos últimos vinte anos devido à Web? Lembra-se como eram os jornais ou as televisões antes da Web? Como é que os estudantes faziam os seus trabalhos? Como é que se faziam negócios? Como é que se procurava informação? Como é que se organizavam as férias, se compravam livros, se fazia política, se sabia o que se passava no mundo, se contactavam os amigos, se organizava um movimento de cidadãos, se fazia a guerra, se aprendia línguas, se fazia medicina, se dava aulas?... Muitos negócios desapareceram e outros vivem ainda o trauma da reestruturação. Paralelamente, negócios que ninguém tinha sequer imaginado em 1990 explodiram – com uma empresa de pesquisas gratuitas na Web a içar-se para os píncaros da valorização bolsista, com uma empresa de leilões online como a Ebay a facturar 8500 milhões de dólares no ano passado, com a economia a crescer com base em empresas que fornecem serviços grátis, seguindo modelos que provocariam um enfarte a qualquer economista há vinte anos.

Sempre no ciberespaço

Hoje qualquer adolecescente encontra penfriends nos países que quiser, segundo os critérios de gosto que preferir, e qualquer pessoa pode envolver-se num videochat com interlocutores escolhidos aleatoriamente de todo o mundo.

Lembra-se do romance Neuromante de William Gibson, de 1984? Lembra-se daquela coisa chamada “ciberespaço” que ninguém percebia muito bem o que era porque as pessoas estavam lá mas não estavam mesmo lá? Hoje vivemos aí. E os nossos filhos vivem ainda mais aí.
Estou no ciberespaço enquanto escrevo este artigo e vou enviá-lo para o jornal pelo ciberespaço e você vai lê-lo provavelmente no ciberespaço e é aí que vai ficar arquivado. A Web é a grande biblioteca sonhada de Borges, a grande Babel, mas é muito mais, é o sítio onde conversamos, onde trocamos fotografias dos nossos filhos, onde fazemos negócio e nos divertimos. E o número de pessoas que sente que não está verdadeiramente viva quando não está ligada tem crescido. (Você nunca sentiu isso?) Um dia este ciberespaço será o nosso principal interlocutor – não o meio da comunicação, nem a mensagem, mas o interlocutor, uma identidade difusa muito parecida com Deus ou com o Diabo – e contar-nos-á as coisas interessantes que estão a acontecer, far-nos-á sugestões, talvez críticas às nossas escolhas (“Porque é que vais comprar esse livro? Já sabes que não o vais ler!”).

Quem fiscaliza os electrões?

Por agora deixámos de precisar de ter as enciclopédias em casa porque elas estão na Web, deixámos de precisar de comprar jornais porque eles estão na Web, deixámos de precisar de ir a todas as aulas porque elas também estão na Web, deixámos de fazer imensas reuniões porque podemos fazê-las na Web e deixámos de comprar DVD de filmes e CD de música e de ver televisão e de comprar livros porque eles também estão na Web. E agora vamos deixar de comprar software (lembra-se de comprar software?) porque ele está na Web e compra-se e usa-se de outra forma. E um dia o computador estará ele próprio na Web e só precisaremos de um ecrã táctil (ao mesmo tempo unidade de input e de output) que será a parede da minha sala, a manga da minha camisa, a palma da minha mão. Para quê ter um fio a ligar o meu teclado ao meu CPU quando posso ter ar wireless a ligar a parede da minha sala ao ciberespaço, quando o ar é todo ele ciberespaço?

Quando contarmos aos nossos netos que dantes se comprava (por um fortuna!) um Word que se instalava no nosso computador para podermos escrever, eles vão olhar-nos como se lhes contássemos que no nosso tempo cada pessoa tinha em casa um tear mecânico para fazer todas as manhãs a camisa que vestia antes de sair à rua.
Como será regulado este mundo? Como será esta economia onde tudo é comunicação, fluidez, instantaneidade, onde as fronteiras entre todas as entidades e as pessoas se esbatem, onde cada um de nós não viverá uma fracção de segundo sem transação tecnológica e económica? Teremos facturas? Quem fiscalizará o ar e os electrões e os fotões? Se o mundo de antes da Web já se tornou arcaico, o mundo de hoje já nos parece arcaico hoje mesmo, habituados como estamos a olhar a paisagem pelas janelas da frente do cockpit.

As coisas que falam

A actual complexidade da Web seria considerada ingerível há uma dúzia de anos e no entanto ela move-se. Mas estamos só no início e no início era o Verbo. Agora, este mundo de palavras, de documentos, de imagens, de trocas ainda sentimentais e eminentemente entre humanos, começa a ser invadido pelo tsunami dos dados das coisas. A Internet das Coisas é “the next big thing”. O que é a Internet das Coisas? Um mundo onde todas as coisas falam com todas as coisas. Onde cada objecto está dotado do seu dispositivo identificador, é capaz de dizer qual é o seu eu e a sua circuntância, a sua história, a sua localização, de identificar os seus vizinhos, de dizer de onde vem e para onde vai.

Pesadelo? Sim, mas não é um sonho. O seu carro tem uma coisa destas no pára-brisas para atravessar as portagens sem parar e vai ter outro na matrícula para isso e talvez muito mais. E as lojas têm coisas destas nos seus produtos para evitar que você as roube, que fazem soar um alarme quando ultrapassam a porta. Todos os fabricantes de seja o que for usam estes dispositivos, chamados RFID, identificadores de radio-frequência, e os que não os usam querem usá-los. São óptimos para a gestão de stocks, para aumentar a eficácia do trânsito de produtos. Um contentor carregado de peças de roupa passa ao pé de um detector e aparece num monitor o tipo, modelo, número, cor, padrão e dimensão de cada artigo que lá está dentro. Há um fabricante de roupa interior que tem RFID em todos os produtos, o que lhe permite dizer, quando você entra numa loja: “Então, está a gostar dessas boxers verdes que traz vestidos e que comprou em Abril do ano passado na nossa loja de Vila Nova de Gaia?”

Um dia, os seus boxers verdes poderão aceder à Internet sem lhe dizer e o fabricante saberá por onde eles andam. Não é só o seu carro que vai dizer onde está, nem só o seu telemóvel: são também as suas cuecas, os seus óculos e as suas chaves. Invasão da privacidade? “Claro que não”, clamam os fabricantes (das coisas e dos RFID), “eu só quero saber onde andam as cuecas que eu vendi, não o dono delas”.

Sensores em tudo

Os fabricantes de aviões e de automóveis usam cada vez mais destes RFID. O objectivo é que cada uma das peças de cada avião tenha um – até porque estes identificadores podem incluir também sensores de pressão, de temperatura, de outras coisas. O A350 XWB da Airbus que deve entrar ao serviço em 2013 tem mais de 5000 peças com RFID, que podem ir contando a sua história aos computadores de bordo durante o voo. Óptimo para a segurança.

A maldição é precisamente a segurança, a produtividade, a eficiência. Queremos saber em que rua e em que sentido e a que velocidade se está a deslocar cada carro para melhor gerir o trânsito. Queremos saber a que distância está cada carro do carro do lado, da frente, de trás para melhor evitar os acidentes. Queremos saber onde estão os nossos filhos e com quem para reduzir o risco de agressões, de fugas, raptos. Queremos saber quem comprou o quê e quando para podermos planear de forma mais racional os ritmos de produção. Queremos saber quem acende quantas luzes a que hora para poder adequar a oferta à procura, para reduzir emissões de CO2, para evitar desperdícios. Queremos pôr sensores em tudo quanto mexe para podermos monitorizar o mundo, para saber o que acontece em tempo real. Tudo boas razões. E a tecnologia hoje (ou amanhã) permite isso. O ciberespaço será o sítio onde todos estes dados se encontram e a rede será o único computador capaz de digerir estas vagas de dados e de extrair daqui informação com algum sentido.

Perda de privacidade

Para colher os benefícios da sociedade em rede é necessário participar, o empowerment do cidadão passa pela sua participação na rede, mas essa mesma participação implica uma redução do seu direito à privacidade, como faz notar há muito o sociólogo espanhol Manuel Castells.

A maior parte dos utilizadores não tem a sensação de perder algo por permitir que os seus dados sejam vistos por outrem, mas mesmo aqueles que têm consciência disso aceitam o trade off. Quando a rede se torna a realidade, não estar na rede é não existir. E se for preciso tornar transparente a nossa vida privada para estar na rede... é um preço que se tem de pagar. Afinal não temos nada a esconder, pois não? E, de qualquer forma, todos o fazem, por isso estamos protegidos: por um lado, passamos despercebidos no meio da multidão; por outro lado, estes fluxos de informação são simétricos, nós também podemos saber coisas sobre os outros.

Na realidade... não é assim. Há quem possa aceder a muitos dados e tenha meios para os processar mas a esmagadora maioria das pessoas não tem. A Autoridade Europeia para a Protecção de Dados está preocupada com os RFID, a Comissão de Protecção de Dados Pessoais portuguesa também, mas estas preocupações não provocam mais do que um soluço na avalanche. Os ganhos potenciais de eficiência são demasiado grandes para se poderem perder.

A tecnologia da eficiência

Quem se está a preocupar com estas questões dos direitos, da liberdade individual? A resposta curta: ninguém.

A tecnologia voa em êxtase consigo própria e o social arrasta-se atrás, gaguejando coisas que ninguém percebe, o chato da família.

Os especialistas juram que em todos os programas de desenvolvimento tecnológico relacionados com a Internet - europeus, asiáticos ou americanos -, há uma imensa preocupação com o “impacto social” das tecnologias.

Mas basta raspar com a unha para perceber que aquilo que é chamado “social” se refere quase sempre à economia e nunca ou quase nunca ao cidadão, ao indivíduo, a nós, às pessoas enquanto pessoas – não enquanto contribuintes, consumidores, clientes. “Desenvolvimento social” e “benefício social” são sempre expressões de código para “criação de emprego” ou “novos modelos de negócio”, produtividade, objectivos tecnocráticos.

Em quase todos os discursos sobre os novos produtos, os novos serviços, os novos projectos, ninguém se esquece de citar a necessidade de “respeitar a vida privada dos cidadãos”, porque é evidente que ela está em risco, mas a formulação é reveladora. O espaço privado, o indivíduo enquanto tal, aparece como algo que se tenta proteger do alcance da tecnologia, pela negativa: a tecnologia estará em todo o lado e terá o poder de fazer tudo menos “isto” e “aquilo”. O racional é que a tecnologia serve para produzir eficiência (mas não liberdade) e, por isso, a única forma de defender a liberdade é criar zonas de menor intensidade tecnológica, espaços de protecção da vida privada. Mas não seria possível desenvolver as tecnologias para servir as liberdades?

Conhecimento para quê?

Quem vai controlar esta massa de dados que se acumula? O ciberespaço já sabe muito sobre nós e amanhã vai saber tudo, com quase toda a gente a permitir a recolha dos seus dados pessoais sem estados de alma. Mas nem todos saberão ler essa informação. Uns sim, outros não. Há enormes desigualdades na distribuição deste saber.

Quem decidirá o que é lícito fazer com essa informação e o que não é? Quem conseguirá saber que informação existe e onde está? Apenas alguns. Paradoxalmente, nesta sociedade onde todos aceitam que “saber é poder”, a Web facilitou a difusão do saber, mas não melhorou a distribuição do poder.

Há uns anos, ainda podíamos sonhar que a sociedade do conhecimento seria um mundo de criadores, de pessoas sábias, onde todos teriam possibilidade de desenvolver as suas capacidades e gostos intelectuais, um mundo de bem-estar e ócio criativo, de disponibilidade universal dos frutos da mente, um mundo de cultura e de inteligência. E de liberdade, claro.

O futuro mundo das coisas inteligentes, onde a saúde será inteligente, as casas serão inteligentes, as ruas e os carros também, sem esquecer o supermercado e a escola e o emprego, é um mundo de controlo. Controlo no sentido técnico do termo, mas que rapidamente pode deslizar para o sentido político. Pensávamos que a Sociedade do Conhecimento era aquela em que teríamos a possibilidade de saber tudo sobre o mundo. Afinal, parece mais provável que ela vá ser a sociedade em que o mundo sabe tudo sobre nós.

E uma sociedade onde a liberdade faz cada vez menos parte da equação. Apenas a eficiência impera. Cabe-nos fazer com que a liberdade, com as suas indefinições, a sua aleatoriedade, a sua imprevisibilidade, a sua confusão e a sua insegurança, volte a conquistar o seu direito de cidade. (jvmalheiros@gmail.com)

quinta-feira, março 04, 2010

A informação é uma coisa que se partilha

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 4 de Março de 2010
Crónica 9/2010

O leitor fiel de um só jornal morreu e já não vai ressuscitar

O principal tema abordado nos artigos publicados sobre o último inquérito feito nos EUA pelo Pew Internet & American Life Project (http://www.pewinternet.org) foi o facto de a Web se ter tornado uma fonte de notícias mais importante para os leitores americanos do que os jornais em papel ou a rádio. O facto vinha-se fazendo anunciar há tantos anos que só os muito distraídos terão fi cado surpreendidos, mas o marco é sem dúvida importante e é inevitável que a vaga se vá estendendo a todos os outros países. A percentagem que diz usar a Web para se informar é de 61 por cento e a percentagem para rádio, jornais locais e jornais nacionais é, respectivamente, de 54%, 50% e 17%. A televisão, porém, ainda aparece à frente de todos os meios neste ranking.

O que mais ressalta deste estudo (Understanding the participatory news consumer) é, porém, o carácter social desta actividade de consumo de informação.

O que quer dizer “carácter social”? Várias coisas. Por um lado, reforçando aquilo que outros estudos têm apontado, as pessoas interrogadas indicam como primeira razão para o seu consumo de informação “poder falar com outras pessoas sobre o que se passa no mundo” e como segunda razão o facto de estar informado ser “um dever cívico”. Só depois aparece a motivação devido ao valor utilitário ou de entretenimento da informação.

Decorre daqui – e isto está longe de ser uma novidade mas é um factor quase sempre esquecido pelos media – que a informação é tanto mais apreciada quanto mais partilhada for.

O que é mais importante (e daí o título) é que o estudo diz que 75% dos consumidores de informação online dizem aceder a notícias através de links que recebem por mail ou através de redes sociais, enquanto 52% afirmam difundirem as notícias que acham interessantes através desses mesmos meios. Outros dados colhidos no estudo reforçam esta ideia de que o consumo de informação é eminentemente uma experiência social – com a partilha, reenvio, comentário e discussão de notícias a ocupar um papel cada vez mais importante.

Finalmente, o estudo do Pew Research Center reforça mais uma vez a morte da figura do “leitor fi el” de um título, com a esmagadora maioria dos interrogados (92%) a usar várias plataformas para aceder a notícias e a consultar vários títulos e sites por dia.

O que significa isto? Entre outras coisas significa que os sites que apostam (ou vão passar a apostar) na restrição do acesso aos seus sites mediante assinaturas fazem isso por sua conta e risco e vão provavelmente passar um mau bocado. Não me parece que um modelo de negócio baseado em assinaturas seja sempre insustentável, mas do que tenho a certeza é de que ele não será a regra e muito menos uma solução.

Fechar um conteúdo significa reduzir a sua participação nesta troca social que é, cada vez mais, a forma como consumimos informação e fazer isso é condená-lo à irrelevância.

Se não for fácil localizar a informação, pesquisá-la, citá-la, referenciá-la, enviá-la, lincá-la, comentá-la, inserila em outros meios (blogues, redes sociais) o seu valor de uso reduz-se drasticamente. As próprias redes sociais estão aliás a perceber isso, havendo uma tendência para a adopção de tecnologias que facilitem a troca de informação e o tráfego de utilizadores entre todas elas.

Num mundo onde a informação é cada vez mais um bem social, partilhável, quem recusa esse estatuto e se quer transformar num clube privado e selecto, morre. A informação deixou de ser uma mercadoria para ser um movimento, um diálogo. E quem não percebe isso devia ir vender batatas.

O que os media deveriam estar a fazer era pensar de que forma poderão viver neste mundo reforçando essa experiência social de partilha (e também de produção) de informação e não na forma como podem adiar a sua morte, trancando as portas face ao tsunami. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A beleza e a liberdade

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 23 de Fevereiro de 2010
Crónica 8/2010

Uma estratégia não é um texto: é uma ideia mobilizadora

Há cerca de vinte anos, no início do lançamento do PÚBLICO, fiz  uma entrevista ao italiano Riccardo Petrella, que foi durante dezasseis anos director do programa FAST (Forecasting and Assessment in Science and Technology) da Comissão Europeia e, com João Caraça e outros, um dos fundadores do Grupo de Lisboa, que produziu em 1994 o estimulante manifesto “Limites à competição”.

A questão central que se punha na entrevista era “a estratégia de desenvolvimento” que deveria ser adoptada por Portugal, que Petrella conhecia bem, e ele respondeu- me com a sua habitual exuberância: “Portugal devia apostar na beleza!”

A beleza! Algo que não estamos à espera de ouvir da boca de um economista, mesmo quando esse economista é também um católico de esquerda, um crítico da mercantilização do mundo e um militante da cidadania activa. Se fosse necessário provar que uma estratégia não precisa de estar encadernada em cem páginas A4, ou nesse mínimo denominador comum do raciocínio chamado PowerPoint, bastaria ouvir estas palavras: “Portugal devia apostar na beleza!”

Não é evidente o que pode decorrer daqui? Não é evidente que basta ir desdobrando cuidadosamente esta ideia para nos irem aparecendo os objectivos sectoriais a curto ou longo prazo, da paisagem à indústria e às artes, os programas, as acções? E não é evidente que esta pode ser uma estratégia nacional porque é, antes de mais, uma ideia mobilizadora, pela qual queremos ser mobilizados, uma ideia que vale a pena?

Mas se Portugal não se quis deixar seduzir pela beleza (nem por qualquer outra coisa, diga-se de passagem) e considera como objectivo suficiente viver a vidinha, há quem tenha outro rasgo. A Islândia deverá debater esta semana no seu Parlamento um surpreendente projecto, já subscrito por 19 deputados de vários partidos políticos, que pretende transformar o país num paraíso da liberdade de informação e da liberdade de expressão.

À imagem dos países que são paraísos fiscais, a proposta, apresentada pela deputada de esquerda Birgitta Jonsdottir, visa ampliar ao máximo as liberdades de expressão previstas na lei e impossibilitar as práticas que a reduzem, importando de diversos países diferentes dispositivos legais – leis que garantam a protecção da identidade das fontes dos jornalistas, leis que protegem as pessoas que denunciem práticas ilegais das empresas ou instituições onde trabalhem, leis que protejam a informação disponibilizada em servidores da Internet instalados no país, etc.

Há uma razão para esta iniciativa: a sensação de que, se tivesse havido uma maior obrigação de transparência por parte das instituições financeiras islandesas e se os media tivessem feito o seu trabalho sem receio de represálias, a Islândia não teria sido afectada pela crise financeira da forma violenta como foi.

Mas os proponentes do diploma consideram que existe aqui, mais do que uma protecção contra novos escândalos, um caminho a seguir, uma estratégia. Basta, mais uma vez, desdobrar esta ideia de liberdade de expressão para ter uma ideia do que isto pode significar em termos de criação e até de negócio.

“Queremos tornar-nos o oposto de um paraíso fiscal”, diz Birgitta Jonsdottir, citada pelo New York Times (http://tiny.cc/KgTxk). “Eles querem tornar tudo opaco. Nós queremos tornar tudo transparente.”

A ideia ainda precisa de algum amadurecimento e a sua concretização pode vir a revelar-se difícil ou mesmo impossível, mas é uma ideia mobilizadora e original. Algo em que merece a pena investir algum tempo e esforço.

Afinal, ser conhecido como o campeão mundial da liberdade de expressão não parece uma coisa má (ainda que não seja isenta de riscos, como nenhuma liberdade é). Não haverá por cá nenhuma ideia mobilizadora deste género, como a beleza de Petrella ou a liberdade de expressão de Jonsdottir? (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

A peça que temos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 17 de Fevereiro de 2010

Crónica 7/2010

A peça é muito pouco consistente e o público vai perceber que os diálogos não foram muito trabalhados

Temos um enredo com demasiada intriga, com demasiado conflito, com demasiadas personagens, só com vilões e sem nenhum herói, o que torna muito difícil conseguir um desenlace feliz no terceiro acto.

Temos um público que boceja cinicamente perante as peripécias previsíveis do argumento, que não gosta de nenhum dos actores, que está enjoado até à medula com todos os efeitos especiais, mas que continua a seguir a peça por desfastio, à falta de melhor, sabendo que as últimas cenas nunca vão chegar a ser exibidas.

No primeiro acto temos dois juízes que acham que o duque cometeu o mais horrendo dos crimes contra o povo e que o querem acusar disso mesmo e por um momento parece que isto vai ser uma história moral edificante, mas depois chegam os outros dois juízes que acham precisamente o contrário e não se percebe se são de outra peça e se enganaram no palco ou se leram mal o script ou se são amigos do duque disfarçados ou se qualquer outra coisa e que fazem uma enorme salganhada e nunca chegam a explicar nada.

Depois temos o grupo dos amigos do duque, aqueles intriguistas pagos a peso de ouro e ansiosos por ficar nas suas boas graças, sempre a trocar mensagens uns com os outros, sempre a tecer tramas na sombra e a imaginar maneiras de agradar ao chefe, cheios de planos maquiavélicos para liquidar os inimigos do duque, mas que depois fracassam miseravelmente, são descobertos e negam tudo, e que mais parecem figuras de desenhos animados do que de uma grande tragédia como esta.

Depois temos os comerciantes que só aparecem para dizer que não sabiam de nada, os banqueiros que só aparecem para dizer que sabiam ainda menos, que não tinham conhecimento de que alguém tenha feito alguma coisa e que se alguém fez alguma coisa foi com certeza por acaso. É tudo muito pouco consistente. O público não é estúpido e vai perceber que aqui os diálogos não foram muito trabalhados.

Temos os partidários do duque que se indignam muito com as acusações, os partidários da abadessa que se indignam com os acusados e os outros todos que se indignam com a indignação dos primeiros, mas nada disso faz muito sentido e ninguém é muito convincente.

E também não se percebe se o duque tem mesmo amigos ou se agora é que ele vai perceber que afinal não tem amigo nenhum e que afinal isto é mesmo uma história moral mas de outro género.

Depois temos o próprio duque que berra e se irrita muito mas não tem nenhuma fala que seja muito verosímil. Também há o velho conselheiro, que se preocupa muito e faz grandes tiradas, mas que nem se percebe o que ele faz ali e até se podiam cortar as cenas em que ele aparece que ninguém reparava.

A verdade é que a peça não faz grande sentido. Parece que os magistrados são todos umas pobres marionetas desmioladas, que os cortesãos são todos uns labregos sem qualidade, que os comerciantes são todos uns mentecaptos, para não falar do duque que parece ter urdido uma trama para se tornar duque, o que não faz sentido.

Para mais, a peça não tem um só personagem admirável, um homem de honra, nobre e corajoso, alguém que fale de coração aberto – um só, para amostra, um com quem o público se pudesse identificar, alguém que pudesse ser respeitado, de quem se pudesse pôr o nome num cartaz.

Nem tem uma paixão ardente, um amor purificador, algo que se possa enaltecer, que justifique um desvario. É uma peça triste e fraquinha e um bocadinho desconchavada. É pena ser a peça que temos. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Um equilíbrio entre os factos e os interesses?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 10 de Fevereiro de 2010

Crónica 6/2010

O que o lobby das petrolíferas pretende é lançar a dúvida entre os cidadãos sobre o aquecimento global

Nos meses que antecederam a cimeira do clima de Copenhaga, em Dezembro último, um jornalista que escrevesse num jornal de alguma importância coisas como a) “o planeta está a aquecer” b) “o aquecimento do planeta pode provocar uma catástrofe climática” ou c) “o aquecimento do planeta é em grande medida de origem humana” arriscava-se a ser objecto de uma verdadeira barragem de mails onde essas ideias eram contestadas, classificadas como resultado de investigação errada ou fraudulenta, identificadas como fazendo parte de uma conspiração anticapitalista e onde eram fornecidos links para sites que contestavam o aquecimento global.

A operação era demasiado generalizada, demasiado sincronizada e demasiado organizada para ser fruto do acaso.

Era evidente que se tratava de uma operação de contra-informação global, estruturada e bem financiada. E, nos últimos meses, tem vindo a lume alguma informação sobre essa operação, referindo, por exemplo, o financiamento por parte de empresas como a ExxonMobil.

O objectivo destas operações não é apagar da mente dos cidadãos de todo o mundo o conhecimento que têm sobre o aquecimento global. O objectivo é apresentar o ponto de vista dos chamados “cépticos” como sendo tão válido como o ponto de vista consensual na comunidade científica, defendido pelo IPCC, e forçar os media a tratar ambas as perspectivas de uma forma “equilibrada”, de forma a lançar a dúvida entre os cidadãos e a reduzir o apoio político ao combate ao efeito de estufa.

É normal que existam cientistas honestos cépticos quanto ao aquecimento global e/ou às suas causas. Mas esse facto não invalida o imenso consenso científico que existe no mundo sobre o efeito de estufa nem o imenso consenso social sobre a conveniência de o combater. E isto independentemente do que se pense da maior ou menor correcção da atitude deste ou daquele investigador ou até da existência de erros nesta ou naquela investigação particular – que, a existirem, devem ser naturalmente corrigidos. Apesar disso, porém, as provas são inúmeras e esmagadoras.

O lobby da contra-informação, no entanto, tem aqui a seu favor dois pontos de peso. O primeiro é a atitude de abertura que é base da cultura científica, que leva os investigadores a considerar com seriedade qualquer argumento que contrarie o consenso, por heterodoxo que seja. O segundo é a atitude dos media, onde os jornalistas especializados escasseiam e são cada vez mais pressionados a produzir prosa a metro e onde a competência tende a ser substituída por uma atitude mais “distanciada” e “profissional” (e menos arriscada) e que muitas pessoas confundem com “balanced reporting”: citar A, citar B, lavar daí as suas mãos e deixar o leitor extrair as suas conclusões ou mergulhar na confusão total. É com base neste critério que há escolas e jornais que tratam o evolucionismo e o criacionismo como duas visões equivalentes do mundo. E o mesmo pode acontecer com o aquecimento global.

É evidente que não cabe aos media definir o que é a verdade científica do momento, mas o seu papel também não se pode resumir a citar as várias partes de uma discussão – principalmente quando essa discussão está viciada por interesses escondidos.

Os media devem produzir racionalidade e permitir que os cidadãos façam escolhas informadas – não contribuir para a cacofonia. Neste caso, a racionalidade passa por saber quem fala e quem paga a quem para dizer o quê. “Follow the money” sempre foi uma boa regra do jornalismo. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O trabalho não pode ser o lugar do desespero

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 2 de Fevereiro de 2010

Crónica 5/2010
 
É possível ter empresas competitivas a nível global e internamente coesas, onde dê prazer trabalhar
Na semana passada, o PÚBLICO publicou uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, um psiquiatra e psicanalista francês que estuda a relação entre trabalho e doença mental. A entrevista (Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal, 30/1/2010), que pode ser lida numa versão mais longa no site deste jornal, tem como tema central os suicídios de trabalhadores causados pelo assédio moral nas suas empresas e debruça-se, em particular, sobre o caso da France Telecom, mas nela Christophe Dejours faz acusações à gestão moderna que merecem consideração.
Uma das técnicas que lhe merecem mais reservas é a chamada "avaliação individual de desempenho", que praticamente hoje todas as empresas utilizam - e que tantos gestores idolatram pelo poder repressivo que lhes oferece. Para Dejours, a avaliação individual modificou totalmente o mundo do trabalho ao pôr em concorrência entre si não só as empresas, mas também os indivíduos. Como a avaliação está em geral associada a prémios ou promoções e, por vezes, mesmo à própria manutenção do emprego, ela é uma ferramenta geradora de medo, que destrói a cooperação entre trabalhadores sobre a qual se baseia todo o trabalho e o próprio tecido social do local de trabalho. "Aos poucos, todos os elos que existiam até aí - a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua - acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe..." E acrescenta: "[Antes] Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador (...). O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de se viver uma traição - a traição dos outros."

Não há, nas declarações de Dejours, para alguém que conheça minimamente o mundo do trabalho, nenhuma surpresa. Todos sabemos que as coisas são assim - à esquerda e à direita, trabalhadores e patrões, sindicalistas e directores de Recursos Humanos - mas ensinaram-nos a pensar que isso era inevitável, que essa pressão e essa submissão que os gestores tentam impor possuíam alguma racionalidade. Que os fins, em suma, justificavam os meios. Não têm e não justificam. Nunca justificam, como já devíamos ter aprendido.
O que as palavras de Dejours nos dizem, claramente, é que as empresas se transformaram muitas vezes em locais de submissão e de sofrimento inútil - às vezes de verdadeira tortura, às vezes de morte. E também nos explica - como devia ser evidente - que isso não tem de ser assim, que é melhor para todos, e também para as empresas, que as coisas não se passem assim.

Nos últimos anos, por todo o mundo, mulheres e homens de esquerda (e os sindicatos...) acederam a abdicar dos seus princípios e aceitaram que as empresas podiam ser parêntesis da democracia, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da solidariedade. Pequenas ilhas de tirania e de submissão em nome da eficiência, da produtividade, do crescimento, da competitividade global. É uma falsa equação. Toda a investigação moderna nos mostra que o stress mata a inovação, que o medo estrangula a criatividade, que a submissão não produz maior empenho, que o desânimo não estimula a cooperação - essa inovação e criatividade e empenho e cooperação que são o pão da boca da economia e da produtividade. E, mesmo que isso não acontecesse, deveria bastar a nossa consciência para traçar os limites da decência.

Agora que começamos a perceber o buraco em que nos metemos, que começamos a ver os frutos dos ovos de serpente que deixámos que fossem incubados no mundo do trabalho, não será altura de arrepiar caminho? (jvmalheiros@gmail.com)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal" - uma entrevista a não perder

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Uma entrevista ao investigador francês Christophe de Dejours por Ana Gerschenfeld. A não perder.
As condições de trabalho impostas pelos modernos métodos de gestão em nome da Santa Eficiência, da Nossa Senhora da Produtividade e da Congregação da Competitividade Global.
Quantas centenas de milhões de escravos trabalham em países ditos modernos e democráticos sob este regime?
E quantas pessoas têm a coragem de combater este regime laboral em nome da simples decência?

terça-feira, janeiro 26, 2010

A angústia do jornalista perante a Internet

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 26 de Janeiro de 2010
Crónica 4/2010

A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa

De cada vez que tem lugar um acontecimento que concentra as atenções do mundo, como agora sucede no Haiti, torna-se evidente que os canais que utilizamos para nos mantermos informados mudaram de forma radical nos últimos dez anos.

É verdade que ainda continuamos a recorrer aos media tradicionais como a TV e os jornais (frequentemente através dos seus sites) e a ver as suas reportagens e a ler os seus artigos, mas ninguém que queira saber o que se passa no terreno e compreender os factos para além da superfície se fica por aí. O facto de podermos hoje ler e ver na Internet, sem mediação, os relatos dos indivíduos comuns que protagonizam estes acontecimentos, os testemunhos dos voluntários das organizações humanitárias, a par de blogues de jornalistas no local (locais ou estrangeiros, free-lance ou não) fornece à informação a que temos acesso uma riqueza incomparável. Durante anos tentámos vender a ideia (convictamente, nos melhores casos) de que o jornalismo era a única forma de aceder a informação rigorosa e independente sobre os acontecimentos do mundo. Se isso foi verdade alguma vez, hoje já não é certamente.

Sempre soubemos que não existiam fontes de informação desinteressadas, mas hoje é evidente que a única informação independente é a que se obtém através de uma multiplicidade de fontes e a que promove a participação dos cidadãos (os leitores sabem sempre mais que os jornalistas). Essas fontes independentes estão aos milhões na Internet, nos blogues, nas redes sociais, no Youtube, no Flickr, no Twitter, em novos serviços que emergem todos os dias e que não precisam de um modelo de negócio, porque não vivem disso. Foram eles que nos disseram o que estava a acontecer na Birmânia, no Irão, e agora no Haiti continuam a fazê-lo.

Podem permitir-nos prescindir dos media tradicionais? Não é essa a questão. Os media tradicionais estão a morrer porque estão a cometer harakiri, não porque alguém os queira destruir. E os leitores certamente que não querem substituir-se aos jornais. Só que são aqueles, "as pessoas antes conhecidas como a audiência", na expressão feliz de Jay Rosen, que têm mais histórias para contar, que sabem mais, que têm opiniões mais ricas e até posições mais isentas. Cada um deles? Não. Todos juntos.

É por isso que continua a ser espantosa a forma tímida (ou inexistente) como a imprensa tradicional ignora este recurso - o mais abundante e o mais rico recurso informativo do planeta - e, com raras excepções, lhe passa ao lado, com tímidas olhadelas de soslaio.

Como têm explicado muitos gurus do novo jornalismo - Dan Gillmor, Jeff Jarvis, ainda Jay Rosen - o jornalismo deixou de poder viver numa estrutura vertical, onde uns falam e os outros ouvem. A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa. As ferramentas existem e as pessoas estão a usá-las. O que é triste é que os media, devido ao corporativismo dos seus jornalistas, ao desânimo dos seus dirigentes, à ignorância dos seus gestores, à ganância anal-retentiva dos seus proprietários, continuam a tentar fazer tudo o que podem para deixar tudo na mesma. Não vai ficar. Se os jornalistas não quiserem entrar na conversa que o fluxo de informação já é, serão condenados à irrelevância.

O que não faz sentido é que, no momento em que há um novo jornalismo para inventar - e um jornalismo que merece entusiasmo, onde a criatividade e a participação cidadã assomam por todas as frinchas -, os media fiquem à espera da morte, repetindo sem o perceber o mantra louco que diz que a Internet é o futuro. O futuro passou-lhes debaixo do nariz e eles não deram por isso. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Shaken, not stirred. E com um cheirinho a morte

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Janeiro de 2010
Crónica 3/2010

No Haiti há um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados

Três dias depois de o sismo de 12 de Janeiro ter arrasado o Haiti e ter deixado 200.000 mortos sob os destroços das suas casas, um navio da companhia americana Royal Caribbean, o Independence of the Seas, atracou na costa norte da ilha.

O navio não levava medicamentos, nem tendas para os desalojados, nem cães para detectar sobreviventes soterrados, nem bulldozers para remover escombros, nem trabalhadores humanitários. Trazia turistas, que participavam num cruzeiro caribenho, e que vieram gozar a habitual paragem na praia de Labadee, um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados, que garantem que nenhum dos miseráveis haitianos que vivem do lado de lá perturbará o calmo mergulho nas águas cor de esmeralda ou o churrasco servido nas areias douradas que a empresa proporciona aos seus clientes. E assim foi. Depois de uma estadia de 24 horas, durante a qual os turistas não tiveram de ver as pilhas de corpos em decomposição recolhidos das ruínas, nem as crianças subnutridas que aguardam tratamento nos hospitais de campanha, nem a violência das pilhagens pelas ruas, o navio seguiu viagem com os seus passageiros, em direcção ao paraíso tropical seguinte.

É verdade que muitos dos passageiros, conscientes do que se passava do lado de lá dos muros - cujas imagens enchiam os noticiários das televisões dos seus camarotes -, não quiseram sequer descer à praia. E é verdade que o navio deixou na ilha quarenta paletes de ajuda alimentar e que a empresa de cruzeiros se comprometeu a entregar como donativo as receitas da estadia. Mas, apesar destes leves paliativos, não se pode deixar de sentir que o episódio contraria as mais elementares regras da decência. Como se pode beber um martini quando há ao lado uma criança que morre por falta de água? Como podemos balançar numa rede entre dois coqueiros quando, ali ao lado, ouvimos o grito dilacerante da rapariga de 14 anos que chora a morte do seu irmão de cinco anos, esmagado debaixo de uma casa sob cujos escombros ela sobreviveu cinco dias? É fácil responder que o martini não pode matar a sede à criança e que a anulação do cruzeiro iria prejudicar ainda mais a quase inexistente economia haitiana, mas nenhum sarcasmo e nenhum cálculo conseguem disfarçar o nó nas nossas tripas. Será tão difícil perceber que algo está profundamente errado? Será tão difícil perceber que esta desigualdade é indecente?

A questão é que o que se passou neste cruzeiro não foi muito diferente do que se passou das outras vezes em que o Independence of the Seas atracou em Labadee. O Haiti é desde há muito o mais pobre país das Américas e a esmagadora maioria da sua população vive abaixo do limiar de pobreza, com um por cento da população a arrecadar metade do produto nacional. Do outro lado do muro de três metros e meio de altura sempre houve fome. E casas que não oferecem qualquer garantia de protecção contra sismos. Mesmo sem uma catástrofe a mostrar nas televisões a morte e a violência, a pobreza e a sordidez, o Haiti - que tem a glória de ser o único Estado moderno que nasceu de uma revolta de escravos - é desde há muito um dos caixotes de lixo do mundo, um país exportador de escravos, explorado sucessivamente pela França e pelos EUA, que apoiaram as suas múltiplas ditaduras, condenado à miséria e à doença (recordam-se da sida?) e esquecido do mundo. As promessas de ajuda de hoje devem-se apenas à presença no primetime. E a escala do Independence of the Seas só nos parece chocante hoje pela mesma razão. Há muito tempo que os passageiros do Independence of the Seas tomam os seus martinis sobre um fundo de cheiro de morte. Nós é que fingimos que não o sentimos. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Spam

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Janeiro de 2010
Crónica 2/2010

Há oportunidades à espreita no seu filtro de spam. Em 2010 não deixe a vida passar-lhe ao lado

Sabe que 50 por cento dos homens se arriscam a viver menos do que os restantes 50 por cento? Não cometa o mesmo erro. Os nossos suplementos alimentares antioxidantes e vitaminas podem ajudá-lo a vencer 60 doenças, desde o envelhecimento ao câncer. Somos a loja online mais barata! Online desde 2001! Peça o folheto aqui.

Somos o número um mundial de alongamento de pénis e somos tão discretos que ninguém nos conhece mas o nosso produto funciona e temos fotografias antes e depois para o provar. Se inverter a ordem das fotografias pode usar o nosso produto para redução do pénis. Clique aqui e encomende. Passadas seis semanas começará a ver o resultado se a sua pilosidade púbica não for particularmente exuberante.
Sabia que pode curar quase todos tipos de doença apenas com sua fé? Basta se entregar à graça de Deus Todo-Poderoso e ao poder da oração e nos enviar o mail de cinquenta pessoas que queiram deixar entrar Deus na sua vida (não na sua-sua, sua-delas, dessas pessoas). Não mande dinheiro agora. Preencha o formulário, para que nós possamos agradecer a Deus por você e ele possa saber exatamente quem você é. Pode enviar o número de cartão de crédito com total confiança através do nosso servidor de Deus. A Igreja da Paz do Universo de Todos os Santos do Amor de Deus pode interceder por si. Conhecemos pessoas lá em cima que o/a amam. Quando receber nossos mails leia eles. As palavras que vai ler são verdade e elas mudarão a sua vida se você deixar pois vêm do coração de Deus. Curas milagrosas por mail, chat, videoblog e Twitter.

Nós aumentamos o seu pénis muito mais e por menos dinheiro que a empresa do outro mail. A rã que queria ser tão gorda como um boi era nossa cliente (mas se parar a tempo o seu pénis não rebentará). Garantimos confidencialidade absoluta. Embalagem postal não identificada. Sem drogas, sem massagens, sem choques eléctricos, sem compromissos. A sua namorada vai adorar os nossos folhetos. Por favor TAMBÉM NÃO RESPONDA a este mail. Basta marcar a porta de sua casa com uma cruz de giz. Será contactado por alguém.

Sabia que há pessoas que têm um colesterol tão elevado que vão morrer antes de chegar ao fim deste mail? Sabia que há certos alimentos que o podem matar? Que o estão a matar lentamente neste mesmo momento? Sabia que em certos casos isso pode ser MORTAL? E sabe que pode aprender a evitar todos estes riscos por apenas 14,99 euros por mês, com uma assinatura do boletim de saúde do Dr. John, o segredo mais bem guardado da Internet, a garantia da longevidade saudável?

Dê-nos todos os seus dados absolutamente grátis. Para quê secretismo se você não tem nada a esconder?
Não há nenhum risco, nenhuma obrigação, nenhum contrato e pode alterar os seus dados quando quiser, modificar o seu perfil. Nós respeitamos o seu direito à privacidade (não acredite no que dizem os outros anúncios). Nós removemos o seu endereço quando você quiser, não vendemos os seus dados a ninguém, ninguém, ninguém. Perguntamos-lhe só por curiosidade.

Deixe por favor para felicitá-lo. Você apenas ganhou o prêmio internacional o mais grande em Europa, o International da lotaria de Lotaria de Europa. Você email address era escolhe entre 7 milhões em uma das operações nunca de mercado as mais grandes no mundo. Você ganha o primeiro prêmio de 5 milhão euro - ? 5 000 000. Para recuperar seu prêmio que você tem apenas para contatar nossos escritórios em Andorra - use esta ligação - e paga os impostos internacionais imperativos da lotaria na quantidade de 0.37 por cento - 18 500 euro ou 23 831.7 dólares de E.U. Se você paga pelo cartão de crédito agora você recebe rapidamente. (jvmalheiros@gmail.com)