sábado, março 06, 2010

Web: milhares de revoluções nos últimos vinte anos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 6 de Março de 2010
Suplemento P2 (número especial dedicado aos 20 anos do Público)

A Web tem vinte anos. Nestes vinte anos, não houve quase nenhuma actividade humana que não tenha sido tocada por ela e, em muitos casos, revolucionada por ela. A sociedade que emergiu desta revolução tecnológica é radicalmente diferente da que existia há vinte anos. Mas a sociedade que a Internet parece desenhar para o futuro é uma sociedade centrada no controlo e onde as liberdades individuais podem vir a ocupar um papel secundário.

Em cada minuto que passa, há vinte horas de vídeo que são colocadas nos servidores do YouTube. Mil e duzentos minutos de vídeo em cada minuto. Se quiséssemos reunir uma equipa capaz de visionar o material que lá fosse colocado de hoje em diante, teríamos de contratar mais de 5.000 pessoas. E a equipa teria de ir crescendo.

E, em cada dia que passa, mais de mil milhões de vídeos do YouTube são descarregados e vistos por utilizadores em todo o mundo. Vídeos que vão desde uma interpretação da 6ª Sinfonia de Tchaikovsky pela Filarmónica de Berlim a um clip de um jovem sul-coreano no seu quarto a arrancar da guitarra eléctrica o cânone de Pachelbel. Ou um vídeo do cozinheiro britânico Jamie Oliver a explicar as maneiras de cozinhar arroz. Ou um documentário sobre as eleições birmanesas deste ano, filmado por activistas que combatem o regime.

O YouTube só existe há cinco anos, mas transformou-se num ponto de encontro mundial, de todas as línguas, de todas as imagens, um desses sítios indispensáveis onde vamos ver notícias, ouvir música, aprender receitas, investigar novas ideias, conhecer pessoas, estudar história, divertirmo-nos... E é apenas um dos milhões de sites que existem no mundo.

Há vinte anos, quando o PÚBLICO dava os primeiros passos em Lisboa e no Porto, a Web também dava os seus primeiros passos em Genebra, no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), pela mão do engenheiro britânico Timothy Berners-Lee. A certidão de nascimento da Web tem a data de Dezembro de 1990, mas quando os fundadores do PÚBLICO faziam as suas primeiras reuniões, na primavera de 1989, já Berners-Lee e o seu amigo belga Robert Cailliau congeminavam as primeiras versões do que viria a ser a WWW.

Como era antes?

Nada mudou tanto os vinte anos que se seguiram como esta coisa, que permitiu que toda a gente que tivesse um computador ligado a uma linha telefónica folheasse a informação armazenada em milhões de bases de dados e contactasse centenas de milhões de pessoas no mundo. E tudo com mais facilidade do que quando programávamos os nossos gravadores de vídeo para gravar um programa na televisão nos anos 90.

A Web não fez uma revolução. Fez muitas revoluções. E não há muitos paralelos na história em termos de impacto – podemos pô-la a par do computador, da televisão, do telefone e do automóvel, para ficarmos pela era industrial.

Consegue identificar uma área que não se tenha tornado irreconhecível nos últimos vinte anos devido à Web? Lembra-se como eram os jornais ou as televisões antes da Web? Como é que os estudantes faziam os seus trabalhos? Como é que se faziam negócios? Como é que se procurava informação? Como é que se organizavam as férias, se compravam livros, se fazia política, se sabia o que se passava no mundo, se contactavam os amigos, se organizava um movimento de cidadãos, se fazia a guerra, se aprendia línguas, se fazia medicina, se dava aulas?... Muitos negócios desapareceram e outros vivem ainda o trauma da reestruturação. Paralelamente, negócios que ninguém tinha sequer imaginado em 1990 explodiram – com uma empresa de pesquisas gratuitas na Web a içar-se para os píncaros da valorização bolsista, com uma empresa de leilões online como a Ebay a facturar 8500 milhões de dólares no ano passado, com a economia a crescer com base em empresas que fornecem serviços grátis, seguindo modelos que provocariam um enfarte a qualquer economista há vinte anos.

Sempre no ciberespaço

Hoje qualquer adolecescente encontra penfriends nos países que quiser, segundo os critérios de gosto que preferir, e qualquer pessoa pode envolver-se num videochat com interlocutores escolhidos aleatoriamente de todo o mundo.

Lembra-se do romance Neuromante de William Gibson, de 1984? Lembra-se daquela coisa chamada “ciberespaço” que ninguém percebia muito bem o que era porque as pessoas estavam lá mas não estavam mesmo lá? Hoje vivemos aí. E os nossos filhos vivem ainda mais aí.
Estou no ciberespaço enquanto escrevo este artigo e vou enviá-lo para o jornal pelo ciberespaço e você vai lê-lo provavelmente no ciberespaço e é aí que vai ficar arquivado. A Web é a grande biblioteca sonhada de Borges, a grande Babel, mas é muito mais, é o sítio onde conversamos, onde trocamos fotografias dos nossos filhos, onde fazemos negócio e nos divertimos. E o número de pessoas que sente que não está verdadeiramente viva quando não está ligada tem crescido. (Você nunca sentiu isso?) Um dia este ciberespaço será o nosso principal interlocutor – não o meio da comunicação, nem a mensagem, mas o interlocutor, uma identidade difusa muito parecida com Deus ou com o Diabo – e contar-nos-á as coisas interessantes que estão a acontecer, far-nos-á sugestões, talvez críticas às nossas escolhas (“Porque é que vais comprar esse livro? Já sabes que não o vais ler!”).

Quem fiscaliza os electrões?

Por agora deixámos de precisar de ter as enciclopédias em casa porque elas estão na Web, deixámos de precisar de comprar jornais porque eles estão na Web, deixámos de precisar de ir a todas as aulas porque elas também estão na Web, deixámos de fazer imensas reuniões porque podemos fazê-las na Web e deixámos de comprar DVD de filmes e CD de música e de ver televisão e de comprar livros porque eles também estão na Web. E agora vamos deixar de comprar software (lembra-se de comprar software?) porque ele está na Web e compra-se e usa-se de outra forma. E um dia o computador estará ele próprio na Web e só precisaremos de um ecrã táctil (ao mesmo tempo unidade de input e de output) que será a parede da minha sala, a manga da minha camisa, a palma da minha mão. Para quê ter um fio a ligar o meu teclado ao meu CPU quando posso ter ar wireless a ligar a parede da minha sala ao ciberespaço, quando o ar é todo ele ciberespaço?

Quando contarmos aos nossos netos que dantes se comprava (por um fortuna!) um Word que se instalava no nosso computador para podermos escrever, eles vão olhar-nos como se lhes contássemos que no nosso tempo cada pessoa tinha em casa um tear mecânico para fazer todas as manhãs a camisa que vestia antes de sair à rua.
Como será regulado este mundo? Como será esta economia onde tudo é comunicação, fluidez, instantaneidade, onde as fronteiras entre todas as entidades e as pessoas se esbatem, onde cada um de nós não viverá uma fracção de segundo sem transação tecnológica e económica? Teremos facturas? Quem fiscalizará o ar e os electrões e os fotões? Se o mundo de antes da Web já se tornou arcaico, o mundo de hoje já nos parece arcaico hoje mesmo, habituados como estamos a olhar a paisagem pelas janelas da frente do cockpit.

As coisas que falam

A actual complexidade da Web seria considerada ingerível há uma dúzia de anos e no entanto ela move-se. Mas estamos só no início e no início era o Verbo. Agora, este mundo de palavras, de documentos, de imagens, de trocas ainda sentimentais e eminentemente entre humanos, começa a ser invadido pelo tsunami dos dados das coisas. A Internet das Coisas é “the next big thing”. O que é a Internet das Coisas? Um mundo onde todas as coisas falam com todas as coisas. Onde cada objecto está dotado do seu dispositivo identificador, é capaz de dizer qual é o seu eu e a sua circuntância, a sua história, a sua localização, de identificar os seus vizinhos, de dizer de onde vem e para onde vai.

Pesadelo? Sim, mas não é um sonho. O seu carro tem uma coisa destas no pára-brisas para atravessar as portagens sem parar e vai ter outro na matrícula para isso e talvez muito mais. E as lojas têm coisas destas nos seus produtos para evitar que você as roube, que fazem soar um alarme quando ultrapassam a porta. Todos os fabricantes de seja o que for usam estes dispositivos, chamados RFID, identificadores de radio-frequência, e os que não os usam querem usá-los. São óptimos para a gestão de stocks, para aumentar a eficácia do trânsito de produtos. Um contentor carregado de peças de roupa passa ao pé de um detector e aparece num monitor o tipo, modelo, número, cor, padrão e dimensão de cada artigo que lá está dentro. Há um fabricante de roupa interior que tem RFID em todos os produtos, o que lhe permite dizer, quando você entra numa loja: “Então, está a gostar dessas boxers verdes que traz vestidos e que comprou em Abril do ano passado na nossa loja de Vila Nova de Gaia?”

Um dia, os seus boxers verdes poderão aceder à Internet sem lhe dizer e o fabricante saberá por onde eles andam. Não é só o seu carro que vai dizer onde está, nem só o seu telemóvel: são também as suas cuecas, os seus óculos e as suas chaves. Invasão da privacidade? “Claro que não”, clamam os fabricantes (das coisas e dos RFID), “eu só quero saber onde andam as cuecas que eu vendi, não o dono delas”.

Sensores em tudo

Os fabricantes de aviões e de automóveis usam cada vez mais destes RFID. O objectivo é que cada uma das peças de cada avião tenha um – até porque estes identificadores podem incluir também sensores de pressão, de temperatura, de outras coisas. O A350 XWB da Airbus que deve entrar ao serviço em 2013 tem mais de 5000 peças com RFID, que podem ir contando a sua história aos computadores de bordo durante o voo. Óptimo para a segurança.

A maldição é precisamente a segurança, a produtividade, a eficiência. Queremos saber em que rua e em que sentido e a que velocidade se está a deslocar cada carro para melhor gerir o trânsito. Queremos saber a que distância está cada carro do carro do lado, da frente, de trás para melhor evitar os acidentes. Queremos saber onde estão os nossos filhos e com quem para reduzir o risco de agressões, de fugas, raptos. Queremos saber quem comprou o quê e quando para podermos planear de forma mais racional os ritmos de produção. Queremos saber quem acende quantas luzes a que hora para poder adequar a oferta à procura, para reduzir emissões de CO2, para evitar desperdícios. Queremos pôr sensores em tudo quanto mexe para podermos monitorizar o mundo, para saber o que acontece em tempo real. Tudo boas razões. E a tecnologia hoje (ou amanhã) permite isso. O ciberespaço será o sítio onde todos estes dados se encontram e a rede será o único computador capaz de digerir estas vagas de dados e de extrair daqui informação com algum sentido.

Perda de privacidade

Para colher os benefícios da sociedade em rede é necessário participar, o empowerment do cidadão passa pela sua participação na rede, mas essa mesma participação implica uma redução do seu direito à privacidade, como faz notar há muito o sociólogo espanhol Manuel Castells.

A maior parte dos utilizadores não tem a sensação de perder algo por permitir que os seus dados sejam vistos por outrem, mas mesmo aqueles que têm consciência disso aceitam o trade off. Quando a rede se torna a realidade, não estar na rede é não existir. E se for preciso tornar transparente a nossa vida privada para estar na rede... é um preço que se tem de pagar. Afinal não temos nada a esconder, pois não? E, de qualquer forma, todos o fazem, por isso estamos protegidos: por um lado, passamos despercebidos no meio da multidão; por outro lado, estes fluxos de informação são simétricos, nós também podemos saber coisas sobre os outros.

Na realidade... não é assim. Há quem possa aceder a muitos dados e tenha meios para os processar mas a esmagadora maioria das pessoas não tem. A Autoridade Europeia para a Protecção de Dados está preocupada com os RFID, a Comissão de Protecção de Dados Pessoais portuguesa também, mas estas preocupações não provocam mais do que um soluço na avalanche. Os ganhos potenciais de eficiência são demasiado grandes para se poderem perder.

A tecnologia da eficiência

Quem se está a preocupar com estas questões dos direitos, da liberdade individual? A resposta curta: ninguém.

A tecnologia voa em êxtase consigo própria e o social arrasta-se atrás, gaguejando coisas que ninguém percebe, o chato da família.

Os especialistas juram que em todos os programas de desenvolvimento tecnológico relacionados com a Internet - europeus, asiáticos ou americanos -, há uma imensa preocupação com o “impacto social” das tecnologias.

Mas basta raspar com a unha para perceber que aquilo que é chamado “social” se refere quase sempre à economia e nunca ou quase nunca ao cidadão, ao indivíduo, a nós, às pessoas enquanto pessoas – não enquanto contribuintes, consumidores, clientes. “Desenvolvimento social” e “benefício social” são sempre expressões de código para “criação de emprego” ou “novos modelos de negócio”, produtividade, objectivos tecnocráticos.

Em quase todos os discursos sobre os novos produtos, os novos serviços, os novos projectos, ninguém se esquece de citar a necessidade de “respeitar a vida privada dos cidadãos”, porque é evidente que ela está em risco, mas a formulação é reveladora. O espaço privado, o indivíduo enquanto tal, aparece como algo que se tenta proteger do alcance da tecnologia, pela negativa: a tecnologia estará em todo o lado e terá o poder de fazer tudo menos “isto” e “aquilo”. O racional é que a tecnologia serve para produzir eficiência (mas não liberdade) e, por isso, a única forma de defender a liberdade é criar zonas de menor intensidade tecnológica, espaços de protecção da vida privada. Mas não seria possível desenvolver as tecnologias para servir as liberdades?

Conhecimento para quê?

Quem vai controlar esta massa de dados que se acumula? O ciberespaço já sabe muito sobre nós e amanhã vai saber tudo, com quase toda a gente a permitir a recolha dos seus dados pessoais sem estados de alma. Mas nem todos saberão ler essa informação. Uns sim, outros não. Há enormes desigualdades na distribuição deste saber.

Quem decidirá o que é lícito fazer com essa informação e o que não é? Quem conseguirá saber que informação existe e onde está? Apenas alguns. Paradoxalmente, nesta sociedade onde todos aceitam que “saber é poder”, a Web facilitou a difusão do saber, mas não melhorou a distribuição do poder.

Há uns anos, ainda podíamos sonhar que a sociedade do conhecimento seria um mundo de criadores, de pessoas sábias, onde todos teriam possibilidade de desenvolver as suas capacidades e gostos intelectuais, um mundo de bem-estar e ócio criativo, de disponibilidade universal dos frutos da mente, um mundo de cultura e de inteligência. E de liberdade, claro.

O futuro mundo das coisas inteligentes, onde a saúde será inteligente, as casas serão inteligentes, as ruas e os carros também, sem esquecer o supermercado e a escola e o emprego, é um mundo de controlo. Controlo no sentido técnico do termo, mas que rapidamente pode deslizar para o sentido político. Pensávamos que a Sociedade do Conhecimento era aquela em que teríamos a possibilidade de saber tudo sobre o mundo. Afinal, parece mais provável que ela vá ser a sociedade em que o mundo sabe tudo sobre nós.

E uma sociedade onde a liberdade faz cada vez menos parte da equação. Apenas a eficiência impera. Cabe-nos fazer com que a liberdade, com as suas indefinições, a sua aleatoriedade, a sua imprevisibilidade, a sua confusão e a sua insegurança, volte a conquistar o seu direito de cidade. (jvmalheiros@gmail.com)

quinta-feira, março 04, 2010

A informação é uma coisa que se partilha

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 4 de Março de 2010
Crónica 9/2010

O leitor fiel de um só jornal morreu e já não vai ressuscitar

O principal tema abordado nos artigos publicados sobre o último inquérito feito nos EUA pelo Pew Internet & American Life Project (http://www.pewinternet.org) foi o facto de a Web se ter tornado uma fonte de notícias mais importante para os leitores americanos do que os jornais em papel ou a rádio. O facto vinha-se fazendo anunciar há tantos anos que só os muito distraídos terão fi cado surpreendidos, mas o marco é sem dúvida importante e é inevitável que a vaga se vá estendendo a todos os outros países. A percentagem que diz usar a Web para se informar é de 61 por cento e a percentagem para rádio, jornais locais e jornais nacionais é, respectivamente, de 54%, 50% e 17%. A televisão, porém, ainda aparece à frente de todos os meios neste ranking.

O que mais ressalta deste estudo (Understanding the participatory news consumer) é, porém, o carácter social desta actividade de consumo de informação.

O que quer dizer “carácter social”? Várias coisas. Por um lado, reforçando aquilo que outros estudos têm apontado, as pessoas interrogadas indicam como primeira razão para o seu consumo de informação “poder falar com outras pessoas sobre o que se passa no mundo” e como segunda razão o facto de estar informado ser “um dever cívico”. Só depois aparece a motivação devido ao valor utilitário ou de entretenimento da informação.

Decorre daqui – e isto está longe de ser uma novidade mas é um factor quase sempre esquecido pelos media – que a informação é tanto mais apreciada quanto mais partilhada for.

O que é mais importante (e daí o título) é que o estudo diz que 75% dos consumidores de informação online dizem aceder a notícias através de links que recebem por mail ou através de redes sociais, enquanto 52% afirmam difundirem as notícias que acham interessantes através desses mesmos meios. Outros dados colhidos no estudo reforçam esta ideia de que o consumo de informação é eminentemente uma experiência social – com a partilha, reenvio, comentário e discussão de notícias a ocupar um papel cada vez mais importante.

Finalmente, o estudo do Pew Research Center reforça mais uma vez a morte da figura do “leitor fi el” de um título, com a esmagadora maioria dos interrogados (92%) a usar várias plataformas para aceder a notícias e a consultar vários títulos e sites por dia.

O que significa isto? Entre outras coisas significa que os sites que apostam (ou vão passar a apostar) na restrição do acesso aos seus sites mediante assinaturas fazem isso por sua conta e risco e vão provavelmente passar um mau bocado. Não me parece que um modelo de negócio baseado em assinaturas seja sempre insustentável, mas do que tenho a certeza é de que ele não será a regra e muito menos uma solução.

Fechar um conteúdo significa reduzir a sua participação nesta troca social que é, cada vez mais, a forma como consumimos informação e fazer isso é condená-lo à irrelevância.

Se não for fácil localizar a informação, pesquisá-la, citá-la, referenciá-la, enviá-la, lincá-la, comentá-la, inserila em outros meios (blogues, redes sociais) o seu valor de uso reduz-se drasticamente. As próprias redes sociais estão aliás a perceber isso, havendo uma tendência para a adopção de tecnologias que facilitem a troca de informação e o tráfego de utilizadores entre todas elas.

Num mundo onde a informação é cada vez mais um bem social, partilhável, quem recusa esse estatuto e se quer transformar num clube privado e selecto, morre. A informação deixou de ser uma mercadoria para ser um movimento, um diálogo. E quem não percebe isso devia ir vender batatas.

O que os media deveriam estar a fazer era pensar de que forma poderão viver neste mundo reforçando essa experiência social de partilha (e também de produção) de informação e não na forma como podem adiar a sua morte, trancando as portas face ao tsunami. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A beleza e a liberdade

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 23 de Fevereiro de 2010
Crónica 8/2010

Uma estratégia não é um texto: é uma ideia mobilizadora

Há cerca de vinte anos, no início do lançamento do PÚBLICO, fiz  uma entrevista ao italiano Riccardo Petrella, que foi durante dezasseis anos director do programa FAST (Forecasting and Assessment in Science and Technology) da Comissão Europeia e, com João Caraça e outros, um dos fundadores do Grupo de Lisboa, que produziu em 1994 o estimulante manifesto “Limites à competição”.

A questão central que se punha na entrevista era “a estratégia de desenvolvimento” que deveria ser adoptada por Portugal, que Petrella conhecia bem, e ele respondeu- me com a sua habitual exuberância: “Portugal devia apostar na beleza!”

A beleza! Algo que não estamos à espera de ouvir da boca de um economista, mesmo quando esse economista é também um católico de esquerda, um crítico da mercantilização do mundo e um militante da cidadania activa. Se fosse necessário provar que uma estratégia não precisa de estar encadernada em cem páginas A4, ou nesse mínimo denominador comum do raciocínio chamado PowerPoint, bastaria ouvir estas palavras: “Portugal devia apostar na beleza!”

Não é evidente o que pode decorrer daqui? Não é evidente que basta ir desdobrando cuidadosamente esta ideia para nos irem aparecendo os objectivos sectoriais a curto ou longo prazo, da paisagem à indústria e às artes, os programas, as acções? E não é evidente que esta pode ser uma estratégia nacional porque é, antes de mais, uma ideia mobilizadora, pela qual queremos ser mobilizados, uma ideia que vale a pena?

Mas se Portugal não se quis deixar seduzir pela beleza (nem por qualquer outra coisa, diga-se de passagem) e considera como objectivo suficiente viver a vidinha, há quem tenha outro rasgo. A Islândia deverá debater esta semana no seu Parlamento um surpreendente projecto, já subscrito por 19 deputados de vários partidos políticos, que pretende transformar o país num paraíso da liberdade de informação e da liberdade de expressão.

À imagem dos países que são paraísos fiscais, a proposta, apresentada pela deputada de esquerda Birgitta Jonsdottir, visa ampliar ao máximo as liberdades de expressão previstas na lei e impossibilitar as práticas que a reduzem, importando de diversos países diferentes dispositivos legais – leis que garantam a protecção da identidade das fontes dos jornalistas, leis que protegem as pessoas que denunciem práticas ilegais das empresas ou instituições onde trabalhem, leis que protejam a informação disponibilizada em servidores da Internet instalados no país, etc.

Há uma razão para esta iniciativa: a sensação de que, se tivesse havido uma maior obrigação de transparência por parte das instituições financeiras islandesas e se os media tivessem feito o seu trabalho sem receio de represálias, a Islândia não teria sido afectada pela crise financeira da forma violenta como foi.

Mas os proponentes do diploma consideram que existe aqui, mais do que uma protecção contra novos escândalos, um caminho a seguir, uma estratégia. Basta, mais uma vez, desdobrar esta ideia de liberdade de expressão para ter uma ideia do que isto pode significar em termos de criação e até de negócio.

“Queremos tornar-nos o oposto de um paraíso fiscal”, diz Birgitta Jonsdottir, citada pelo New York Times (http://tiny.cc/KgTxk). “Eles querem tornar tudo opaco. Nós queremos tornar tudo transparente.”

A ideia ainda precisa de algum amadurecimento e a sua concretização pode vir a revelar-se difícil ou mesmo impossível, mas é uma ideia mobilizadora e original. Algo em que merece a pena investir algum tempo e esforço.

Afinal, ser conhecido como o campeão mundial da liberdade de expressão não parece uma coisa má (ainda que não seja isenta de riscos, como nenhuma liberdade é). Não haverá por cá nenhuma ideia mobilizadora deste género, como a beleza de Petrella ou a liberdade de expressão de Jonsdottir? (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

A peça que temos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 17 de Fevereiro de 2010

Crónica 7/2010

A peça é muito pouco consistente e o público vai perceber que os diálogos não foram muito trabalhados

Temos um enredo com demasiada intriga, com demasiado conflito, com demasiadas personagens, só com vilões e sem nenhum herói, o que torna muito difícil conseguir um desenlace feliz no terceiro acto.

Temos um público que boceja cinicamente perante as peripécias previsíveis do argumento, que não gosta de nenhum dos actores, que está enjoado até à medula com todos os efeitos especiais, mas que continua a seguir a peça por desfastio, à falta de melhor, sabendo que as últimas cenas nunca vão chegar a ser exibidas.

No primeiro acto temos dois juízes que acham que o duque cometeu o mais horrendo dos crimes contra o povo e que o querem acusar disso mesmo e por um momento parece que isto vai ser uma história moral edificante, mas depois chegam os outros dois juízes que acham precisamente o contrário e não se percebe se são de outra peça e se enganaram no palco ou se leram mal o script ou se são amigos do duque disfarçados ou se qualquer outra coisa e que fazem uma enorme salganhada e nunca chegam a explicar nada.

Depois temos o grupo dos amigos do duque, aqueles intriguistas pagos a peso de ouro e ansiosos por ficar nas suas boas graças, sempre a trocar mensagens uns com os outros, sempre a tecer tramas na sombra e a imaginar maneiras de agradar ao chefe, cheios de planos maquiavélicos para liquidar os inimigos do duque, mas que depois fracassam miseravelmente, são descobertos e negam tudo, e que mais parecem figuras de desenhos animados do que de uma grande tragédia como esta.

Depois temos os comerciantes que só aparecem para dizer que não sabiam de nada, os banqueiros que só aparecem para dizer que sabiam ainda menos, que não tinham conhecimento de que alguém tenha feito alguma coisa e que se alguém fez alguma coisa foi com certeza por acaso. É tudo muito pouco consistente. O público não é estúpido e vai perceber que aqui os diálogos não foram muito trabalhados.

Temos os partidários do duque que se indignam muito com as acusações, os partidários da abadessa que se indignam com os acusados e os outros todos que se indignam com a indignação dos primeiros, mas nada disso faz muito sentido e ninguém é muito convincente.

E também não se percebe se o duque tem mesmo amigos ou se agora é que ele vai perceber que afinal não tem amigo nenhum e que afinal isto é mesmo uma história moral mas de outro género.

Depois temos o próprio duque que berra e se irrita muito mas não tem nenhuma fala que seja muito verosímil. Também há o velho conselheiro, que se preocupa muito e faz grandes tiradas, mas que nem se percebe o que ele faz ali e até se podiam cortar as cenas em que ele aparece que ninguém reparava.

A verdade é que a peça não faz grande sentido. Parece que os magistrados são todos umas pobres marionetas desmioladas, que os cortesãos são todos uns labregos sem qualidade, que os comerciantes são todos uns mentecaptos, para não falar do duque que parece ter urdido uma trama para se tornar duque, o que não faz sentido.

Para mais, a peça não tem um só personagem admirável, um homem de honra, nobre e corajoso, alguém que fale de coração aberto – um só, para amostra, um com quem o público se pudesse identificar, alguém que pudesse ser respeitado, de quem se pudesse pôr o nome num cartaz.

Nem tem uma paixão ardente, um amor purificador, algo que se possa enaltecer, que justifique um desvario. É uma peça triste e fraquinha e um bocadinho desconchavada. É pena ser a peça que temos. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Um equilíbrio entre os factos e os interesses?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 10 de Fevereiro de 2010

Crónica 6/2010

O que o lobby das petrolíferas pretende é lançar a dúvida entre os cidadãos sobre o aquecimento global

Nos meses que antecederam a cimeira do clima de Copenhaga, em Dezembro último, um jornalista que escrevesse num jornal de alguma importância coisas como a) “o planeta está a aquecer” b) “o aquecimento do planeta pode provocar uma catástrofe climática” ou c) “o aquecimento do planeta é em grande medida de origem humana” arriscava-se a ser objecto de uma verdadeira barragem de mails onde essas ideias eram contestadas, classificadas como resultado de investigação errada ou fraudulenta, identificadas como fazendo parte de uma conspiração anticapitalista e onde eram fornecidos links para sites que contestavam o aquecimento global.

A operação era demasiado generalizada, demasiado sincronizada e demasiado organizada para ser fruto do acaso.

Era evidente que se tratava de uma operação de contra-informação global, estruturada e bem financiada. E, nos últimos meses, tem vindo a lume alguma informação sobre essa operação, referindo, por exemplo, o financiamento por parte de empresas como a ExxonMobil.

O objectivo destas operações não é apagar da mente dos cidadãos de todo o mundo o conhecimento que têm sobre o aquecimento global. O objectivo é apresentar o ponto de vista dos chamados “cépticos” como sendo tão válido como o ponto de vista consensual na comunidade científica, defendido pelo IPCC, e forçar os media a tratar ambas as perspectivas de uma forma “equilibrada”, de forma a lançar a dúvida entre os cidadãos e a reduzir o apoio político ao combate ao efeito de estufa.

É normal que existam cientistas honestos cépticos quanto ao aquecimento global e/ou às suas causas. Mas esse facto não invalida o imenso consenso científico que existe no mundo sobre o efeito de estufa nem o imenso consenso social sobre a conveniência de o combater. E isto independentemente do que se pense da maior ou menor correcção da atitude deste ou daquele investigador ou até da existência de erros nesta ou naquela investigação particular – que, a existirem, devem ser naturalmente corrigidos. Apesar disso, porém, as provas são inúmeras e esmagadoras.

O lobby da contra-informação, no entanto, tem aqui a seu favor dois pontos de peso. O primeiro é a atitude de abertura que é base da cultura científica, que leva os investigadores a considerar com seriedade qualquer argumento que contrarie o consenso, por heterodoxo que seja. O segundo é a atitude dos media, onde os jornalistas especializados escasseiam e são cada vez mais pressionados a produzir prosa a metro e onde a competência tende a ser substituída por uma atitude mais “distanciada” e “profissional” (e menos arriscada) e que muitas pessoas confundem com “balanced reporting”: citar A, citar B, lavar daí as suas mãos e deixar o leitor extrair as suas conclusões ou mergulhar na confusão total. É com base neste critério que há escolas e jornais que tratam o evolucionismo e o criacionismo como duas visões equivalentes do mundo. E o mesmo pode acontecer com o aquecimento global.

É evidente que não cabe aos media definir o que é a verdade científica do momento, mas o seu papel também não se pode resumir a citar as várias partes de uma discussão – principalmente quando essa discussão está viciada por interesses escondidos.

Os media devem produzir racionalidade e permitir que os cidadãos façam escolhas informadas – não contribuir para a cacofonia. Neste caso, a racionalidade passa por saber quem fala e quem paga a quem para dizer o quê. “Follow the money” sempre foi uma boa regra do jornalismo. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O trabalho não pode ser o lugar do desespero

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 2 de Fevereiro de 2010

Crónica 5/2010
 
É possível ter empresas competitivas a nível global e internamente coesas, onde dê prazer trabalhar
Na semana passada, o PÚBLICO publicou uma entrevista de Ana Gerschenfeld a Christophe Dejours, um psiquiatra e psicanalista francês que estuda a relação entre trabalho e doença mental. A entrevista (Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal, 30/1/2010), que pode ser lida numa versão mais longa no site deste jornal, tem como tema central os suicídios de trabalhadores causados pelo assédio moral nas suas empresas e debruça-se, em particular, sobre o caso da France Telecom, mas nela Christophe Dejours faz acusações à gestão moderna que merecem consideração.
Uma das técnicas que lhe merecem mais reservas é a chamada "avaliação individual de desempenho", que praticamente hoje todas as empresas utilizam - e que tantos gestores idolatram pelo poder repressivo que lhes oferece. Para Dejours, a avaliação individual modificou totalmente o mundo do trabalho ao pôr em concorrência entre si não só as empresas, mas também os indivíduos. Como a avaliação está em geral associada a prémios ou promoções e, por vezes, mesmo à própria manutenção do emprego, ela é uma ferramenta geradora de medo, que destrói a cooperação entre trabalhadores sobre a qual se baseia todo o trabalho e o próprio tecido social do local de trabalho. "Aos poucos, todos os elos que existiam até aí - a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua - acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe..." E acrescenta: "[Antes] Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador (...). O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de se viver uma traição - a traição dos outros."

Não há, nas declarações de Dejours, para alguém que conheça minimamente o mundo do trabalho, nenhuma surpresa. Todos sabemos que as coisas são assim - à esquerda e à direita, trabalhadores e patrões, sindicalistas e directores de Recursos Humanos - mas ensinaram-nos a pensar que isso era inevitável, que essa pressão e essa submissão que os gestores tentam impor possuíam alguma racionalidade. Que os fins, em suma, justificavam os meios. Não têm e não justificam. Nunca justificam, como já devíamos ter aprendido.
O que as palavras de Dejours nos dizem, claramente, é que as empresas se transformaram muitas vezes em locais de submissão e de sofrimento inútil - às vezes de verdadeira tortura, às vezes de morte. E também nos explica - como devia ser evidente - que isso não tem de ser assim, que é melhor para todos, e também para as empresas, que as coisas não se passem assim.

Nos últimos anos, por todo o mundo, mulheres e homens de esquerda (e os sindicatos...) acederam a abdicar dos seus princípios e aceitaram que as empresas podiam ser parêntesis da democracia, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da solidariedade. Pequenas ilhas de tirania e de submissão em nome da eficiência, da produtividade, do crescimento, da competitividade global. É uma falsa equação. Toda a investigação moderna nos mostra que o stress mata a inovação, que o medo estrangula a criatividade, que a submissão não produz maior empenho, que o desânimo não estimula a cooperação - essa inovação e criatividade e empenho e cooperação que são o pão da boca da economia e da produtividade. E, mesmo que isso não acontecesse, deveria bastar a nossa consciência para traçar os limites da decência.

Agora que começamos a perceber o buraco em que nos metemos, que começamos a ver os frutos dos ovos de serpente que deixámos que fossem incubados no mundo do trabalho, não será altura de arrepiar caminho? (jvmalheiros@gmail.com)

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal" - uma entrevista a não perder

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Uma entrevista ao investigador francês Christophe de Dejours por Ana Gerschenfeld. A não perder.
As condições de trabalho impostas pelos modernos métodos de gestão em nome da Santa Eficiência, da Nossa Senhora da Produtividade e da Congregação da Competitividade Global.
Quantas centenas de milhões de escravos trabalham em países ditos modernos e democráticos sob este regime?
E quantas pessoas têm a coragem de combater este regime laboral em nome da simples decência?

terça-feira, janeiro 26, 2010

A angústia do jornalista perante a Internet

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 26 de Janeiro de 2010
Crónica 4/2010

A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa

De cada vez que tem lugar um acontecimento que concentra as atenções do mundo, como agora sucede no Haiti, torna-se evidente que os canais que utilizamos para nos mantermos informados mudaram de forma radical nos últimos dez anos.

É verdade que ainda continuamos a recorrer aos media tradicionais como a TV e os jornais (frequentemente através dos seus sites) e a ver as suas reportagens e a ler os seus artigos, mas ninguém que queira saber o que se passa no terreno e compreender os factos para além da superfície se fica por aí. O facto de podermos hoje ler e ver na Internet, sem mediação, os relatos dos indivíduos comuns que protagonizam estes acontecimentos, os testemunhos dos voluntários das organizações humanitárias, a par de blogues de jornalistas no local (locais ou estrangeiros, free-lance ou não) fornece à informação a que temos acesso uma riqueza incomparável. Durante anos tentámos vender a ideia (convictamente, nos melhores casos) de que o jornalismo era a única forma de aceder a informação rigorosa e independente sobre os acontecimentos do mundo. Se isso foi verdade alguma vez, hoje já não é certamente.

Sempre soubemos que não existiam fontes de informação desinteressadas, mas hoje é evidente que a única informação independente é a que se obtém através de uma multiplicidade de fontes e a que promove a participação dos cidadãos (os leitores sabem sempre mais que os jornalistas). Essas fontes independentes estão aos milhões na Internet, nos blogues, nas redes sociais, no Youtube, no Flickr, no Twitter, em novos serviços que emergem todos os dias e que não precisam de um modelo de negócio, porque não vivem disso. Foram eles que nos disseram o que estava a acontecer na Birmânia, no Irão, e agora no Haiti continuam a fazê-lo.

Podem permitir-nos prescindir dos media tradicionais? Não é essa a questão. Os media tradicionais estão a morrer porque estão a cometer harakiri, não porque alguém os queira destruir. E os leitores certamente que não querem substituir-se aos jornais. Só que são aqueles, "as pessoas antes conhecidas como a audiência", na expressão feliz de Jay Rosen, que têm mais histórias para contar, que sabem mais, que têm opiniões mais ricas e até posições mais isentas. Cada um deles? Não. Todos juntos.

É por isso que continua a ser espantosa a forma tímida (ou inexistente) como a imprensa tradicional ignora este recurso - o mais abundante e o mais rico recurso informativo do planeta - e, com raras excepções, lhe passa ao lado, com tímidas olhadelas de soslaio.

Como têm explicado muitos gurus do novo jornalismo - Dan Gillmor, Jeff Jarvis, ainda Jay Rosen - o jornalismo deixou de poder viver numa estrutura vertical, onde uns falam e os outros ouvem. A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa. As ferramentas existem e as pessoas estão a usá-las. O que é triste é que os media, devido ao corporativismo dos seus jornalistas, ao desânimo dos seus dirigentes, à ignorância dos seus gestores, à ganância anal-retentiva dos seus proprietários, continuam a tentar fazer tudo o que podem para deixar tudo na mesma. Não vai ficar. Se os jornalistas não quiserem entrar na conversa que o fluxo de informação já é, serão condenados à irrelevância.

O que não faz sentido é que, no momento em que há um novo jornalismo para inventar - e um jornalismo que merece entusiasmo, onde a criatividade e a participação cidadã assomam por todas as frinchas -, os media fiquem à espera da morte, repetindo sem o perceber o mantra louco que diz que a Internet é o futuro. O futuro passou-lhes debaixo do nariz e eles não deram por isso. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Shaken, not stirred. E com um cheirinho a morte

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Janeiro de 2010
Crónica 3/2010

No Haiti há um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados

Três dias depois de o sismo de 12 de Janeiro ter arrasado o Haiti e ter deixado 200.000 mortos sob os destroços das suas casas, um navio da companhia americana Royal Caribbean, o Independence of the Seas, atracou na costa norte da ilha.

O navio não levava medicamentos, nem tendas para os desalojados, nem cães para detectar sobreviventes soterrados, nem bulldozers para remover escombros, nem trabalhadores humanitários. Trazia turistas, que participavam num cruzeiro caribenho, e que vieram gozar a habitual paragem na praia de Labadee, um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados, que garantem que nenhum dos miseráveis haitianos que vivem do lado de lá perturbará o calmo mergulho nas águas cor de esmeralda ou o churrasco servido nas areias douradas que a empresa proporciona aos seus clientes. E assim foi. Depois de uma estadia de 24 horas, durante a qual os turistas não tiveram de ver as pilhas de corpos em decomposição recolhidos das ruínas, nem as crianças subnutridas que aguardam tratamento nos hospitais de campanha, nem a violência das pilhagens pelas ruas, o navio seguiu viagem com os seus passageiros, em direcção ao paraíso tropical seguinte.

É verdade que muitos dos passageiros, conscientes do que se passava do lado de lá dos muros - cujas imagens enchiam os noticiários das televisões dos seus camarotes -, não quiseram sequer descer à praia. E é verdade que o navio deixou na ilha quarenta paletes de ajuda alimentar e que a empresa de cruzeiros se comprometeu a entregar como donativo as receitas da estadia. Mas, apesar destes leves paliativos, não se pode deixar de sentir que o episódio contraria as mais elementares regras da decência. Como se pode beber um martini quando há ao lado uma criança que morre por falta de água? Como podemos balançar numa rede entre dois coqueiros quando, ali ao lado, ouvimos o grito dilacerante da rapariga de 14 anos que chora a morte do seu irmão de cinco anos, esmagado debaixo de uma casa sob cujos escombros ela sobreviveu cinco dias? É fácil responder que o martini não pode matar a sede à criança e que a anulação do cruzeiro iria prejudicar ainda mais a quase inexistente economia haitiana, mas nenhum sarcasmo e nenhum cálculo conseguem disfarçar o nó nas nossas tripas. Será tão difícil perceber que algo está profundamente errado? Será tão difícil perceber que esta desigualdade é indecente?

A questão é que o que se passou neste cruzeiro não foi muito diferente do que se passou das outras vezes em que o Independence of the Seas atracou em Labadee. O Haiti é desde há muito o mais pobre país das Américas e a esmagadora maioria da sua população vive abaixo do limiar de pobreza, com um por cento da população a arrecadar metade do produto nacional. Do outro lado do muro de três metros e meio de altura sempre houve fome. E casas que não oferecem qualquer garantia de protecção contra sismos. Mesmo sem uma catástrofe a mostrar nas televisões a morte e a violência, a pobreza e a sordidez, o Haiti - que tem a glória de ser o único Estado moderno que nasceu de uma revolta de escravos - é desde há muito um dos caixotes de lixo do mundo, um país exportador de escravos, explorado sucessivamente pela França e pelos EUA, que apoiaram as suas múltiplas ditaduras, condenado à miséria e à doença (recordam-se da sida?) e esquecido do mundo. As promessas de ajuda de hoje devem-se apenas à presença no primetime. E a escala do Independence of the Seas só nos parece chocante hoje pela mesma razão. Há muito tempo que os passageiros do Independence of the Seas tomam os seus martinis sobre um fundo de cheiro de morte. Nós é que fingimos que não o sentimos. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Spam

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Janeiro de 2010
Crónica 2/2010

Há oportunidades à espreita no seu filtro de spam. Em 2010 não deixe a vida passar-lhe ao lado

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sexta-feira, janeiro 01, 2010

EUA difundem conselhos de Ano Novo para bombistas

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 5 de Janeiro de 2010
Crónica 1/2010


Department of Homeland Security ensina-lhe como deixar de se preocupar e passar a amar a bomba

Depois de, no passado dia de Natal, o nigeriano Abdul Farouk Abdul Mutallab ter tentado fazer explodir um avião da Northwest Airlines proveniente de Amesterdão, quando este se aproximava do aeroporto de Detroit, a Transportation Security Administration, a agência federal responsável pela segurança dos transportes nos EUA, que faz parte do famigerado Department of Homeland Security, decidiu emitir novos procedimentos que devem ser seguidos por todos os futuros bombistas, sejam eles ou não da Al-Qaeda, se quiserem passar despercebidos e ser bem sucedidos nos seus atentados.

Antes de mais, a Transportation Security Administration (TSA) alerta os candidatos a bombistas para o facto de que todos os passageiros que queiram entrar nos Estados Unidos e que sejam originários ou provenientes de 14 países (Nigéria, Paquistão, Iémen, Afeganistão, Líbia, Somália, Cuba, Irão, Sudão, Síria, Argélia, Líbano, Arábia Saudita e Iraque) vão passar a ser submetidos a uma revista corporal completa e a uma inspecção manual dos seus objectos pessoais.

Isto significa que, se a Al-Qaeda quiser que os seus bombistas passem despercebidos, deve ter o cuidado de os escolher entre cidadãos naturais de outros países, o que não será difícil. Para maior garantia, a TSA lembra que são os aviões que se dirigem aos Estados Unidos que são objecto de vigilância mais apertada e não aqueles que saem dos Estados Unidos, o que sugere que sejam estes os escolhidos como alvos de atentados bombistas. Uma das vantagens adicionais consiste no facto de os EUA serem um dos países do mundo onde é mais fácil comprar armas ou explosivos, tornando mais fácil o aprovisionamento dos terroristas.

A TSA avisa porém todos os futuros bombistas de que não vai difundir em detalhe os novos procedimentos anti-terroristas que devem ser seguidos pelas companhias aéreas - o que significa que poderá ser mais avisado para os futuros terroristas dedicar-se a atacar outros tipos de transporte, com posições menos destacadas na lista de prioridades da Homeland Security, mas não menos mediáticos nem menos mortíferos. O metropolitano, ferries, comboios e autocarros são possibilidades deixadas em aberto - mas deve ter-se em conta que a responsabilidade da TSA se resume aos transportes, podendo haver alternativas interessantes para os objectivos da Al-Qaeda noutros domínios de actividade.

No que diz respeito aos aviões, além das revistas corporais e da inspecção das bagagens pessoais dos suspeitos oriundos de certos países, os passageiros devem estar conscientes de que podem ser objecto de quaisquer outras medidas de caução imaginadas pelas companhias aéreas ou pelas tripulações dos aparelhos - sem restrições de qualquer tipo. Entre as que estão a ser adoptadas pelas companhias aéreas estão a obrigatoriedade de mostrar as duas mãos sempre que a tripulação o pedir (supõe-se que o pedido seja o clássico "mãos ao ar") ou de estar sentado durante a última hora de voo ou a proibição de usar a casa de banho - o que desaconselha vivamente qualquer diarreia, como um outro passageiro nigeriano já descobriu.

Todas estas medidas, adoptadas na sequência do tentado atentado do jovem nigeriano e da maléfica histeria crónica de Dick Cheney, poderão vir a ser ainda complementadas por outras até que a democracia americana se torne virtualmente indistinguível de um país fundamentalista muçulmano. Os hábitos serão diferentes, mas o grau de liberdade semelhante. É evidente que nenhuma dessas medidas serve absolutamente para nada senão para instalar uma falsa sensação de segurança ou uma verdadeira sensação de medo, mas Obama poderá dizer que não fraquejou na luta contra o terror. Por enquanto, só está a fraquejar na luta contra Cheney e o seu estilo ("tough, mean, dirty, nasty", segundo o próprio) de "garantir a segurança dos EUA". Aterrorizador. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, dezembro 30, 2009

A década do medo e da desigualdade

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 30 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

Esta foi a década em que vimos mais caras de pessoas que sabíamos que iam morrer

Fim de ano é tempo de balanço do passado e de votos para o futuro. Fim de década é tempo de dez vezes mais balanços e, por amor à simetria, mãe da ordem, da beleza e da verdade, de tentativas de escrutinar os próximos dez anos – como se isso fosse preciso para equilibrar o olhar que lançamos para trás, para nos garantir que não vamos ficar presos para sempre no passado, com o pêndulo do relógio atolado no lodo negro daquilo que já passou, e que poderemos seguir em frente. Fazemo-lo ainda que saibamos como é fútil pretender espreitar o futuro, como a década passada mostrou (quem adivinhou no ano 2000 o dia 11 de Setembro do ano seguinte?), como num exorcismo divinatório, através do qual tentamos pelo menos evitar o pior e sugerir o melhor, atirando umas sementes de optimismo para a frente do caminho.

É claro que a primeira década do terceiro milénio desta era só acaba no fim de 2010, mas o milénio mítico começou em 2000, quer gostemos quer não, e por isso toda a gente se lançou alegremente no exercício decenal em 2009.

Que a década passada não deixa saudades no Ocidente à maior parte dos observadores parece claro, ainda que a situação seja diferente na China, onde cada ano arrancou umas quantas dezenas de milhões de indivíduos ao oceano da pobreza. Para mim, a década que está a acabar, nascida, como o século e como o milénio, a 11 de Setembro de 2001, é a década do medo. O medo do terrorismo, claro, mas mais do que isso.

O medo que nasce da consciência da total desprotecção perante o ódio, o medo que nasce da consciência desse ódio ubíquo que não percebemos, mas também o medo instrumental, estimulado pelos poderes para aumentarem a sua força e ampliarem o seu raio de acção, o medo que faz homens livres prescindir da liberdade em troca de uma ilusória segurança. O medo que faz pessoas normalmente justas e sensatas e sociedades tradicionalmente democráticas aceitar que em certos casos se deve pôr a liberdade, a justiça e a humanidade na gaveta para reduzir o perigo – como se isso reduzisse o perigo e como se pudesse haver um mundo, digno de ser salvo, sem liberdade, sem justiça e sem humanidade.

A década que passa foi também a década da Internet e da informação global, a década em que, mais do que em qualquer outra década da história do mundo, soubemos o que se passava do outro lado do planeta, soubemos quantos homens como nós morreram em guerras sem sentido e quantas crianças como os nossos filhos morreram de fome.

Esta foi a década da desigualdade social crescente, dos 200 milhões de trabalhadores desempregados, da deslocalização das empresas, do império da rentabilidade económica, da alienação dos direitos e da dignidade dos trabalhadores por medo do desemprego e da fome. Esta foi a década em que vimos na televisão e na Internet mais caras de pessoas que sabíamos que iam morrer e foi a década em que não fizemos nada por elas. Esta foi a década em que nos comprometemos a acabar com a fome e com a pobreza e em que percebemos que não o íamos fazer – por comodismo e por cobardia.

Esta foi a década em que nos comprometemos a proteger o globo para as gerações futuras e em que percebemos que não o iríamos sequer tentar fazer – a não ser quando já for tarde de mais. Esta foi a década em que percebemos que não é por não sabermos que não agimos. É porque não queremos. Esta foi a década em que percebemos que não é só dos outros que devemos ter medo. É de nós. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Depois de nós, o dilúvio, a peste, o granizo, as trevas...

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 23 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

É preciso algum cinismo para dizer que Copenhaga foi “um passo no bom sentido”

A cimeira do clima de Copenhaga serviu pelo menos para uma coisa: conseguimos finalmente medir a importância que as alterações climáticas e a sustentabilidade têm para os principais países industrializados, para além dos discursos eleitorais. Por exemplo: para os Estados Unidos, as alterações climáticas são cerca de 200 vezes menos preocupantes do que a crise financeira do ano passado. Como é que se pode saber? Porque no ano passado a Administração americana não teve grandes engulhos em aprovar um pacote de 700.000 milhões de dólares para comprar os “títulos tóxicos” que as instituições financeiras tinham acumulado em operações de duvidosa legalidade e menos que duvidosa honestidade, mas apenas conseguiu desta vez prometer um apoio financeiro de 3600 milhões (e não para já, mas a ser concedido até 2012) para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentar o aquecimento global e a não aumentar a sua pegada de carbono. A UE prometeu três vezes mais (10.600 milhões) e o Japão também (11.000 milhões), mas os números são da mesma ordem de grandeza.
Estas quantias são enormes? Representam um empenhamento sério? Não e não. São gotas num balde vazio, que não vão chegar a humedecer o fundo, quanto mais matar a sede aos que esperam na fonte. Os números empalidecem, quando os comparamos com o carinho com que é tratado o menor soluço de um banqueiro. Ponhamos os números em perspectiva: o compromisso assumido pelos EUA é pouco mais do que um quarto (não quatro vezes mais: um quarto) do buraco de 9700 milhões de euros que o Ministério Público diz ter sido deixado nas contas do Banco Insular pela equipa de José Oliveira e Costa. Claro?
É verdade que todos estes países dizem que isso será apenas o início e dizem-se dispostos a multiplicar estas verbas por dez para chegar à redonda verba de 100.000 milhões por ano, mas ninguém se atreveu a assumir essa verba como um verdadeiro compromisso. É apenas “um objectivo”. E um objectivo ridiculamente escasso.
Será Copenhaga, como dizem tantos políticos, pelo menos “um passo no bom sentido”? É preciso algum cinismo para o dizer, porque enquanto o dizemos há milhões que morrem devido à fome, à sede e a catástrofes naturais cujos efeitos poderiam ser mitigados pelo empenhamento internacional e há muitos mais milhões que sabemos que vão morrer devido à nossa inacção.
Será que, se encontrarmos uma pessoa que está a morrer de sede e formos buscar água à fonte, estamos a ir na direcção certa? Certamente. Mas se depois nos sentarmos à frente dessa pessoa, com a água que fomos buscar nas nossas mãos, e observarmos a sua agonia enquanto morre de sede, será que podemos dizer que demos de facto um passo no bom sentido? Será que fazer a milésima parte do caminho que temos de fazer para obter os resultados que temos a responsabilidade de alcançar é um passo no bom sentido? Não será antes a mais vergonhosa das acções? Não será isso não só não fazer o que nos manda a consciência, como, para mais, encobrir essa falha com uma monstruosa mentira, a mentira de que “estamos a dar passos no bom sentido”?
A constatação que se impõe fazer depois de Copenhaga é que, para os líderes mundiais que elegemos ou suportamos, o nosso futuro vale pouco, os nossos filhos valem pouco e os filhos dos outros não valem nada. Nos anos 70 dizíamos com assombro que o homem tinha conseguido reunir instrumentos de destruição suficientes para destruir a vida na Terra em poucos minutos. Mas, pelo menos, esses instrumentos de destruição foram mantidos dentro da caixa. Copenhaga constituiu outro marco: o momento em que a nossa capacidade de destruição, em curso, demonstra ser muito maior do que a nossa vontade para inflectir o seu curso. Haverá sinal mais claro de decadência? (jvmalheiros@gmail.com)