sexta-feira, junho 05, 2009

Página de Rosto - Ruth Lilly, uma musa discreta

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 5 Junho 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 10


Ruth Lilly, filantropa (Estados Unidos)


Em Portugal não sabemos bem o que seja a filantropia e a palavra é usada quase só em tom jocoso, para disfarçar a incomodidade que nos causa. Quando lemos o Retrato do poeta espanhol António Machado e ele nos diz que aprendeu o “segredo da filantropia” fingimos não reparar no verso e passamos rapidamente à frente.

Às vezes falamos de mecenato (porque tem um ar businesslike), ainda que praticamente ninguém o pratique, ou de solidariedade (porque é um conceito politicamente impreciso), mas filantropia parece-nos uma coisa do século XIX (que é, em grande medida) e fora de moda (o que em Portugal é verdade, se é que alguma esteve na moda). Ainda que os neoliberais defendam que é essencial os ricos serem muito ricos porque assim podem dar dinheiro aos pobres, em Portugal nem essa ideia pega. O capitalismo à portuguesa diz que é bom os ricos serem muito ricos porque assim ficam muito ricos.

Em Portugal consideramos generosidade um milionário morto não ter levado o dinheiro consigo para o Além e tê-lo deixado do lado de cá. O multimilionário americano Andrew Carnegie, magnate do aço que nunca foi suspeito de ser de esquerda, considerava isso uma vergonha: “O homem que morre deixando milhões que, durante a sua vida, estiveram sob a sua administração, morre sem ser chorado, morre desonrado e sem merecer elogios, sejam quais forem os usos que ele destine para a escória que não pôde levar consigo. O veredicto que o público emitirá sobre estes homens será: ‘O homem que morre assim rico morre sem honra’”. E Carnegie não está só na defesa da filantropia nos EUA. A ideia – e a prática – continua a ser defendida por muitos milionários. Bill Gates empenha-se há muitos anos em dar da melhor maneira o dinheiro que acumulou e garantia numa entrevista que “dez por cento seria suficiente para os filhos”. E o mesmo fazem muitos outros milionários, com desonrosas excepções.

A filantropia nos Estados Unidos é uma coisa séria. Há revistas de filantropia, há milhares de artigos sobre filantropia escritos todos os anos, há inúmeras instituições culturais, académicas e científicas de primeira água que vivem da filantropia – sem que se ouçam as iletradas condenações de subsidio-dependência que se ouvem por cá – e há rankings de filantropos publicados anualmente pelas publicações mais prestigiadas.

Nestes rankings, onde nomes como os de Bill Gates, Warren Buffet e George Soros ocupam sempre lugares cimeiros, com doações acumuladas ao longo da vida de milhares de milhões de dólares, há um nome, porém, que merece uma honra particular, de acordo com os preceitos de Carnegie: o de Ruth Lilly.

Ruth Lilly nasceu em 1915, em Indianápolis, Indiana, onde ainda vive, e é a herdeira do império farmacêutico Eli Lilly. E a distinção especial que lhe cabe deve-se ao facto de que esta multimilionária já tinha distribuído em doações até 2004, uma quantia que correspondia a duas vezes e meia a sua fortuna remanescente. Como termo de comparação, Bill Gates tinha doado até à mesma data uma quantia correspondente a 58 por cento da fortuna então em sua posse (doação total de 27976 milhões de dólares) e George Soros tinha doado 72 por cento (5171 milhões). A doação de Ruth Lilly até essa data era de 750 milhões, segundo dados das publicações BusinessWeek e Chronicle of Philanthropy e da organização GuideStar.

Ruth Lilly aprendeu a filantropia no berço. A sua família, desde o bisavô fundador da companhia, o coronel Eli Lilly, sempre considerou que era seu dever devolver à comunidade o muito que esta lhe dava. O seu avô, pai e restante família simplesmente seguiram a tradição, reforçada por um forte sentimento religioso e por uma crença profunda no papel emancipador da educação e da cultura. Quando se procura o nome de Ruth Lilly na Internet aparecem as habituais inúmeras páginas mas todas dizem respeito a instituições que financiou: a Ruth Lilly Medical Library, o Ruth Lilly Health Education Center, a Ruth Lilly Law Library, o Ruth Lilly Hospice… a lista é longa. Longa e demasiado curta porque há muitas doações feitas anonimamente, sem a publicidade do seu nome numa placa. Há muitos recipientes que nem sequer sabem quem os ajudou: vêem apenas um advogado que lhes comunica a doação de um benfeitor anónimo. Ruth Lilly nunca gostou de publicidade, sempre odiou ser reconhecida e não gosta de agradecimentos.

O que praticamente não se encontra na Internet são informações pessoais ou fotografias. Ruth Lilly também nunca gostou de fotografias.

A esmagadora maioria das suas doações foi feita directamente. Há uma fundação com o seu nome, a Ruth Lilly Philanthropic Foundation, a quem tenciona deixar o dinheiro que lhe sobrar quando morrer, e há duas outras fundações ligadas à família que possuem actividades independentes, financiadas por fundos generosos já estabelecidos (Lilly Endowment e Eli Lilly and Company Foundation), mas Ruth Lilly preferiu quase sempre dar o seu dinheiro directamente aos projectos ou organismos que lhe pareciam meritórios, em vez de o fazer através das fundações instituídas pela família.

A sua primeira grande doação foi a dádiva da casa de família, Oldfields, ao Indianápolis Museum of Art, que a transformou em casa-museu – assim como de um fundo que garante a sua manutenção. Mas o gesto que lhe mereceu notícias no mundo inteiro foi, em 2002, a dádiva de mais de 100 milhões de dólares (a quantia exacta é difícil de determinar, pois a doação incluía uma imensa carteira de títulos de tipos diversos, mas houve quem a estimasse em 150 milhões) a uma minúscula organização, a Modern Poetry Association de Chicago, editora da revista Poetry.

Mesmo nessa ocasião Lilly não apareceu e os media tiveram de se contentar com declarações do seu advogado, mas não faltou quem pusesse em causa o discernimento da senhora, então com 87 anos, e até quem receasse os efeitos que tal inundação de dinheiro poderia gerar na qualidade da poesia americana. Mas o gesto, se era inédito, não tinha nada de precipitado ou de insensato.

A revista Poetry, criada em 1912 por Harriet Monroe, poeta e crítica de arte do diário Chicago Tribune, era (e é) uma revista de impecável reputação que conta entre os seus louros com a publicação de Ezra Pound, T. S. Eliot e William Carlos Williams e que continua a divulgar poesia moderna de qualidade. E Ruth Lilly foi, durante toda a sua vida, uma apaixonada de poesia e uma leitora entusiasta da revista, tendo-se mesmo dedicado à escrita de poesia com alguma seriedade. Sabe-se que, nos anos 70, Ruth Lilly submeteu alguns originais à Poetry (não se sabe ao certo quantos poemas nem quantas vezes, as versões variam), onde foram recusados pelo editor, Joseph Parisi - o mesmo que, trinta anos depois, receberia os seus milhões.

E essa não foi a única vez que tentou o prelo: em 1939, sob o quase pseudónimo R. Lyly, o New York Times publicou quatro poemas seus – que não é possível ver na edição digital do jornal ainda que esta remonte a 1851. A revista Business Week cita quatro versos:

Secure in plush upholstery
I wink a torpid eye
and note above the plaudits
the needle of your sigh

(“Confiante, no estofo aveludado / pisco um olho sonolento / e noto por cima dos aplausos / a agulha do teu lamento”)

O gosto da poesia também já era visível na sua actividade filantrópica. Antes da sua doação gigante à Poetry – que permitiu transformar a Modern Poetry Association numa pujante Poetry Foundation, triplicar a circulação da revista (hoje de 30.000 exemplares), triplicar o preço pago aos autores para 6 dólares por verso (!), aumentar o staff e multiplicar as iniciativas de ensino e promoção da poesia – Ruth Lilly já apoiava a revista, financiando bolsas e um generoso prémio anual de poesia com o seu nome, no valor de 100.000 dólares, atribuído desde 1986.

A reclusão a que Ruth Lilly se remeteu durante quase toda a vida não se deve apenas a timidez. A sua saúde foi sempre descrita como frágil e Lilly passou anos hospitalizada devido a uma severa depressão crónica. As suas raras saídas de casa foram sempre acompanhadas por enfermeiras, mesmo quando ainda se conseguia deslocar sozinha. Segundo o escasso perfil publicado no citado artigo da Business Week, foi só quando Ruth Lilly já tinha passado dos 70 anos que a sua situação médica sofreu uma melhoria considerável graças ao Prozac – o mais famoso dos antidepressivos e, irónica ou afortunadamente, uma das estrelas dos laboratórios Eli Lilly.

Apesar dessa relativa recuperação e das viagens que pôde fazer depois disso, Ruth Lilly continuou a fugir aos media e a quase toda a gente, uma espécie de Howard Hughes da filantropia. Uma vez apareceu de surpresa na recepção do Ruth Lilly Health Education Center para ver como estavam a correr as coisas, mas a maior parte das visitas que fez para ver como estava a ser gasto o seu dinheiro foram feitas anonimamente.

Em 2006, a pedido da família, um tribunal do Ohio considerou-a incapaz de gerir os seus donativos e entregou essa responsabilidade a seis dos seus sobrinhos e sobrinhas. A situação não se alterou e a família não divulgou qualquer informação sobre o seu estado depois disso. Nem autorizam que sejam publicadas fotos suas – das escassíssimas que possam existir. O único fotógrafo que encontrámos que possui fotografias de Ruth Lilly (tiradas em 2005, num evento público, onde aparece surpreendentemente jovem para os seus 90 anos, com uma expressão ingénua nos olhos cinzentos e impecavelmente maquilhada e penteada como uma actriz dos anos 40) não as pode ceder porque a família não autoriza a sua publicação.

Seria normal que alguém como Ruth Lilly, que teve uma vida longa e com todo o conforto material, que teve a oportunidade de concretizar tantos dos seus desejos e que atingiu uma tal reputação, fosse conhecida de imensa gente e acabasse a sua vida rodeada e feliz. De facto, não é assim. Mas o seu objectivo filantrópico foi certamente atingido. Ruth Lilly fez o que pôde para melhorar a vidas das pessoas à sua volta (a maioria das suas doações destinaram-se a instituições no seu estado natal, o Indiana) e para que elas pudessem usufruir de cultura, educação e beleza.

A sua vida pode não ter sido tão feliz como teríamos gostado, mas uma coisa é certa: se alguém cumpriu os critérios de filantropia de Carnegie para morrer com honra, foi Ruth Lilly.

terça-feira, junho 02, 2009

Alexandra T. e as maçãs podres

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 2 de Junho de 2009
Crónica xxx/2009


Como é possível que este arrogante e ignorante sistema de "Justiça" continue a produzir tantas maçãs podres?

Não é preciso ser perito em fruticultura para saber o que é uma maçã podre. Quando damos uma dentada numa maçã podre, mesmo que um grupo de doutores em ciências agrárias nos tente provar que aquela maçã está sã como um pêro, nós sabemos que não está.


Os peritos em fruticultura não sabem melhor do que nós o que é uma maçã podre. A grande diferença é que eles sabem (ou esperamos que saibam) como é que se faz para produzir maçãs de primeira classe.

Da mesma forma, não é preciso ser um especialista em Direito ou um profundo conhecedor do funcionamento do sistema judicial para saber o que é a justiça. É como com as maçãs: podemos não saber como se cultivam aquelas maçãs rijas e aromáticas, mas quando vemos uma maçã podre... sabemos de ciência certa que está podre. Não vale a pena tentar disfarçar.

O problema com a chamada Justiça (a maiúscula é para sublinhar a diferença com a comum justiça) em Portugal é que produz demasiadas maçãs podres. Há quem continue a dizer que o nosso sistema judicial "atravessa uma crise" mas que "a Justiça funciona". Nenhuma das frases é correcta. Se a Justiça estivesse a atravessar uma crise, isso seria uma excelente notícia. O problema é que está parada no meio da crise e já criou raízes.
Os exemplos são inúmeros, dos grandes casos aos pequenos. Nos grandes, as coisas arrastam-se e vão-se complicando à medida que os processos se arrastam - em vez de se esclarecerem, como parece que deveria ser a função do sistema -, tornando qualquer perspectiva impossivelmente obscura. Nos pequenos casos, percebemos melhor que não percebemos nada. Um velho advogado dizia-me há anos que, em Portugal, era impossível prever o desfecho de um processo: já tinha visto imensas pessoas limpidamente inocentes ser condenadas e grandes e óbvios gabirus inocentados. Mas acrescentava (para me descansar, suponho) que não era tudo exactamente ao contrário do que devia ser, que às vezes o sistema funcionava: era mais como deitar uma moeda ao ar.

O que é curioso é que muitos dos responsáveis pela administração da justiça em Portugal partilham esta visão catastrófica em privado - ainda que não a admitam em público. Uma hipocrisia que não é de molde a descansar ninguém.

O último episódio desta farsa em contínuo foi a retirada da menina de Barcelos, Alexandra T., da tutela do casal que a cuidava desde os 17 meses e a sua entrega à mãe biológica que a levou para a Rússia. O juiz da Relação de Guimarães já concedeu que pode não ter feito a escolha mais acertada, mas escudou-se com "os factos constantes do processo", que não permitiriam outra interpretação. E isso é que é espantoso, porque "os factos constantes do processo", se dizem alguma coisa, por trás do português canhestro que se usa nos tribunais e dos visíveis preconceitos de quem o escreve, é que esta criança foi abandonada pela mãe, que a descuidou grave e sistematicamente, e que o casal que a acolheu a tratou bem e que a criança os amava como pai e mãe. Como é possível que um especialista da lei não saiba ler esta história que, se fosse um conto, qualquer criança de seis anos perceberia? Como é possível que, em vez de justiça, este arrogante e ignorante sistema de "Justiça" continue a produzir tantas maçãs podres e a condenar crianças a cumprir as penas que apenas os juízes deveriam cumprir? Jornalista (jvm@publico.pt)

quarta-feira, maio 27, 2009

A face escondida do Parlamento Europeu

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 27 de Maio de 2009
Crónica xx/2009

As pessoas preferem discutir aquilo que conhecem a discutir o que não conhecem. Haverá algo mais compreensível?

As eleições são para o Parlamento Europeu, mas os partidos e os media preferem discutir as questões nacionais. O Parlamento Europeu (PE) é mais importante do que os parlamentos nacionais, mas discutimos mais a actividade dos últimos que a do primeiro. E a taxa de abstenção nas eleições europeias é muito superior à das eleições nacionais.

As queixas são conhecidas, mas não há nada mais normal do que a actual situação. O que acontece é que as pessoas preferem discutir aquilo que conhecem a discutir o que não conhecem. Haverá algo mais sensato e mais compreensível?

É evidente que os partidos deviam fazer um esforço de informação e formação política sobre o papel do PE. Mas não o fazem e isso também é compreensível: dá trabalho, exige tempo e dinheiro, não dá votos e desvia energias que podem ser gastas a insultar os rivais políticos - além de que eles também preferem falar do que conhecem melhor (farinha Maizena, por exemplo) e sabem que um excesso de escrutínio público da actividade política lhes pode perturbar a digestão.

O que é menos compreensível é que essa actividade de informação não seja assumida de forma mais eficaz pelo próprio PE, nomeadamente através de uma utilização da Internet mais dinâmica.
Nos últimos anos, o site do PE melhorou de forma radical. Hoje o site é compreensível, bem organizado, possui a informação relevante de carácter institucional e até informação sobre a actividade parlamentar de cada deputado. O esforço de transparência é visível e o PE tem-se comprometido a aprofundá-lo.

Só que o esforço é insuficiente. A questão seria secundária se a Web fosse apenas mais um meio de difusão de informação, a par dos programas de televisão e dos folhetos, por exemplo. Mas a Web é "a" ferramenta da transparência política e "a" ferramenta de comunicação entre cidadãos e eleitos, por excelência.
E se os utilizadores profissionais conseguem encontrar o que procuram, esse não é o caso dos cidadãos em geral ou sequer dos jornalistas em geral.

O problema principal para um leigo quando acede a um site e procura informação sobre um dado assunto, não consiste em encontrar um documento (ou cem) sobre esse assunto, mas sim em encontrar as respostas às suas perguntas. É possível que no site do PE se possa encontrar informação sobre tudo - o problema é que, com frequência, o estatuto do documento que se encontra é, para um leigo, absolutamente misterioso. É um diploma aprovado? Está em vigor? Espera decisão do Conselho? É uma proposta antiga? Nova? Um documento já alterado por outro? Ou este é que é uma alteração a outro? Está em vigor nos estados-membros, em Portugal? O que tem a ver connosco? Qual é a legislação nacional que o traduziu para o direito interno? Que alterações foram introduzidas na sua regulamentação nacional? De onde vem? Qual foi a discussão que esteve na sua origem? Quem o propôs? Quem o redigiu? Quem o contesta? Porquê? Quem o apoia? Que alterações foram propostas? Por quem? Como foi votado?

A actividade central do Parlamento é a produção de legislação. Mas cada peça legislativa tem uma história, uma constelação de peças-satélites (propostas, debates, alterações, defensores, detractores) que lhe deve estar associada e ser facilmente recuperada. São essas peças que lhe dão sentido. E tudo isso deve ser disponibilizado desde o início do processo. O contraditório é parte essencial do debate democrático e do processo legislativo. O que queremos saber não é apenas o que sai do PE, mas sim o que está a acontecer, o que vai acontecer, quem defende o quê e porquê, como podemos intervir, pessoal ou institucionalmente, na União Europeia ou em Portugal.

Se o PE não se empenhar nesse exercício de transparência ex ante e se não se empenhar na promoção do debate e na estimulação do feedback continuará a alimentar a exclusão dos cidadãos da política europeia, por muito competentes que sejam os seus deputados. Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 22, 2009

Página de Rosto - Sunila Abeysekera: ao lado das mulheres do Sri Lanka

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 22 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13


Sunila Abeysekera, feminista (Sri Lanka)


Sunila Abeysekera não está optimista.

Nos últimos dias, o noticiário internacional tem estado cheio de notícias sobre aquilo que parece ser a derrota final da resistência armada tâmil, os famosos Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), às mãos das forças armadas governamentais do Sri Lanka. O Governo não parou de anunciar em tons vitoriosos que a zona norte e leste da ilha, predominantemente tâmil, terreno natural do LTTE, está neste momento totalmente nas suas mãos e não existe já qualquer foco de resistência. Para mais, parece certo que Velupillai Prabhakaran, o mítico líder dos Tigres, foi morto nas últimas horas do conflito, assim como o seu filho e todos os outros dirigentes da guerrilha, e não há ninguém com o carisma necessário para tomar o seu lugar. Parece que a guerra civil que tem oposto a maioria cingalesa (74 por cento da população do Sri Lanka) à minoria tamil (12,5 por cento), que durou 26 anos, que provocou 300.000 deslocados e pode ter causado até 20.000 mortos só no último ano, acabou ou está em vias disso. O que é uma boa notícia.

Mas Sunila Abeysekera não está optimista. Não só porque acha possível que se verifique um ressurgimento da resistência armada tâmil e o reacender da guerra civil, mas também porque receia a atitude do regime do presidente Mahinda Rajapakse mesmo que isso não aconteça.

“O Governo diz que a guerra acabou”, diz Abeysekera, “mas sabemos que as raízes do conflito só desaparecerão quando for dada ao povo tamil a possibilidade de uma verdadeira participação política, quando forem reconhecidos os direitos cívicos desta minoria, quando tiverem acesso à educação e ao emprego. E para isso acontecer é preciso que o Governo se volte para os dirigentes políticos moderados tâmiles e dialogue com eles. Sem isso, os problemas vão continuar a existir. Quanto à derrota militar… o LTTE já foi derrotado antes e a revolta regressou.”

Sunila Abeysekera está num bom posto de observação da realidade do Sri Lanka. Nascida em 1952, activista dos direitos humanos há quase trinta anos, corajosa e frontal militante feminista desde sempre, Abeysekera dirige a Inform, uma organização que se tem dedicado à denúncia das inúmeras violências e atropelos praticados pelos dois lados do conflito. O seu trabalho tem merecido o reconhecimento interno e internacional – Kofi Annan, o secretário-geral da ONU, entregou-lhe em 1998 o Prémio de Direitos Humanos da organização – mas Abeysekera tem tido de pagar um preço. Actualmente encontra-se fora do Sri Lanka e a conversa telefónica que mantemos tem como destino um país não identificado.

Abeysekera foi obrigada a fugir do seu país em Abril do ano passado devido a ameaças de morte que se provaram credíveis: militantes de organizações de defesa dos direitos humanos que receberam ameaças começaram a ser assassinados e Abeysekera decidiu não esperar que isso que lhe acontecesse a si. Não foi a primeira vez que foi forçada ao exílio. Em 1988, grávida da sua última filha (tem seis filhos), também teve de fugir para a Holanda depois de receber ameaças de morte. O ambiente político é de molde a fazer levar estas ameaças a sério. “No Sri Lanka, se se levanta a voz contra a injustiça, o castigo não costuma ser nada menos do que a morte”, dizia em 1999, numa entrevista dada ao UNESCO Courrier. “Não costuma tratar-se de intimidação, de agressões ou de prisão mas sim de assassinatos, extremamente brutais. Neste mesmo momento há pessoas que estão a ser raptadas, detidas e torturadas pelas forças de segurança e por grupos paramilitares. A cultura do medo deu lugar a uma cultura do silêncio”.

Abeysekera nunca cedeu a esse silêncio, mas não há razão para pensar que essa cultura vá desvanecer-se depois do fim do conflito. “Mesmo que não haja um regresso ao conflito armado”, diz-nos Abeysekera, continuando a analisar a situação actual, “isso não significa que haja a garantia de uma melhoria em termos de direitos humanos. A confiança que esta vitória militar deu ao governo e aos seus apoiantes, o facto de constituírem a maioria, reforçou a sua arrogância e tem havido um crescente clima de intimidação em relação a pessoas que são suspeitas de simpatias pelo LTTE ou simplesmente pelo povo tâmil. Há pessoas que têm visto as suas casas cercadas por multidões a gritar ameaças. As celebrações de vitória nas ruas às vezes acabam por dar origem a isso. As pessoas que estão na oposição política, nas organizações de direitos humanos, nos sindicatos estão muito ansiosas, muitas estão aterrorizadas.”

É o problema de uma guerra civil: quando se critica o “nosso lado” (Abeysekera é cingalesa) ou se denunciam abusos contra “o outro lado” acaba-se por ser considerado um traidor. Um insulto que Abeysekera ouviu muitas vezes ao longo da vida.

Há razões históricas mais que suficientes para a ansiedade de hoje. Quando do último cessar-fogo entre o Governo e o LTTE, em 2006, o país foi atingido por uma vaga de “desaparecimentos” de pessoas suspeitas de simpatias pelos Tigres – aquilo que ficou conhecido em Colombo, a maior cidade do país, pelo nome de “síndrome da carrinha branca”. Uma carrinha branca parava na rua, uns homens saíam e empurravam para a carrinha alguém de quem nunca mais se ouvia falar. Nos anos noventa, a ONU dizia que o Sri Lanka era o segundo país do mundo em número de “desaparecidos”, que se estimam em várias dezenas de milhares. O receio é que o regime tenha a tentação de levar a “limpeza” da oposição até ao fim.

A oposição e muitas organizações de defesa dos direitos humanos estão reunidas numa Plataforma para a Liberdade – mas Abeysekera acha “pouco provável” que, no actual clima de euforia e de arrogância, o regime dê um passo na sua direcção sem uma enorme pressão nesse sentido a nível internacional. E a pressão internacional nunca se fez sentir muito fortemente no Sri Lanka – um fenómeno que Abeysekera considera que não é isento de racismo e de uma visão neocolonialista: “Se uma pessoa branca tivesse sido raptada ou morta no Sri Lanka, os países ocidentais iriam reagir de uma forma diferente”, dizia na mesma entrevista ao UNESCO Courrier. “Mas aqui o que temos são umas pessoas castanhas a matar outras pessoas castanhas num país distante. Porque é que o Ocidente se iria preocupar?”

Sunila herdou a sua preocupação social do pai, Charlie Abeysekera, falecido há dez anos, um alto funcionário da administração pública de fortes convicções liberais e que colaborou com vários movimentos de defesa dos direitos humanos – “incluindo alguns dos que eu criei”, diz a filha, com uma nota de orgulho na voz.

As biografias oficiais costumam apresentá-la como cantora e actriz e, de facto, Abeysekera cantou (em palco e para o cinema) e fez teatro e produção de cinema – e ainda canta esporadicamente em eventos - mas a sua verdadeira actividade foi sempre a de activista dos direitos humanos e feminista. Nunca se casou com os pais dos seus filhos – com quem viveu – “por razões políticas, para marcar uma posição”. Um gesto que mostra a determinação desta mulher que continua a dedicar uma parte fundamental das suas energias a defender em particular os direitos sexuais da mulher (e também dos homens e das minorias lésbica, gay, bissexual e transgénero). A tarefa é particularmente difícil neste país hipertradicionalista e fez juntar-se ao grito de “traidora” com que muitas aparições públicas suas são mimoseadas - quando não são brutalmente interrompidas por provocadores -, uma colecção de insultos de carácter sexista.

Há uns anos Abeysekera fez um estudo sobre a representação da sexualidade feminina no cinema do Sri Lanka e chegou à conclusão de que às mulheres que (no ecrã) transgridem os limites definidos pela comunidade no domínio do sexo – por inocente que essa transgressão possa ser – restam apenas quatro caminhos em termos narrativos: “Ela podem enlouquecer, podem suicidar-se, podem ser mortas ou podem entrar para uma ordem religiosa”, escreve Abeysekera num artigo de 1999 sobre feminismo e sexualidade.

A inscrição no seio do combate feminista do direito das mulheres à auto-determinação em termos de sexualidade e reprodução tem sido um dos cavalos de batalha de Abeysekera – e uma batalha que não tem sido fácil.

Abeysekera milita aliás também numa organização de defesa dos direitos da comunidade LGBT, a Women’s Support Group – que participou em 2000, pela primeira vez, num desfile do Dia Internacional da Mulher.

O ambiente no Sri Lanka em termos de direitos da mulher e da permissividade relativamente à violência contra as mulheres pode ser bem avaliado através de um episódio contado pela própria Abeysekera numa entrevista dada no ano passado à revista de direitos humanos Combat Law: “Quando o Women’s Support Group anunciou a sua intenção de organizar uma conferência nacional sobre sexualidade, um popular jornal de língua inglesa publicou uma carta ao director onde um leitor sugeria que, nesse dia, as prisões soltassem os violadores que estivessem presos, para que estes pudessem mostrar a essas ‘Jezebéis’ o que era bom”.

Os que conhecem Abeysekera falam das suas qualidades de contadora de histórias, do seu vivo sentido de humor e da sua energia inesgotável. E é evidente em todas as suas intervenções uma aguda inteligência, que vai sempre para além do imediato, para além do fácil, numa abordagem que é simultaneamente pragmática e exigente. Numa intervenção para a televisão, gravada na passagem de ano 2007/2008, onde lhe pedem uma previsão para o ano que chega, Abeysekera termina, rindo-se, pedindo desculpa por ser “tão pessimista”. Ontem também não estava optimista sobre o futuro do Sri Lanka. Esperemos que se engane redondamente.

terça-feira, maio 19, 2009

As conversas informais e os juízos que formamos

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 19 de Maio de 2009
Crónica xx/2009

Não temos de esperar um julgamento para sermos autorizados a formar uma opinião sobre uma dada pessoa

Apresunção de inocência é um princípio fundamental do Direito. Mas a presunção de inocência significa apenas que uma pessoa não pode ser considerada culpada de um crime sem ter sido julgada e provada a sua culpa em tribunal - onde deve ter acesso a todos os meios necessários para contestar as acusações de que seja alvo.

O que já não é verdade é que tenhamos de esperar que haja uma investigação judicial e um julgamento de um qualquer caso para sermos autorizados a formar uma opinião sobre uma dada pessoa e a enunciar essa opinião. Por enquanto, a razão de cada cidadão ainda é autorizada a funcionar livremente e os juízos de valor - nomeadamente em relação aos políticos e à política - podem ser produzidos e divulgados sem autorização prévia de qualquer tribunal.

É por isso que não preciso de uma decisão judicial para ter (e para enunciar aqui) a convicção de que Dias Loureiro não devia ter assento no Conselho de Estado.

Não sei se as acusações que recaem sobre ele poderão ser provadas em tribunal. Mas não preciso de uma decisão judicial para formar uma opinião acerca de um homem que já vi e ouvi muitas dezenas de vezes, falando sobre tudo e todos e, nomeadamente, que já vi rebater os argumentos que têm sido usados contra si.

Dias Loureiro não merece a minha confiança e acho que pessoas que não merecem confiança não devem estar no Conselho de Estado. E até acho que o Presidente da República, que o nomeou, também já não confia nele. E não preciso de uma decisão judicial para formar a minha opinião, para analisar as declarações de Cavaco e extrair delas as minhas conclusões, ou poder dizer o que penso. O que é útil, repare-se. Se fosse preciso uma decisão judicial para podermos confiar ou desconfiar desta ou daquela pessoa, teríamos de submeter a rigorosos processos judiciais todos os candidatos a eleições e governantes e isso seria pouco prático e confrangedor. A confiança - e, nomeadamente, a confiança política - não funciona assim.
Vem isto a propósito do procurador Lopes da Mota e do processo disciplinar que lhe foi levantado, na sequência do inquérito a que foi submetido, após a denúncia de que foi alvo por parte de dois outros procuradores, encarregados de investigar o caso Freeport.

Também aqui, não sabemos qual será o resultado do processo disciplinar. Mas o simples facto de Lopes da Mota ter tentado menorizar a acusação de pressões de que foi alvo dizendo que se tratou apenas de uma conversa "informal" entre "amigos" diz o essencial. E quando admite ter referido que Sócrates queria ver o caso resolvido rapidamente, diz mais do que o essencial para formarmos uma opinião. Lopes da Mota quer dizer que não deu aos procuradores uma ordem formal no sentido de "arquivar" o processo. É, talvez, razão para nos felicitarmos. Mas a informalidade da conversa não constitui prova da sua inocuidade - pelo contrário. O que teríamos gostado, de facto, é que a conversa tivesse sido mantida dentro das fronteiras da mais estrita formalidade. Mais: que nem sequer tivesse existido qualquer conversa se não houvesse justificação oficial para ela ter lugar. O simples facto de ela ter existido revela da parte de Lopes da Mota, no mínimo, pouco escrúpulo na defesa da independência do Ministério Público e dos seus colegas, os magistrados encarregues do caso Freeport, e pouca inteligência na defesa do seu próprio nome.

Pelo meu lado, não vejo razão para confiar em Lopes da Mota. E penso que muitos observadores, pela Europa fora, pensam o mesmo e pelas mesmas razões. O que significa que é imperativo afastá-lo do Eurojust. O processo disciplinar verá a extensão das suas falhas. Mas as que conhecemos pela sua boca são suficientes para formarmos desde já esta opinião. Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 15, 2009

Página de Rosto - Jean Johnson: Isto não é uma escola!

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 15 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13


Jean Johnson, professora (Reino Unido)


Jean Johnson não hesita quando lhe pergunto se gostava da escola quando era miúda. “Odiava”, atira no seu tom definitivo. “Odiava a escola. Porquê? Por tanta coisa... Por tudo. Eu era esperta mas não encaixava, não tinha um grupo, não andava com a malta... Os meus colegas chamavam-me nomes… A única maneira que encontrei de enfrentar a coisa foi baixar a cabeça e mergulhar no estudo. O que não foi a maneira mais agradável de atravessar aquele período.”

Hoje, Jean Johnson, 57 anos, com um longo currículo de professora atrás de si, dirige aquele que é, segundo muitos especialistas, um dos mais inovadores e bem sucedidos programas de educação para alunos inadaptados, o Notschool, no Reino Unido. E a sua experiência de aluna inadaptada – que não a impediu de se transformar numa profissional particularmente bem sucedida e com uma reputação planetária – ajuda-a a compreender os problemas que enfrentam os 800 alunos que o programa tem neste momento. O nome de Notschool diz tudo, mas vale a pena explicar. Notschool não é uma escola. E se alguém não gosta da escola… tem boas razões para gostar de Notschool.

Notschool não tem mesmo nada a ver com a escola. A escola tem um edifício? Notschool não tem. Ou melhor: tem instalações no Essex, uns 50 quilómetros ao norte de Londres, que é onde trabalha o escasso staff de uma dezena de pessoas, mas os alunos não têm de lá ir. Os alunos estão em sua casa e trabalham através do computador. A escola tem aulas? Notschool não tem. A escola tem horário? Notschool não tem. Há alunos que passam o dia a fazer o que lhes apetece e só se ligam à noite. E há muitos que se ligam de manhã e à noite e aos fins-de-semana, principalmente nos períodos de maior actividade. A escola tem de seguir um currículo nacional, igual para todos os alunos? Notschool não tem um currículo definido. Nem disciplinas. Nem assuntos obrigatórios. E cada aluno faz o que lhe apetece. Literalmente.

Aliás, em rigor Notschool nem tem “alunos” nem “professores” – mas isso é apenas um truque para sublinhar como a cultura desta não-escola é diferente da cultura das escolas comuns. E para evitar que os nomes habituais sugiram coisas tristes aos utilizadores. Os estudantes aqui têm entre 13 e dezasseis anos e são chamados “investigadores” (“researchers”) e aqueles que noutras escolas são professores aqui são “mentores”. E depois há “peritos” e “amigos” (“experts” e “buddies”), em geral estudantes universitários que dão apoio aos alunos no que for preciso. Além de especialistas que trabalham em instituições como o Science Museum de Londres ou o World Wildlife Fund ou a BBC, que ajudam nas suas áreas de especialidade.

Como funciona um “ano lectivo”? Quando entram no programa os alunos recebem um computador, acesso de banda larga à Internet, uma máquina fotográfica digital, um scanner e ouros equipamentos digitais e recebem a necessária formação técnica para trabalhar com tudo aquilo. Depois, escolhem assuntos que lhes interessam e são ajudados pelos mentores a desenvolver um percurso – pode ser um projecto que visa atingir um dado objectivo final, pode ser apenas a exploração de uma dada área. Que áreas aparecem nas preferências dos alunos? Pode ser desenho de animação, pode ser música, motas, maquilhagem ou chinês. Claro que, para aprofundar qualquer destas áreas é necessário adquirir competências de numeracia, literacia, relacionais, é preciso estudar e discutir, escrever e fazer projectos. Os mentores ajudam o “investigador” a fazer a sua investigação e tentam encontrar quem o possa ajudar nesse percurso. Ah! E os alunos podem entrar a qualquer momento do ano. Não há um ano lectivo.

“Os mentores têm de ser pessoas um pouco especiais”, explica-nos Jean Johnson, numa conversa telefónica. “Temos imensas candidaturas. Tenho sempre o mail cheio de candidatos de todo o mundo – e os nossos mentores são de facto de todo o mundo, do Reino Unido à Nova Zelândia e à China – mas há um processo de selecção bastante exigente. Em princípio preferimos pessoas com bastante experiência de ensino e em particular com experiência a lidar com miúdos difíceis, mas além disso é fundamental que sejam pessoas com experiência de vida, que tenham tido muitas e boas experiências. Isso é que é fundamental e isso é o mais difícil”.

Jean Johnson sabe por experiência como isso é importante para um professor. Nascida por acidente na Escócia (foi com uma semana para Inglaterra) devido às constantes deslocações do pai, profissional de aviação, passou a infância e a adolescência de cidade em cidade (“era difícil fazer amizades”) e quando acabou a faculdade (“Estudei sociologia porque o meu pai queria que eu fizesse medicina”) experimentou diversos empregos (uma empresa de camionagem, uma cervejeira, uma companhia de navegação) antes de se decidir pelo ensino. A razão da escolha? “Queria viajar e o ensino parecia-me uma boa escolha. Fiz uma pós-graduação em educação, estudei ensino do inglês como língua estrangeira e pensei que com isto ia poder viajar por todo o mundo, como eu queria”. Mas a sua experiência de vinte e cinco anos de ensino seguiu outro caminho.

Johnson começou a envolver-se na utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na escola, tendo participado em inúmeros projectos pioneiros na utilização da Web para a educação, tanto no Reino Unido como a nível internacional (Web for Schools, The Virtual Classroom, Learning in the New Millennium, Schools Online). “Tivemos resultados fantásticos em praticamente tudo o que fizemos e era muito fácil ensinar os alunos a passar exames – que é, no fundo, aquilo para que o sistema educativo está virado. Nas aulas fazíamos o que era preciso para que os alunos passassem os exames e depois disso dedicávamo-nos às coisas interessantes – e havia imensas coisas que interessavam os jovens”. Jean Johnson conta com paixão uma sessão de videoconferência que fez com os seus alunos e um grupo de alunos americanos, noa anos 90. “Nunca pensei que resultasse tão bem. Foi uma experiência fantástica, os alunos entusiasmaram-se imenso, Discutimos o ensino da religião, o Thanksgiving, um dos miúdos americanos cantou uma canção… foi fantástico”.

As experiências pioneiras de utilização de TIC na escola levaram-na para a colaboração com a universidade e a participação em projectos de investigação nessa área e, quando a Universidade Politécnica de Anglia decidiu lançar um novo projecto, particularmente ambicioso, convidou-a para o dirigir.

“De início ainda não era a Notschool”, conta, “ou não era a Notschool como ele é hoje. Chamava-se Online Curriculum for Disaffected Teenagers [algo como Currículo Online para Jovens Rebeldes] e era basicamente um programa de distribuição de conteúdo online”. Só que Johnson já sabia algo que muita gente demorou muito tempo a aprender sobre a Internet: a solução tinha de passar pela criação de uma rede, de uma relação, uma comunidade. Não bastava disponibilizar conteúdo online para que os miúdos com problemas aderissem. “Havia gente maravilhosa envolvida, pessoas da BBC, investigadores da universidade, cientistas com cérebros do tamanho de um planeta, mas não era isso que ia fazer com que os miúdos aderissem.” Jean Johnson tentou durante um mês levar à prática o modelo que tinha sido desenhado, mas era inútil. E foi falar com os miúdos para tentar descobrir o que faltava. O que faltava era a comunidade, os amigos, a envolvência.

“Os miúdos vão à escola basicamente para falar aos amigos”, diz Johnson. “E vão lá porque se sentem seguros. O que era preciso era recriar online essa rede de amigos e garantir essa segurança. Aí podemos ter a coesão que existe na escola e podemos começar a fazer alguma coisa”. Foi assim que nasceu o Notschool, em 2000, que Johnson descreve sempre como “uma comunidade de pessoas que aprendem”.

Mas não se cria uma comunidade de um dia para o outro e as coisas não funcionaram bem logo de início. “É preciso escala. É como quando vamos a uma festa e há cinco pessoas. Temos vontade de ir embora, não nos sentimos à vontade. Se estiverem mais e se conhecermos alguns já ficamos. Online é a mesma coisa, é preciso atingir uma certa escala, precisamos de uma atenção personalizada e de diversidade, de pessoas diferentes”. Passados oito meses a Notschool tinha 98 pessoas e estava lançada. Desde aí não parou de crescer. Em 2004 transformou-se numa fundação e hoje consegue manter as contas equilibradas graças aos pagamentos do Estado – o Estado paga a todas as escolas um tanto por aluno e nisso a Notschool é igual às outras – e a alguns apoios de empresas.

Os jovens que estão na Notschool são aqueles para quem esta é a última oportunidade. “São miúdos que estão fora do sistema há muito tempo e que são incapazes de voltar, para quem a escola não é uma alternativa. São miúdos excluídos, fóbicos, violentos, vítimas de abusos, de violências sexuais, que estão no programa de protecção de testemunhas, doentes com fibrose cística ou com cancro”. Mais de 70 por cento foram vítimas de bullying, devido a problemas relacionais, dislexia, epilepsia, outras razões. Mas o Notschool não recebe todos os miúdos que têm problemas na escola. “Há pais que nos ligam porque o filho quer mudar de escola. As coisas não funcionam assim”, diz Johnson.

Um relatório britânico recente estimava em 100.000 o número de crianças e jovens que deviam estar inseridos no sistema de ensino – que, em teoria, estão a estudar – mas que de facto já o abandonaram.

Num documentário de promoção do projecto Jean Johnson explica que o objectivo da Notschool não é uma certificação. “O que nos guia são os estudantes, as suas necessidades. O que nós fazemos é pegar na aprendizagem que a criança fez e ver o que ela pode fazer com isso, onde é que pode chegar e a que é que corresponde no quadro actual de qualificações. E quando fazemos isso e elas seguem para o ensino superior constatamos que eles se transformaram em estudantes independentes e competentes nos campos que escolheram, que possuem competências em termos de numeracia e literacia e, frequentemente, são muito talentosos e criativos”.

O objectivo poderá não ser a certificação, mas mais de 50 por cento dos miúdos que saem da NotSchool obtêm algum tipo de acreditação e 70 por cento prosseguem para o ensino superior ou ensino tecnológico. O que prova algo que Jean Johnson gosta de dizer: "Penso que toda a gente quer aprender alguma coisa. O que precisamos de fazer é descobrir o quê”.

sexta-feira, maio 08, 2009

Página de Rosto - Pete Seeger, um banjo contra o ódio

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 8 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 8



Pete Seeger, músico (Estados Unidos)

Pode parecer estúpido, mas penso que o mundo tem uma grande dívida para com Pete Seeger. A mesma dívida que tem para com tantos outros dos seus artistas, é verdade, mas uma dívida, mesmo assim. E que é do mundo em geral – ou pelo menos daquele onde chegou a sua música e o impacto do movimento pelos direitos cívicos nos Estados Unidos dos anos 60, o que quer dizer uma grande parte dele.

Falo da música de Pete Seeger e da luta pelos direitos cívicos na mesma frase porque não é possível separar uma da outra. É impossível imaginar as suas canções sem essa razão e esse sentimento, é impossível imaginar aquelas vagas de mobilização, de reivindicação, de solidariedade, de coragem, de emoção, de juventude, de amor da liberdade e de sonho de um mundo melhor sem os hinos de Pete Seeger. Porque muitas das suas canções são os hinos da liberdade que uma geração inteira aprendeu a cantar – na América e no mundo. E se a América ainda merece um lugar especial no coração de tanta gente, é antes de mais por causa de momentos como esses, onde a liberdade parecia estar a ser inventada de novo do outro lado do Atlântico e onde os males do mundo pareciam estar à beira de ser resolvidos.

Pete Seeger comemorou 90 anos no domingo passado, a 3 de Maio, e participou num concerto-festa no Madison Square Garden de Nova Iorque, onde cantou e tocou todos os seus velhos êxitos com um entusiasmo e um vigor que surpreenderam os que lhe tinham perdido o rasto nos últimos anos. A sua voz já não é aquele tranquilo tenor serpenteante e sedutor dos anos 60 e 70, mas o simples facto de ainda conseguir cantar, tocar o banjo e aguentar a pressão de um grande espectáculo não pode deixar de se considerar notável. No concerto participaram muitas dezenas de amigos, entre os quais os velhos Joan Baez e Arlo Guthrie e o apenas ligeiramente mais novo Bruce Springsteen – responsável, com o seu disco We Shall Overcome: The Seeger Sessions, de Abril 2006, por uma vaga de redescoberta da música de Seeger.

Entre os menos-de-50-anos é raro quem saiba quem seja Pete Seeger. O nome soa familiar, mas a maioria não se lembra porquê. Mas as canções, essas, toda a gente continua a reconhecê-las, ainda que, nalguns casos, a versão que vem à memória seja a de outros intérpretes (“Ah, não era a Marlene Dietrich que cantava esta?”. Também era. Marlene gravou We Shall Overcome em inglês, francês e alemão). E muitos outros cantaram Where have all the flowers gone, Amazing Grace, If I Had a Hammer, This Little Light of Mine…

We Shall Overcome, que Seeger celebrizou mas não compôs (a letra é de um gospel com cem anos, baseada numa velha canção de escravos, a música é de um hino religioso com raízes no século XVIII), tornou-se o verdadeiro hino dos direitos cívicos e foi cantado em milhares de protestos e desfiles, às vezes com alterações na letra, para a adaptar às circunstâncias. Os seguidores de Martin Luther King, durante as jornadas de luta contra a segregação – onde Seeger esteve sempre activamente, desde antes do primeiro momento – juntaram-lhe os versos “we will walk together, someday, black and white together, someday".

Muitas das canções de Seeger, como esta, possuem letras de uma simplicidade desarmante, que lhes dão uma força insuspeita. Imaginam o que deve ter sido estar nos degraus do Lincoln Memorial em Agosto de 1963, durante a Marcha de Washington, e ouvir We Shall Overcome cantado por duzentos mil manifestantes? Ou ouvir a canção, com o acrescento de um verso improvisado (“We are not afraid… We are not afraid, today”) cantado por um grupo de jovens manifestantes negros arrebanhados pela polícia e obrigados a deitar-se no chão? Hoje parece simples e inócuo mas houve pessoas que morreram, no nosso tempo, para que uma pessoa negra pudesse andar de mão dada com uma branca.

O significado do gospel é um pouco diferente quando é cantado numa manifestação contra o apartheid e os cenários das canções de Pete Seeger eram quase sempre dessa índole: protestos contra a segregação racial nas escolas e no trabalho, manifestações contra a brutalidade da polícia, reivindicação de igualdade perante a lei, salário mínimo, segurança no trabalho, direito à greve… De outras vezes concertos para recolha de fundos para apoiar greves, concertos de solidariedade por esta ou aquela causa.

A mensagem política adquiria uma força inimaginável à boleia destas letras espirituais (Seeger é crente), destas frases simples e incontestáveis, de uma verdade evidente, sempre sublinhando a força da razão, a não-violência, a liberdade e a igualdade. E imaginam um protesto de estudantes, brancos e negros, cantando em conjunto o clássico folk de Woody Guthrie (amigo e mestre de Pete Seeger) “This land is your land, this land is my land/This land was made for you and me”? Haverá melhor símbolo de empowerment?

A mensagem gravada no banjo de cinco cordas e braço extralongo, que se transformou na marca registada de Seeger, diz tudo: “This machine surrounds hate and forces it to surrender” (Esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se). A frase é uma marca da influência de Guthrie, que tinha escrito na sua viola "This machine kills fascists” (Esta máquina mata fascistas). Seeger adoçou-o ao sabor da sua música e da sua vida.

Pete Seeger nasceu em Manhattan, numa família da classe média, filho de pais músicos (ele, musicólogo; ela, violinista), ambos professores na famosa Juilliard School de Nova Iorque. Os pais proporcionaram-lhe uma formação musical sólida mas relativamente livre e tentaram que Pete se dedicasse à música clássica, mas o género não o atraía especialmente. Aos dezasseis anos, num festival de música, ouviu o banjo de cinco cordas e ficou apaixonado pelo instrumento, que nunca mais deixou – apesar do seu gosto pela guitarra de doze cordas, outra preferida, e dos muitos outros instrumentos que toca episodicamente. O seu livro How to Play the Five-String Banjo, publicado em 1948, continua a ser considerado uma referência.

Seeger conseguiu uma bolsa para Harvard (onde foi colega de John Kennedy), decidido a estudar sociologia e a tornar-se jornalista, mas os estudos não o entusiasmaram e deixou a universidade para viajar pelos Estados Unidos, desenhando pelo caminho (uma paixão de sempre) e fazendo música. Foi nessa viagem pelo país que conheceu Woody Guthrie, com quem criou em 1940 os Almanac Singers, grupo de cantores-activistas itinerantes que apoiava com a sua música os movimentos sindicalistas. Durante a Segunda Guerra Mundial cantou para entretenimento das tropas e depois de sair do exército criou o People's Songs, Inc., uma associação de músicos dedicada a apoiar movimentos sindicais e preocupada com a recolha e reabilitação da música folk. Em 1948 fundaria outro grupo, os Weavers, que conheceria uma fama comercial considerável.

Em parte por influência do pai, comunista convicto, um entusiasta que acreditava que a música devia ser posta ao serviço do povo e da transformação social, Pete Seeger aderiu com 17 anos à Liga Comunista da Juventude e seis anos depois ao Partido Comunista dos EUA. Muito mais tarde, já nos anos 90, diria que começou a afastar-se do partido nos anos 50 (o pai saiu em 1938), ao tomar conhecimento das atrocidades cometidas por Estaline, mas a fama de “estalinista” manter-se-ia colada ao seu nome por muitos anos, alimentada frequentemente por conservadores que o criticavam por defender a liberdade nos EUA e a ditadura na URSS.

Forçado a testemunhar durante o McCarthyismo perante a Comissão de Actividades Anti-Americanas, em 1955, Pete Seeger recusou-se a responder às perguntas, a acusar fosse quem fosse e a invocar a Quinta Emenda – o que daria origem a uma condenação a um ano de prisão, que seria revogada e que nunca cumpriu.

“Gosto de dizer que sou mais conservador que Goldwater”, disse numa entrevista dada ao New York Times em 1995. “Ele só quer voltar ao tempo em que não havia imposto sobre o rendimento. Eu gostava de voltar ao tempo em que as pessoas viviam em aldeias e tomavam conta umas das outras”. Sobre Estaline, na mesma entrevista, lamenta “ter seguido a linha do partido como um carneiro” e “não ter percebido que Estaline era um dirigente supremamente cruel”. Em 2007, escreveria uma canção condenando explicitamente o líder soviético, Big Joe Blues ("I'm singing about old Joe, cruel Joe”). Demasiado tarde, disseram alguns.

Se há um fio condutor na mensagem das músicas de Seeger, esse fio é a paz, a não-violência, o respeito pelos outros e pela natureza, a solidariedade entre todos os seres humanos, a recusa de todas as segregações e a defesa da justiça social, da dignidade humana. Além, claro, da fé no poder da música como forma de unir as pessoas. Não há concerto de Seeger em que não diga às pessoas para cantarem consigo. Seeger não gosta de cantar sozinho.

Hoje, Pete Seeger é uma lenda viva e um repositório de algumas das mais nobres lutas políticas do último século nos Estados Unidos: os direitos dos trabalhadores e em particular o direito à greve, os direitos cívicos e em particular o fim da segregação racial – Seeger cantou This Land Is Your Land depois da tomada de posse de Obama –, a luta contra o McCarthyismo e pela liberdade de associação, a oposição à guerra do Vietname e a todas as formas de agressão internacional e a defesa do ambiente – que nos últimos anos se tornou a sua causa de eleição. Não é mau para 90 anos.

terça-feira, maio 05, 2009

Da utilidade de chamar nomes feios

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 5 de Maio de 2009
Crónica 14/2009


A tradição manda que se baptize uma doença com o nome da região onde foi descoberta ou com o nome do descobridor

Sempre houve pessoas a indignar-se com os nomes que se dão às coisas novas. E entre nós, em particular, a indignar-se quando esses nomes que se dão são estrangeiros. Lembro-me de quando se começou a falar de marketing em Portugal e de como havia pessoas que ficavam apoplécticas perante o barbarismo. Então não havia palavras portuguesíssimas que podiam ser utilizadas em substituição? Palavras como "comercialização" ou "publicidade" ou "vendas" ou lá o que era que aquilo era? E quando alguém referia que o problema era que se tratava de um conceito novo, que nenhuma palavra existente em português traduzia em toda a sua riqueza, havia sempre alguém a sugerir que então inventássemos também uma expressão nova portuguesa para essa coisa nova, como "comercializarização" ou "técnicas de vendas Mendes".

Aí era preciso explicar (com tacto) que aquela coisa que eles chamavam "marketing" não tinha sido inventada em Portugal nem tinha sido inventada pelo Mendes, mas sim por uns senhores na América que lhe tinham chamado como muito bem tinham querido e que... eles estavam no seu direito.

A contestação lusitana continuou nos anos seguintes a ser alimentada por vagas de palavras inglesas na música, na cultura popular, na tecnologia e na gestão e conheceu vários clímaxes, tendo um dos mais vivos sido causado pelo software e ao hardware, só recentemente digeridos através de naturalização.

De cada vez que isso acontecia era preciso explicar que, se os portugueses queriam dar nomes portugueses às coisas, o melhor era começar a inventá-las ou pelo menos a disseminá-las no mundo, pois essa era a regra do jogo. E a melhor prova era o facto de os italianos terem espalhado pelo planeta os seus adagios e staccati além dos seus tutti-frutti, os franceses as suas cartes blanches, os seus pliés relevés e os seus soufflés, os alemães o seu Gestalt e a sua Angst, os suecos o seu (inglesado) ombudsman e os portugueses terem deixado na língua inglesa o cuspidor em 1735 (o inglesíssimo spittoon só aparece em 1823, certamente num arroubo de nacionalismo, inverso ao que, em Portugal, faria Rafael Bordalo Pinheiro colocar John Bull no fundo dos mesmos escarradores e penicos por alturas do Ultimato).

Mas a questão é que o baptismo de uma coisa nova é um direito do seu criador ou descobridor - e um direito que serve de assunção da responsabilidade, para o bem e para o mal, o que significa que também podemos falar aqui de um dever.

A gripe que assusta o mundo começou por se chamar "suína" mas a designação - imprópria a partir do momento em que ela se torna humana - seria sempre abandonada por pressão dos criadores de porcos, preocupados (com toneladas de razão) com a sua imagem. A tradição manda que se baptize a gripe (ou outras novas doenças) com o nome da região onde primeiro foram descobertas ou com o nome do seu descobridor ou investigador. No segundo caso (Alzheimer) trata-se de uma honra, ainda que algo dúbia. No segundo, de uma distinção odiada (alguém quer dar um mergulho no rio Ebola?). Não tendo grande sentido falar de descoberta de um novo subtipo de um vírus da gripe, seguiu-se a regra geográfica e chamou-se-lhe "gripe mexicana". Mas os mexicanos não gostaram, conseguiram reunir suficientes vozes politicamente correctas e finalmente a OMS propôs a designação A H1N1 - depois de se ter brevemente considerado a "gripe norte-americana". A questão é que a designação geográfica, com o seu labéu, serve uma finalidade: como ninguém quer ter uma doença horrível baptizada com o nome do seu país, pode ser que isso constitua um incentivo para a prevenção. É que existem medidas de prevenção, nomeadamente no que diz respeito às explorações pecuárias (porcos e aves) - ainda que não sejam cem por cento eficazes para prevenir uma epidemia. Ou será que a responsabilidade dos países e das instituições só é importante quando se trata de colher louros? Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 01, 2009

Página de Rosto - Thich Quang Do, 80 anos pela paz


por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 1 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 14


Thich Quang Do, monge budista (Vietname)

O rosto, emoldurado por uma rala barba branca, não permite quaisquer dúvidas: é um monge budista. Um rosto tão característico que não pode deixar de evocar as composições que o cinema nos costuma oferecer. Lembram-se do mestre de Caine, no mosteiro Shaolin, na série de televisão Kung Fu dos anos 70? Thich Quang Do podia ter feito o papel na perfeição, apesar de ser vietnamita e não chinês.

Só que, por trás da tranquilidade deste olhar que exala uma calma confiança, da dignidade da pose, da determinação que ela denuncia, os olhos pequenos brincam e fecham-se frequentemente, ao mesmo tempo que a boca se rasga num sorriso. Às vezes quando fala de coisas terríveis, das suas inúmeras prisões, da falta de democracia no seu país. Um sorriso que vem da sua inabalável certeza de que tudo isso passará e que, um dia, os vietnamitas poderão viver em liberdade e em segurança, poderão escolher os seus líderes políticos e dizer o que pensam sem receio de represálias.

Thich Quang Do tem hoje 80 anos e viveu mais de trinta sob prisão – nas piores enxovias ou em prisão domiciliária – e conheceu a repressão durante toda a vida. Repressão oriunda de diferentes regimes, de direita e de esquerda, primeiro no Vietname do Norte, onde nasceu; depois no Vietname do Sul, para onde fugiu em 1954; e depois de 1975 no Vietname unificado, sob regime comunista. A razão? A exigência de democracia, de pluralismo político, de liberdade religiosa, de liberdade de expressão, de respeito pelos direitos humanos, uma constante actividade em prol dos mais pobres, uma infatigável denúncia pública – em reuniões, artigos, manifestos, petições – dos atropelos aos direitos humanos, dos abusos da polícia, da tortura, das prisões arbitrárias, da miséria. Sempre no respeito dos mandamentos budistas, respondendo à violência com protestos pacíficos, tentando mostrar aos seus carrascos os seus erros, com a desarmante convicção e a infinita paciência dos homens abençoados pela verdadeira fé.

Do nasceu em 27 de Novembro de 1928 e tornou-se monge aos 14 anos mas, segundo o próprio conta num relato autobiográfico, a sua vida só começou às 10 da manhã do dia 19 de Agosto de 1945, quando o poder colonial francês foi derrubado pelas forças revolucionárias comunistas no Vietname do Norte. Foi nesse dia que aprendeu como a violência mais brutal se pode abater sem sentido sobre os mais inocentes e como os homens são capazes dos mais terríveis requintes de crueldade.

“Eu tinha só 17 anos”, conta Do. “Nesse dia, vi o meu mestre, o muito venerável Thich Duc Hai, superior do pagode Linh Quang, ser executado pelas forças comunistas. Amarraram-lhe as mãos atrás das costas com arame farpado e penduraram-lhe ao pescoço dois cartazes: num deles, sobre o peito, estava escrito ’Traidor vende-pátrias’. No outro, sobre as costas, ‘Colaboracionista’. Ele estava no meio de uma multidão armada com paus e lanças, foices e ancinhos. Outro grupo de homens, que se intitulavam ‘juízes’ do tribunal popular, estava numa plataforma e conduzia o julgamento. Ordenaram ao meu mestre que se ajoelhasse e que baixasse a cabeça enquanto eram lidas as acusações contra ele. Ele recusou-se a obedecer. Um dos ‘juízes’ desceu da plataforma, postou-se à sua frente e disse-lhe ‘Tu és um traidor e não tens o direito de ser teimoso’. Começou a bater-lhe na cara até que a sua boca ficou cheia de sangue. O sangue pingava no cartaz que lhe cobria o peito. Condenaram o meu mestre à morte. Levaram-no para o campo frente à casa da aldeia. O sangue pingava sobre a sua roupa e no chão. Obrigaram-no a deitar-se e um dos homens deu-lhe três tiros na cabeça. Saiu um jorro de sangue e o meu mestre morreu. O sangue cobria a sua cara, a sua roupa, as suas pernas, a terra onde ele estava deitado, os cartazes que lhe penduraram ao pescoço. A imagem do meu mestre caído numa poça de sangue, imóvel, com as mãos atadas atrás das costas, ficou gravada para sempre na minha memória. Ainda a recordo como se fosse ontem”.

O crime de Thich Duc, oficialmente causado de ser um agente japonês, foi ter montado uma operação de auxílio para distribuir alimentos aos camponeses que estavam a ser vitimados por uma terrível fome.

“Quantos mais inocentes não terão sido mortos em nome da revolução durante estas sanguinárias campanhas de luta?” pergunta Do.

“Foi nesse dia que tomei a decisão que iria determinar o curso da minha vida. Nunca iria aceitar a violência, a crueldade, o ódio, a discriminação, por muito nobres que parecessem ser as causas que defendessem tudo isso. Naquele dia e naquele sítio, jurei que iria fazer tudo o que pudesse para combater o fanatismo e a intolerância e que iria dedicar a minha vida ao combate pela justiça, seguindo os ensinamentos budistas da não-violência, da tolerância, da compaixão. Nunca lamentei esta decisão. Mas não fazia ideia que este simples voto me iria levar ao longo de um caminho marcado pela prisão, pela tortura e pelo exílio durante tantos anos. Estive preso por vários regimes políticos e depressa aprendi que todos os tiranos receiam a verdade e que temos de estar dispostos a pagar o preço – por vezes um preço elevado – para defender as ideias e os valores nos quais acreditamos”.

As memórias de Do estão recheadas de histórias de horror como a execução do seu mestre. Um ano depois, em 1946 um irmão religioso do seu mestre foi também preso e morreu na prisão. Um mentor do seu mestre suicidou-se para não ser preso e torturado.

Em 1963, ainda durante o brutal regime do presidente Ngo Dinh Diem, no Vietname do Sul, Thich Quang Do foi preso na sequência de protestos organizados contra a morte de manifestantes budistas que agitavam bandeiras comemorativas para celebrar o nascimento de Buda, em Maio desse ano. O exército de Diem – que era um católico fanático, cujos antepassados tinham sido educados por missionários portuigueses, e que seria assassinado num golpe nesse mesmo ano – disparou sobre a multidão, causando muitos mortos e feridos.

Foi poucos dias depois, em 11 de Junho de 1963, que o monge Thich Quang Duc se imolou pelo fogo, numa rua de Saigão, em protesto contra a perseguição de que os budistas eram alvo. As fotografias do sacrifício, do jornalista americano Malcolm Browne – que ganharam o prémio World Press desse ano –, chamaram a atenção do mundo, mas a perseguição continuou.

Thich Quang Do foi preso e barbaramente torturado. “Lembro-me de ter de gatinhar quando saía da cela para ser interrogado, porque não me conseguia pôr de pé”. Mesmo assim, entre sessões de tortura, traduzia para vietnamita artigos de jornais estrangeiros em inglês que lhe eram trazidos clandestinamente, para manter informados os dissidentes da atenção que a sua luta merecia a nível internacional. O inglês tinha-o aprendido durante a sua formação universitária, feita em parte na Índia e no Sri Lanka.

Durante a guerra do Vietname, a Igreja Budista Unificada do Vietname (UBCV, na sigla inglesa), de que Do era um dos dirigentes, manifestou-se activamente contra as hostilidades.

Depois do fim da guerra e da unificação, o seu ciclo de prisões recomeçou, deste vez sob o regime comunista. Em 1977 foi preso em conjunto com outros dirigentes budistas, na sequência de um manifesto em defesa da liberdade religiosa e da sua igreja. ”Mantiveram-me fechado durante vinte meses numa cela de isolamento, com 90 centímetros de largura e 1,9 metros de comprimento. Havia um postigo com o tamanho da minha mão, que abriam só para me passar a comida. Para além disso, estava sempre fechada e era difícil suportar o ar abafado”.

Foi torturado de novo e tentaram obrigá-lo a confessar que trabalhava para a CIA. Quando foi levado a tribunal tudo o que puderam fazer foi acusá-lo de perturbar a ordem pública. Foi libertado, mas os trinta anos seguintes foram de prisão quase permanente, até à actualidade. Mesmo quando as autoridades lhe garantiam que estava livre, polícias colocados em torno do mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão, onde ainda vive, impediam-lhe a saída. Ou a entrada de visitantes que o queriam ver, como aconteceu com o deputado europeu Olivier Dupuis, que o tentou visitar em 2001, na sequência de uma das suas muitas prisões arbitrárias, sem julgamento, e que foi impedido de o fazer. De 1982 a 1992 foi condenado ao exílio interno, numa região particularmente fria e húmida, em condições horríveis, e a sua mãe, de 84 anos, foi condenada a acompanhá-lo. A mãe morreria em 1985, de frio e de fome. Pouco depois de regressar do exílio publicou um manifesto pela liberdade religiosa e condenando a perseguição da UBCV, que o levou de novo à cadeia.

Muitas dessas prisões têm como argumento a simples existência da sua igreja – que Hanói não reconhece, pois criou uma igreja budista oficial, a Igreja Budista do Vietname (VBC), dirigida por uma estrutura controlada pelo Estado, à qual tenta obrigar todos os monges a aderir. Outras devem-se a protestos em prol da democracia.

Thich Quang Do já foi nomeado várias vezes para o Nobel da Paz. Este ano havia quem jurasse que o Nobel iria para um dos dissidentes chineses (Hu Jia e a sua mulher Zeng Jinyan, ou Wei Jingsheng) ou para Do – mas todas estas hipóteses provocariam o desagrado da China, amiga do regime de Hanói.

Num vídeo gravado clandestinamente em 2007, disponível no YouTube, Do aparece a falar, no seu mosteiro. “No Vietname de hoje não somos livres”, diz. “Somos prisioneiros no nosso próprio país. Prisioneiros de um regime que decide quem tem o direito de falar e quem é obrigado a calar-se. No momento em vos falo, encontro-me em prisão domiciliária no mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão. A polícia secreta vigia-me dia e noite e estou proibido de viajar. Tenho sido vítima da repressão do regime comunista desde 1975. Não tenho receio de nada por mim, porque sei que estou a lutar pela causa justa, pela verdade. Não temos partidos de oposição, não temos liberdade de imprensa, não temos sindicatos livres, não temos sociedade civil. Todas as religiões independentes foram proibidas. Todos os cidadãos que reclamam reformas políticas, democracia e o respeito dos direitos humanos são imediatamente presos. Devemos ter pluralismo, o direito de realizar eleições livres, de escolher o sistema político que queremos, de gozar as liberdades democráticas, em suma, o direito a moldar o nosso próprio futuro, de moldar o destino da nossa nação. Há 32 anos que nos dirigimos aos outros países. O que esperamos é que vocês, estrangeiros, ouçam o nosso apelo.”

terça-feira, abril 28, 2009

Tortura nunca mais

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 28 de Abril de 2009
Crónica 13/2009

Seria um erro pensar que a recente febre de transparência compensa por si os desvios totalitários da anterior presidência

Nas últimas semanas, os americanos redescobriram que a Administração Bush autorizou o uso da tortura nos interrogatórios de prisioneiros suspeitos de pertencer a redes terroristas. Os americanos redescobriram também que a mesma Administração, através do próprio Presidente e do vice-presidente Dick Cheney, suspendeu princípios básicos do direito, como a presunção de inocência, e retirou àqueles mesmos prisioneiros o direito de defesa e o direito a um julgamento justo, além de os submeter a outros atropelos, como mantê-los em prisões secretas, de localização desconhecida para os próprios e seus familiares, de forma não só a poder negar a sua existência mas também numa tentativa algo infantil de os subtrair à protecção conferida pela lei americana ("Lei americana? Mas eles não estão numa prisão americana!")
Os americanos redescobriram tudo isto, porque há anos que já sabiam tudo isto. Os mais distraídos já o sabiam pelo menos há cinco anos. E os mais atentos já o sabiam desde o final de 2002 - através de relatos publicados na primeira página dos grandes jornais nacionais.
A imprensa americana tem coberto nos últimos anos, com apreciável profundidade, a vergonha das prisões secretas, das transferências ilegais de prisioneiros (os "voos da CIA") através de países com governos de escrúpulos flexíveis (como Portugal), da tortura que George W. Bush baptizou com o eufemismo "conjunto de procedimentos alternativos de interrogatório", num discurso famoso em 2006, e que outros chamaram "métodos reforçados" e coisas semelhantes.
É um mérito da democracia americana que tudo isto esteja a ser revisitado, que investigações estejam a ser levadas a cabo e os seus resultados publicados, que a imprensa esteja a aprofundar os dossiers, que muitos documentos estejam a ser desclassificados para poderem ser apreciados pelos cidadãos - americanos e do resto do mundo - que se viram involuntariamente envolvidos nesta vergonhosa operação. Como é um mérito do Presidente Obama o seu empenho em investigar e esclarecer este período negro da História americana - apesar do seu declarado empenho em que os Estados Unidos saibam "olhar para a frente", em vez de "olhar para trás".
É também um mérito do sistema que alguns congressistas considerem a criação de uma comissão "Verdade e Reconciliação" em nome do apuramento dos factos - independentemente das críticas que a sua proposta de amplas amnistias suscitou. E é também um inegável mérito da democracia americana que haja quem defenda a responsabilização criminal e o julgamento de todos aqueles que parecem ser culpados de crimes de guerra ou de promoção da tortura e do tratamento desumano de prisioneiros - com a sinistra figura de Dick Cheney à cabeça.

Quando se mencionam os horrores levados a cabo pela Administração Bush-Cheney em nome da "Guerra contra o Terror" e se listam os atentados conscientemente praticados por esta contra a liberdade, contra a democracia, contra o direito, há sempre quem sublinhe a vitalidade de uma democracia que permite que estes podres sejam, apesar de tudo, investigados e submetidos ao escrutínio do povo. Reconheço, sem qualquer reserva mental, essa vitalidade.

Seria, porém, um grave erro considerar que, de alguma forma, esta vitalidade democrática e esta recente febre de transparência e responsabilização compensam os desvios totalitários da anterior presidência americana, como se Obama compensasse Bush, como se a simples existência do primeiro resgatasse os crimes do segundo e pudéssemos ir dormir de novo descansados, depois deste jogo de soma zero. As vítimas de Bush - que são, antes de mais, os cidadãos americanos - merecem mais. Merecem justiça.

A vitalidade democrática do povo americano só será comprovada - e a sua democracia reavivada - se as investigações prosseguirem de forma independente, forem levadas até ao fim e se forem responsabilizados os culpados. A começar por cima, pelos que deram as ordens, pelos que mudaram clandestinamente as leis para que a tortura se tornasse admissível. Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, abril 26, 2009

Página de Rosto - Lidia Yusupova: de Grozny, com coragem


por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 26 Abril 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13



Lidia Yusupova, advogada, activista de direitos humanos (Rússia)


As candidaturas para o Nobel da Paz deste ano já fecharam. Geralmente, é até Fevereiro de cada ano que o Comité Nobel que escolhe o laureado com o prémio da Paz aceita nomeações. As que cheguem depois dessa data só serão consideradas para o prémio do ano seguinte. Os cinco membros do Comité, nomeados pelo Storting, o parlamento norueguês, precisam de tempo para avaliar as propostas. É em Fevereiro que o Comité reúne pela primeira vez para escolher o laureado do ano e as propostas devem estar todas em cima da mesa nessa altura. Há muitas entidades que podem enviar nomeações, de membros de governos a antigos laureados e o pacote de nomeados costuma rondar as duas centenas. E, como se imagina, existe um lobbying considerável, para convencer diferentes entidades a apresentar um mesmo nome, para apresentar os seus méritos à melhor luz, para convencer os membros do Comité da utilidade e da justiça de um dado prémio. Porque o Nobel da Paz é um instrumento político, que se pretende que não apenas reconheça os esforços de um indivíduo ou organização, mas que possa promover a causa da paz.

Mas se há lobbying para promover candidatos, também existem pressões para afastar nomes, que não são menores. Há prémios que valem antes de mais pela denúncia que fazem e que são espinhos cravados na garganta de poderosos.

O nome de Lidia Yusupova estará certamente entre os candidatos deste ano, como esteve nos anos anteriores, assim como a organização a que pertence, a Memorial, uma prestigiada organização russa de investigação histórica, criada em 1992, que faz o levantamento e denúncia de atentados aos direitos humanos.

Em 2006, quando a nomeação de Lidia (ou Lida) Yusupova para o Nobel da Paz foi noticiada pela imprensa, esta advogada, hoje com 47 anos de idade, que era então a responsável pela delegação da Memorial em Grozny, a capital da Tchetchénia, recebeu no seu telemóvel um telefonema de um homem, que falava tchetcheno, que lhe disse: “Então, está contente por saber que foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz? Mas sabe… para receber o prémio precisa de estar viva. Sabe o que seria melhor para si? Que deixasse de fazer o que está a fazer e que não ganhasse o prémio. Mesmo que viva até lá”.

A ameaça de morte surgia num contexto que lhe dava uma particular credibilidade: a jornalista Anna Politkovskaia tinha sido assassinada dias antes, quando entrava no elevador de sua casa, com vários tiros à queima-roupa, num típico assassinato contratado. Os responsáveis nunca foram identificados mas as suspeitas rondaram o Kremlin, os serviços secretos russos (mais ou menos por conta própria) e a clique dirigente tchetchena pró-russa. Três homens acusados de cumplicidade no crime de Politskaia chegaram a ser levados a tribunal, mas foram absolvidos – e nenhum deles tinha sido o assassino ou o mandante do crime. “As autoridades enviaram uma mensagem clara à sociedade civil russa”, disse na altura a organização Human Rights Watch. “Aqueles que se atreverem a criticar o governo podem ser mortos e os seus assassinos terão a sua impunidade garantida”.

Politkovskaia, como Yusupova – que colaborou inúmeras vezes com a jornalista, com quem mantinha uma estreita relação – tinha-se dedicado à causa da denúncia dos abusos dos direitos humanos na Tchetchénia, durante e depois da guerra, e escreveu artigos e livros que atacavam violentamente a presidência de Putin, a acção dos militares russos na Tchetchénia e os abusos cometidos por ambas as partes no violentíssimo conflito.
Yusupova sabia por isso que o aviso devia ser levado a sério. Mas, ainda que se tenha rodeando-se de precauções suplementares, a ameaça não a impediu de continuar o seu trabalho, investigando assassinatos e “desaparecimentos”, recolhendo depoimentos, acompanhando as vítimas ou aos seus familiares à polícia, ajudando-os a apresentar as suas queixas, fornecendo apoio jurídico e levando a tribunal acusações de violações dos direitos humanos. “Mais vale viver apenas um dia com honra, que degradada e humilhada toda a vida”, diria ao jornal norueguês Aftenposten dias depois. “Agora que a Anna [Politkovskaia] já não está connosco, temos de continuar o trabalho sozinhos”.
E este tem sido o mantra de Yusupova nos últimos anos.

Politkovskaia está longe de ter sido a única vítima mortal entre os que se atreveram a denunciar crimes e torturas cometidos pelo poder russo. A International Helsinki Federation for Human Rights relatava em 2006 que, só nos dois anos anteriores, tinham sido mortos na Rússia 13 militantes de organizações de defesa dos direitos humanos, seis tinham desaparecido e 19 tinham sido detidos e torturados. E a lista continuou a crescer. No início deste ano, o advogado de direitos humanos Stanislav Markelov, também envolvido na investigação de crimes praticados pelo exército e pelas autoridades na Tchetchénia, e a jornalista Anastasiya Baburova, que o acompanhava, foram assassinados na rua. Dias antes, o tchetcheno Umar Israilov, que tinha apresentado uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contra o presidente tchetcheno pró-russo Ramzan Kadyrov, que acusou de o torturar, foi morto numa rua de Viena, onde vivia exilado. Há uma lista de crimes sem fim, praticados para evitar que outros crimes sejam trazidos à luz e investigados.

Lidia Yusupova sabe bem o que arrisca e não nega que tem medo, mas este é o rumo que decidiu dar à sua vida desde um dia do ano 2000, em Grozny, durante um bombardeamento russo contra a então república separatista tchetchena. Yusupova integrava então uma das muitas brigadas formadas por jovens e encarregadas de localizar e auxiliar as pessoas escondidas dos raides aéreos, levando-lhes alimentos e medicamentos. Num abrigo anti-aéreo Yusupova encontrou um grupo de crianças aterrorizadas e diz que nunca mais esqueceu a expressão de terror na sua cara. E decidiu dedicar a sua vida a lutar contra o medo e contra a violência que se exerce sobre os inocentes.
Lídia Yusupova nasceu em Grozny, na Tchetchénia, numa família de etnia russa. Começou por estudar literatura russa mas acabou por se licenciar em direito na Universidade Tchetchena de Grozny, a formação que se transformou na sua arma de eleição contra a arbitrariedade e a violência.

O seu trabalho na Memorial já lhe valeu duas distinções internacionais. Ao fim de três anos à frente da delegação de Grozny da Memorial, em 2004, Yusupova recebeu o prestigiado prémio Martin Ennals para defensores dos Direitos Humanos. E em 2005 conqusitou o prémio Thorolf Rafto de Direitos Humanos – que é considerado uma antecâmara do Nobel (quatro laureados ganharam previamente o Rafto). O prémio Martin Ennals tem o nome do primeiro secretário-geral da Amnesty International e é atribuído por um conjunto de dez ONG de defesa dos direitos humanos, entre as quais a mesma Amnesty International, a Human Rights Watch, a International Commission of Jurists e a World Organisation Against Torture.

A delegação da Memorial que Yusupova dirigia então era um pequeno escritório com apenas seis pessoas, onde muitas das vítimas de abusos dos militares ou das milícias tinham medo de bater à porta com receio de represálias das autoridades – o escritório chegou mesmo a ser atacado pelo exército –, o que obrigava Yusupova a deslocar-se pessoalmente aos locais dos crimes para recolher informações e instar as testemunhas a prestar declarações.

O prémio foi atribuído por unanimidade e o presidente do júri, no anúncio feito, onde sublinhou “os incansáveis esforços [de Yusupova] numa situação de guerra e de extremo perigo, onde as mulheres correm riscos acrescidos de violência”, considerou-a “uma das mulheres mais corajosas da Europa”.

O esforço da Memorial e a coragem de Yusupova eram (e são) tanto mais de sublinhar quanto o governo russo não se poupou a esforços para subtrair a guerra da Tchetchénia ao escrutínio internacional, proibindo o trabalho de organizações internacionais e impedindo as deslocações de observadores e jornalistas.

Hoje, a guerra da Tchetchénia – que Putin, astutamente, fez incluir na guerra global “contra o terrorismo”, apanhando a boleia de George W. Bush – acabou. O fim oficial da “operação contra-terrorista na Tchetchénia, que teve início em 1999, foi declarado há precisamente dez dias. Mas a situação está longe de estar pacificada. Há muitas feridas por sarar, milhares de mortes e desaparecimentos por esclarecer. “Todas as famílias tchetchenas estão traumatizadas” dizia Yusupova num depoimento citado pela Amnesty International. “Muitas famílias perderam dois ou três membros”.

Mas hoje são as “forças de segurança” do governo tchetcheno pró-russo, liderado pelo ditador Ramzan Kadyrov – “um homem cujos críticos são difíceis de encontrar”, diz o Los Angeles Times, “porque têm o hábito de desaparecer” -, que continuam a recorrer à tortura, às violações, às prisões arbitrárias, às execuções extra-judiciais, ao fogo posto a casas de oposicionistas. As violações, porém, ocorrem “numa menor escala”, segundo a Human Rights Watch.

As ONG humanitárias exigem que, agora que a situação oficial de guerra acabou na Tchetchénia, que os criminosos sejam levados à justiça e que as condenações do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sejam postas em prática. Mas ninguém parece alimentar esperanças sobre a questão, principalmente quando isso corresponderia a enfrentar Putin – o que ninguém na Europa parece querer. Seja como for, o papel de Lídia Yusupova continua a ser hoje tão fundamental como no passado.

E, quem sabe, se a Comissão Nobel norueguesa esquecer o peso de Putin e tiver a pequena coragem de pisar uns calos para pôr os direitos humanos à frente do gás natural, pode ser que reconheça este ano a grande coragem de Yusupova.

terça-feira, abril 21, 2009

O diabo seja surdo, cego, mudo e coxo

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 21 de Abril de 2009
Crónica 12/2009

Se a queixa tivesse chegado através de um meio menos modernaço, não teria servido para nada. Felizmente foi via Twitter

Os líderes parlamentares dos partidos representados na Assembleia da República decidiram por unanimidade excluir as expressões "autista" e "autismo" do léxico dos deputados. A decisão surgiu após uma discussão suscitada por uma mensagem enviada pela mãe de uma criança autista ao deputado socialista Jorge Seguro e o facto de essa mensagem ter sido enviada através do Twitter lançou um irreprimível frisson no meio de políticos e jornalistas. "A primeira decisão tomada no Parlamento devido ao Twitter", "Twitter alterou a Assembleia da República", "Twitter conseguiu mudar discurso da Assembleia da República", "Foi graças ao Twitter que os deputados deixaram de se chamar autistas uns aos outros no Parlamento", noticiaram, com diferentes graus de emoção, os media. E Jorge Seguro considerou este caso um "bom exemplo de como as novas tecnologias podem funcionar ao serviço da cidadania". Que emoção! Fica-se com a sensação de que, se a queixa ou sugestão tivesse sido enviada através de um meio menos modernaço, como o telefone ou o mail, não teria servido para nada. Ou de que, inversamente, se a sugestão tivesse sido no sentido de os deputados usarem todos chapéus engraçadas à sexta-feira, ela poderia ter sido aceite por ter sido enviada através de uma nova tecnologia que é ainda mais nova do que outras novas tecnologias e que é mesmo muito, muito, moderna, o que é giríssimo - e moderno, claro.

Não se sabe se a conferência de líderes tenciona interditar outras palavras politicamente menos correctas, mas é de esperar - em nome da coerência - que outras expressões mereçam a mesma condenação, mesmo sem a intervenção directa de um tweet. Aliás, uma dirigente da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo, que se manifestou "totalmente a favor" da decisão dos líderes parlamentares, exprimiu o desejo de que os deputados evitassem o uso depreciativo de outros adjectivos que correspondem a limitações físicas como "cego" ou "surdo".

Se este tipo de regras vingar, deixaremos de ter no Parlamento "políticas coxas" e "ministros surdos aos clamores do povo", mas também deixaremos provavelmente de ter "estratégias marcadas pela miopia", "autarcas que claudicam perante as pressões", "ministérios paralisados", "organismos anquilosados" e tantas outras expressões médicas que durante tantos anos enfeitaram o discurso parlamentar. Será uma mudança de fundo, pois a metáfora sanitária tem larga tradição na política (tanta que às vezes nem era matáfora). Mas não há razão para ficar por aqui. Se se pretende limpar o discurso político de incorrecção política, o que dizer do uso depreciativo de expressões como "provincianismo"? Não desagradará a provincianos? Há todo um vocabulário a espiolhar, adjectivos a proibir e certamente umas centenas de substantivos. E nem falamos ainda dos insultos - dos que o são e o podem ser - de bandalho e suas rimas a bobo, palhaço e outras insularidades. E os nomes próprios? O que dizer dos nomes próprios? Será que se deve poder chamar a alguém Bokassa? Ou Alberto João Jardim? Átila? Hitler? Não será melhor a conferência de líderes... Há toda uma bibliografia a folhear, séculos de história a peneirar a pente fino, dicionários biográficos a compulsar. E os venenos? Podemos dizer que uma diploma é peçonha, que o ambiente é sulfuroso, que um discurso é tóxico (e os activos?), que a religião é ópio, que isto já cheira mal? Pode-se dizer que esta portaria não interessa nem ao menino Jesus? E fascista? Não será insulto? E dizer que uma coisa horrível é estalinista não chocará filhos perdidos do paizinho dos povos? E dizer nazi, dizer nazi? Não devíamos proibir? A bandeira nazi sabemos que está proibida, dá para um deputado ser impedido de entrar e mesmo que os acharam mal a impedidela acharam mal a bandeirada. E se declarássemos, simplesmente, que tudo o que alguém achar mal não se devia dizer no Parlamento? Não seria mais simples?
E seria pedir de mais aos líderes parlamentares que não se esquecessem que o Parlamento tem de ser, por excelência, o lugar da liberdade de expressão, e que as normas de urbanidade podem ser sugestões às suas hostes mas nunca devem ser proibições que nada autoriza? Nem mesmo o Twitter? Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, abril 19, 2009

Página de Rosto - Craig Newmark, o anti-Cristo dos jornais

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 
19 Abril 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, pág. 14


Tímido, nerd confesso, Craig ganhou uma particular notoriedade durante a campanha eleitoral democrática de 2008 para as presidenciais, onde foi um dos arquitectos da utilização da Web

Nesta empresa está quase tudo ao contrário do que é habitual. O dono e fundador ganha milhões de dólares mas trabalha na assistência a clientes e passa os dias sentado ao computador a responder a mails com queixas e sugestões. O CEO da empresa, considerada um dos maiores exemplos de sucesso no mundo da Internet e que tem um dos sites mais visitados do planeta, é classificado com frequência como “comunista” e “anarquista” e possui uma filosofia de vida profundamente anti-sistema e anti-capitalista. Mas o mais surpreendente é que nesta empresa, a famosa Craigslist de San Francisco, que gere o site Craigslist.org, ninguém está interessado em aumentar as receitas e muito menos em maximizar o lucro ou em conquistar uma fortuna. Não é que digam que não estão: não estão mesmo. Porque têm tido inúmeras oportunidades para o fazer e têm-nas sempre recusado em termos que não estimulam novas propostas.

A Craigslist começou por ser a “Craig’s list” – a lista do Craig. Craig é Craig Newmark, um engenheiro de software de 56 anos, nascido na costa Leste dos Estados Unidos, em New Jersey, que foi trabalhar para San Francisco. Em 1994, quando estava na empresa financeira Charles Schwab a trabalhar na área da segurança informática “e a fazer evangelização em prol da Internet”, como costuma dizer, Craig decidiu criar um serviço por mail, inicialmente destinado apenas aos amigos, com a lista dos eventos mais interessantes à volta de San Francisco. Os amigos foram passando palavra e o número de destinatários foi crescendo até que, quando chegou aos 240, a qualidade do serviço começou a degradar-se. Craig decidiu então criar a Craigslist e instalá-la num servidor. Pensou inicialmente chamar-lhe “SF Events” mas os amigos convenceram-no de que não valia a pena – se toda a gente a conhecia como “Craig’s list”, por que não manter o nome?

Durante os primeiros anos, a lista foi-se expandindo com a colaboração dos próprios utilizadores, que tinham liberdade para publicar o que quisessem e que começaram a usar “a lista” para fins diferentes das intenções originais de Craig – como publicar um anúncio para vender uma mota ou para procurar um quarto, sempre de forma totalmente gratuita. O êxito foi crescendo e a San Francisco seguiram-se outras cidades dos EUA e do mundo (a lista possui uma organização geográfica, por países e cidades).

Em 1998, quando Craig já tinha deixado a Charles Schwab e trabalhava como consultor independente – nomeadamente para o Bank of America, na área do home banking – tornou-se evidente que era preciso fazer uma escolha: a lista tinha crescido tanto em conteúdo, utilizadores e reputação que era preciso dar-lhe a atenção necessária, vendê-la ou aceitar a sua degradação. Craig decidiu deixar a sua actividade de consultor e criar uma verdadeira empresa. A bola de neve não parou. Hoje, segundo dados do site, a Craigslist cobre 570 cidades de todo o mundo, com anúncios classificados que cobrem todas as áreas imagináveis, do emprego e do imobiliário a serviços de segurança, do trabalho voluntário a encontros eróticos, de restaurantes a advogados. O site tem mais de 20.000 milhões de visualizações de páginas por mês, ocupa o número 25 de todos os sites do mundo e o sétimo lugar dos sites de língua inglesa em tráfego. Tem 50 milhões de utilizadores e publica 40 milhões de novos anúncios por mês. Destes, mais de um milhão são anúncios de emprego. Para não falar dos fóruns onde são publicados mensalmente 100 milhões de posts. Craisglist é, antes de mais, uma comunidade e os utilizadores estão profundamente envolvidos na sua gestão, nomeadamente identificando anúncios de conteúdo ilegal ou ofensivo.

Só que este êxito não é bem recebido por todos. A Craigslist transformou-se na Némesis da imprensa. Estes anúncios classificados, que são publicados gratuitamente no site, foram durante anos uma receita cativa dos jornais diários e a actual crise da imprensa deve-se, em grande parte, a esta fuga de receitas publicitárias para a Internet – o que, nos EUA, significa em grande medida para a Craigslist. Uma empresa de consultoria estimou em 2005 que a Craisglist representaria uma perda de receitas para os jornais de 50 a 65 milhões de dólares por ano, apenas no domínio dos anúncios de emprego… e apenas na área da baía de San Francisco.

Não admira por isso que, quando Stephen Colbert entrevistou Craig Newmark para o seu programa Colbert Report, há cerca de um ano e meio, o tenha felicitado entusiasticamente por “estar a matar os jornais americanos”. Esses ninhos de liberais, entenda-se.

A acusação não tem muito sentido, porém: Craigslist é o site mais visível, mas a transferência ocorreria sempre. A questão é que os anúncios classificados, que representam em média 35 por cento das receitas dos jornais, se prestam muito mais a ser publicados e consultados online que num jornal em papel. O que não impede a imprensa escrita de olhar para Craig como para o anti-Cristo.
Qual é o negócio da Craigslist? Como é que um site de anúncios classificados gratuitos faz dinheiro? É que nem todos são gratuitos: os anúncios de emprego em 18 cidades e os de casas em Nova Iorque são pagos (25 a 75 dólares). Isso é suficiente para gerar receitas no valor de… ninguém sabe ao certo quanto. Como a empresa não está cotada na bolsa, Craig não é obrigado a dizer. Mas as estimativas andam pelas muitas dezenas de milhões de dólares por ano ou talvez por uma ou duas centenas. Nada mau para uma empresa que possui apenas 28 empregados e que opera a partir de uma pequena casa vitoriana de San Francisco. Quanto vale a empresa? Se Craig e Jim Buckmaster (o CEO, também sócio, que foi contratado por Craig através de um anúncio na lista), a quisessem vender, conseguiriam sem dúvida um valor acima dos mil milhões de dólares mas… nenhum deles quer. Não gostariam de ter dinheiro suficiente para poderem humilhar toda a gente à sua volta, para usar a formulação de uma pergunta feita por Jon Stewart a Craig Newmark? Ambos dizem que não precisam de mais dinheiro do que o que tem e falam mais vezes de princípios morais, de estilo de vida, da necessidade de reforçar os laços da comunidade e das suas responsabilidades para com os seus clientes que da vida de luxo que poderiam ter se vendessem. Um dia, dizem, alguém fará melhor aquilo que a Craigslist está a fazer hoje e ela será eliminada pela concorrência. Entretanto, continuam a dar o seu máximo e a investir na qualidade do serviço.
Em 2004 a EBay comprou 28,4 por cento da Craigslist, mas fê-lo através da compra da quota de um ex-empregado a quem Craig tinha dado sociedade. A princípio pensou-se que a EBay tentaria usar este passo – que lhe deu um lugar na administração - para adquirir toda a empresa, mas Craig e Buckmaster não cederam às pressões nesse sentido. As relações entre a EBay e a Craigslist azedaram, com ataques e processos judiciais mútuos: a EBay acusando a Craigslist de desvalorizar a empresa (e a sua participação, que comprou por um valor não divulgado), e a Craigslist acusando a EBay de espionagem e concorrência desleal. Após a sua entrada na Craigslist, a EBay lançou um site de classificados, o Kijiji, que a primeira diz apenas pretender a sua destruição. Mas a verdade é que concorrer com a Craigslist não é fácil. O site define-se como “um serviço público” e tem como filosofia fazer e oferecer o que os clientes querem. Um princípio simples que muitas empresas ignoram. Os utilizadores não gostam de publicidade e de pop-ups? O site não tem publicidade nem pop-ups. Os utilizadores não gostam de inquéritos? O site não faz inquéritos.

Tímido, nerd confesso (no site da empresa diz que já deixou de andar com os óculos colados com adesivo) Craig ganhou uma particular notoriedade durante a campanha eleitoral democrática de 2008 para as presidenciais, onde foi um dos arquitectos da utilização da Web (comunicação, promoção, organização das comunidades). E na fotografia que pôs no seu perfil do Facebook aparece ao lado de Obama. A identificação é “Customer Service Rep & Founder, Craigslist”

terça-feira, abril 07, 2009

Pode ser de chocolate

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 7 de Abril de 2009
Crónica 11/2009

Quando o prato chega à mesa a regra de ouro é olhar para o seu conteúdo com uma verdadeira careta de nojo

"O croissant é simples, de ovo ou de chocolate?..." O empregado espera pacientemente a decisão. Depois de um beicinho de hesitação, a resposta vem com uma careta de contrariedade. "Pode ser de chocolate, pronto..." O empregado de café, não só educado mas também sábio, com uma experiência de vinte anos a atender desde senhoras e cavalheiros a gajos e gajas, não responde aquilo que dá vontade: "Eu não faço questão que escolha o de chocolate. Também temos croissants simples. Pode nem comer croissant nenhum. E temos fruta. Não quer umas groselhas?"

A cena repete-se em todas as refeições, todas as mesas, todos os lanches. Quando o cliente faz a escolha que lhe provoca a mais profunda má-consciência dietética, age como se essa escolha lhe fosse imposta por algum poder exterior, como se estivesse apenas a ceder por delicadeza à insistência do empregado, dos vizinhos de mesa, da moda, da sociedade em geral e nada estivesse mais longe dos seus desejos.

"Quer algum molho especial para a salada?" "Molhos? Não, não. Sem tempero... acho eu... Não sei, que molhos tem?" "Vinagrete, molho de mostarda, de queijo, de pimenta, mayonnaise..." "Bom... pode ser mayonnaise, pronto!..." O tom é de algum enfado e pode até ser acompanhado de desabafos. "Estes tipos só sabem fazer mayonnaise, mayonnaise... Sempre mayonnaise, também chateia".

Mas o nariz torcido não se restringe aos molhos e aos recheios. "O que é que é mais rápido?" "Os pratos do dia estão todos prontos a sair." "E quais é que são os pratos do dia?" "Pescada cozida, salada de frango e entrecosto frito com arroz de feijão" "Sei lá... qualquer coisa... desde que seja rápido... pode ser o entrecosto, pronto...".

A expressão é displicente, às vezes decepcionada, e o tom é frequentemente condescendente - para permitir o subtexto de "estes tipos só fazem coisas gordíssimas, o que é que eu hei-de fazer?".

Outra técnica muito usada é tratar todos os excessos como excepções, liberdades que só são admitidas só lá muito de quando em quando. "Pode pôr-me só um bocadinho de molho de manteiga no linguado? Desta vez apetece-me um bocadinho", dizem em tom de confidência ao maître, juntando delicadamente as polpas do indicador e do polegar para indicar que se trata apenas de uma pitadinha de tempero, não mais, só para dar um aroma, um arzinho. "Só um bocadinho de nada. Isso. Pode pôr mais um bocadinho. Ponha também nas batatas. E nos legumes. Aqui também. Pode pôr mais um bocadinho. Pronto, assim chega. Chega! Ai que exagero, meu Deus! Pode deixar a molheira."

Além do "já que insiste" e do "só um bocadinho" temos, ainda, a "dieta na base", que consiste em pedir pratos superdietéticos e em guarnecê-los com alguma coisinha só para lhes dar um bocadinho de graça. "É só uma salada de alface, sem tempero nenhum, nenhum, nenhum. É só mesmo a alface. Tomate? Não obrigado, o tomate é fruta, sabe? Tem imenso açúcar. É só mesmo a alface. Ah... estou a ver aqui que tem aquele fromage de chèvre entier que eu gosto tanto. Portanto é a alface com o chèvre. Tem imenso cálcio. Já que não vou temperar posso fazer uma extravagância. Ah... e a entrada?... Tem de ser fruta. Abacate! Tem aquele cocktail de abacate e camarão? Com o molho Aurora. Aqui tem mesmo de ser. O abacate sem o molho é horrível. Portanto é só a saladinha de alface e o abacate. Não há nada mais dieta."

Quando o prato chega à mesa a regra de ouro é olhar para o seu conteúdo com uma verdadeira careta de nojo, do género "mas eu pedi rúcula selvagem e trazem-me alheira de Mirandela" e usar o garfo para explorar o prato sempre com a mesma expressão de repugnância mas como se se tivesse esperança de encontrar no meio daquela mixórdia algo digno de ser mastigado (se quiser representar a cena usando o Método tem de lembrar-se daquela vez que teve de recuperar o anel de diamantes que a sua gata comeu).

Finalmente há a dieta cabalística, que aposta não nos elementos isoladamente considerados mas na sua combinação, que conseguirá eliminar tudo o que de nefasto e engordante existe nas travessas. "É o pato assado mas olhe - vou-lhe pedir um favor: em vez da laranja, pode trazer-me rodelas de limão e de kiwi? O limão anula a gordura e o kiwi tem imenso ómega-3 que é óptimo. E têm aquele gelado caseiro fantástico? Se me puder arranjar umas folhinhas de hortelã-pimenta para acompanhar, quero gelado. Que sabores tem? Pode ser de chocolate." Jornalista (jvm@publico.pt)