quarta-feira, junho 30, 2010

Portugueses: precários, com educação, sem esperança

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 30 de Junho de 2010
Crónica 24/2010

Há uma espantosa minimização da dimensão colectiva nas vidas e nas preocupações reveladas neste estudo

O estudo Necessidades em Portugal: Tradição e Tendências emergentes (1), que foi anteontem lançado em Lisboa, contém uma imensa riqueza de dados, de histórias, de conclusões e de recomendações que merecem uma leitura e análise cuidadas e que não se esgotam num simples comentário. O estudo pode ler-se como uma deprimente lista de carências. É evidente que se avançou muito na última geração (se comparássemos com o Neolítico, teríamos leituras ainda mais risonhas), mas há ainda um mar de necessidades por satisfazer. Em relação ao que queremos, ao que conhecemos, ao que é justo, ao que é possível. E esse objectivo não parece hoje mais próximo que há vinte anos. Pelo contrário.
Para além dos consabidos 20 por cento de portugueses pobres aparecem aqui os 30 por cento que vivem acima destes (“à tona da água” ou, como diz uma das pessoas entrevistadas, com uma arrepiante e tranquila lucidez, “em stand by”) mas que são, também eles, pobres. Pobres sem perspectiva de deixar de o serem, ainda que não satisfaçam os critérios quantitativos da definição, nem respeitem o estereótipo social. Praticamente todos trabalham, entre eles há muitos licenciados, mas a sua vida é vivida com a corda na garganta, na angústia das contas para pagar e na desesperança de poder oferecer melhor aos filhos do que lhes foi oferecido a eles.

“Corda na garganta”, “à tona da água”, “respirar”… há uma sensação de asfixia ao longo deste livro, de opressão física, uma asma, apesar das janelas abertas pelas recomendações, das experiências que se apontam, das esperanças que se desenham, do muito que se ganhou.

E, paralelamente a este panorama de carência, inscreve- se uma dramática quase ausência de dimensão social, de desejo colectivo, da ideia de bem comum. A palavra fado não aparece uma única vez neste estudo mas podia aparecer. A vida é algo que se abate sobre os portugueses, que lhe resistem como podem, na sua rede de apoio familiar, nos amigos próximos, contando tostões, calando desejos, investindo em qualificações que permitem encontrar um emprego precário mas que não permitem fugir à pobreza. À tona da água. Mas sem fazer ondas. Os investigadores identificam esta “incapacidade de pensar colectivamente o futuro”, a “desconfiança nos outros e nas instituições”, a “diminuta participação nas organizações de índole mais societária”, o facto de um terço se sentir “às vezes ou frequentemente” “como se não fizesse parte da sociedade”.

O estudo mostra-nos pessoas mas não se vê aqui uma sociedade, uma preocupação de construção do bem comum do qual se vai também beneficiar. Vive-se aqui e agora. Na família. Um dia de cada vez. O social é marginal.

Não se vêem exigências, reivindicações, protestos, greves. A precariedade é um facto da vida. O combate à desigualdade não está em nenhum caderno reivindicativo.

Há preocupação e receio, mas não indignação, nem revolta. E há uma desconcertante quantidade de gente que se declara “satisfeita” porque “podia ser pior”.

Este estado de espírito não nasceu por acaso: ele foi meticulosamente esculpido por uma ideologia que aproveitou a descolectivização da economia pós-industrial para vender a competição individual e o fim da solidariedade como as receitas do progresso. A pergunta é: quando não há coesão social ainda teremos uma sociedade? (jvmalheiros@gmail.com)

1) O estudo foi promovido pela Tese – Associação para o Desenvolvimento, coordenado pelo Centro de Estudos Territoriais do ISCTE, em parceria com a Fundação Gulbenkian e o Instituto da Segurança Social, e foi editado pela Tinta da China sob o título À Tona de Água (2 vol.) 

quarta-feira, junho 23, 2010

Justificações para a ausência de Cavaco Silva

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 23 de Junho de 2010
Crónica 23/2010

Os que dizem que nada justifica a ausência do PR no funeral de Saramago não têm uma pinga de razão

1ª – Cavaco Silva nunca leu José Saramago. Tentou uma vez mas sempre achou aquelas frases demasiado compridas e complicadas e com pontuação muito, mas muito mal feita. Nunca percebeu por que razão havia (e há) pessoas que dizem que Saramago é um grande escritor mas suspeita que eles também nunca o leram e que o fazem apenas por pedantaria e porque são comunistas. É verdade que Nobel veio abanar um pouco esta convicção, mas apenas durante dez minutos.
Afinal, não há nenhuma razão para que o Nobel também não tenha sido dado a Saramago por pedantaria e comunismo (os nórdicos não parece por causa do design, mas são muito comunistas).

2ª – Cavaco Silva leu Saramago. Fez sacrifício mas leu.
Leu mas não gostou. O estilo de Saramago tem um... não sei… não gosta. Não é como… como outros escritores de que gosta, prontos. E os temas não lhe interessam muito.
E o enredo parece-lhe fraco. Muita parra, pouca uva. Tudo aquilo podia-se contar de outra maneira. E há ali muito desrespeito pela tradição católica. Muito. E pela história de Portugal e pela religião. Aquilo nem é bem literatura, é quase só despeito.

3ª – Cavaco Silva não sabe se gosta ou não dos livros de Saramago. Mas sabe que antipatiza profundamente com o homem. Saramago dá-lhe cá uma raiva que ele nem sabe.
E agora que morreu ainda mais porque toda a gente diz que ele era um figura ímpar da cultura portuguesa.

4ª – Saramago era um escritor medíocre. A verdadeira crítica de Saramago foi feita por um membro do Governo de Cavaco Silva em 1992, Lara, então subsecretária de Estado da Cultura – por quem aliás o Doutor Jivago se viria a apaixonar num filme lindíssimo.

5ª – Saramago era comunista. E ateu.

6ª – Só lá iam estar comunistas e companhons de Rute e até podia ter de ouvir coisas desagradáveis.

7ª – Alguém que pode escolher os Açores e escolhe Lanzarote só merece desprezo.

8ª – Cavaco Silva tem de mostrar que é diferente de Manuel Alegre, que é um homem de cultura.

9ª – Cavaco Silva é presidente de todos os portugueses, mas o Saramago não é espanhol? A mulher pelo menos tem um sotaque.

10ª – Isso de “presidente de todos os portugueses” não pode ser visto de uma forma fundamentalista.

11ª – Os Açores estavam óptimos, óptimos.

12ª – Cavaco Silva tinha prometido à família umas férias nos Açores e não tinha prometido nada ao Saramago.

13ª – Se tivesse de ir ao funeral de todos os portugueses que ganharam um Nobel não fazia mais nada.

14ª – Os dois dias de luto nacional significam que Saramago era uma figura nacional ímpar a quem o país muito deve e que os portugueses admiram e respeitam, mas o PR só vai aos funerais de figuras de três dias de luto para cima.

15ª – Depois da triste figura que o seu Governo fez quando censurou O Evangelho segundo Jesus Cristo, Cavaco Silva jurou que odiaria Saramago para além da morte. Talvez tenha sido exagerado, mas uma jura é uma jura.

16ª – O PR só vai a funerais de amigos ou conhecidos.

17ª – Não era na outra semana?

Fica provado que há não uma mas várias justificações para a ausência do Presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago. A ausência pode ter sido devida a iliteracia, sectarismo, grosseria, mesquinhez, cálculo político, medo, provincianismo, confusão entre o gosto pessoal e pose de Estado ou outra razão. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, junho 08, 2010

“Esta caderneta de cromos vai infernizar-lhe a vida”

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 8 de Junho de 2010
Crónica 22/2010

Proibir o marketing directo dirigido a crianças é a coisa certa a fazer

Talvez tenha sido assim nos outros campeonatos mundiais de futebol, mas não reparei. Desta vez fui obrigado, porque um génio do marketing pôs rapazinhos a distribuir à borla cadernetas de cromos South Africa 2010 FIFA World Cup à porta das escolas. Um deles postou-se à porta da escola do meu fi lho mais novo e, nesse dia, ele trouxe uma caderneta para casa, excitadíssimo, e pediu-me para não me esquecer de comprar os cromos no dia seguinte. Não achei muita graça ao facto de alguém ter decidido manipular desta forma um consumidor de 7 anos de idade (milhares de crianças, provavelmente) mas, como o génio do marketing tinha calculado, não atirei a caderneta para o lixo.

No dia seguinte não comprei os cromos, mas o meu filho fez-me prometer que iria lembrar-me no dia seguinte.

Comprei dez pacotes (seis euros) e estivemos nessa noite a colá-los na caderneta. Depois de colados os quarenta e seis cromos (havia quatro repetidos) a caderneta tinha um ar de tão vazia como no princípio mas o meu filho estava satisfeito. Um dia, talvez ainda antes de o Mundial acabar, a caderneta estaria toda cheia de cromos.

Passados uns dias comprei mais uns pacotes de cromos, que colámos na caderneta depois do jantar. Foi só depois deste segundo serão que tive a curiosidade de fazer as contas ao custo total da caderneta. Foi então que concluí que, para conseguir os 637 cromos, mesmo que não saíssem cromos repetidos nas carteirinhas, seria preciso comprar 128 pacotes. A sessenta cêntimos, seriam 76,80 euros. Mas, considerando que nas cadernetas aparecem muitos cromos repetidos (não ao princípio, como é lógico, mas para o fim isso é frequente), a caderneta ficará certamente por uns 100 ou 120 euros, ou mesmo mais.

Não digam nada ao meu filho, mas ele não vai ter nunca a caderneta do Mundial toda cheia e receio que nunca mais vá ter nenhuma colecção de cromos. Para mais, a caderneta foi lançada antes de se saber qual seria a composição exacta das selecções e, por isso, os cromos representam apenas uma aproximação às verdadeiras selecções, o que reduz o seu valor como documento. A alegação do editor, a Panini, de que “a colecção incluirá as imagens dos jogadores das equipas em competição” é, portanto, falsa (digo de passagem que o facto de um cromo se chamar Cardoso ou Serafim me é absolutamente indiferente, mas não o será para os mais fiéis).

Um livro de 80 euros é um livro caro. E se for de 120 euros é muito caro. Já comprei a 120 euros livros de arte, aqueles livros de grande formato que dão pelo deselegante nome de coffee table books mas que possuem um aspecto gráfico que vai do sofisticado ao sublime. A caderneta da Panini não é nenhuma das coisas: a qualidade do papel, da impressão, das fotos ou do design é, digamos, modesta.

A que se deve o custo? Ao facto de muita gente querer aquela caderneta. Ninguém é obrigado a comprar. Compra quem quer, quando quer, se quiser. É a lei do mercado.
E não me passaria pela cabeça criticar a virtude de algo que tantos neoliberais consideram mais incontestável que a virtude das próprias progenitoras.

Há apenas um senão: é que a dependência que a oferta da caderneta pretende suscitar se dirige não só a adultos mas também a crianças. De facto, os pais possuem a capacidade de limitar a publicidade que os seus filhos vêem na televisão ou nas revistas – infelizmente, as leis sobre a publicidade dirigida às crianças são extremamente permissivas em Portugal –, mas não conseguem evitar que alguém lhes enfie na mão algo que vai obrigar as suas famílias a desembolsar uma quantia considerável sob a ameaça de choros e discussões. Proibir a distribuição destes “brindes” envenenados a crianças seria a coisa certa a fazer, mas considerando que o Governo não o queira fazer, sugiro que, pelo menos, as cadernetas levem impresso na capa um imenso quadrado a preto, como os maços de cigarros, com dizeres do género “Esta caderneta pode infernizar a sua vida” e que, como acontece com as taxas do crédito bancário, digam claramente quanto custam: “Atenção: esta caderneta pode custar 120 euros ou mesmo mais!” Assim, pelo menos, as famílias podem saber com o que contar. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, junho 01, 2010

Israel: mais uma página de vergonha

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 1 de Junho de 2010
Crónica 21/2010

“Num país onde as leis são imorais, a desobediência civil é obrigatória”

O governo de Israel acabou de escrever mais uma página vergonhosa da história recente do país, ao atacar em águas internacionais uma pequena frota de seis navios civis que transportavam dez mil toneladas de ajuda humanitária para Gaza, matando 10 a 20 activistas e ferindo 26.

Os navios, que tinham partido de Chipre no domingo, levavam a bordo algumas centenas de activistas pró-palestinianos, na sua maioria turcos. Entre eles encontravam-se também jornalistas, um prémio Nobel da Paz e várias outras personalidades que se preparavam para furar de forma pacífica o bloqueio que Israel impõe em torno do território palestiniano. O seu objectivo era entregar equipamento médico e materiais de construção aos habitantes da Faixa de Gaza.

Os organizadores da iniciativa já sabiam que a marinha israelita os iria abordar e, eventualmente, forçá-los a desviar o rumo ou aprisionar os navios, mas tencionavam opor resistência passiva aos militares e contavam com o impacto mediático desse confronto para chamar a atenção do mundo para a situação da região. E, com um pouco de sorte, talvez pudessem entregar os materiais que traziam aos palestinianos.

Em Gaza vivem 1,5 milhões de pessoas, a esmagadora maioria das quais em condições infra-humanas, sem acesso aos necessários cuidados de saúde, alimentação, educação ou habitação devido ao bloqueio imposto por Israel, uma situação repetidamente condenada pelas organizações humanitárias internacionais, pela ONU (que lhe chama um “castigo colectivo”), pela União Europeia e por todas as pessoas com um mínimo de decência – incluindo muitos e muitos israelitas que têm pago com a liberdade e com perseguições a ousadia em opor-se à política racista e militarista da extrema-direita israelita, levada a cabo, diga-se de passagem, com o apoio de alguns partidos que passam por ser de esquerda no espectro partidário israelita, como o Partido Trabalhista de Ehud Barak, que integra a actual coligação governamental como ministro da Defesa.

A justificação do governo de Benjamin Netanyahu para a agressão não podia ser mais patética: o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Danny Ayalon acusou os navios de pretenderem “abrir um corredor para fazer contrabando de armas e de terroristas”, os organizadores da missão de serem aliados da Al-Qaeda, e disse que os soldados israelitas apenas responderam porque foram atacados. Aparentemente, os navios albergariam um exército.

O que este lamentável caso mostra mais uma vez é que as forças armadas israelitas e o governo que as comanda consideram ser seu privilégio, em nome da defesa do seu território e dos seus concidadãos, ignorar quaisquer leis internacionais, disparar primeiro e perguntar depois e, de uma forma geral, tratar todos os que não são israelitas, judeus e admiradores do governo (são necessárias as três condições) como cidadãos de segunda, pessoas cujas vidas merecem apenas uma ínfima percentagem do respeito que merecem as suas próprias.

A tendência vem de antes, mas a política de extrema-direita do governo de Netanyahu tem vindo a reduzir de forma drástica as liberdades cívicas e o direito de protesto em Israel. Estas acusações são feitas pelas muitas organizações de direitos humanos israelitas que defendem os direitos dos palestinianos e que são pela causa da paz. Na semana passada Ezra Nawi, um militante pacifista israelita que se tem batido pelos direitos humanos e contra os colonatos, foi preso com base numa falsa acusação de agressão a soldados (o filme da “agressão” está na Internet).

A sua defesa mobilizou milhares de pessoas, mas o tribunal condenou com dureza a sua acção de desobediência civil. É natural: Nawi mete-se dentro das casas de palestinianos que os soldados querem demolir, uma forma violentíssima de terrorismo que o Estado israelita não pode permitir. Na sua despedida, antes de ser preso, Nawi disse aos amigos: “Num país onde as leis são imorais, a desobediência civil é obrigatória. Por isso, não vai tardar muito até que muitos de vocês venham juntar-se a mim na cadeia.” A única razão por que se pode ainda esperar que alguém salve a honra perdida de Israel é que há muitas pessoas dispostas a correr esse risco em nome da paz. (jvmalheiros@gmail.com)

sábado, maio 29, 2010

Quem compraria um carro usado ao Zé Povinho?

Texto publicado na Gazeta das Caldas em Junho de 2010

Desde o primeiro momento que as coisas não correram bem. O Zé Povinho não nasceu com a albarda ao lombo mas quase: foram-lhe ao bolso logo à nascença, na primeira vez que Bordalo o desenhou, em 12 de Junho de 1875, em “A Lanterna Mágica”, onde ele não teve mais remédio senão ceder as moedas ao Governo de Fontes Pereira de Melo, coçando a cabeça, sem perceber o que lhe estava a acontecer mas sem lhe passar pela cabeça discutir ou revoltar-se. E as albardas lá viriam, em muitos dos desenhos do seu criador e dos seguidores.

Há quem veja no ar com que recebe as albardas que lhe foram aconchegando ao lombo ao longo dos tempos uma silenciosa crítica sobranceira, uma displicência filosófica ou a iminência de uma revolta, mas não há provas de que elas estejam lá. O Zé tornou-se gozão e começou a fazer manguitos, mas levou sempre com a albarda, sempre lhe meteram a mão ao bolso e nunca percebeu muito bem o que lhe estava a acontecer.

E, aqui para nós, parece sempre demasiado etilizado para ter uma noção muito clara do que se passa. Nem se sabe se percebe quando os impostos são para caminhos de ferro ou para folhos de renda. A sua vingança? Critica os que lhe metem a mão ao bolso, a albarda às costas e o freio na língua, que só lá estão para se encher à sua custa, cambada de madraços, arrivistas, chico-espertos, deputados e ministros, homens de casaca e de ar grave, sempre a mamar na Grande Porca.

Critica e goza, mas o traço do caricaturista e os dedos do ceramista não lhe deram graça nem espírito. Não há um lampejo, um sonho, um arroubo, uma boa tirada que seja. Vive embasbacado. O que lhe sai da boca é um gemido e do braço um manguito. Às vezes faz um sorriso que parece dizer-nos que ele sabe que nós sabemos que ele sabe que nós sabemos, mas será que essa centelha estará lá? Não há poesia nem dignidade nesta figura que a sobranceria burguesa nos quis convencer que era o retrato da alma popular portuguesa.

O Zé Povinho alomba com o que lhe cai em cima. Não faz nada mas tudo lhe acontece e são desgraças em geral. No fim, ele perde. Mas nem sabemos se o devemos lamentar porque não sabemos o que representa. Os poderosos são uns crápulas mas será que ele é melhor, com o seu ar malandro e dissimulado? Será isto o povo? Vive de quê? De trabalho honesto ou de esperteza saloia? Há uma bandeira que transluz no pano cru rasgado da camisa? Ou tem libras de ouro no lugar dos botões? Gostamos dele com superioridade mas, se fosse de carne e osso, teríamos vergonha de o apresentar aos amigos. Quem lhe compraria um carro usado?

Não tem a bonomia satisfeita de John Bull, nem a seriedade determinada do Tio Sam, nem o ardor apaixonado de Marianne, nem o idealismo de D. Quixote e, se se aproxima de Sancho Pança na figura, não tem o seu eficaz sentido prático. O Zé Povinho é maltratado, queixa-se dos poderosos e sabemos que os despreza. O que não sabemos é o que quer e suspeitamos que não sonha com nada a não ser com o dia em que o deixarão em paz. O que sabemos é que nós não somos o Zé Povinho. Se o Zé Povinho são os portugueses, são os outros. Nós? Nós somos o Bordalo!

José Vítor Malheiros

quarta-feira, maio 26, 2010

O colarinho branco e a canja da ralé

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 26 de Maio de 2010
Crónica 20/2010

Quiseram aplicar a um homem como Ricardo Rodrigues os mesmos princípios éticos que aos outros deputados

1. Quando alguém mete ao bolso uma coisa que não lhe pertence dizemos que a roubou. Mas há justificações para meter coisas ao bolso. E diferentes nomes para usar nas várias circunstâncias, conforme o estatuto social e político dos autores. Uma senhora bem vestida que meta na carteira um perfume, numa loja elegante, distraiu-se – e um engano toda a gente tem. Uma mulher que o faça num supermercado suburbano comete um furto que a sociedade não pode permitir. Esta é a base da sociedade e querer subvertê-la é fomentar o caos e a anarquia. E o sistema judicial existe para garantir a sua subsistência.

Quando um deputado rouba alguma coisa também não se trata exactamente de roubo-roubo, como se fosse um maltrapilho qualquer. Pode dizer-se que o deputado se apropriou, tirou ou “roubou” e “furtou”, mas entre aspas.

Quando o deputado do PS Ricardo Rodrigues roubou dois gravadores a dois jornalistas fê-lo com um hábil golpe de mão, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida, mas esclareceu que tinha “tomado posse” deles, como teria feito se se tratasse de um cargo oficial. A hierarquia do partido compreendeu aliás o seu gesto e desculpou-o, pois foi provocado pela “violência psicológica insuportável” a que foi submetido pelos jornalistas que o entrevistavam.

Ricardo Rodrigues não roubou os gravadores para os vender na Feira da Ladra e sacar vinte euros para comprar umas ganzas. Isso seria escandaloso. Fê-lo apenas para ver se impedia a publicação de uma entrevista que abordava temas que não lhe convinham. Tratou-se de um pequeníssimo atropelo à liberdade de imprensa e de informação, mas do mais puro colarinho branco. Não é furto, mas apenas um acto irreflectido, compreensível, já esquecido. E o seu passado não é para aqui chamado porque não é disso que estamos a falar. Nem o facto de o deputado ter mentido ao Parlamento, à imprensa e ao país sobre o que fez aos gravadores. Querer que um homem como Ricardo Rodrigues obedeça aos mesmos princípios éticos que os outros deputados é uma afronta. Francisco Assis disse-o melhor que ninguém: ninguém pode julgar Ricardo Rodrigues.

2. As medidas de contenção das prestações sociais recentemente apresentadas pelo Governo no âmbito do PEC têm de ser lidas à luz da mesma lógica, que distribui direitos e deveres de acordo com os méritos das pessoas: seria impensável pedir a pessoas de posses, a pessoas de qualidade, a pessoas daquelas de que o país não pode prescindir, que pagassem a crise provocada pelos actos de contabilidade criativa que os corretores e os banqueiros fizeram nos últimos anos e pelos buracos orçamentais criados para colmatar os défices dos bancos. Como o seria combater a fuga de capitais para os paraísos fiscais, ou a fuga ao fisco de pessoas que não sejam trabalhadores por conta de outrem. Tratar-se-ia de uma violência psicológica insuportável.

Os pobres já estão habituados a poupar e a apertar o cinto e quase não vão notar a diferença. Os ricos não o sabem fazer. Fá-lo-iam mal. Os desempregados, os recipientes do rendimento mínimo, os trabalhadores precários são peritos na arte de rapar o tacho. Fazem-no há anos, há gerações, há séculos. E atingiram uma eficiência que um banqueiro nunca conseguiria. E, em alturas de crise, temos de apostar na eficiência, temos de entregar a cada um as tarefas que melhor desempenham. Alguém pensa que um gestor de uma grande empresa poderia viver com 1000 euros? Nem vale a pena tentar. Um pobre consegue alimentar uma família de seis com 800 euros. Sabe fazer canja de miúdos de frango e um guisado com um osso de vaca, sabe quais são os medicamentos da receita que não precisa de aviar, conhece as lojas onde pode comprar sapatos e sabe remendar a roupa. Ninguém o faz tão bem como os pobres. É o talento da ralé. Por que se há-de tentar que sejam os ricos a pagar mais impostos e a gastar menos? (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, maio 12, 2010

As nove virtudes teologais

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 12 de Maio de 2010
Crónica 19/2010

Isto não é uma campanha de publicidade para pasta de dentes. Isto tem de ser mesmo verdade

Confesso que não percebo a campanha “Foi o Pai que me ensinou”, que está por todas as ruas para comemorar a visita papal. Sei que este Pai se escreve com maiúscula porque foi assim que a Agência Ecclesia escreveu no despacho que anunciava a campanha. Pelos mupis e pelos cartazes não se pode saber porque está tudo em maiúsculas.
As notícias que li sobre a campanha falavam do slogan como se fosse a coisa mais evidente do mundo e não explicavam que pai era aquele. Imagino que alguns dos jornalistas que estiveram na conferência de imprensa onde a campanha foi apresentada eram católicos praticantes e perceberam logo tudo e que os outros tiveram vergonha de perguntar para não lhes chamarem ateus, mas a verdade é que eu não sei de que pai estão a falar.
Do Pai Eterno? Do pai, daquele que não costuma precisar de maiúscula? Do pai espiritual? Do Papa?
Se é do Pai Eterno, é inquestionável que foi ele que ensinou tudo isto não só aos nove protagonistas da campanha, mas também a todos nós, porque também criou todas as aves do céu e todos os peixes do mar, mas será mesmo ele? E se fosse ele porque é que fariam esta campanha para a visita do Papa? Será uma homenagem aos pais, tipo Dia do Pai católico, para sublinhar a importância das figuras tutelares masculinas no ensinamento da virtude, para contrabalançar um pouco os escândalos da pedofilia? Uma campanha pelo pai espiritual não parece ser, porque a figura está em desuso.
É provável que seja o Papa, porque a campanha foi concebida como uma homenagem prestada ao ilustre visitante e porque sei que os verbos que a compõem (“Partilhar foi o Pai que me ensinou”, Amar, Rezar, Acreditar, Confiar, Esperar, Perdoar, Escutar e Festejar) foram extraídos dos textos de Bento XVI, mas tive as minhas dúvidas, porque me pareceu algo excessivo. Será que oPapa  teve de facto esta influência naquelas nove pessoas que dão a cara pela campanha? Tanto quanto sei (a campanha tê-lo-ia dito) nenhuma destas pessoas privou com o Papa. Foi Bento XVI que ensinou aquele simpático casal de namorados a amar? Foi ele que ensinou aquela senhora a partilhar? E aquele jovem a confiar? E os outros todos? Apenas pelo seu exemplo à distância e pelos seus escritos e pelos seus sermões? Que lindo!
Ou será uma confusão propositada entre Deus e o Papa, para não sabermos muito bem de que Pai se fala, uma jogada de “culto da personalidade”, um “desvio”, como se diria se fosse na política?
O problema é aquele pronome, aquele “que”, que indica este pai como o responsável, o único responsável pela aprendizagem de todas estas coisas tão importantes. Não terá havido mais alguém que tenha ensinado estas pessoas a confiar e a escutar e a partilhar? Não terá havido um pai? Um daqueles pais normais, sem maiúscula? E não terá havido uma mãe, também normal, também sem maiúscula? E não terá havido um amigo, uma namorada, um professor, um marido, um desconhecido, um livro, um poema, um olhar, uma paisagem, um quarteto de Brahms, uma Vista de Delft? Tudo isso junto? Foi mesmo o Papa que? Deve ter sido, porque isto não é publicidade para pasta de dentes, isto tem de ser mesmo verdade.
Ou terá sido um descuido? Alguém que deixou cair um acento no Papa e o transformou em papá?
Se o Papa tivesse só ajudado a ensinar e tivesse deixado lugar para os lírios do campo ensinarem alguma coisa, era mais plausível, mas assim... se foi o Papa que, é mais difícil.
Se alguém me garantisse que foi o seu pai que o ensinou a fazer o nó da gravata e mais ninguém, isso parecer-me-ia credível. Mas para as outras coisas em geral há mais pessoas a contribuir. E livros e tal. Mas se este é o Papa, não será que um pai de letra pequena se poderá entristecer de ver chamar pai a outro? Ou será que estão mesmo a falar do pai de letra pequena?
Claro, deve ser isso! E a razão por que se faz esta campanha de glorificação do pai é porque... porque... não consigo lembrar-me de nenhuma razão especial para fazer isso com o pai e não fazer a mesma coisa com a mãe, mas pode ser que isto esteja nos planos da Igreja para os próximos dias. É isso com certeza. É isso. Estou ansioso por descobrir o que é que a mãe ensinou. (jvmalheiros@gmail.com)