por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 10 de Fevereiro de 2009
Crónica 4/2009
Por muito pobre que seja, cada português vai poder orgulhar-se de ter ajudado a pagar alguns carros de luxo
Os responsáveis da crise financeira e económica que está a abalar o mundo, que fez desaparecer o crédito, que fez eclipsar-se o investimento e o consumo privados, que está a provocar a falência de bancos e de outras empresas em cascata, que está a lançar milhões de trabalhadores no desemprego, que está a fazer com que milhões de famílias percam as suas casas, que vai fazer aumentar de forma astronómica os encargos sociais dos Estados, que pôs em causa a liderança económica dos EUA, que faz tremer a Europa, que abala a China, os responsáveis de tudo isto foram finalmente encontrados. Os responsáveis somos nós.
Se pensava que os problemas se deviam à crise do subprime, à ganância desmedida de (muitos) banqueiros, investidores, especuladores e à desonestidade de outros tantos (muitos) banqueiros, investidores, gestores, consultores, agências de rating, entidades reguladoras e fiscais diversos, esqueça. A culpa da crise é sua (e, admito, também minha).
A hipótese começou por ser avançada timidamente mas as provas são esmagadoras e são repetidas pelos especialistas em voz cada vez mais alta. Não podemos continuar a negar. E não devemos ser cépticos pelo facto de serem analistas e propagandistas da direita que o dizem. A direita tem maior familiaridade com as coisas do dinheiro (e com o dinheiro ele próprio) e sabe do que fala. A culpa é mesmo nossa. Sua e minha.
Eles descobriram o que é que você e eu andámos a fazer nos últimos anos. Descobriram que andámos a viver acima das nossas possibilidades e que andámos a comprar... a crédito. A comprar casas com empréstimos e coisas assim. E às vezes até - não vale a pena negar - a usar os nossos cartões de crédito.
A prova que eles descobriram é que o próprio Obama, no discurso de posse, pôs o dedo na ferida e explicou que a crise se devia "ao fracasso colectivo" dos americanos que não souberam fazer as escolhas difíceis que se impunham. Obama não falou de Portugal, mas se tivesse falado teria dito que aqui (e no resto do mundo) a razão é semelhante. A culpa é nossa.
Paul Krugman - Nobel de Economia e colunista do New York Times - não concordou com Obama quanto à culpa colectiva e diz que, pelo contrário, "os americanos" não faziam a mínima ideia das falcatruas dos mercados financeiros e que as pessoas que sabiam juraram aos quatro ventos que a desregulação financeira era uma coisa boa - mas Krugman, aqui entre nós, talvez seja c-o-m-u-n-i-s-t-a e talvez não seja boa ideia acreditar nele. As suas críticas ao sistema financeiro fazem parte de uma conspiração internacional para impor a ditadura do proletariado.
Agora que os analistas têm as provas na mão temos de admitir que, se os trabalhadores da Bordalo Pinheiro, da Tyco Electronics, da Peugeot-Citroën, da Autoeuropa, da Controlinveste, da Philips, da Sonae Indústria, da Delphi e de tantas outras não tivessem vivido acima das suas possibilidades e não tivessem contraído empréstimos para comprar casas para viver, o mundo estaria melhor e eles teriam podido manter os empregos. Já sabíamos que, quando os bancos ganham dinheiro, ele vai para os bolsos dos gestores e accionistas, mas que, quando perdem dinheiro (por má gestão, desvio de fundos, fuga ao fisco), esse dinheiro se vai buscar aos bolsos dos contribuintes. Mas ficámos agora a saber que não é só o dinheiro que é preciso pagar. É preciso arcar com a culpa.
Resta-nos uma consolação. Por muito pobre que seja, cada português vai poder orgulhar-se de ter ajudado a pagar alguns carros de luxo, férias em ilhas exóticas e amantes espampanantes. É verdade que não usufruímos de nada disso, mas sempre consola. E estava dentro das nossas possibilidades. Não é tão mal visto como ter contraído um empréstimo para comprar casa, acima das nossas possibilidades.
Jornalista (jvm@publico.pt)
Referência incontornável da esquerda portuguesa que viveu os anos 60 e 70, pensador inconformista de uma política que entendia como algo que tinha o dever de "reduzir as desigualdades e alargar o leque de escolha das pessoas, a liberdade", João Martins Pereira, engenheiro de formação, engenheiro fabril e de projecto de profissão, ensaísta de fundo, governante efémero, jornalista acidental, estudioso da história do capitalismo português e de economia industrial, investigador desse mistério que é como pôr uma economia de inovação ao serviço de uma política de liberdade, fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES) e independente contumaz, marxista heterodoxo e não dogmático que nunca foi comunista nem católico, sartriano revolucionário e radical e conversador emérito morreu anteontem em Lisboa, em sua casa, a dias de cumprir os 76 anos, vítima de um cancro tardiamente diagnosticado.
Se é difícil encontrar hoje quem reconheça o seu nome entre os menores de 50 anos, para além dos leitores habituais das suas crónicas no Combate, onde colaborou desde o fim dos anos 80, é impossível encontrar alguém que não o reconheça, acima desse limiar etário, entre os cultores da política e nos meios da esquerda portuguesa.
Porquê o desconhecimento dos mais jovens? "O João Martins Pereira não fazia o circuito das televisões nem dos colóquios", diz o líder do Bloco de Esquerda Francisco Louçã, seu amigo e camarada de Combate. "O João era um conversador extraordinário mas tinha um certa timidez que o mantinha afastado de certos meios. Além de que os seus livros se dirigem a um público um pouco especializado. Mas era sem dúvida o pensador marxista mais criativo em Portugal, de um marxismo que não estava preso a nenhuma ortodoxia."
Um marxismo que ele mantinha como referência no pensamento económico, ainda que não como filosofia política. Ontem, aliás, no Colóquio Internacional Karl Marx, a decorrer em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, o historiador Fernando Rosas faria uma evocação de Martins Pereira, dizendo que, se ele fosse vivo, estaria certamente ali, contribuindo para os trabalhos com a sua "inteligência crítica".
Um marxismo que ele mantinha como referência no pensamento económico, ainda que não como filosofia política. Ontem, aliás, no Colóquio Internacional Karl Marx, a decorrer em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, o historiador Fernando Rosas faria uma evocação de Martins Pereira, dizendo que, se ele fosse vivo, estaria certamente ali, contribuindo para os trabalhos com a sua "inteligência crítica".
João Martins Pereira teve uma passagem meteórica pela governação, em 1975, no IV Governo Provisório, presidido por Vasco Gonçalves. Foi secretário de Estado da Indústria e Tecnologia, a convite do seu amigo João Cravinho, que ocupou a pasta da Indústria e Tecnologia. No site do Governo na Internet, na secção Arquivo Histórico, pode ver-se a composição do Governo. E lá aparece João Bahuto Pereira da Silva - não parece, mas é João Martins Pereira.
"O João Martins Pereira nunca tinha querido estar na acção política directa, assumir cargos políticos", conta João Cravinho, "Mas quando o fui convidar nessa altura, ele achou que não era possível dizer que não. Tinha a noção de que se tratava de um momento-chave. Lembro-me que me disse algo do género 'Isto agora é que é. Ou pegamos nisto e levamos isto para a frente ou isto perde-se'."
A missão que coube ao secretário de Estado foi histórica: as nacionalizações das grandes empresas industriais, que vieram na sequência da anterior nacionalização da banca, imediatamente depois do golpe do 11 de Março. "Naquele contexto, as nacionalizações da indústria eram inevitáveis", continua João Cravinho. "As empresas estavam profundamente endividadas e a visão política da época era a de que a consolidação da democracia só seria possível através dessas nacionalizações. A alternativa seria não o fazer e ajudá-las com financiamentos públicos maciços - o que naquele contexto político era impensável - e enveredar por um regime de democracia musculada que continuaria a ser tutelada por esses cinco ou seis grandes grupos económicos - a solução preconizada por Spínola."
As nacionalizações abrangeram a siderurgia, os cimentos, os estaleiros navais, a química pesada e petroquímica, as celuloses. Feitas as nacionalizações, Martins Pereira deixou o Governo, sem conflitos mas desiludido com o rumo da governação e com as inúmeras coisas que não era possível fazer. Antes de sair empenhou-se na criação daquilo que hoje se chamaria um cluster de metalo-mecânica, negociando com muitas empresas do sector redes de cooperação que esperava pudessem servir de empurrão à economia, quase paralisada.
Quando entrou para o Governo, a sua reputação já estava estabelecida. O seu primeiro livro, "Pensar Portugal Hoje" (D. Quixote, 1971) uma colectânea de artigos cuja primeira edição de 3000 exemplares se esgotou num mês, foi uma obra central para aqueles que, contra ou nas margens do regime, ansiavam pela modernização e pela democracia.
Quando entrou para o Governo, a sua reputação já estava estabelecida. O seu primeiro livro, "Pensar Portugal Hoje" (D. Quixote, 1971) uma colectânea de artigos cuja primeira edição de 3000 exemplares se esgotou num mês, foi uma obra central para aqueles que, contra ou nas margens do regime, ansiavam pela modernização e pela democracia.
"O João Martins Pereira tinha uma enorme capacidade analítica e uma grande capacidade crítica e o Pensar Portugal Hoje era uma proposta de reflexão do país, à esquerda", diz João Cravinho. "O livro tinha uma conceptualização ideológica forte, mas não era um livro de chavões, não fazia as leituras que na altura eram as convencionais na esquerda. Era um livro aberto, com uma grande frescura analítica, que se opunha àquelas ortodoxias que às vezes não tinham grande apoio na realidade. Não era um livro a preto e branco."
Era essa abertura que fazia de João Martins Pereira uma figura sui generis, onde habitava, a par de uma grande radicalidade política que o colocava no extremo do espectro político - apoiante de Otelo Saraiva de Carvalho, nas presidenciais 1976; próximo do Bloco de Esquerda, em cuja convenção fundadora fez uma das intervenções de fundo -, um sentido crítico e um sentido da realidade social que frequentemente o fazia entrar em choque com os mais dogmáticos. Aconteceu aliás na própria fundação do BE, onde a sua intervenção suscitou reacções pouco apreciadoras.
A sua intervenção cívica e intelectual, constante, fê-lo passar, em 1967-1968, pelo corpo redactorial da Seara Nova. Em 1969-1970 fez parte do grupo que lançou a segunda série de O Tempo e o Modo. Integrou a equipa colectiva que publicou, em 1969, o livro "Alguns Aspectos do III Plano de Fomento" (Ed. Seara Nova) e foi responsável pela secção económica da revista Vida Mundial entre Novembro de 1974 e Março de 1975. Seria mais tarde director interino do semanário Gazeta da Semana e, posteriormente, director da Gazeta do Mês.
Na universidade, depois de se licenciar em engenharia química no Instituto Superior Técnico - onde "foi um aluno brilhante e bateu alguns recordes de notas", como lembra o colega João Cravinho -, foi professor de 1970 a 1972: assistente de Economia Industrial no ISCEF (depois Instituto Superior de Economia).
A lista de obras que publicou inclui títulos como "Indústria, Ideologia e Quotidiano" (Afrontamento, 1974), "Sistemas Económicos e Consciência Social" (F. Calouste Gulbenkian, 1980), "No Reino dos Falsos Avestruzes" (A Regra o Jogo, 1983), "O Dito e o Feito" (Ed. Salamandra, 1989), "À Esquerda do Possível" (Edições Colibri, 1993).
O seu livro mais recente, "Para a História da Indústria em Portugal, 1941-1965" (ICS, 2005), parte de um ambicioso projecto que fica incompleto: um estudo, sector a sector, da indústria portuguesa. O objectivo? "Tentar compreender as razões por que a indústria portuguesa tem uma geração de atraso", explica Francisco Louça, com quem discutiu o projecto. "Tentar compreender as razões do fracasso da burguesia portuguesa como projecto económico e social."
O seu livro mais recente, "Para a História da Indústria em Portugal, 1941-1965" (ICS, 2005), parte de um ambicioso projecto que fica incompleto: um estudo, sector a sector, da indústria portuguesa. O objectivo? "Tentar compreender as razões por que a indústria portuguesa tem uma geração de atraso", explica Francisco Louça, com quem discutiu o projecto. "Tentar compreender as razões do fracasso da burguesia portuguesa como projecto económico e social."
Tentar compreender. Como sempre.
O funeral sai hoje às 16h45 da Biblioteca do Palácio Galveias, no Campo Pequeno, para o cemitério do Alto de São João.




