terça-feira, janeiro 26, 2010

A angústia do jornalista perante a Internet

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 26 de Janeiro de 2010
Crónica 4/2010

A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa

De cada vez que tem lugar um acontecimento que concentra as atenções do mundo, como agora sucede no Haiti, torna-se evidente que os canais que utilizamos para nos mantermos informados mudaram de forma radical nos últimos dez anos.

É verdade que ainda continuamos a recorrer aos media tradicionais como a TV e os jornais (frequentemente através dos seus sites) e a ver as suas reportagens e a ler os seus artigos, mas ninguém que queira saber o que se passa no terreno e compreender os factos para além da superfície se fica por aí. O facto de podermos hoje ler e ver na Internet, sem mediação, os relatos dos indivíduos comuns que protagonizam estes acontecimentos, os testemunhos dos voluntários das organizações humanitárias, a par de blogues de jornalistas no local (locais ou estrangeiros, free-lance ou não) fornece à informação a que temos acesso uma riqueza incomparável. Durante anos tentámos vender a ideia (convictamente, nos melhores casos) de que o jornalismo era a única forma de aceder a informação rigorosa e independente sobre os acontecimentos do mundo. Se isso foi verdade alguma vez, hoje já não é certamente.

Sempre soubemos que não existiam fontes de informação desinteressadas, mas hoje é evidente que a única informação independente é a que se obtém através de uma multiplicidade de fontes e a que promove a participação dos cidadãos (os leitores sabem sempre mais que os jornalistas). Essas fontes independentes estão aos milhões na Internet, nos blogues, nas redes sociais, no Youtube, no Flickr, no Twitter, em novos serviços que emergem todos os dias e que não precisam de um modelo de negócio, porque não vivem disso. Foram eles que nos disseram o que estava a acontecer na Birmânia, no Irão, e agora no Haiti continuam a fazê-lo.

Podem permitir-nos prescindir dos media tradicionais? Não é essa a questão. Os media tradicionais estão a morrer porque estão a cometer harakiri, não porque alguém os queira destruir. E os leitores certamente que não querem substituir-se aos jornais. Só que são aqueles, "as pessoas antes conhecidas como a audiência", na expressão feliz de Jay Rosen, que têm mais histórias para contar, que sabem mais, que têm opiniões mais ricas e até posições mais isentas. Cada um deles? Não. Todos juntos.

É por isso que continua a ser espantosa a forma tímida (ou inexistente) como a imprensa tradicional ignora este recurso - o mais abundante e o mais rico recurso informativo do planeta - e, com raras excepções, lhe passa ao lado, com tímidas olhadelas de soslaio.

Como têm explicado muitos gurus do novo jornalismo - Dan Gillmor, Jeff Jarvis, ainda Jay Rosen - o jornalismo deixou de poder viver numa estrutura vertical, onde uns falam e os outros ouvem. A informação deixou de ser uma palestra e transformou-se numa conversa. As ferramentas existem e as pessoas estão a usá-las. O que é triste é que os media, devido ao corporativismo dos seus jornalistas, ao desânimo dos seus dirigentes, à ignorância dos seus gestores, à ganância anal-retentiva dos seus proprietários, continuam a tentar fazer tudo o que podem para deixar tudo na mesma. Não vai ficar. Se os jornalistas não quiserem entrar na conversa que o fluxo de informação já é, serão condenados à irrelevância.

O que não faz sentido é que, no momento em que há um novo jornalismo para inventar - e um jornalismo que merece entusiasmo, onde a criatividade e a participação cidadã assomam por todas as frinchas -, os media fiquem à espera da morte, repetindo sem o perceber o mantra louco que diz que a Internet é o futuro. O futuro passou-lhes debaixo do nariz e eles não deram por isso. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Shaken, not stirred. E com um cheirinho a morte

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Janeiro de 2010
Crónica 3/2010

No Haiti há um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados

Três dias depois de o sismo de 12 de Janeiro ter arrasado o Haiti e ter deixado 200.000 mortos sob os destroços das suas casas, um navio da companhia americana Royal Caribbean, o Independence of the Seas, atracou na costa norte da ilha.

O navio não levava medicamentos, nem tendas para os desalojados, nem cães para detectar sobreviventes soterrados, nem bulldozers para remover escombros, nem trabalhadores humanitários. Trazia turistas, que participavam num cruzeiro caribenho, e que vieram gozar a habitual paragem na praia de Labadee, um resort cercado por um muro de 3,5 metros de altura e protegido por guardas armados, que garantem que nenhum dos miseráveis haitianos que vivem do lado de lá perturbará o calmo mergulho nas águas cor de esmeralda ou o churrasco servido nas areias douradas que a empresa proporciona aos seus clientes. E assim foi. Depois de uma estadia de 24 horas, durante a qual os turistas não tiveram de ver as pilhas de corpos em decomposição recolhidos das ruínas, nem as crianças subnutridas que aguardam tratamento nos hospitais de campanha, nem a violência das pilhagens pelas ruas, o navio seguiu viagem com os seus passageiros, em direcção ao paraíso tropical seguinte.

É verdade que muitos dos passageiros, conscientes do que se passava do lado de lá dos muros - cujas imagens enchiam os noticiários das televisões dos seus camarotes -, não quiseram sequer descer à praia. E é verdade que o navio deixou na ilha quarenta paletes de ajuda alimentar e que a empresa de cruzeiros se comprometeu a entregar como donativo as receitas da estadia. Mas, apesar destes leves paliativos, não se pode deixar de sentir que o episódio contraria as mais elementares regras da decência. Como se pode beber um martini quando há ao lado uma criança que morre por falta de água? Como podemos balançar numa rede entre dois coqueiros quando, ali ao lado, ouvimos o grito dilacerante da rapariga de 14 anos que chora a morte do seu irmão de cinco anos, esmagado debaixo de uma casa sob cujos escombros ela sobreviveu cinco dias? É fácil responder que o martini não pode matar a sede à criança e que a anulação do cruzeiro iria prejudicar ainda mais a quase inexistente economia haitiana, mas nenhum sarcasmo e nenhum cálculo conseguem disfarçar o nó nas nossas tripas. Será tão difícil perceber que algo está profundamente errado? Será tão difícil perceber que esta desigualdade é indecente?

A questão é que o que se passou neste cruzeiro não foi muito diferente do que se passou das outras vezes em que o Independence of the Seas atracou em Labadee. O Haiti é desde há muito o mais pobre país das Américas e a esmagadora maioria da sua população vive abaixo do limiar de pobreza, com um por cento da população a arrecadar metade do produto nacional. Do outro lado do muro de três metros e meio de altura sempre houve fome. E casas que não oferecem qualquer garantia de protecção contra sismos. Mesmo sem uma catástrofe a mostrar nas televisões a morte e a violência, a pobreza e a sordidez, o Haiti - que tem a glória de ser o único Estado moderno que nasceu de uma revolta de escravos - é desde há muito um dos caixotes de lixo do mundo, um país exportador de escravos, explorado sucessivamente pela França e pelos EUA, que apoiaram as suas múltiplas ditaduras, condenado à miséria e à doença (recordam-se da sida?) e esquecido do mundo. As promessas de ajuda de hoje devem-se apenas à presença no primetime. E a escala do Independence of the Seas só nos parece chocante hoje pela mesma razão. Há muito tempo que os passageiros do Independence of the Seas tomam os seus martinis sobre um fundo de cheiro de morte. Nós é que fingimos que não o sentimos. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Spam

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Janeiro de 2010
Crónica 2/2010

Há oportunidades à espreita no seu filtro de spam. Em 2010 não deixe a vida passar-lhe ao lado

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sexta-feira, janeiro 01, 2010

EUA difundem conselhos de Ano Novo para bombistas

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 5 de Janeiro de 2010
Crónica 1/2010


Department of Homeland Security ensina-lhe como deixar de se preocupar e passar a amar a bomba

Depois de, no passado dia de Natal, o nigeriano Abdul Farouk Abdul Mutallab ter tentado fazer explodir um avião da Northwest Airlines proveniente de Amesterdão, quando este se aproximava do aeroporto de Detroit, a Transportation Security Administration, a agência federal responsável pela segurança dos transportes nos EUA, que faz parte do famigerado Department of Homeland Security, decidiu emitir novos procedimentos que devem ser seguidos por todos os futuros bombistas, sejam eles ou não da Al-Qaeda, se quiserem passar despercebidos e ser bem sucedidos nos seus atentados.

Antes de mais, a Transportation Security Administration (TSA) alerta os candidatos a bombistas para o facto de que todos os passageiros que queiram entrar nos Estados Unidos e que sejam originários ou provenientes de 14 países (Nigéria, Paquistão, Iémen, Afeganistão, Líbia, Somália, Cuba, Irão, Sudão, Síria, Argélia, Líbano, Arábia Saudita e Iraque) vão passar a ser submetidos a uma revista corporal completa e a uma inspecção manual dos seus objectos pessoais.

Isto significa que, se a Al-Qaeda quiser que os seus bombistas passem despercebidos, deve ter o cuidado de os escolher entre cidadãos naturais de outros países, o que não será difícil. Para maior garantia, a TSA lembra que são os aviões que se dirigem aos Estados Unidos que são objecto de vigilância mais apertada e não aqueles que saem dos Estados Unidos, o que sugere que sejam estes os escolhidos como alvos de atentados bombistas. Uma das vantagens adicionais consiste no facto de os EUA serem um dos países do mundo onde é mais fácil comprar armas ou explosivos, tornando mais fácil o aprovisionamento dos terroristas.

A TSA avisa porém todos os futuros bombistas de que não vai difundir em detalhe os novos procedimentos anti-terroristas que devem ser seguidos pelas companhias aéreas - o que significa que poderá ser mais avisado para os futuros terroristas dedicar-se a atacar outros tipos de transporte, com posições menos destacadas na lista de prioridades da Homeland Security, mas não menos mediáticos nem menos mortíferos. O metropolitano, ferries, comboios e autocarros são possibilidades deixadas em aberto - mas deve ter-se em conta que a responsabilidade da TSA se resume aos transportes, podendo haver alternativas interessantes para os objectivos da Al-Qaeda noutros domínios de actividade.

No que diz respeito aos aviões, além das revistas corporais e da inspecção das bagagens pessoais dos suspeitos oriundos de certos países, os passageiros devem estar conscientes de que podem ser objecto de quaisquer outras medidas de caução imaginadas pelas companhias aéreas ou pelas tripulações dos aparelhos - sem restrições de qualquer tipo. Entre as que estão a ser adoptadas pelas companhias aéreas estão a obrigatoriedade de mostrar as duas mãos sempre que a tripulação o pedir (supõe-se que o pedido seja o clássico "mãos ao ar") ou de estar sentado durante a última hora de voo ou a proibição de usar a casa de banho - o que desaconselha vivamente qualquer diarreia, como um outro passageiro nigeriano já descobriu.

Todas estas medidas, adoptadas na sequência do tentado atentado do jovem nigeriano e da maléfica histeria crónica de Dick Cheney, poderão vir a ser ainda complementadas por outras até que a democracia americana se torne virtualmente indistinguível de um país fundamentalista muçulmano. Os hábitos serão diferentes, mas o grau de liberdade semelhante. É evidente que nenhuma dessas medidas serve absolutamente para nada senão para instalar uma falsa sensação de segurança ou uma verdadeira sensação de medo, mas Obama poderá dizer que não fraquejou na luta contra o terror. Por enquanto, só está a fraquejar na luta contra Cheney e o seu estilo ("tough, mean, dirty, nasty", segundo o próprio) de "garantir a segurança dos EUA". Aterrorizador. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, dezembro 30, 2009

A década do medo e da desigualdade

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 30 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

Esta foi a década em que vimos mais caras de pessoas que sabíamos que iam morrer

Fim de ano é tempo de balanço do passado e de votos para o futuro. Fim de década é tempo de dez vezes mais balanços e, por amor à simetria, mãe da ordem, da beleza e da verdade, de tentativas de escrutinar os próximos dez anos – como se isso fosse preciso para equilibrar o olhar que lançamos para trás, para nos garantir que não vamos ficar presos para sempre no passado, com o pêndulo do relógio atolado no lodo negro daquilo que já passou, e que poderemos seguir em frente. Fazemo-lo ainda que saibamos como é fútil pretender espreitar o futuro, como a década passada mostrou (quem adivinhou no ano 2000 o dia 11 de Setembro do ano seguinte?), como num exorcismo divinatório, através do qual tentamos pelo menos evitar o pior e sugerir o melhor, atirando umas sementes de optimismo para a frente do caminho.

É claro que a primeira década do terceiro milénio desta era só acaba no fim de 2010, mas o milénio mítico começou em 2000, quer gostemos quer não, e por isso toda a gente se lançou alegremente no exercício decenal em 2009.

Que a década passada não deixa saudades no Ocidente à maior parte dos observadores parece claro, ainda que a situação seja diferente na China, onde cada ano arrancou umas quantas dezenas de milhões de indivíduos ao oceano da pobreza. Para mim, a década que está a acabar, nascida, como o século e como o milénio, a 11 de Setembro de 2001, é a década do medo. O medo do terrorismo, claro, mas mais do que isso.

O medo que nasce da consciência da total desprotecção perante o ódio, o medo que nasce da consciência desse ódio ubíquo que não percebemos, mas também o medo instrumental, estimulado pelos poderes para aumentarem a sua força e ampliarem o seu raio de acção, o medo que faz homens livres prescindir da liberdade em troca de uma ilusória segurança. O medo que faz pessoas normalmente justas e sensatas e sociedades tradicionalmente democráticas aceitar que em certos casos se deve pôr a liberdade, a justiça e a humanidade na gaveta para reduzir o perigo – como se isso reduzisse o perigo e como se pudesse haver um mundo, digno de ser salvo, sem liberdade, sem justiça e sem humanidade.

A década que passa foi também a década da Internet e da informação global, a década em que, mais do que em qualquer outra década da história do mundo, soubemos o que se passava do outro lado do planeta, soubemos quantos homens como nós morreram em guerras sem sentido e quantas crianças como os nossos filhos morreram de fome.

Esta foi a década da desigualdade social crescente, dos 200 milhões de trabalhadores desempregados, da deslocalização das empresas, do império da rentabilidade económica, da alienação dos direitos e da dignidade dos trabalhadores por medo do desemprego e da fome. Esta foi a década em que vimos na televisão e na Internet mais caras de pessoas que sabíamos que iam morrer e foi a década em que não fizemos nada por elas. Esta foi a década em que nos comprometemos a acabar com a fome e com a pobreza e em que percebemos que não o íamos fazer – por comodismo e por cobardia.

Esta foi a década em que nos comprometemos a proteger o globo para as gerações futuras e em que percebemos que não o iríamos sequer tentar fazer – a não ser quando já for tarde de mais. Esta foi a década em que percebemos que não é por não sabermos que não agimos. É porque não queremos. Esta foi a década em que percebemos que não é só dos outros que devemos ter medo. É de nós. (jvmalheiros@gmail.com)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Depois de nós, o dilúvio, a peste, o granizo, as trevas...

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 23 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

É preciso algum cinismo para dizer que Copenhaga foi “um passo no bom sentido”

A cimeira do clima de Copenhaga serviu pelo menos para uma coisa: conseguimos finalmente medir a importância que as alterações climáticas e a sustentabilidade têm para os principais países industrializados, para além dos discursos eleitorais. Por exemplo: para os Estados Unidos, as alterações climáticas são cerca de 200 vezes menos preocupantes do que a crise financeira do ano passado. Como é que se pode saber? Porque no ano passado a Administração americana não teve grandes engulhos em aprovar um pacote de 700.000 milhões de dólares para comprar os “títulos tóxicos” que as instituições financeiras tinham acumulado em operações de duvidosa legalidade e menos que duvidosa honestidade, mas apenas conseguiu desta vez prometer um apoio financeiro de 3600 milhões (e não para já, mas a ser concedido até 2012) para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentar o aquecimento global e a não aumentar a sua pegada de carbono. A UE prometeu três vezes mais (10.600 milhões) e o Japão também (11.000 milhões), mas os números são da mesma ordem de grandeza.
Estas quantias são enormes? Representam um empenhamento sério? Não e não. São gotas num balde vazio, que não vão chegar a humedecer o fundo, quanto mais matar a sede aos que esperam na fonte. Os números empalidecem, quando os comparamos com o carinho com que é tratado o menor soluço de um banqueiro. Ponhamos os números em perspectiva: o compromisso assumido pelos EUA é pouco mais do que um quarto (não quatro vezes mais: um quarto) do buraco de 9700 milhões de euros que o Ministério Público diz ter sido deixado nas contas do Banco Insular pela equipa de José Oliveira e Costa. Claro?
É verdade que todos estes países dizem que isso será apenas o início e dizem-se dispostos a multiplicar estas verbas por dez para chegar à redonda verba de 100.000 milhões por ano, mas ninguém se atreveu a assumir essa verba como um verdadeiro compromisso. É apenas “um objectivo”. E um objectivo ridiculamente escasso.
Será Copenhaga, como dizem tantos políticos, pelo menos “um passo no bom sentido”? É preciso algum cinismo para o dizer, porque enquanto o dizemos há milhões que morrem devido à fome, à sede e a catástrofes naturais cujos efeitos poderiam ser mitigados pelo empenhamento internacional e há muitos mais milhões que sabemos que vão morrer devido à nossa inacção.
Será que, se encontrarmos uma pessoa que está a morrer de sede e formos buscar água à fonte, estamos a ir na direcção certa? Certamente. Mas se depois nos sentarmos à frente dessa pessoa, com a água que fomos buscar nas nossas mãos, e observarmos a sua agonia enquanto morre de sede, será que podemos dizer que demos de facto um passo no bom sentido? Será que fazer a milésima parte do caminho que temos de fazer para obter os resultados que temos a responsabilidade de alcançar é um passo no bom sentido? Não será antes a mais vergonhosa das acções? Não será isso não só não fazer o que nos manda a consciência, como, para mais, encobrir essa falha com uma monstruosa mentira, a mentira de que “estamos a dar passos no bom sentido”?
A constatação que se impõe fazer depois de Copenhaga é que, para os líderes mundiais que elegemos ou suportamos, o nosso futuro vale pouco, os nossos filhos valem pouco e os filhos dos outros não valem nada. Nos anos 70 dizíamos com assombro que o homem tinha conseguido reunir instrumentos de destruição suficientes para destruir a vida na Terra em poucos minutos. Mas, pelo menos, esses instrumentos de destruição foram mantidos dentro da caixa. Copenhaga constituiu outro marco: o momento em que a nossa capacidade de destruição, em curso, demonstra ser muito maior do que a nossa vontade para inflectir o seu curso. Haverá sinal mais claro de decadência? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 15, 2009

Comprar os serviços de um deputado?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 15 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

Os serviços que o advogado vende são os mesmos que a comunidade lhe compra quando o contrata como deputado

Há muitos anos que se discute entre os jornalistas se o seu regime de incompatibilidades não deveria alargar-se para incluir também a prática da advocacia. A última (e polémica) revisão do Estatuto do Jornalista, feita em 2007, não incluiu essa alteração e é verdade que ela está longe de ser consensual na classe.
Que as duas funções são incompatíveis é, para mim, claríssimo. O contrato social que vincula o jornalista obriga-o a ser independente de todos os interesses, por muito legítimos que eles sejam – ou, pelo menos, a fazer todos os esforços ao seu alcance para tentar sê-lo.
É esse o seu dever deontológico e essa a especificidade que distingue os jornalistas de outros produtores de informação.
O advogado tem por imposição deontológica não ser independente e, pelo contrário, defender sempre o ponto de vista e os interesses do seu cliente. Mais: ele tem não só o direito mas até o dever de não divulgar qualquer informação que possa de alguma forma prejudicar o seu constituinte. Trata-se de posições antagónicas.
É evidente que se pode navegar entre os escolhos e evitar abordar como jornalista os assuntos e as pessoas de que se trata como advogado, mas trata-se de um campo minado, porque os interesses não são ilhas bem delimitadas.
E o jornalista não é um funcionário cujo dever o obriga apenas durante as horas normais de expediente.
A sua deontologia é a sua cultura e obriga-o em todos os momentos da sua vida. É aliás este o entendimento da lei: um jornalista não pode fazer publicidade ao sábado e assessoria de imprensa ao domingo com o argumento de que está fora do seu horário de trabalho. Esconder segredos de manhã e divulgar segredos à tarde não é possível e gera conflitos deontológicos insanáveis.
Se a advocacia é incompatível com o jornalismo, é evidente que ela não pode ser compatível com o exercício da função de deputado. Se consideramos fundamental para a democracia que um jornalista seja independente dos interesses particulares, é claríssimo que essa exigência é particularmente importante para quem detém o poder de fazer as leis. Que dezenas dos nossos deputados sejam, paralelamente à sua função parlamentar, pagos para defender os interesses das mais diversas personalidades e instituições (frequentemente mais bem pagos do que são no Parlamento) é algo que não podemos deixar de considerar preocupante e contrário aos interesses da democracia. Esta posição tem sido defendida pelo bastonário da Ordem dos Advogados – que foi ele próprio, curiosamente, um destacado jornalista-advogado – e voltou recentemente à baila devido a uma inesperada proposta do deputado do PSD António Preto, actualmente a ser julgado por fraude no chamado “caso da mala”.
Marinho Pinto tem repetido que “quem faz as leis no Parlamento não pode ao mesmo tempo aplicá-las nos tribunais”. Há quem conteste esta visão dizendo que, se um deputado não tiver uma actividade extraparlamentar, será financeiramente dependente do seu partido e, por essa via, menos independente, mas o que acontece é que ser advogado não é a mesma coisa que ser arquitecto ou professor. Os serviços que o advogado vende a quem pagar são exactamente os mesmos que a comunidade (o Estado) lhe compra quando o contrata como deputado: a defesa jurídica e retórica de uma perspectiva, de uma posição, de um interesse (no caso do Parlamento, o bem comum; no caso do advogado, um interesse particular).
Um advogado é, para todos os efeitos, uma hired gun.
Não é estranho que se possa alugar os serviços de um deputado, ainda que seja em part-time?
Marinho Pinto receia que os advogados, para respeitar um dever deontológico para com os clientes (que coincide para mais com o seu interesse financeiro) fi ram o dever ético para com a comunidade. Esse receio é inevitável.
Mas, ainda que seja possível que um advogado defenda um interesse de manhã e outro à tarde, esquecendo o primeiro, será que é assim que queremos que ajam os nossos deputados? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 08, 2009

A Europa espera que Aminetu Haidar morra em Lanzarote?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 8 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

Um crime grave: Haidar deixou em branco o campo da nacionalidade no impresso da polícia fronteiriça…

A ilha canária de Lanzarote é conhecida como destino turístico e por ser a residência de José Saramago, mas, nas últimas semanas, tem aparecido no noticiário internacional por outra razão: numa sala do aeroporto da ilha, mergulhada num estado de extrema debilidade, a activista sarauí Aminetu Haidar está em greve de fome desde o dia 16 de Novembro, sem ingerir senão água com açúcar. A sua situação clínica é preocupante, tanto mais que a sua saúde, fragilizada por muitas prisões e torturas – esteve “desaparecida” nas prisões marroquinas durante quatro anos –, já há muitos anos que não é robusta. Haidar, cuja luta pacífica em defesa dos direitos humanos e da autodeterminação do Sara Ocidental, ocupado por Marrocos desde 1975, são reconhecidos e respeitados em todo o mundo, iniciou a sua greve da fome depois de ter sido expulsa de Marrocos, no dia 14.
Haidar tinha regressado no dia anterior de uma viagem a Nova Iorque, onde tinha ido receber mais um dos muitos prémios que já recebeu pela sua defesa dos direitos humanos, e tinha acabado de aterrar no aeroporto de Laâyoune, a capital do Sara Ocidental, quando foi detida pelas autoridades, lhe foi confiscado o seu passaporte, foi acusada de “traição” e embarcada à força num avião para as Canárias. Pela sua militância independentista? Não. A acusação, neste caso, deveu-se ao facto de ter deixado em branco o campo da nacionalidade no impresso da polícia fronteiriça e escrito como local de residência “Sara Ocidental”.
Crimes graves para o regime de Mohammed VI, que tem endurecido nos últimos meses as suas posições contra os independentistas. Num discurso feito n início do mês passado, precisamente para comemorar os 34 anos da “Marcha Verde” – a designação oficial para a anexação do Sara Ocidental – o monarca marroquino deixava bem clara a opção: “Ou se é um patriota, ou se é um traidor. Não há meio-termo. Não se podem gozar os direitos e privilégios da cidadania para abusar deles e para conspirar com os inimigos da mãe-pátria.”
Aminetu Haidar é apenas o exemplo mais visível da nova política e Marrocos parece decidido a levar o exemplo até ao fim. O Governo espanhol de Zapatero, por seu lado, joga o jogo dúplice e vergonhoso de manter o discurso da defesa dos direitos humanos desde que isso não ofenda os poderosos. Ofereceu asilo a Haidar, mas não quer ofender o ditador de Marrocos. E fala com a voz suave da mais indefensável cobardia, a cobardia de quem se põe ao lado de uma ditadura que impõe uma medida ilegal contra uma cidadã indefesa que apenas pode ser causada por um crime de opinião.
A posição de Espanha é infame. O que esperam os outros países da União para salvar a honra da Europa? O que falta à Europa para perceber que, se não é pelos direitos humanos, sempre e em todas as circunstâncias, não é nada senão uma casca vazia? A comissária europeia para as Relações Externas, Benita Ferrero-Waldner, lamentou a situação e mostrou-se preocupada com a “deterioração do estado de saúde” de Haidar, mas considerou que se tratava de “uma questão bilateral” entre Madrid e Rabat. Desde quando é que os direitos humanos são “uma questão bilateral”?
José Saramago, António Guterres e José Ramos-Horta estão entre os muitos que já manifestaram a sua solidariedade a Aminetu Haidar, que mostra a sua vontade de ferro de sempre e que continua a recusar alimentação. O que exige? Regressar ao seu país. Um direito que todas as leis reconhecem. É assim tão difícil dizer a Marrocos que deve parar de tremer de medo perante esta mulher? É assim tão difícil dizer a Marrocos que, se quer entrar no clube das democracias, tem de respeitar a lei? É assim tão difícil defender a justiça mesmo a partir do conforto dos gabinetes, quando mulheres como Aminetu Haidar arriscam a sua vida todos os dias? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, dezembro 01, 2009

Será que eles não sabem que nós sabemos?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 1 de Dezembro de 2009
Crónica x/2009

Lembrar-se-ão os políticos que há pessoas que todos consideramos escroques? E que há outras que consideramos honestas?

Cícero, que foi um dos mais respeitados estadistas e pensadores romanos, regressou muitas vezes nos seus escritos de filosofia política à questão da reputação dos homens públicos. Escreveu mesmo uma obra em dois volumes dedicados ao tema, Da Glória. A obra perdeu-se e dela apenas se conhecem referências, mas o que ficou nos escritos que sobreviveram é suficiente para se perceber a importância central que a questão lhe merecia. Tão político como filósofo, Cícero tece sobre a reputação do homem público as esperadas considerações éticas, mas não se fica por aí, recheando as suas observações de conselhos pragmáticos que incluem a necessidade de calcular os benefícios que se podem colher quando se faz um favor a alguém. Ou seja: apesar de ter sido um político astuto e calculista, Cícero sabia e defendia a importância da reputação – a conveniência de todo o homem político proteger e promover a sua reputação e a necessidade de a república escolher para os cargos de poder os homens (as mulheres não estavam em causa) de mais sólida reputação, para garantir a confiança da população.
Se a preocupação com a reputação é antiga, nos últimos anos ela tornou-se ainda mais viva, à medida que se desenvolveram as tecnologias de informação e comunicação que permitem hoje espalhar em minutos uma informação por todo o globo – e fabricar ou esmigalhar uma reputação. As empresas vivem para a reputação e pela reputação das suas marcas (chamam-lhe “imagem”) e os políticos (pelo menos nas democracias) não possuem bem mais precioso. Posto isto, o que é estranho é como, na nossa democracia (e noutras), a reputação das pessoas parece ser tão pouco levada em conta quando se trata de escolhas para lugares de relevância, sejam eles políticos ou empresariais.
Falo naturalmente da reputação em termos éticos, de honestidade, já que a competência técnica e as capacidades intelectuais têm aqui uma importância de terceira ordem, como lembra, mais uma vez, Cícero (“Se um homem não for considerado honesto, quanto mais sagaz e inteligente ele for mais será detestado e objecto de desconfiança”).
Lembrar-se-ão os políticos que, quando nomeiam uma pessoa para um determinado cargo, essa pessoa possui uma reputação pública e que essa reputação se vai reflectir sobre a sua própria? Saberão que, mesmo que não tenha havido “sentença transitada em julgado”, há pessoas que todos consideramos escroques? E que há outras que consideramos honestas? Como? Devido às suas posições públicas, aos benefícios que recolhem delas, aos sacrifícios que correram para fazer coisas justas, ao que dizem delas os próximos e os adversários, aos amigos que cultivam e, sim, também às histórias que ouvimos. Rumores sem fundamento? Alguns sim, mas há perfis que vão ganhando peso, peças que se vão ajustando no puzzle, testemunhos que consideramos credíveis que vão solidificando a nossa opinião.
Imaginará um ministro ou uma assembleia de accionistas de um banco que a pessoa que escolhem não possui uma reputação? Imaginarão que nós não sabemos? Imaginarão que não perguntamos uns aos outros até ter uma ideia de quem é fulano? A má reputação (a verdadeiramente má, não a de Brassens) não é um crime nem precisa de ser alimentada pelo tipo de provas que permite escrever uma notícia de jornal ou fazer uma queixa à PGR.
Pode apenas ser a convicção de que a pessoa em causa gosta mais de dinheiro do que devia, que não hesita em trair um amigo para se aproximar do poder, que tem uma noção vaga do que seja a decência, que se considera a si e ao seu partido acima das leis. Nós sabemos quem eles são. E é por isso que é raro, tão raro, que uma notícia de uma suspeita ou de uma condenação por corrupção ou por desvio de fundos seja recebida com surpresa na redacção de um jornal ou no café do bairro. Na esmagadora maioria dos casos, são escândalos à espera de acontecer.
E quando os escândalos não acontecem isso apenas serve para prejudicar a reputação de quem os devia trazer à luz. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, novembro 10, 2009

O degredo dos tempos modernos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 10 de Novembro de 2009
Crónica x/2009

A Internet é hoje o meio através do qual se exerce uma parte fundamental da cidadania

O Conselho Europeu e o Parlamento Europeu alcançaram na semana passada um acordo que visa reduzir o download através da Internet de obras sujeitas a direitos de autor sem que sejam pagos os respectivos royalties.
A directiva ainda tem de ser confirmada pelo Parlamento Europeu, mas ela deverá permitir que um utilizador possa vir a ser impedido de aceder à Internet como sanção. Os termos em que isso acontecerá ainda não são claros. De facto, ainda que o acordo estipule que o corte do acesso à Internet “respeitará os direitos individuais”, não é ainda claro que ele passe obrigatoriamente por um juiz.
Que o corte do acesso só tenha lugar após uma decisão judicial que prove a responsabilidade do autor do acto, parece uma obrigação elementar. Mas é significativo dos tempos que vivemos e do ataque aos direitos individuais que haja quem defenda que a sanção seja aplicada pelos fornecedores de acesso à Internet (ISP), sem mais considerações, a todos os que possam parecer estar a infringir a lei.
Que a nova norma será difícil de aplicar é evidente. Basta pensar num computador doméstico, usado por todos os membros de uma família. Se o corte do acesso for decidido unilateralmente pelo ISP, sem processo e sem direito a defesa nem exigência de prova, tratar-se-á de uma prepotência inaceitável que justificará as mais violentas reacções de rejeição por parte dos utilizadores.
Mas mesmo que haja um processo judicial, como se tentará provar a responsabilidade de um dado membro da família? Para isso ser levado a cabo não podemos senão imaginar uma profunda devassa da vida privada de todos os elementos da família – interrogatórios separados com acareação? Estímulos à delação? Interrogatórios aos amigos para confirmar as preferências musicais de cada membro da família? Ou será que se prescindirá da responsabilização individual e se criará a nova figura de “responsabilidade familiar”, condenando todos os membros da família ao exílio da Internet?
E isto para além de uma questão prévia não menos importante: como sabem os ISP que alguém, através daquele computador, está a fazer download de um dado filme ou de um dado CD senão através de uma devassa da sua vida privada? Não se perceberá que, em nome da defesa dos direitos de autor, se estão a destruir princípios que não são menos importantes?
Quando os ISP (e outras empresas) nos diziam que, de vez em quando, davam uma olhadela ao nosso tráfego sempre nos juraram pela sua saúde que apenas o faziam para obter estatísticas e para detectar problemas técnicos e sempre nos garantiram que nunca tentariam saber o que fazia cada utilizador individual. A nova directiva vem provar que todas essas promessas e protestos eram falsos. Se não o fossem, os ISP estariam na primeira linha da recusa da nova norma europeia.
Que a nova norma se vai revelar inútil todos o sabemos. Há mais de uma maneira de esfolar um gato – ou de aceder a música e filmes com direitos sem pagar um tostão. A lei será, quando muito, um incentivo a formas mais sofisticadas de pirataria. Que a nova norma é injusta (e insensata) também sabemos. Os piratas que a indústria estupidamente persegue constituem o grosso dos compradores das obras de autor.
Mas o que a nova norma não esconde é o conceito que permeia de forma cada vez mais violenta as nossas sociedades: em nome da defesa dos direitos das empresas, todos os atropelos aos direitos individuais são permitidos. A Internet não é hoje uma forma de entretenimento. É o meio através do qual se exerce uma parte fundamental da cidadania. Amputar um cidadão dessa ferramenta constitui uma punição semelhante a um degredo, uma negação do exercício de direitos cívicos fundamentais.
Agora estão a levar os nossos vizinhos e não ligamos. Um dia virão buscar-nos a nós e será tarde. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, novembro 03, 2009

Jornalismo: ruído de fundo ou sinal?


por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 3 de Novembro de 2009
Crónica x/2009

Numa altura onde as notícias estão por todo o lado, o jornalismo não pode somar-se ao ruído de fundo

Quando comecei a fazer jornalismo considerava- se que as notícias eram a parte mais nobre do trabalho do jornalista. Fazer entrevistas ou escrever crónicas podia ser interessante, mas considerava-se que eram as notícias – o relato de novos acontecimentos – que permitiam cumprir a responsabilidade central do jornalismo, pois eram elas que permitiam que os leitores criassem a sua visão das coisas e das pessoas e consolidassem as suas opiniões.

Esta ideia fazia sentido num mundo onde os media constituíam a única forma de comunicar globalmente com a sociedade. Há vinte anos, uma empresa que quisesse lançar um produto, um partido que quisesse lançar um candidato ou um académico que quisesse difundir uma nova tese tinham forçosamente de passar pela mediação dos media (passe a redundância) e – se o que se pretendia era credibilização –, em particular, pelo jornalismo. É claro que havia outras possibilidades de difusão – podia-se distribuir panfletos na rua, fazer outdoors, campanhas porta a porta, discursos nas esquinas –, mas a regra tinha de ser o recurso aos media, sob a forma de publicidade ou de informação.

Esta ideia, porém, hoje deixou de fazer sentido.

Depois de termos andado anos a dizer que, com a Internet, qualquer pessoa podia ser editor ou jornalista, chegámos a uma época onde é evidente para todos que essa era já chegou.

Enquanto, há vinte anos, uma qualquer entidade que quisesse comunicar algo ao público fazia um comunicado de imprensa que enviava para vinte jornalistas, na esperança de que algum o achasse digno de notícia, hoje a mesma entidade pode publicar no seu site na Internet a mesma informação. É verdade que a esmagadora maioria passa despercebido, mas o mesmo acontecia à esmagadora maioria dos comunicados de imprensa. E há muitos que recebem a atenção de milhares ou mesmo milhões de leitores.

A verdade é que há milhões de pessoas que querem manter-se informadas e que escolhem, a par dos media, sites institucionais para o fazer – seja o site da Apple, o do PSD, o do Benfica, o da Comissão Europeia ou o da Amnistia Internacional.

Por outro lado, devido ao escrutínio crescente e global a que estas informações de origem institucional são submetidas, a sua qualidade melhorou enormemente. Os documentos ocos, de cariz propagandístico, recheados de mentiras e falsas promessas, são hoje, mais do que ontem, um risco para as instituições que os emitem. O público que os consulta é mais exigente e tem ferramentas para mostrar o seu desagrado. O que isto significa é que as notícias, ontem a parte mais nobre do trabalho do jornalista e o seu monopólio natural, deixaram de ser tanto uma coisa como outra.

O que é espantoso é que quase toda a gente reconhece este estado de coisas, mas poucos ou nenhuns órgãos de comunicação social extraem daqui conclusões e continuam a tentar combater no domínio da pura notícia – onde a esmagadora maioria pouco mais faz do que repetir as fontes oficiais sob outro cabeçalho.

O jornalismo que se exige numa altura onde as notícias estão por todo o lado e são produzidos por todas as pessoas e todas as entidades não é um jornalismo que se soma ao ruído de fundo, mas um jornalismo que ajuda a distinguir no meio do ruído de fundo o que é relevante, que torna explícito o que é obscuro e que desmonta as mentiras oficiais que se escondem por trás dos factos ocorridos. É um jornalismo de investigação e de denúncia, de rigor e de perseverança, que exige investimento em tempo e em competências, um inabalável sentido cívico, a coragem de ser incómodo e uma feroz independência perante todos os poderes e todos os interesses. Infelizmente, é esse jornalismo que cada vez escasseia mais. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, outubro 20, 2009

Gestão: o novo fascismo

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 20 de Outubro de 2009
Crónica x/2009

As histórias falam de medo, de isolamento, humilhação, perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte

Nos últimos 20 meses, houve 25 suicídios entre os empregados da empresa francesa de telecomunicações France Telecom. O último foi na semana passada, mas o caso já estava há semanas nas páginas dos jornais (desde o vigésimo suicídio) e já tinha desencadeado uma vaga de condenação, à medida que se iam tornando conhecidos pormenores sobre as condições de trabalho da empresa e as histórias pessoais dos suicidas, além de se ter sabido da existência de várias tentativas de suicídio frustradas.
Num clima de crescente indignação, as centrais sindicais francesas marcaram para hoje “uma jornada de luta” na France Telecom para exigir medidas “susceptíveis de modificar de forma durável e profunda a organização, o conteúdo e as condições de trabalho” na empresa e instaram os trabalhadores “a agir de todas as formas” possíveis para mostrar a sua recusa das condições de trabalho desumanas a que são submetidos.
Apesar de tudo isto, aquilo que sabemos das condições de trabalho e da chamada “gestão dos recursos humanos” na France Telecom não parece diferente, em essência, daquilo que se passa em milhares de outras empresas. A própria France Telecom tem aliás referido, em sua defesa, que a percentagem de suicídios é a normal e que o elevado número é de esperar numa empresa de 100.000 trabalhadores. Onde o spin é mais difícil de aplicar é nas mensagens deixadas por alguns dos suicidas, onde o ambiente desumanizado da empresa e a pressão colocada sobre os trabalhadores é responsabilizada directamente.
As histórias que ficámos a saber sobre a France Telecom nos últimos dias são terríveis: trabalhadores obrigados a mudar constantemente de posto e de funções contra sua vontade em nome da “flexibilidade”; a quem são impostos objectivos irrealistas e que são penalizados por não os atingir; destruição sistemática de equipas de trabalho e do espírito de equipa em nome da “adaptabilidade”; empregados que se vão buscar à casa de banho porque ultrapassaram os dez minutos da pausa-chichi; esquemas de “auto-avaliação” que apenas servem para intimidar os trabalhadores e para os obrigar a reconhecer que falharam e a aceitar penalizações; total ausência de discussão ou sequer de explicação dos objectivos da empresa, sempre impostos de cima; pessoas mantidas isoladas por medidas de “mobilidade” que destroem as relações pessoais entre trabalhadores; obrigadas a competir com os colegas para evitar a “redundância” e o despedimento; com medo da delação dos colegas e das punições dos capatazes, desconfiadas.
As histórias falam de medo, de isolamento, de humilhação, de perda de confiança, de ausência de solidariedade, de perda do gosto no trabalho, de perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte. E, no entanto, repito, nada disto é novo, nada disto é diferente. Cada vez mais as empresas se parecem mais com isto, cada vez mais este discurso da competitividade desumana ganha direito de cidade, cada vez mais o stress e o burnout se consideram como o preço justo a pagar pelos elos mais fracos da cadeia, cada vez mais o discurso da “aposta no capital humano”, da “promoção da criatividade” e da “prioridade à inovação” esconde uma prática esclavagista, desumana, repressiva, atentatória dos direitos, da liberdade e do espírito humano. Cada vez mais as empresas são exemplo de uma prática ditatorial, esmagadora das liberdades, da crítica, da expressão e dos indivíduos que, se acontecesse cá fora, na rua, no espaço público, todos julgaríamos inaceitáveis. Dentro da empresa, em nome da competitividade ou por medo do desemprego, aceitamos o fascismo. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, outubro 13, 2009

Obama fica a dever

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 13 de Outubro de 2009
Crónica x/2009

Resta esperar que Obama saiba distinguir entre a promoção da paz e o abandono das responsabilidades globais dos EUA

Nos últimos dias ficámos a saber tudo aquilo que Obama ainda não fez e que, caso tivesse feito, poderia ter justificado plenamente a atribuição do prémio da Paz que o Comité Nobel Norueguês decidiu entregar-lhe na semana passada.
Mas ficámos também a saber tudo aquilo que Obama já fez pela paz e, mesmo que se considere o currículo insuficiente para justificar o prémio norueguês (a quem toda a gente tem chamado “sueco”), devemos concordar que é alguma coisa – a começar pelo seu “esforço para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”, pelo seu trabalho “para alcançar um mundo sem armas nucleares”, pela sua defesa da “diplomacia multilateral” e pela “ênfase no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais” devem ocupar em vez da pose arrogante, unilateral, belicista e imperialista de W. Bush.
As críticas a esta atribuição do Nobel a Obama giram sempre em torno de uma declaração segundo a qual o Presidente americano “não fez nada” – ou “ainda” não fez nada, conforme as expectativas da pessoa que fala – em prol da paz. Penso que é absurdo dizer que Obama não fez nada pela paz e partilho o sentimento do Comité Nobel Norueguês quando este diz que o Presidente americano deu às pessoas de todo o mundo “um sentimento de esperança num futuro melhor” – e partilho o seu sentimento de que isso não é pouco. É evidente que é mais fácil termos consciência de uma corrida nuclear (e mais ainda de uma guerra nuclear) que de uma détente – a détente corre bem quando nada acontece –, mas seria profundamente errado imaginar que o discurso de Praga, soft power por excelência, não possui poder. São as palavras que mudam o mundo, são as palavras que criam o mundo, são as palavras que mobilizam as pessoas e foi por aqui que Obama começou. Dizer que o discurso de Obama no Cairo foram apenas palavras é estar fora do mundo e desconhecer como funcionam as pessoas – seria nem sequer perceber o princípio e o fim da política. Reconhecer a importância dessa mudança de discurso (que é estratégica porque é mobilizadora de vontades e de acção por todo o mundo, porque cria uma nova norma e novos procedimentos) é simplesmente honesto.
Posto isto, é evidente que este prémio Nobel constitui um incentivo a uma dada linha de acção – como o Nobel faz tantas vezes – mais do que um reconhecimento da acção passada. O Nobel da Paz já foi dado a pessoas menos do que recomendáveis (Henry Kissinger e Yasser Arafat vêm naturalmente à ideia) e o Nobel da Paz, mais do que uma instância de justiça histórica, gosta de se ver como um instrumento político de promoção da paz – mesmo quando tem de engolir uns sapos.
O que o Nobel da Paz dado a Obama significa é a renovação do aval dado pelo mundo democrático a esta nova postura dos EUA, é um incentivo e uma declaração de apoio – apoio de que Obama necessita em termos globais mas também nacionais, acossado como está por uma extrema- direita cada vez mais arrogante e mais violenta nos seus ataques ao Presidente.
É verdade que o Nobel pode ser um presente envenenado para Obama – como Jorge Almeida Fernandes referia no sábado nestas páginas –, mas resta-nos esperar que, usando a coragem e a inteligência que já demonstrou, o Presidente americano não peque nem por excesso (para mostrar internamente a sua determinação) nem por defeito (cedendo a uma imagem pacifista) e saiba distinguir entre a verdadeira promoção da paz e o que seria o abandono das responsabilidades globais dos EUA. É evidente, por exemplo, que a paz no Afeganistão nunca se alcançará através do abandono militar e deixando o terreno livre aos taliban, mas através de uma política que alie o reforço da intervenção militar à construção de escolas. É isso que Obama tem de compreender e de fazer. É certo que, com este Nobel, Obama fica a dever. E trata-se de uma dívida demasiado grande para poder ser perdoada.
Mas ficou também claro que se trata de uma dívida que muitos de nós, em todo o mundo, queremos ajudá-lo a pagar. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, outubro 06, 2009

O que faremos com este Presidente?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 6 de Outubro de 2009
Crónica x/2009

O discurso de Cavaco não faz sentido em termos de lógica formal, em termos retóricos ou em termos políticos
Na terça-feira passada passei a integrar as fileiras, em termos políticos, de uma imensa maioria.
Essa maioria é constituída pelos portugueses que ficaram estarrecidos depois de ouvir a declaração do Presidente do República sobre a questão das escutas. Estarrecidos não porque o Presidente tenha feito quaisquer revelações bombásticas (que não fez), não porque o Presidente tenha deixado “muitas coisas por esclarecer”, como disseram com inexcedível benevolência vários analistas, mas simplesmente porque o discurso do Presidente não fazia qualquer sentido.
Não estou a dizer que discordo do ponto de vista, da análise, da intenção, da estratégia, do estilo ou do timing do Presidente ou de qualquer outra coisa. O que digo é mais simples: seja qual for a análise que se faça da situação política do momento, da intenção do Presidente ou da sua estratégia, o discurso não fazia sentido. O texto não fazia sentido em termos de lógica formal, em termos retóricos ou em termos políticos – e está na Internet para quem o queira comprovar.
Se se tivesse tratado de uma declaração de improviso à saída de casa, a incoerência e a incongruência seriam aceitáveis – poderiam desiludir-nos, porque todos gostaríamos de ter um Presidente com o pensamento organizado e um discurso articulado, mas seriam compreensíveis.
Num discurso anunciado repetidamente com dramatismo, que abordava uma questão que parecia tão momentosa como o “Watergate”, ansiosamente esperado, que não pode deixar de ter sido escrito com enorme cuidado e analisado com o maior rigor, o facto é não só inaceitável como bizarro.
Um discurso presidencial não costuma ser fruto de um esforço individual e a explicação seria fácil se o Presidente se tivesse rodeado em Belém de um staff escolhido entre as pessoas menos dotadas do país (tanto em termos de retórica como de puro raciocínio, como de análise política), mas esse não parece ser o caso. A explicação restante é que o texto foi de facto discutido com os seus assessores, mas estes não tiveram coragem de lhe dizer que o discurso não fazia sentido, que não se pode dizer a mesma coisa e o seu contrário, etc.
Todos os Presidentes e todos os políticos têm momentos infelizes e deslizes patéticos. É mais raro que planeiem cuidadosamente um momento totalmente patético (o adjectivo, usado por Ana Gomes, é rigoroso).
O discurso de Cavaco Silva levanta questões de grande relevância política para além das que têm sido abordadas. Pessoalmente, é-me indiferente se o Presidente e o primeiro- ministro se sentem mais ou menos constrangidos nos seus encontros semanais e se está ou não em causa uma “cooperação institucional” que nunca existiu.
O que é mais importante é que Cavaco Silva, antes das eleições, estava obviamente encantado consigo mesmo e antecipava com deleite a resposta que tinha preparado para dar a Sócrates (repare-se no seu sorriso nas televisões, quando repete que não falará, com ar de quem garante que o primeiro-ministro não espera pela demora).
Como é possível que o Presidente, garante do normal funcionamento das instituições democráticas e chefe supremo das Forças Armadas, manifeste um tão grande desfasamento com a realidade? Como é possível que alguém a quem se pede que consiga mediar e solucionar os problemas mais graves de relacionamento institucional que se revelem no país faça uma intervenção tão trapalhona, tão tonta e tão contente consigo como o Presidente fez na semana passada? Cavaco Silva parece bafejado pelos deuses: conseguiu criar uma imagem de rigor por ser hirto, uma imagem de seriedade política por não ter sentido de humor e uma imagem de prudência por se exprimir com o laconismo de um jogador de futebol. Mas de que maneira poderá capitalizar o facto, que agora se tornou ululantemente óbvio, de que não possui um mínimo de bom senso? E quanto tempo, em nome do sectarismo político, vão os seus apoiantes levar a admiti-lo? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, setembro 29, 2009

A abstenção e a vergonha dos partidos

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 29 de Setembro de 2009
Crónica x/2009

Abster-se é passar uma procuração a um vizinho que não conhecemos muito bem

As eleições de domingo registaram, para além de outras novidades, o recorde de abstenções em eleições legislativas: 39,4 por cento. E, segundo os especialistas, a percentagem é bastante mais elevada entre os jovens. A política não interessa muito aos cidadãos em geral e interessa ainda menos aos mais jovens. Em qualquer outro domínio, se tivéssemos um grupo onde 40 por cento das pessoas preferisse cruzar os braços, isso seria considerado inacreditável. Imaginem a comoção e o escândalo que seria se isso acontecesse numa empresa, numa equipa de futebol, no corpo docente de uma escola (não serão perfeitos, mas foram os melhores exemplos que encontrei). Nas eleições isso é banal e é mesmo justificado com o que acontece “noutros países”, onde há abstenções maiores e com o facto de haver por cá eleições com taxas de participação ainda mais baixas. Nas eleições europeias, já todos aceitaram que só um em cada três eleitores se dê à maçada de ir meter o voto na urna e isso é considerado normal, porque votar para o Parlamento Europeu ainda nos parece uma coisa cosmopolita, como fazer uma viagem de avião em Business e achamos normal que isso não seja para toda a gente.
É possível fazer uma leitura optimista da abstenção: no fundo, e por muito que digam o contrário, os abstencionistas abstêm-se porque não receiam que os resultados eleitorais ponham em causa questões fundamentais ou levar o país para o desastre. Mas é também possível fazer uma leitura menos optimista: eles abstêm-se porque não acreditam que seja possível evitar o desastre ou melhorar a situação do país (da educação, da justiça, da economia, do trabalho).
A verdade é que quem se abstém deixa a decisão nas mãos dos outros – abster-se é, de facto, como passar uma procuração ao vizinho, só que é um vizinho que nós não conhecemos bem, que só vimos a sair do carro uma vez e que um dia vimos no café e que se calhar nem é nosso vizinho. Na realidade, não sabemos nada dele.
Há quem mascare a sua abstenção para reduzir a ansiedade e mitigar a culpa. Um amigo a quem perguntei no domingo às seis e meia da tarde se já tinha votado disse-me: “Não estou para perder tempo com esse disparate. Mas a minha mulher já votou!”. É como se tivéssemos voltado ao voto salazarista do “cabeça de casal” (sempre apreciei o subliminar masculino: “o cabeça”), mas a sensação de segurança é falsa: ele nem sabe o que a mulher votou, nem sabe que a procuração dele foi direitinha não para ela, mas para o tipo que eu vi no café.
Se há pessoas que não votam porque, aconteça o que acontecer, está tudo bem, e outras que não votam porque, aconteça o que acontecer, está tudo mal, há também imensa gente que não vota por vergonha. A verdade é que todos sabemos que mesmo o melhor partido de todos ou o menos mau de todos nos vai envergonhar. Sabemos isso de ciência tão certa como sabemos que Cavaco vai esclarecer toda a questão das escutas hoje ou amanhã (a menos que nos vá também envergonhar). É fatal como o destino. E como muita gente não consegue manter durante quatro anos o jogo infantil “Votei-mas-não-te-digo-em qual- porque-o-voto-é-secreto!” e sabe que, se disser aos amigos em quem votou, mais tarde ou mais cedo vai ser enxovalhado… prefere abster-se.
A verdade é que estas pessoas não se abstêm porque os partidos não são suficientemente bons. Abstêm-se porque acham os partidos tão maus que se sentem envergonhadas simplesmente por votar neles. Nem todos os abstencionistas são assim, mas há muitos assim.
Há uma coisa certa: não são os apelos ao voto que acabam com a abstenção. Muito menos os apelos do Presidente da República, que sempre preferiu abster-se de nos contar o que sabe. (jvmalheiros@gmail.com)

segunda-feira, setembro 28, 2009

Agora, queremos ouvir Cavaco

por José Vítor Malheiros
Comentário publicado no jornal Público de 28 de Setembro de 2009

(Eleições Legislativas 2009)

Para já, o PS ganhou. Ainda que tenha ganho como se esperava: sem maioria absoluta e com uma sangria considerável para o BE, que averba uma enorme vitória eleitoral e vai ser obrigado a entrar numa era de maiores responsabilidades. E Sócrates
também ganhou a título pessoal, pois a eleição foi disputada em torno da figura de Sócrates e das políticas do Governo de Sócrates.
Mas o dia de ontem era esperado não só para saber quem vai ser o próximo governo e para se poder começar a discutir com quem o PS se poderá aliar, à direita ou à esquerda, pontualmente ou mais que isso, mas porque foi o dia para o qual o Presidente da República marcou o fim do tabu sobre as escutas. Agora, o que queremos ouvir é Cavaco Silva dizer (no momento em que convidar Sócrates para formar governo?) que o primeiro-ministro o andou a escutar ou que foi tudo uma brincadeira de Fernando Lima – e, em ambos os casos, saber por que só fala agora e por que fez o que fez. Os próximos dias vão continuar a ser trágico-cómicos. Jornalista

terça-feira, setembro 22, 2009

Teatro de revista de imprensa

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 22 de Setembro de 2009
Crónica x/2009

Ninguém sai vivo da saga das escutas e Portugal inteiro corre o risco de ganhar o Óscar da opereta

Nas últimas semanas de pré-campanha e de campanha eleitoral ficámos a saber imensas coisas do mundo da política e da imprensa que não sabíamos – o que só prova como estas campanhas são essenciais para o esclarecimento da população.
Ficámos a saber que há um ano e meio Cavaco Silva desconfiava que estava a ser escutado pelo Governo e que hoje ainda desconfia do mesmo. Ficámos a saber que há um ano e meio desconfiava que a escuta estava a ser feita por um senhor que saltava de mesa em mesa na Madeira (a figura de Groucho Marx esticando a orelha vem à memória) e que desconfia que isso hoje pode estar a ser feito através de meios electrónicos.
Também ficámos a saber que esta convicção da Presidência da República de estar a ser escutada lhe veio do facto de figuras do PS terem dito que assessores do PR estavam a colaborar no programa do PSD. É evidente que apenas através de sofisticadas escutas seria possível ter conhecimento que assessores (que são do PSD) do PR (que também é do PSD) estariam a colaborar com o PSD. A coisa não lembrava ao diabo e é demasiado rebuscada para poder ser inventada. É o tipo de coisa que não se pode saber só porque alguém nos contou e que exige microfones daqueles pequeninos escondidos em alfinetes de gravata.
Depois, ficámos a saber que o PR, quando receia estar a ser escutado pelo Governo, desencadeia os mecanismos de protecção do normal funcionamento das instituições democráticas comunicando a suspeita de forma anónima a um jornal.
Depois, graças a uma peça jornalística do DN profundamente inovadora do ponto de vista ético, ficámos a saber que a fonte identificada em 18 de Agosto pelo PÚBLICO como “um membro da Casa Civil do Presidente” era afinal um membro da Casa Civil do Presidente chamado Fernando Lima – o que confirmava aquilo que 234.000 portugueses sabiam e que Francisco Louçã já tinha dito numa entrevista na televisão. O DN considerou uma tarefa de “absoluto e inegável interesse nacional” divulgar em letra de forma o nome de Fernando Lima. Em seguida, ficámos a saber que este jornal que tem na sua mão desconfiava há dias (pela boca do seu director) estar a ser objecto de escutas por parte dos serviços de informações, “que dependem do primeiro-ministro” – ainda que o Conselho Geral desta empresa viesse horas mais tarde dizer que não tinha sido encontrado “o mais pequeno indício que lhe permita confirmar qualquer violação dos seus sistemas de informação”. Depois, pudemos ouvir os Serviços de Informação e Segurança (SIS) negar “categoricamente” o envolvimento em escutas feitas à Presidência da República ou a “intercepção de comunicações” internas deste jornal, o que nos descansou, porque se o SIS andasse a escutar dizia com certeza.
Também soubemos que a Presidência da República pediu à Divisão de Informações Militares (Dimil) que procurasse escutas no palácio de Belém, mas depois soubemos que não era verdade que o PR tivesse pedido isso e que, mesmo que tivesse pedido, isso não seria possível porque a Dimil, diz o Estado-Maior General das Forças Armadas, “não tem nem competência legal nem dispõe de capacidade técnica para o fazer”. A seguir, o Provedor deste jornal escreveu na sua crónica de domingo que “a sua correspondência electrónica, assim como a de jornalistas deste diário”, foi “vasculhada sem aviso prévio pelos responsáveis do PÚBLICO”, presume-se que para tentar saber quem enviou ao DN a correspondência interna do PÚBLICO que aquele diário publicou. O director do PÚBLICO, por seu lado, desmentiria veementemente essa acusação no dia seguinte.
Mas descansem: o procurador-geral da República está a seguir o caso com atenção e, depois das eleições, Cavaco diz que vai “tentar obter mais informações sobre questões de segurança”. Para já, ontem, o PR demitiu Fernando Lima. Tarde demais para tentar manter a ficção de que não tem nada a ver com a história. Quem é que diz que em Portugal nunca acontece nada? (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, setembro 15, 2009

Willy Ronis, o fotógrafo das pequenas coisas

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 15 de Setembro de 2009.
Crónica x/2009

Na morte do autor de muitas das imagens com que recordamos a França do pós-guerra
É o interior de uma casa de campo, uma casa rústica de pedra, chão de grandes lajes de pedra, parede áspera. A divisão adivinha-se ampla, em primeiro plano está uma cadeira de palha que era do Van Gogh e há um espelho oval na parede.
Pousado no chão está um grande jarro de louça e encostado à parede, num canto, um almofariz de pedra com o seu pilão. No centro está uma mulher nua, de costas, de pé num grosso tapete de palha redondo, reclinada sobre uma bacia de louça, no seu suporte de ferro. A mulher lava-se na bacia, pernas ligeiramente flectidas, dorso curvado, o seu corpo em contraluz por causa da janela, de portada de madeira escancarada, por onde entra um sol glorioso e inclemente e através da qual se vê um maciço de vegetação mediterrânica sobreexposta, sedenta e vigorosa, que ocupa todo o rectângulo. A fotografia cheira a palha seca (da cadeira, do tapete, de um fardo de palha no sótão), a pedras aquecidas pelo sol, tem o cheiro adocicado da charneca no Verão, giestas, esteva, urze, carqueja, mel e espécies, pinheiros, há um cheiro forte de alfazema que não sei se vem de fora ou do sabonete que ela tem na mão e há um leve cheiro a transpiração, do corpo dela, ou da cama que não se vê à esquerda fora de campo, de sono ou de sexo, ou talvez seja só imaginação. Quase não se ouve nada. Só as gotas de água que pingam da cara para a bacia, o estalar do tapete debaixo dos seus pés, uma brisa seca nas ervas lá fora, uma vaca que muge muito ao longe, o zumbido ocasional de uma mosca.
Seja qual for a dimensão da minha short list [escrevi lits e por um segundo divertido pensei se seria gralha ou lapso] de fotografias favoritas esta teria sempre de estar. Chama-se Nu Provençal e fui eu que a tirei noutra vida. Devo ter sido porque sei tudo sobre ela. Conheço a sensação fresca de cada uma daquelas pedras na planta dos meus pés, a textura das tábuas de madeira crestada das portadas das janelas na polpa dos meus dedos, posso desenhar de memória a decoração florida daquela bacia e daquele jarro, se fechar os olhos reconheço todos os cheiros daquele Verão imóvel de 1948 e conheço aquela mulher.
Quem tirou mesmo a foto foi o fotógrafo francês Willy Ronis, que morreu na noite de sexta-feira com 99 anos. A mulher é a sua mulher e a casa era uma ruína que tinham comprado em Gordes. Ronis acordou, a sua mulher lavava-se com a água que era preciso ir buscar a um poço, agarrou na Rolleiflex e fez quatro fotos. Ronis sempre foi económico nos disparos. Às vezes saía de casa para fotografar e não batia uma única chapa. Só quando encontrava a imagem certa é que disparava e nós agradecemos o cuidado. Nunca usou motor, nem experimentou o digital – ainda que só tenha parado de fotografar em 2002, depois de 75 anos de trabalho e 300.000 fotografias. A sua última fotografia é também de uma mulher nua. Fez muitos nus e o último livro que lançou foi Nues, que em francês quer dizer “nuas” e “nuvens”.
Mas o que Ronis sempre fotografou foram pessoas. Representante da chamada “fotografia humanista”, corrente forte da fotografia francesa do pós-guerra (ainda que ele preferisse dizer que fotografava a vida quotidiana e as pessoas modestas), comunista convicto até ao fim (apesar de ter deixado o partido nos anos 60), Ronis deixou imagens que se tornaram símbolos do Paris do século XX. A crítica que se lhes pode fazer é que muitas se transformaram em postais. Queria ser músico mas teve de se ocupar do estúdio do pai. Foi fotógrafo a contragosto e depois com paixão. Deixou-nos imagens de uma estética formal rara, com uma luz que o céu só oferece a poucos. Há quem diga que o Nu Provençal parece um Bonnard. Parece. Mas a mim parece-me um Vermeer. Ronis deixou-nos bocados de vida inesquecíveis, fotos com cheiro, a rebentar de sentimento, cheias de histórias e de recordações. A mim deixou-me esta foto que fui eu que fiz, de um dia de Verão na Provença. (jvmalheiros@gmail.com)

Nu provençal (Willy Ronis, 1948)