terça-feira, junho 23, 2009

Crónica de viagem

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 23 de Junho de 2009

Crónica xxx/2009

Veste um vestidinho de manga curta, tem sacos na mão, está cansada e transpirada, é nova, tem uma boca dura e infeliz


"Foda-se! Foda-se! Foda-se!" O "f" é arrastado como o bufar de um gato assanhado e a língua fica encostada aos dentes antes de explodir no "da" que acaba num "ssss" prolongado, uma explosão de consoantes. "Ffffoodddddda-sss!"

No autocarro apinhado os olhares convergem para a origem do praguejar. Não é um desabafo abafado, um discreto "dasss". É um grito de raiva e é para ser ouvido por toda a gente do autocarro e do mundo. A voz é de uma rapariga, nova, loura, magra, lá ao pé da porta de trás e que está furiosa, a explodir de raiva. "Tás-me a ver esta merda? Tás-me a ver esta ganda merda?" Olha em volta para ver se alguém partilha a sua raiva, a sua fúria, a sua frustração, talvez para ver se pode descarregar em alguém a zanga que ninguém percebe de onde vem nem ao que vai, mas os olhares que convergiram sobre ela desviam-se os centímetros necessários para evitar o contacto directo e adoptam um ar abstracto de circunstância. Será louca? É melhor não a olhar nos olhos. Ela bamboleia a cabeça, agressiva e desesperada, como uma fera encurralada, sem nada ali à mão para descarregar a sua fúria. Veste um vestidinho leve de manga curta, tem sacos na mão, está cansada e transpirada, é nova, muito nova, tem uma boca dura e infeliz, podia ser graciosa se a sua vida tivesse sido toda diferente e se esta viagem de autocarro fosse diferente, e é evidente que não sabe o que fazer à vida nem ao engarrafamento que não deixa o autocarro avançar. "Vamos perder a merda do autocarro." 

Então é isso. Há outro autocarro, lá à frente, a uns cem metros, que se aproxima da paragem, e ela vai perder a ligação. "Vais-me fazer perder a merda do 56!" Afinal não está louca. Está a gritar com o filho que está de pé ao seu lado, uns dois anos de idade, grande chucha na boca, cabelo penteado com risco ao lado, o olhar cravado num lugar indefinido como se não fosse nada com ele, com uma expressão neutra que deve ter aprendido que é a que mais lhe convém. De outra maneira, por que é que não olharia para a mãe, ali aos gritos ao seu lado? 

Lá à frente, o 56 aproxima-se da paragem. "Ó menos podia abrir a puta da porta!" O grito quase desesperado devia ser para o motorista, mas não é bem, ela sabe que, mesmo que o motorista abrisse a porta, nunca conseguiria correr aqueles cem metros com os sacos e a criança e chegar a tempo... O 56 pára lá à frente, parte. "Se eu fosse a pé tinha-o apanhado. Vais mazé passar a andar a pé, tás a ouvir? Que eu tamém ando a pé!" Os gritos agora dirigem-se directamente ao rapazinho, sempre com o olhar pregado num ponto à sua frente. Não se percebe como é que a rapariga iria apanhar o 56 se andasse a pé, mas o resto percebe-se bem.

Ela está lá ao fundo, apetece dizer para deixar de gritar com a criança, para gritar com o motorista, para partir um vidro, qualquer coisa, mas o autocarro avança, pára, ela desce com a criança com a chucha com o ódio ao mundo com o desespero. Tento segui-la com o olhar mas perco-a logo.

Cinco minutos antes a conversa tinha sido na parte da frente, um homem de uns setenta anos critica o mundo num vozeirão vibrante de barítono. A conversa começou por causa do autocarro e acaba nos males do país. "... E a Ferreira Leite, essa ladra, anda prà aí a dar casas aos estrangeiros, mas aos de cá não dá nada. Nada! Na Amadora há 20 mil a 30 mil pessoas que não pagam os impostos! São os da câmara que dizem! Mas a mim que trabalhei 52 anos, se me atraso um dia pago a multa, porque não sou lá dos deles, bandalhos. Há um que eu conheço que tem um prédio e recebe 3000 contos por mês de rendas. Tudo sem recibo! Bando de ladrões! Esse não paga impostos, mas o cidadão trabalhador se se atrasa está lixado." A voz tem vibratos de pregador e há um coro de murmúrios de assentimento que percorre o autocarro a cada frase, como améns numa igreja baptista. Os homens das sondagens não andam de autocarro. Foi por isso que se enganaram. Só olharam para os números. As pessoas estão furiosas. Infelizes e furiosas. Acho que foi por isso que, depois, ninguém disse à rapariga para não ralhar com a criança, todos percebiam a sua raiva. Onde estará a criança com a chucha? Jornalista (jvm@publico.pt)

terça-feira, junho 16, 2009

Os eleitores sempre servem para alguma coisa

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 16 de Junho de 2009
Crónica xx/2009

O texto abaixo pode ser um choque para cientistas especializados em sondagens. Para ser lido com supervisão

Éclaro que percebo a inquietação dos especialistas e das empresas de sondagens tentando explicar o desvio entre as suas previsões e o resultado das eleições europeias. É verdade que os desvios não foram enormes em termos numéricos, só que prever que o PS ganha e o PSD fica em segundo é exactamente o contrário de prever que o PSD ganha e o PS fica em segundo - é cem por cento de erro. Um erro que não é coberto por nenhuma margem. E o que acontece é que as perguntas que se quer ver respondidas quando se fazem sondagens são perguntas deste género - e não saber se o PSD vai ter 32 ou 34 por cento, o que é, de facto, irrelevante.

É como quando olhamos para o relógio. Nunca é para saber a hora. O que queremos é saber se ainda podemos dormir mais um bocado, se os miúdos vão chegar a horas à escola, se devemos começar a preparar o jantar.

Mas, apesar de perceber os sondadores, devo dizer que foi com alguma alegria que constatei os erros das sondagens na noite das eleições - e suspeito que deve ter havido milhares de portugueses com o mesmo sentimento. Afinal, nós, os eleitores, sempre servimos para alguma coisa. É que reparem: se as previsões fossem cada vez mais precisas, isso forneceria um excelente argumento para pôr fim às eleições e substituí-las por uma bela sondagem.

De facto, para que é que havíamos de fazer eleições, se já soubéssemos que o PSD iria ter 34,37 por cento e o PS 27,87? As sondagens, para mais, oferecem bónus de informação que as eleições não permitem. Alguma eleição nos iria dizer que as mulheres urbanas dos 25 aos 34 anos que se vestem de preto votam maioritariamente (37,22 por cento) no Bloco de Esquerda na Região de Lisboa, mas que já votam maioritariamente no PS no vale do Mondego? Que eleições nos poderiam dar esta riqueza de pormenor sem usar câmaras de videovigilância instaladas (para nossa protecção) nas cabines de voto? As sondagens fazem maravilhas destas sem qualquer problema.

E se acham que ninguém defende a substituição de eleições por sondagens, é só porque elas ainda não estão au point. Quando estiverem, haverá alguém que vai lembrar o dinheiro que se gasta nas eleições, o tempo perdido por milhões de eleitores - e daí a concluir que as eleições prejudicam a produtividade nacional será um passo.

Os especialistas de sondagens, como cientistas que são, não estão habituados a ver a realidade tentar enganá-los, mas é exactamente isso que se passa nas sondagens. (SPOILER) Isto pode ser duro, mas a verdade é que as sondagens não acertam sempre porque... há pessoas que... como dizer... mentem! É verdade. Eu faço isso nas sondagens. As sondagens são uma espécie de eleições artificiais - no sentido de "inteligência artificial" - e eu, por enquanto, ainda prefiro votar, por isso faço o que posso, na modesta medida das minhas possibilidades, para que as eleições artificiais continuem a apresentar falhas. Há ainda outra razão: há pessoas que gostam de pensar que são indivíduos irrepetíveis e criadores, imprevisíveis e voláteis, humanos e livres. E a ideia de que o seu livre-arbítrio já esteja limitado pelo livro do destino dos resultados das sondagens perturba-os. Como é que eles se atrevem a pensar que já sabem como é que eu vou votar se eu não sei? Vai daí, mentimos.

Eu sei que isto vai ser um choque para os cientistas das sondagens, mas é como as eleições: é mesmo assim. As sondagens, por enquanto, não são. Ainda bem. Jornalista (jvm@publico.pt)


sexta-feira, junho 12, 2009

Página de Rosto - Ezra Nawi, um canalizador pela paz

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 12 Junho 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 7


Ezra Nawi – activista dos direitos humanos e canalizador (Israel)




Ezra Nawi
Ezra Nawi vai provavelmente ser condenado a uma pena de prisão no próximo dia 1 de Julho. A sentença só vai ser lida nesse dia, mas o julgamento teve lugar em 19 de Março passado e Ezra Nawi já foi condenado.

"O réu foi julgado culpado de ter participado em distúrbios e de ter agredido um agente da polícia". É essa a conclusão do processo, que consistiu basicamente no confronto das declarações de agentes da polícia e de Nawi. Nawi diz que não agrediu o polícia. O polícia diz que ele lhe deu um murro na cara. Os factos tiveram lugar às 15h00 do dia 14 de Fevereiro de 2007, próximo do colonato de Carmel, no sul dos montes Hebron, nos territórios palestinianos da margem ocidental do Jordão, ocupados por Israel desde 1967.
Apesar do tempo que já passou e de não terem testemunhado os acontecimentos, há milhares de pessoas por todo o mundo que estão convencidas da inocência de Nawi e, nos últimos dias, têm assinado petições e enviado cartas a embaixadas e às autoridades israelitas a pedir que Nawi seja ilibado.

Uma das razões por que há tanta gente convencida da sua inocência é porque Ezra Nawi é um experiente activista dos direitos humanos israelita, conhecido pela sua defesa dos palestinianos dos montes Hebron e por uma rigorosa prática de não-violência, que tem o sangue-frio necessário para nunca responder a provocações.

Por outro lado, no processo há coisas estranhas, como o facto de a agressão não ter sido referida pelo polícia supostamente agredido nas primeiras declarações que prestou para o processo e de só posteriormente terem aparecido.

Depois, há a conveniência política da condenação de Ezra Nawi. Nawi, que é judeu, é um espinho cravado na política de colonatos israelita, odiado pelos colonos da região e pela cada vez mais poderosa extrema-direita israelita, e tem feito tudo o que pode para impedir as demolições de casas de palestinianos - destinadas à expansão de "zonas de segurança" ou do perímetro de colonatos - e para os ajudar a manter-se nas suas terras e a sobreviver.

Finalmente, outra razão para que muita gente não se convença da culpa de Nawi é que há um vídeo dos acontecimentos, que se pode ver no YouTube e que, se não mostra tudo, mostra o suficiente.
No vídeo vê-se um grupo de pessoas, entre as quais Nawi, que se tentam opor à demolição de um conjunto de barracas de tecto de chapa ondulada. São casas de beduínos palestinianos, em Hebron. Há polícias e soldados que tentam afastar os manifestantes, eles desviam-se, regressam, entram na barraca que a escavadora espera para demolir. Os soldados derrubam uma parede e empurram os manifestantes para o exterior. Eles saem e tentam interpor-se entre a escavadora e as casas. Nawi e outros deitam-se no chão, os soldados pegam neles em peso e desviam-nos. Uma típica manifestação não-violenta. Há sacudidelas e empurrões mas não há violência dos manifestantes nem brutalidade dos soldados. Toda a cena é filmada sem interferência visível dos soldados. Há quem tire fotografias. O processo judicial dirá que a casa é "ilegal", como sempre nestes casos. Os soldados tentam agarrar Nawi, que lhes sacode as mãos e se vai furtando a ser agarrado, como num jogo de apanhada. A escavadora consegue finalmente investir contra a casa mas Nawi escapa-se por trás dos soldados e entra nas ruínas da casa, semi-destruída, telhado entornado, a pá da escavadora ameaçadora no ar. Entram dois soldados atrás dele e saem a agarrá-lo por um braço. Terá sido dentro da casa que a agressão terá tido lugar. Nem a agressividade dos soldados parece ter aumentado nem Nawi parece alterado quando saem. Nawi acaba por ser levado para um camião e é algemado. Fica sentado a assistir, calmo. Os soldados à volta estão descontraídos, a demolição pode prosseguir, as mulheres palestinianas choram e amaldiçoam os soldados, uma embala um bebé. Nawi comenta em voz baixa: "A única coisa que vai restar aqui é ódio". A certa altura interpela um soldado que ri. "Tem graça, soldado? Tem graça que as crianças esta noite tenham de dormir ao relento?" O soldado responde que ele irá dormir em casa. O filme acaba.

Ezra Nawi é militante da organização Ta'ayush - Co-existência Árabe-Judia, mas é um activista especial. Para começar, é canalizador, e, além de ser um defensor dos direitos dos palestinianos e um opositor dos colonatos, Nawi é gay e a sua militância estende-se aos direitos dos homossexuais numa região do mundo onde isso nem sempre é fácil - apesar da liberalidade das franjas progressistas da sociedade israelita. Em Hebron, Nawi já se habituou a ver somar-se às acusações de "traidor do seu povo" os comuns insultos homofóbicos por parte dos colonos, que encara com absoluta indiferença. Como as ameaças de morte que lhe são dirigidas.

Nawi nasceu em 1952 numa família pobre de ascendência iraquiana e viveu toda a vida em Jerusalém. Fala tão fluentemente o hebreu como o árabe e, por esse facto, funciona frequentemente como contacto entre activistas palestinianos e israelitas na Cisjordânia - o que torna a sua futura prisão particularmente útil num contexto de radicalização da política de ocupação.

O trabalho de Nawi, desde que, há cerca de dez anos, conheceu as comunidades beduínas de Hebron, que vivem tradicionalmente em cavernas (que também são destruídas), consiste em tentar ajudá-los a levar uma vida normal. Tentar ajudar os agricultores a arar e semear as suas terras, a colher as azeitonas das suas oliveiras, a pastar os seus rebanhos, ajudar as crianças a ir à escola. A vida comum que nenhum consegue levar devido aos constantes ataques dos colonos que querem expulsá-los da vista e apoderar-se das suas terras, à expropriação das suas terras pelo Estado israelita (por alegadas razões de segurança ou puramente expansionistas) e às investidas do exército que leva a cabo essas operações.

"Nos últimos seis meses", conta o diário israelita Haaretz num artigo de 2005 sobre a actividade de Nawi, "os colonos - grupos radicais que ocuparam ilegalmente os postos avançados da área - intensificaram consideravelmente os seus ataques e as provocações aos palestinianos. Num desses incidentes, há três semanas, várias medas de feno feitas pelos agricultores palestinianos foram incendiadas. Uma horas antes, quatro jovens colonos serraram os ramos de muitas oliveiras. Na mesma semana, pastores judeus puseram um rebanho de cabras e carneiros a pastar num campo que tinha acabado de ser semeado com lentilhas, em frente à aldeia de Gawish, nos montes Hebron. Em Beit Imra, cerca de 200 oliveiras com quinze anos de idade foram cortadas. Não muito longe daí, os colonos passaram um arado por um campo cultivado e destruíram-no. Há duas semanas, um grupo de uns vinte colonos armados com paus e pedras atacou um grupo de pastores. Um rapaz de dez anos sofreu vários ferimentos (...). Nos últimos meses, houve vários ataques levados a cabo por homens mascarados contra crianças palestinianas que iam para a escola acompanhadas por voluntários. Vários voluntários tiveram de ser hospitalizados". 

A relação com os colonos continua hoje a ser de grande violência e a actuação das autoridades administrativas da região e do exército varia conforme o clima político. Os relatos de incidentes mostram por vezes administradores sensatos, que tentam controlar os colonos e minimizar os sofrimentos dos palestinianos, mas os colonos sentem que podem contar com a cobertura da direita e da extrema-direita fanática israelita hoje no poder - que define Israel como um "Estado judeu", como faz o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mesmo quando os soldados executam ordens para expulsar colonos de uma dada área, o resultado costuma ser uma vaga de violência anti-palestiniana.

Nawi transporta pessoas, organiza os voluntários israelitas e estrangeiros que acompanham as crianças palestinianas à escola e os rebanhos aos pastos, organiza protestos, ajuda os palestinianos nas suas tarefas diárias, ajuda-os a reparar as casas, a instalar postos médicos, a abrir poços, a reparar canalizações, a apresentar queixa na polícia contra os colonos, arranja advogados para os defender, traz jornalistas para lhes mostrar a situação no terreno, distribui câmaras para que os camponeses possam filmar os ataques dos colonos e as acções da polícia e do exército, distribui cobertores no inverno, pede dinheiro aos seus clientes-amigos, organiza passeios e aulas de dança para os miúdos, a sua actividade não tem fim. E todos referem a sua calma perante situações de perigo, a sua capacidade para apaziguar os ânimos exaltados, a sua paciência, a sua voz suave, a sua humanidade. E o facto de não exagerar nos preços das reparações.
Em 2007 Ezra Nawi tornou-se o protagonista de um documentário de 80 minutos, Citizen Nawi, que conta a sua história e relata a sua relação com o jovem palestiniano Fuad Mussa, que lhe permitiu conhecer o lado de lá da repressão israelita. "Antes de conhecer Ezra Nawi eu pensava que tinha uma vida interessante", conta Nissim Mossek, o realizador, no site do filme. "Desde que comecei a fazer o filme já fui preso duas vezes, já fui espancado por colonos e o meu equipamento de filmagem já foi várias vezes destruído. Isto permitiu-me ter uma ideia de como é a vida de Ezra e de qual é o preço que ele paga pelo seu activismo".
Ezra Nawi tem muitos amigos e é fácil encontrar relatos de pessoas que passaram uns dias com ele, às vezes a vigiar um campo palestiniano acabado de semear para o proteger de ataques, outras vezes em protestos no centro de Jerusalém tentando despertar a consciência dos seus concidadãos, e não é frequente encontrar apreciações tão cálidas. "Ezra Nawi é um dos israelitas mais decentes que eu já conheci", diz o rabino David Forman, activista pela paz e fundador dos Rabinos pelos Direitos Humanos.

Num belo texto sobre Nawi, o escritor David Shulman escreve: "Às vezes, quando sou assaltado pela dúvida e por aquela pungente sensação de futilidade da vida, digo para mim que talvez um dia alguém se lembre de mim não pelos livros que escrevi, nem pelas línguas que aprendi, nem sequer pelas amizades que cultivei, mas pelo facto de eu ter estado ao lado de Ezra Nawi em Twaneh e Susya e em mais uns quantos lugares, quando os colonos atacaram".

Será difícil perceber que, se há esperança para a alma de Israel, ela existe por causa da actividade de Ezra Nawi e de muitos outros pela paz e pelo respeito mútuo entre israelitas e palestinianos?

terça-feira, junho 09, 2009

Os votos do nosso descontentamento

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 9 de Junho de 2009
Crónica xxx/2009


Uma enorme quantidade de portugueses politicamente conscientes quis mandar as eleições e os partidos à fava

Se há alguma coisa que se pode concluir das eleições deste domingo é a extensão e a profundidade do descontentamento dos portugueses - para ficarmos apenas pelas eleições em Portugal. Descontentamento com o Governo, com o partido do Governo, com os partidos em geral, com as eleições e, provavelmente, até com a vida.


O descontentamento com o Governo e o partido no Governo é o dado que mais salta à vista e não precisa de justificação. Há uma nítida vontade de castigar o Governo e/ou o PS e/ou José Sócrates e as razões vão desde a crise financeira e o desemprego aos desastres da Justiça ou da Educação e às dúvidas sobre a lisura do comportamento de Sócrates e aos seus tiques autoritários. O mau resultado do PS não se pode ler como uma derrota pessoal do próprio Vital Moreira. Mesmo que o cabeça de lista do PS tivesse sido o/a candidato/a ideal, seria pouco provável que a empatia que pudesse despertar se sobrepusesse à antipatia que o Governo/PS/Sócrates desperta actualmente num sector maioritário dos cidadãos.

O PSD ganhou, mas, apesar de a sua vitória ser inegável, os números também não reflectem o entusiasmo que poderiam revelar - basta verificar que, em 1999, o PSD sofreu uma clamorosa derrota, apesar de ter obtido exactamente a mesma percentagem de votos que no domingo passado.

O Bloco de Esquerda mais do que duplicou os seus votos, triplicou a sua representação parlamentar e passou a ser a terceira força partidária, o que representa uma estrondosa vitória - mas seria ilusório considerar que a votação no BE destas eleições é um resultado consolidado. Há certamente aqui votos de eleitores que querem mudar e dar mais poder ao BE, mas é provável que haja aqui muito voto socialista de protesto, que quer apenas mostrar o seu descontentamento, puxar a governação europeia (e nacional) para a esquerda e que regressará ao PS na primeira oportunidade de voto útil.

O PCP (PCP-PEV para os puristas) viu a sua votação dar um salto de 70.000 votos, também numa expressiva vitória - e é provável que este crescimento se revele mais estável do que o do BE. E este é, por excelência, um voto de descontentamento com o statu quo.

O mesmo se passa com o CDS-PP, que subiu, resistindo à ameaça da força gravítica do PSD - o que diz alguma coisa do débil entusiasmo que o voto social-democrata foi capaz de suscitar fora da sua área natural.

Os pequenos partidos - apesar do entusiasmo do Movimento Esperança Portugal - revelaram-se, no conjunto, uma desilusão, sem conseguirem entusiasmar senão um número insignificante de eleitores.

Os votos em branco e nulos, por seu lado, representam um dos dados mais significativos desta eleição: nunca foram tantos (com a excepção de 1975). Houve 236.000 pessoas que se deram ao trabalho de ir votar, mas votaram em branco (164.877) ou nulo (71.151). Mesmo descontando os enganos, é ineludível que uma enorme quantidade de portugueses politicamente conscientes quis mandar as eleições e os partidos à fava. Não se pode estar muito mais descontente do que isto.

Finalmente, a abstenção recorde (a segunda mais alta desde a adesão à EU) representa se não uma recusa activa de participação política, pelo menos indiferença relativamente às escolhas ou ignorância quanto à sua utilidade - e nenhum destes cenários sugere um particular optimismo. Para além das leituras parcelares (partido a partido) que se podem fazer destas eleições, uma coisa parece evidente: os portugueses não estão contentes com o país que têm e não vêem grandes soluções para isso. Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, junho 05, 2009

Página de Rosto - Ruth Lilly, uma musa discreta

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 5 Junho 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 10


Ruth Lilly, filantropa (Estados Unidos)


Em Portugal não sabemos bem o que seja a filantropia e a palavra é usada quase só em tom jocoso, para disfarçar a incomodidade que nos causa. Quando lemos o Retrato do poeta espanhol António Machado e ele nos diz que aprendeu o “segredo da filantropia” fingimos não reparar no verso e passamos rapidamente à frente.

Às vezes falamos de mecenato (porque tem um ar businesslike), ainda que praticamente ninguém o pratique, ou de solidariedade (porque é um conceito politicamente impreciso), mas filantropia parece-nos uma coisa do século XIX (que é, em grande medida) e fora de moda (o que em Portugal é verdade, se é que alguma esteve na moda). Ainda que os neoliberais defendam que é essencial os ricos serem muito ricos porque assim podem dar dinheiro aos pobres, em Portugal nem essa ideia pega. O capitalismo à portuguesa diz que é bom os ricos serem muito ricos porque assim ficam muito ricos.

Em Portugal consideramos generosidade um milionário morto não ter levado o dinheiro consigo para o Além e tê-lo deixado do lado de cá. O multimilionário americano Andrew Carnegie, magnate do aço que nunca foi suspeito de ser de esquerda, considerava isso uma vergonha: “O homem que morre deixando milhões que, durante a sua vida, estiveram sob a sua administração, morre sem ser chorado, morre desonrado e sem merecer elogios, sejam quais forem os usos que ele destine para a escória que não pôde levar consigo. O veredicto que o público emitirá sobre estes homens será: ‘O homem que morre assim rico morre sem honra’”. E Carnegie não está só na defesa da filantropia nos EUA. A ideia – e a prática – continua a ser defendida por muitos milionários. Bill Gates empenha-se há muitos anos em dar da melhor maneira o dinheiro que acumulou e garantia numa entrevista que “dez por cento seria suficiente para os filhos”. E o mesmo fazem muitos outros milionários, com desonrosas excepções.

A filantropia nos Estados Unidos é uma coisa séria. Há revistas de filantropia, há milhares de artigos sobre filantropia escritos todos os anos, há inúmeras instituições culturais, académicas e científicas de primeira água que vivem da filantropia – sem que se ouçam as iletradas condenações de subsidio-dependência que se ouvem por cá – e há rankings de filantropos publicados anualmente pelas publicações mais prestigiadas.

Nestes rankings, onde nomes como os de Bill Gates, Warren Buffet e George Soros ocupam sempre lugares cimeiros, com doações acumuladas ao longo da vida de milhares de milhões de dólares, há um nome, porém, que merece uma honra particular, de acordo com os preceitos de Carnegie: o de Ruth Lilly.

Ruth Lilly nasceu em 1915, em Indianápolis, Indiana, onde ainda vive, e é a herdeira do império farmacêutico Eli Lilly. E a distinção especial que lhe cabe deve-se ao facto de que esta multimilionária já tinha distribuído em doações até 2004, uma quantia que correspondia a duas vezes e meia a sua fortuna remanescente. Como termo de comparação, Bill Gates tinha doado até à mesma data uma quantia correspondente a 58 por cento da fortuna então em sua posse (doação total de 27976 milhões de dólares) e George Soros tinha doado 72 por cento (5171 milhões). A doação de Ruth Lilly até essa data era de 750 milhões, segundo dados das publicações BusinessWeek e Chronicle of Philanthropy e da organização GuideStar.

Ruth Lilly aprendeu a filantropia no berço. A sua família, desde o bisavô fundador da companhia, o coronel Eli Lilly, sempre considerou que era seu dever devolver à comunidade o muito que esta lhe dava. O seu avô, pai e restante família simplesmente seguiram a tradição, reforçada por um forte sentimento religioso e por uma crença profunda no papel emancipador da educação e da cultura. Quando se procura o nome de Ruth Lilly na Internet aparecem as habituais inúmeras páginas mas todas dizem respeito a instituições que financiou: a Ruth Lilly Medical Library, o Ruth Lilly Health Education Center, a Ruth Lilly Law Library, o Ruth Lilly Hospice… a lista é longa. Longa e demasiado curta porque há muitas doações feitas anonimamente, sem a publicidade do seu nome numa placa. Há muitos recipientes que nem sequer sabem quem os ajudou: vêem apenas um advogado que lhes comunica a doação de um benfeitor anónimo. Ruth Lilly nunca gostou de publicidade, sempre odiou ser reconhecida e não gosta de agradecimentos.

O que praticamente não se encontra na Internet são informações pessoais ou fotografias. Ruth Lilly também nunca gostou de fotografias.

A esmagadora maioria das suas doações foi feita directamente. Há uma fundação com o seu nome, a Ruth Lilly Philanthropic Foundation, a quem tenciona deixar o dinheiro que lhe sobrar quando morrer, e há duas outras fundações ligadas à família que possuem actividades independentes, financiadas por fundos generosos já estabelecidos (Lilly Endowment e Eli Lilly and Company Foundation), mas Ruth Lilly preferiu quase sempre dar o seu dinheiro directamente aos projectos ou organismos que lhe pareciam meritórios, em vez de o fazer através das fundações instituídas pela família.

A sua primeira grande doação foi a dádiva da casa de família, Oldfields, ao Indianápolis Museum of Art, que a transformou em casa-museu – assim como de um fundo que garante a sua manutenção. Mas o gesto que lhe mereceu notícias no mundo inteiro foi, em 2002, a dádiva de mais de 100 milhões de dólares (a quantia exacta é difícil de determinar, pois a doação incluía uma imensa carteira de títulos de tipos diversos, mas houve quem a estimasse em 150 milhões) a uma minúscula organização, a Modern Poetry Association de Chicago, editora da revista Poetry.

Mesmo nessa ocasião Lilly não apareceu e os media tiveram de se contentar com declarações do seu advogado, mas não faltou quem pusesse em causa o discernimento da senhora, então com 87 anos, e até quem receasse os efeitos que tal inundação de dinheiro poderia gerar na qualidade da poesia americana. Mas o gesto, se era inédito, não tinha nada de precipitado ou de insensato.

A revista Poetry, criada em 1912 por Harriet Monroe, poeta e crítica de arte do diário Chicago Tribune, era (e é) uma revista de impecável reputação que conta entre os seus louros com a publicação de Ezra Pound, T. S. Eliot e William Carlos Williams e que continua a divulgar poesia moderna de qualidade. E Ruth Lilly foi, durante toda a sua vida, uma apaixonada de poesia e uma leitora entusiasta da revista, tendo-se mesmo dedicado à escrita de poesia com alguma seriedade. Sabe-se que, nos anos 70, Ruth Lilly submeteu alguns originais à Poetry (não se sabe ao certo quantos poemas nem quantas vezes, as versões variam), onde foram recusados pelo editor, Joseph Parisi - o mesmo que, trinta anos depois, receberia os seus milhões.

E essa não foi a única vez que tentou o prelo: em 1939, sob o quase pseudónimo R. Lyly, o New York Times publicou quatro poemas seus – que não é possível ver na edição digital do jornal ainda que esta remonte a 1851. A revista Business Week cita quatro versos:

Secure in plush upholstery
I wink a torpid eye
and note above the plaudits
the needle of your sigh

(“Confiante, no estofo aveludado / pisco um olho sonolento / e noto por cima dos aplausos / a agulha do teu lamento”)

O gosto da poesia também já era visível na sua actividade filantrópica. Antes da sua doação gigante à Poetry – que permitiu transformar a Modern Poetry Association numa pujante Poetry Foundation, triplicar a circulação da revista (hoje de 30.000 exemplares), triplicar o preço pago aos autores para 6 dólares por verso (!), aumentar o staff e multiplicar as iniciativas de ensino e promoção da poesia – Ruth Lilly já apoiava a revista, financiando bolsas e um generoso prémio anual de poesia com o seu nome, no valor de 100.000 dólares, atribuído desde 1986.

A reclusão a que Ruth Lilly se remeteu durante quase toda a vida não se deve apenas a timidez. A sua saúde foi sempre descrita como frágil e Lilly passou anos hospitalizada devido a uma severa depressão crónica. As suas raras saídas de casa foram sempre acompanhadas por enfermeiras, mesmo quando ainda se conseguia deslocar sozinha. Segundo o escasso perfil publicado no citado artigo da Business Week, foi só quando Ruth Lilly já tinha passado dos 70 anos que a sua situação médica sofreu uma melhoria considerável graças ao Prozac – o mais famoso dos antidepressivos e, irónica ou afortunadamente, uma das estrelas dos laboratórios Eli Lilly.

Apesar dessa relativa recuperação e das viagens que pôde fazer depois disso, Ruth Lilly continuou a fugir aos media e a quase toda a gente, uma espécie de Howard Hughes da filantropia. Uma vez apareceu de surpresa na recepção do Ruth Lilly Health Education Center para ver como estavam a correr as coisas, mas a maior parte das visitas que fez para ver como estava a ser gasto o seu dinheiro foram feitas anonimamente.

Em 2006, a pedido da família, um tribunal do Ohio considerou-a incapaz de gerir os seus donativos e entregou essa responsabilidade a seis dos seus sobrinhos e sobrinhas. A situação não se alterou e a família não divulgou qualquer informação sobre o seu estado depois disso. Nem autorizam que sejam publicadas fotos suas – das escassíssimas que possam existir. O único fotógrafo que encontrámos que possui fotografias de Ruth Lilly (tiradas em 2005, num evento público, onde aparece surpreendentemente jovem para os seus 90 anos, com uma expressão ingénua nos olhos cinzentos e impecavelmente maquilhada e penteada como uma actriz dos anos 40) não as pode ceder porque a família não autoriza a sua publicação.

Seria normal que alguém como Ruth Lilly, que teve uma vida longa e com todo o conforto material, que teve a oportunidade de concretizar tantos dos seus desejos e que atingiu uma tal reputação, fosse conhecida de imensa gente e acabasse a sua vida rodeada e feliz. De facto, não é assim. Mas o seu objectivo filantrópico foi certamente atingido. Ruth Lilly fez o que pôde para melhorar a vidas das pessoas à sua volta (a maioria das suas doações destinaram-se a instituições no seu estado natal, o Indiana) e para que elas pudessem usufruir de cultura, educação e beleza.

A sua vida pode não ter sido tão feliz como teríamos gostado, mas uma coisa é certa: se alguém cumpriu os critérios de filantropia de Carnegie para morrer com honra, foi Ruth Lilly.

terça-feira, junho 02, 2009

Alexandra T. e as maçãs podres

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 2 de Junho de 2009
Crónica xxx/2009


Como é possível que este arrogante e ignorante sistema de "Justiça" continue a produzir tantas maçãs podres?

Não é preciso ser perito em fruticultura para saber o que é uma maçã podre. Quando damos uma dentada numa maçã podre, mesmo que um grupo de doutores em ciências agrárias nos tente provar que aquela maçã está sã como um pêro, nós sabemos que não está.


Os peritos em fruticultura não sabem melhor do que nós o que é uma maçã podre. A grande diferença é que eles sabem (ou esperamos que saibam) como é que se faz para produzir maçãs de primeira classe.

Da mesma forma, não é preciso ser um especialista em Direito ou um profundo conhecedor do funcionamento do sistema judicial para saber o que é a justiça. É como com as maçãs: podemos não saber como se cultivam aquelas maçãs rijas e aromáticas, mas quando vemos uma maçã podre... sabemos de ciência certa que está podre. Não vale a pena tentar disfarçar.

O problema com a chamada Justiça (a maiúscula é para sublinhar a diferença com a comum justiça) em Portugal é que produz demasiadas maçãs podres. Há quem continue a dizer que o nosso sistema judicial "atravessa uma crise" mas que "a Justiça funciona". Nenhuma das frases é correcta. Se a Justiça estivesse a atravessar uma crise, isso seria uma excelente notícia. O problema é que está parada no meio da crise e já criou raízes.
Os exemplos são inúmeros, dos grandes casos aos pequenos. Nos grandes, as coisas arrastam-se e vão-se complicando à medida que os processos se arrastam - em vez de se esclarecerem, como parece que deveria ser a função do sistema -, tornando qualquer perspectiva impossivelmente obscura. Nos pequenos casos, percebemos melhor que não percebemos nada. Um velho advogado dizia-me há anos que, em Portugal, era impossível prever o desfecho de um processo: já tinha visto imensas pessoas limpidamente inocentes ser condenadas e grandes e óbvios gabirus inocentados. Mas acrescentava (para me descansar, suponho) que não era tudo exactamente ao contrário do que devia ser, que às vezes o sistema funcionava: era mais como deitar uma moeda ao ar.

O que é curioso é que muitos dos responsáveis pela administração da justiça em Portugal partilham esta visão catastrófica em privado - ainda que não a admitam em público. Uma hipocrisia que não é de molde a descansar ninguém.

O último episódio desta farsa em contínuo foi a retirada da menina de Barcelos, Alexandra T., da tutela do casal que a cuidava desde os 17 meses e a sua entrega à mãe biológica que a levou para a Rússia. O juiz da Relação de Guimarães já concedeu que pode não ter feito a escolha mais acertada, mas escudou-se com "os factos constantes do processo", que não permitiriam outra interpretação. E isso é que é espantoso, porque "os factos constantes do processo", se dizem alguma coisa, por trás do português canhestro que se usa nos tribunais e dos visíveis preconceitos de quem o escreve, é que esta criança foi abandonada pela mãe, que a descuidou grave e sistematicamente, e que o casal que a acolheu a tratou bem e que a criança os amava como pai e mãe. Como é possível que um especialista da lei não saiba ler esta história que, se fosse um conto, qualquer criança de seis anos perceberia? Como é possível que, em vez de justiça, este arrogante e ignorante sistema de "Justiça" continue a produzir tantas maçãs podres e a condenar crianças a cumprir as penas que apenas os juízes deveriam cumprir? Jornalista (jvm@publico.pt)

quarta-feira, maio 27, 2009

A face escondida do Parlamento Europeu

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 27 de Maio de 2009
Crónica xx/2009

As pessoas preferem discutir aquilo que conhecem a discutir o que não conhecem. Haverá algo mais compreensível?

As eleições são para o Parlamento Europeu, mas os partidos e os media preferem discutir as questões nacionais. O Parlamento Europeu (PE) é mais importante do que os parlamentos nacionais, mas discutimos mais a actividade dos últimos que a do primeiro. E a taxa de abstenção nas eleições europeias é muito superior à das eleições nacionais.

As queixas são conhecidas, mas não há nada mais normal do que a actual situação. O que acontece é que as pessoas preferem discutir aquilo que conhecem a discutir o que não conhecem. Haverá algo mais sensato e mais compreensível?

É evidente que os partidos deviam fazer um esforço de informação e formação política sobre o papel do PE. Mas não o fazem e isso também é compreensível: dá trabalho, exige tempo e dinheiro, não dá votos e desvia energias que podem ser gastas a insultar os rivais políticos - além de que eles também preferem falar do que conhecem melhor (farinha Maizena, por exemplo) e sabem que um excesso de escrutínio público da actividade política lhes pode perturbar a digestão.

O que é menos compreensível é que essa actividade de informação não seja assumida de forma mais eficaz pelo próprio PE, nomeadamente através de uma utilização da Internet mais dinâmica.
Nos últimos anos, o site do PE melhorou de forma radical. Hoje o site é compreensível, bem organizado, possui a informação relevante de carácter institucional e até informação sobre a actividade parlamentar de cada deputado. O esforço de transparência é visível e o PE tem-se comprometido a aprofundá-lo.

Só que o esforço é insuficiente. A questão seria secundária se a Web fosse apenas mais um meio de difusão de informação, a par dos programas de televisão e dos folhetos, por exemplo. Mas a Web é "a" ferramenta da transparência política e "a" ferramenta de comunicação entre cidadãos e eleitos, por excelência.
E se os utilizadores profissionais conseguem encontrar o que procuram, esse não é o caso dos cidadãos em geral ou sequer dos jornalistas em geral.

O problema principal para um leigo quando acede a um site e procura informação sobre um dado assunto, não consiste em encontrar um documento (ou cem) sobre esse assunto, mas sim em encontrar as respostas às suas perguntas. É possível que no site do PE se possa encontrar informação sobre tudo - o problema é que, com frequência, o estatuto do documento que se encontra é, para um leigo, absolutamente misterioso. É um diploma aprovado? Está em vigor? Espera decisão do Conselho? É uma proposta antiga? Nova? Um documento já alterado por outro? Ou este é que é uma alteração a outro? Está em vigor nos estados-membros, em Portugal? O que tem a ver connosco? Qual é a legislação nacional que o traduziu para o direito interno? Que alterações foram introduzidas na sua regulamentação nacional? De onde vem? Qual foi a discussão que esteve na sua origem? Quem o propôs? Quem o redigiu? Quem o contesta? Porquê? Quem o apoia? Que alterações foram propostas? Por quem? Como foi votado?

A actividade central do Parlamento é a produção de legislação. Mas cada peça legislativa tem uma história, uma constelação de peças-satélites (propostas, debates, alterações, defensores, detractores) que lhe deve estar associada e ser facilmente recuperada. São essas peças que lhe dão sentido. E tudo isso deve ser disponibilizado desde o início do processo. O contraditório é parte essencial do debate democrático e do processo legislativo. O que queremos saber não é apenas o que sai do PE, mas sim o que está a acontecer, o que vai acontecer, quem defende o quê e porquê, como podemos intervir, pessoal ou institucionalmente, na União Europeia ou em Portugal.

Se o PE não se empenhar nesse exercício de transparência ex ante e se não se empenhar na promoção do debate e na estimulação do feedback continuará a alimentar a exclusão dos cidadãos da política europeia, por muito competentes que sejam os seus deputados. Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 22, 2009

Página de Rosto - Sunila Abeysekera: ao lado das mulheres do Sri Lanka

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 22 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13


Sunila Abeysekera, feminista (Sri Lanka)


Sunila Abeysekera não está optimista.

Nos últimos dias, o noticiário internacional tem estado cheio de notícias sobre aquilo que parece ser a derrota final da resistência armada tâmil, os famosos Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), às mãos das forças armadas governamentais do Sri Lanka. O Governo não parou de anunciar em tons vitoriosos que a zona norte e leste da ilha, predominantemente tâmil, terreno natural do LTTE, está neste momento totalmente nas suas mãos e não existe já qualquer foco de resistência. Para mais, parece certo que Velupillai Prabhakaran, o mítico líder dos Tigres, foi morto nas últimas horas do conflito, assim como o seu filho e todos os outros dirigentes da guerrilha, e não há ninguém com o carisma necessário para tomar o seu lugar. Parece que a guerra civil que tem oposto a maioria cingalesa (74 por cento da população do Sri Lanka) à minoria tamil (12,5 por cento), que durou 26 anos, que provocou 300.000 deslocados e pode ter causado até 20.000 mortos só no último ano, acabou ou está em vias disso. O que é uma boa notícia.

Mas Sunila Abeysekera não está optimista. Não só porque acha possível que se verifique um ressurgimento da resistência armada tâmil e o reacender da guerra civil, mas também porque receia a atitude do regime do presidente Mahinda Rajapakse mesmo que isso não aconteça.

“O Governo diz que a guerra acabou”, diz Abeysekera, “mas sabemos que as raízes do conflito só desaparecerão quando for dada ao povo tamil a possibilidade de uma verdadeira participação política, quando forem reconhecidos os direitos cívicos desta minoria, quando tiverem acesso à educação e ao emprego. E para isso acontecer é preciso que o Governo se volte para os dirigentes políticos moderados tâmiles e dialogue com eles. Sem isso, os problemas vão continuar a existir. Quanto à derrota militar… o LTTE já foi derrotado antes e a revolta regressou.”

Sunila Abeysekera está num bom posto de observação da realidade do Sri Lanka. Nascida em 1952, activista dos direitos humanos há quase trinta anos, corajosa e frontal militante feminista desde sempre, Abeysekera dirige a Inform, uma organização que se tem dedicado à denúncia das inúmeras violências e atropelos praticados pelos dois lados do conflito. O seu trabalho tem merecido o reconhecimento interno e internacional – Kofi Annan, o secretário-geral da ONU, entregou-lhe em 1998 o Prémio de Direitos Humanos da organização – mas Abeysekera tem tido de pagar um preço. Actualmente encontra-se fora do Sri Lanka e a conversa telefónica que mantemos tem como destino um país não identificado.

Abeysekera foi obrigada a fugir do seu país em Abril do ano passado devido a ameaças de morte que se provaram credíveis: militantes de organizações de defesa dos direitos humanos que receberam ameaças começaram a ser assassinados e Abeysekera decidiu não esperar que isso que lhe acontecesse a si. Não foi a primeira vez que foi forçada ao exílio. Em 1988, grávida da sua última filha (tem seis filhos), também teve de fugir para a Holanda depois de receber ameaças de morte. O ambiente político é de molde a fazer levar estas ameaças a sério. “No Sri Lanka, se se levanta a voz contra a injustiça, o castigo não costuma ser nada menos do que a morte”, dizia em 1999, numa entrevista dada ao UNESCO Courrier. “Não costuma tratar-se de intimidação, de agressões ou de prisão mas sim de assassinatos, extremamente brutais. Neste mesmo momento há pessoas que estão a ser raptadas, detidas e torturadas pelas forças de segurança e por grupos paramilitares. A cultura do medo deu lugar a uma cultura do silêncio”.

Abeysekera nunca cedeu a esse silêncio, mas não há razão para pensar que essa cultura vá desvanecer-se depois do fim do conflito. “Mesmo que não haja um regresso ao conflito armado”, diz-nos Abeysekera, continuando a analisar a situação actual, “isso não significa que haja a garantia de uma melhoria em termos de direitos humanos. A confiança que esta vitória militar deu ao governo e aos seus apoiantes, o facto de constituírem a maioria, reforçou a sua arrogância e tem havido um crescente clima de intimidação em relação a pessoas que são suspeitas de simpatias pelo LTTE ou simplesmente pelo povo tâmil. Há pessoas que têm visto as suas casas cercadas por multidões a gritar ameaças. As celebrações de vitória nas ruas às vezes acabam por dar origem a isso. As pessoas que estão na oposição política, nas organizações de direitos humanos, nos sindicatos estão muito ansiosas, muitas estão aterrorizadas.”

É o problema de uma guerra civil: quando se critica o “nosso lado” (Abeysekera é cingalesa) ou se denunciam abusos contra “o outro lado” acaba-se por ser considerado um traidor. Um insulto que Abeysekera ouviu muitas vezes ao longo da vida.

Há razões históricas mais que suficientes para a ansiedade de hoje. Quando do último cessar-fogo entre o Governo e o LTTE, em 2006, o país foi atingido por uma vaga de “desaparecimentos” de pessoas suspeitas de simpatias pelos Tigres – aquilo que ficou conhecido em Colombo, a maior cidade do país, pelo nome de “síndrome da carrinha branca”. Uma carrinha branca parava na rua, uns homens saíam e empurravam para a carrinha alguém de quem nunca mais se ouvia falar. Nos anos noventa, a ONU dizia que o Sri Lanka era o segundo país do mundo em número de “desaparecidos”, que se estimam em várias dezenas de milhares. O receio é que o regime tenha a tentação de levar a “limpeza” da oposição até ao fim.

A oposição e muitas organizações de defesa dos direitos humanos estão reunidas numa Plataforma para a Liberdade – mas Abeysekera acha “pouco provável” que, no actual clima de euforia e de arrogância, o regime dê um passo na sua direcção sem uma enorme pressão nesse sentido a nível internacional. E a pressão internacional nunca se fez sentir muito fortemente no Sri Lanka – um fenómeno que Abeysekera considera que não é isento de racismo e de uma visão neocolonialista: “Se uma pessoa branca tivesse sido raptada ou morta no Sri Lanka, os países ocidentais iriam reagir de uma forma diferente”, dizia na mesma entrevista ao UNESCO Courrier. “Mas aqui o que temos são umas pessoas castanhas a matar outras pessoas castanhas num país distante. Porque é que o Ocidente se iria preocupar?”

Sunila herdou a sua preocupação social do pai, Charlie Abeysekera, falecido há dez anos, um alto funcionário da administração pública de fortes convicções liberais e que colaborou com vários movimentos de defesa dos direitos humanos – “incluindo alguns dos que eu criei”, diz a filha, com uma nota de orgulho na voz.

As biografias oficiais costumam apresentá-la como cantora e actriz e, de facto, Abeysekera cantou (em palco e para o cinema) e fez teatro e produção de cinema – e ainda canta esporadicamente em eventos - mas a sua verdadeira actividade foi sempre a de activista dos direitos humanos e feminista. Nunca se casou com os pais dos seus filhos – com quem viveu – “por razões políticas, para marcar uma posição”. Um gesto que mostra a determinação desta mulher que continua a dedicar uma parte fundamental das suas energias a defender em particular os direitos sexuais da mulher (e também dos homens e das minorias lésbica, gay, bissexual e transgénero). A tarefa é particularmente difícil neste país hipertradicionalista e fez juntar-se ao grito de “traidora” com que muitas aparições públicas suas são mimoseadas - quando não são brutalmente interrompidas por provocadores -, uma colecção de insultos de carácter sexista.

Há uns anos Abeysekera fez um estudo sobre a representação da sexualidade feminina no cinema do Sri Lanka e chegou à conclusão de que às mulheres que (no ecrã) transgridem os limites definidos pela comunidade no domínio do sexo – por inocente que essa transgressão possa ser – restam apenas quatro caminhos em termos narrativos: “Ela podem enlouquecer, podem suicidar-se, podem ser mortas ou podem entrar para uma ordem religiosa”, escreve Abeysekera num artigo de 1999 sobre feminismo e sexualidade.

A inscrição no seio do combate feminista do direito das mulheres à auto-determinação em termos de sexualidade e reprodução tem sido um dos cavalos de batalha de Abeysekera – e uma batalha que não tem sido fácil.

Abeysekera milita aliás também numa organização de defesa dos direitos da comunidade LGBT, a Women’s Support Group – que participou em 2000, pela primeira vez, num desfile do Dia Internacional da Mulher.

O ambiente no Sri Lanka em termos de direitos da mulher e da permissividade relativamente à violência contra as mulheres pode ser bem avaliado através de um episódio contado pela própria Abeysekera numa entrevista dada no ano passado à revista de direitos humanos Combat Law: “Quando o Women’s Support Group anunciou a sua intenção de organizar uma conferência nacional sobre sexualidade, um popular jornal de língua inglesa publicou uma carta ao director onde um leitor sugeria que, nesse dia, as prisões soltassem os violadores que estivessem presos, para que estes pudessem mostrar a essas ‘Jezebéis’ o que era bom”.

Os que conhecem Abeysekera falam das suas qualidades de contadora de histórias, do seu vivo sentido de humor e da sua energia inesgotável. E é evidente em todas as suas intervenções uma aguda inteligência, que vai sempre para além do imediato, para além do fácil, numa abordagem que é simultaneamente pragmática e exigente. Numa intervenção para a televisão, gravada na passagem de ano 2007/2008, onde lhe pedem uma previsão para o ano que chega, Abeysekera termina, rindo-se, pedindo desculpa por ser “tão pessimista”. Ontem também não estava optimista sobre o futuro do Sri Lanka. Esperemos que se engane redondamente.

terça-feira, maio 19, 2009

As conversas informais e os juízos que formamos

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 19 de Maio de 2009
Crónica xx/2009

Não temos de esperar um julgamento para sermos autorizados a formar uma opinião sobre uma dada pessoa

Apresunção de inocência é um princípio fundamental do Direito. Mas a presunção de inocência significa apenas que uma pessoa não pode ser considerada culpada de um crime sem ter sido julgada e provada a sua culpa em tribunal - onde deve ter acesso a todos os meios necessários para contestar as acusações de que seja alvo.

O que já não é verdade é que tenhamos de esperar que haja uma investigação judicial e um julgamento de um qualquer caso para sermos autorizados a formar uma opinião sobre uma dada pessoa e a enunciar essa opinião. Por enquanto, a razão de cada cidadão ainda é autorizada a funcionar livremente e os juízos de valor - nomeadamente em relação aos políticos e à política - podem ser produzidos e divulgados sem autorização prévia de qualquer tribunal.

É por isso que não preciso de uma decisão judicial para ter (e para enunciar aqui) a convicção de que Dias Loureiro não devia ter assento no Conselho de Estado.

Não sei se as acusações que recaem sobre ele poderão ser provadas em tribunal. Mas não preciso de uma decisão judicial para formar uma opinião acerca de um homem que já vi e ouvi muitas dezenas de vezes, falando sobre tudo e todos e, nomeadamente, que já vi rebater os argumentos que têm sido usados contra si.

Dias Loureiro não merece a minha confiança e acho que pessoas que não merecem confiança não devem estar no Conselho de Estado. E até acho que o Presidente da República, que o nomeou, também já não confia nele. E não preciso de uma decisão judicial para formar a minha opinião, para analisar as declarações de Cavaco e extrair delas as minhas conclusões, ou poder dizer o que penso. O que é útil, repare-se. Se fosse preciso uma decisão judicial para podermos confiar ou desconfiar desta ou daquela pessoa, teríamos de submeter a rigorosos processos judiciais todos os candidatos a eleições e governantes e isso seria pouco prático e confrangedor. A confiança - e, nomeadamente, a confiança política - não funciona assim.
Vem isto a propósito do procurador Lopes da Mota e do processo disciplinar que lhe foi levantado, na sequência do inquérito a que foi submetido, após a denúncia de que foi alvo por parte de dois outros procuradores, encarregados de investigar o caso Freeport.

Também aqui, não sabemos qual será o resultado do processo disciplinar. Mas o simples facto de Lopes da Mota ter tentado menorizar a acusação de pressões de que foi alvo dizendo que se tratou apenas de uma conversa "informal" entre "amigos" diz o essencial. E quando admite ter referido que Sócrates queria ver o caso resolvido rapidamente, diz mais do que o essencial para formarmos uma opinião. Lopes da Mota quer dizer que não deu aos procuradores uma ordem formal no sentido de "arquivar" o processo. É, talvez, razão para nos felicitarmos. Mas a informalidade da conversa não constitui prova da sua inocuidade - pelo contrário. O que teríamos gostado, de facto, é que a conversa tivesse sido mantida dentro das fronteiras da mais estrita formalidade. Mais: que nem sequer tivesse existido qualquer conversa se não houvesse justificação oficial para ela ter lugar. O simples facto de ela ter existido revela da parte de Lopes da Mota, no mínimo, pouco escrúpulo na defesa da independência do Ministério Público e dos seus colegas, os magistrados encarregues do caso Freeport, e pouca inteligência na defesa do seu próprio nome.

Pelo meu lado, não vejo razão para confiar em Lopes da Mota. E penso que muitos observadores, pela Europa fora, pensam o mesmo e pelas mesmas razões. O que significa que é imperativo afastá-lo do Eurojust. O processo disciplinar verá a extensão das suas falhas. Mas as que conhecemos pela sua boca são suficientes para formarmos desde já esta opinião. Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 15, 2009

Página de Rosto - Jean Johnson: Isto não é uma escola!

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 15 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13


Jean Johnson, professora (Reino Unido)


Jean Johnson não hesita quando lhe pergunto se gostava da escola quando era miúda. “Odiava”, atira no seu tom definitivo. “Odiava a escola. Porquê? Por tanta coisa... Por tudo. Eu era esperta mas não encaixava, não tinha um grupo, não andava com a malta... Os meus colegas chamavam-me nomes… A única maneira que encontrei de enfrentar a coisa foi baixar a cabeça e mergulhar no estudo. O que não foi a maneira mais agradável de atravessar aquele período.”

Hoje, Jean Johnson, 57 anos, com um longo currículo de professora atrás de si, dirige aquele que é, segundo muitos especialistas, um dos mais inovadores e bem sucedidos programas de educação para alunos inadaptados, o Notschool, no Reino Unido. E a sua experiência de aluna inadaptada – que não a impediu de se transformar numa profissional particularmente bem sucedida e com uma reputação planetária – ajuda-a a compreender os problemas que enfrentam os 800 alunos que o programa tem neste momento. O nome de Notschool diz tudo, mas vale a pena explicar. Notschool não é uma escola. E se alguém não gosta da escola… tem boas razões para gostar de Notschool.

Notschool não tem mesmo nada a ver com a escola. A escola tem um edifício? Notschool não tem. Ou melhor: tem instalações no Essex, uns 50 quilómetros ao norte de Londres, que é onde trabalha o escasso staff de uma dezena de pessoas, mas os alunos não têm de lá ir. Os alunos estão em sua casa e trabalham através do computador. A escola tem aulas? Notschool não tem. A escola tem horário? Notschool não tem. Há alunos que passam o dia a fazer o que lhes apetece e só se ligam à noite. E há muitos que se ligam de manhã e à noite e aos fins-de-semana, principalmente nos períodos de maior actividade. A escola tem de seguir um currículo nacional, igual para todos os alunos? Notschool não tem um currículo definido. Nem disciplinas. Nem assuntos obrigatórios. E cada aluno faz o que lhe apetece. Literalmente.

Aliás, em rigor Notschool nem tem “alunos” nem “professores” – mas isso é apenas um truque para sublinhar como a cultura desta não-escola é diferente da cultura das escolas comuns. E para evitar que os nomes habituais sugiram coisas tristes aos utilizadores. Os estudantes aqui têm entre 13 e dezasseis anos e são chamados “investigadores” (“researchers”) e aqueles que noutras escolas são professores aqui são “mentores”. E depois há “peritos” e “amigos” (“experts” e “buddies”), em geral estudantes universitários que dão apoio aos alunos no que for preciso. Além de especialistas que trabalham em instituições como o Science Museum de Londres ou o World Wildlife Fund ou a BBC, que ajudam nas suas áreas de especialidade.

Como funciona um “ano lectivo”? Quando entram no programa os alunos recebem um computador, acesso de banda larga à Internet, uma máquina fotográfica digital, um scanner e ouros equipamentos digitais e recebem a necessária formação técnica para trabalhar com tudo aquilo. Depois, escolhem assuntos que lhes interessam e são ajudados pelos mentores a desenvolver um percurso – pode ser um projecto que visa atingir um dado objectivo final, pode ser apenas a exploração de uma dada área. Que áreas aparecem nas preferências dos alunos? Pode ser desenho de animação, pode ser música, motas, maquilhagem ou chinês. Claro que, para aprofundar qualquer destas áreas é necessário adquirir competências de numeracia, literacia, relacionais, é preciso estudar e discutir, escrever e fazer projectos. Os mentores ajudam o “investigador” a fazer a sua investigação e tentam encontrar quem o possa ajudar nesse percurso. Ah! E os alunos podem entrar a qualquer momento do ano. Não há um ano lectivo.

“Os mentores têm de ser pessoas um pouco especiais”, explica-nos Jean Johnson, numa conversa telefónica. “Temos imensas candidaturas. Tenho sempre o mail cheio de candidatos de todo o mundo – e os nossos mentores são de facto de todo o mundo, do Reino Unido à Nova Zelândia e à China – mas há um processo de selecção bastante exigente. Em princípio preferimos pessoas com bastante experiência de ensino e em particular com experiência a lidar com miúdos difíceis, mas além disso é fundamental que sejam pessoas com experiência de vida, que tenham tido muitas e boas experiências. Isso é que é fundamental e isso é o mais difícil”.

Jean Johnson sabe por experiência como isso é importante para um professor. Nascida por acidente na Escócia (foi com uma semana para Inglaterra) devido às constantes deslocações do pai, profissional de aviação, passou a infância e a adolescência de cidade em cidade (“era difícil fazer amizades”) e quando acabou a faculdade (“Estudei sociologia porque o meu pai queria que eu fizesse medicina”) experimentou diversos empregos (uma empresa de camionagem, uma cervejeira, uma companhia de navegação) antes de se decidir pelo ensino. A razão da escolha? “Queria viajar e o ensino parecia-me uma boa escolha. Fiz uma pós-graduação em educação, estudei ensino do inglês como língua estrangeira e pensei que com isto ia poder viajar por todo o mundo, como eu queria”. Mas a sua experiência de vinte e cinco anos de ensino seguiu outro caminho.

Johnson começou a envolver-se na utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na escola, tendo participado em inúmeros projectos pioneiros na utilização da Web para a educação, tanto no Reino Unido como a nível internacional (Web for Schools, The Virtual Classroom, Learning in the New Millennium, Schools Online). “Tivemos resultados fantásticos em praticamente tudo o que fizemos e era muito fácil ensinar os alunos a passar exames – que é, no fundo, aquilo para que o sistema educativo está virado. Nas aulas fazíamos o que era preciso para que os alunos passassem os exames e depois disso dedicávamo-nos às coisas interessantes – e havia imensas coisas que interessavam os jovens”. Jean Johnson conta com paixão uma sessão de videoconferência que fez com os seus alunos e um grupo de alunos americanos, noa anos 90. “Nunca pensei que resultasse tão bem. Foi uma experiência fantástica, os alunos entusiasmaram-se imenso, Discutimos o ensino da religião, o Thanksgiving, um dos miúdos americanos cantou uma canção… foi fantástico”.

As experiências pioneiras de utilização de TIC na escola levaram-na para a colaboração com a universidade e a participação em projectos de investigação nessa área e, quando a Universidade Politécnica de Anglia decidiu lançar um novo projecto, particularmente ambicioso, convidou-a para o dirigir.

“De início ainda não era a Notschool”, conta, “ou não era a Notschool como ele é hoje. Chamava-se Online Curriculum for Disaffected Teenagers [algo como Currículo Online para Jovens Rebeldes] e era basicamente um programa de distribuição de conteúdo online”. Só que Johnson já sabia algo que muita gente demorou muito tempo a aprender sobre a Internet: a solução tinha de passar pela criação de uma rede, de uma relação, uma comunidade. Não bastava disponibilizar conteúdo online para que os miúdos com problemas aderissem. “Havia gente maravilhosa envolvida, pessoas da BBC, investigadores da universidade, cientistas com cérebros do tamanho de um planeta, mas não era isso que ia fazer com que os miúdos aderissem.” Jean Johnson tentou durante um mês levar à prática o modelo que tinha sido desenhado, mas era inútil. E foi falar com os miúdos para tentar descobrir o que faltava. O que faltava era a comunidade, os amigos, a envolvência.

“Os miúdos vão à escola basicamente para falar aos amigos”, diz Johnson. “E vão lá porque se sentem seguros. O que era preciso era recriar online essa rede de amigos e garantir essa segurança. Aí podemos ter a coesão que existe na escola e podemos começar a fazer alguma coisa”. Foi assim que nasceu o Notschool, em 2000, que Johnson descreve sempre como “uma comunidade de pessoas que aprendem”.

Mas não se cria uma comunidade de um dia para o outro e as coisas não funcionaram bem logo de início. “É preciso escala. É como quando vamos a uma festa e há cinco pessoas. Temos vontade de ir embora, não nos sentimos à vontade. Se estiverem mais e se conhecermos alguns já ficamos. Online é a mesma coisa, é preciso atingir uma certa escala, precisamos de uma atenção personalizada e de diversidade, de pessoas diferentes”. Passados oito meses a Notschool tinha 98 pessoas e estava lançada. Desde aí não parou de crescer. Em 2004 transformou-se numa fundação e hoje consegue manter as contas equilibradas graças aos pagamentos do Estado – o Estado paga a todas as escolas um tanto por aluno e nisso a Notschool é igual às outras – e a alguns apoios de empresas.

Os jovens que estão na Notschool são aqueles para quem esta é a última oportunidade. “São miúdos que estão fora do sistema há muito tempo e que são incapazes de voltar, para quem a escola não é uma alternativa. São miúdos excluídos, fóbicos, violentos, vítimas de abusos, de violências sexuais, que estão no programa de protecção de testemunhas, doentes com fibrose cística ou com cancro”. Mais de 70 por cento foram vítimas de bullying, devido a problemas relacionais, dislexia, epilepsia, outras razões. Mas o Notschool não recebe todos os miúdos que têm problemas na escola. “Há pais que nos ligam porque o filho quer mudar de escola. As coisas não funcionam assim”, diz Johnson.

Um relatório britânico recente estimava em 100.000 o número de crianças e jovens que deviam estar inseridos no sistema de ensino – que, em teoria, estão a estudar – mas que de facto já o abandonaram.

Num documentário de promoção do projecto Jean Johnson explica que o objectivo da Notschool não é uma certificação. “O que nos guia são os estudantes, as suas necessidades. O que nós fazemos é pegar na aprendizagem que a criança fez e ver o que ela pode fazer com isso, onde é que pode chegar e a que é que corresponde no quadro actual de qualificações. E quando fazemos isso e elas seguem para o ensino superior constatamos que eles se transformaram em estudantes independentes e competentes nos campos que escolheram, que possuem competências em termos de numeracia e literacia e, frequentemente, são muito talentosos e criativos”.

O objectivo poderá não ser a certificação, mas mais de 50 por cento dos miúdos que saem da NotSchool obtêm algum tipo de acreditação e 70 por cento prosseguem para o ensino superior ou ensino tecnológico. O que prova algo que Jean Johnson gosta de dizer: "Penso que toda a gente quer aprender alguma coisa. O que precisamos de fazer é descobrir o quê”.

sexta-feira, maio 08, 2009

Página de Rosto - Pete Seeger, um banjo contra o ódio

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 8 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 8



Pete Seeger, músico (Estados Unidos)

Pode parecer estúpido, mas penso que o mundo tem uma grande dívida para com Pete Seeger. A mesma dívida que tem para com tantos outros dos seus artistas, é verdade, mas uma dívida, mesmo assim. E que é do mundo em geral – ou pelo menos daquele onde chegou a sua música e o impacto do movimento pelos direitos cívicos nos Estados Unidos dos anos 60, o que quer dizer uma grande parte dele.

Falo da música de Pete Seeger e da luta pelos direitos cívicos na mesma frase porque não é possível separar uma da outra. É impossível imaginar as suas canções sem essa razão e esse sentimento, é impossível imaginar aquelas vagas de mobilização, de reivindicação, de solidariedade, de coragem, de emoção, de juventude, de amor da liberdade e de sonho de um mundo melhor sem os hinos de Pete Seeger. Porque muitas das suas canções são os hinos da liberdade que uma geração inteira aprendeu a cantar – na América e no mundo. E se a América ainda merece um lugar especial no coração de tanta gente, é antes de mais por causa de momentos como esses, onde a liberdade parecia estar a ser inventada de novo do outro lado do Atlântico e onde os males do mundo pareciam estar à beira de ser resolvidos.

Pete Seeger comemorou 90 anos no domingo passado, a 3 de Maio, e participou num concerto-festa no Madison Square Garden de Nova Iorque, onde cantou e tocou todos os seus velhos êxitos com um entusiasmo e um vigor que surpreenderam os que lhe tinham perdido o rasto nos últimos anos. A sua voz já não é aquele tranquilo tenor serpenteante e sedutor dos anos 60 e 70, mas o simples facto de ainda conseguir cantar, tocar o banjo e aguentar a pressão de um grande espectáculo não pode deixar de se considerar notável. No concerto participaram muitas dezenas de amigos, entre os quais os velhos Joan Baez e Arlo Guthrie e o apenas ligeiramente mais novo Bruce Springsteen – responsável, com o seu disco We Shall Overcome: The Seeger Sessions, de Abril 2006, por uma vaga de redescoberta da música de Seeger.

Entre os menos-de-50-anos é raro quem saiba quem seja Pete Seeger. O nome soa familiar, mas a maioria não se lembra porquê. Mas as canções, essas, toda a gente continua a reconhecê-las, ainda que, nalguns casos, a versão que vem à memória seja a de outros intérpretes (“Ah, não era a Marlene Dietrich que cantava esta?”. Também era. Marlene gravou We Shall Overcome em inglês, francês e alemão). E muitos outros cantaram Where have all the flowers gone, Amazing Grace, If I Had a Hammer, This Little Light of Mine…

We Shall Overcome, que Seeger celebrizou mas não compôs (a letra é de um gospel com cem anos, baseada numa velha canção de escravos, a música é de um hino religioso com raízes no século XVIII), tornou-se o verdadeiro hino dos direitos cívicos e foi cantado em milhares de protestos e desfiles, às vezes com alterações na letra, para a adaptar às circunstâncias. Os seguidores de Martin Luther King, durante as jornadas de luta contra a segregação – onde Seeger esteve sempre activamente, desde antes do primeiro momento – juntaram-lhe os versos “we will walk together, someday, black and white together, someday".

Muitas das canções de Seeger, como esta, possuem letras de uma simplicidade desarmante, que lhes dão uma força insuspeita. Imaginam o que deve ter sido estar nos degraus do Lincoln Memorial em Agosto de 1963, durante a Marcha de Washington, e ouvir We Shall Overcome cantado por duzentos mil manifestantes? Ou ouvir a canção, com o acrescento de um verso improvisado (“We are not afraid… We are not afraid, today”) cantado por um grupo de jovens manifestantes negros arrebanhados pela polícia e obrigados a deitar-se no chão? Hoje parece simples e inócuo mas houve pessoas que morreram, no nosso tempo, para que uma pessoa negra pudesse andar de mão dada com uma branca.

O significado do gospel é um pouco diferente quando é cantado numa manifestação contra o apartheid e os cenários das canções de Pete Seeger eram quase sempre dessa índole: protestos contra a segregação racial nas escolas e no trabalho, manifestações contra a brutalidade da polícia, reivindicação de igualdade perante a lei, salário mínimo, segurança no trabalho, direito à greve… De outras vezes concertos para recolha de fundos para apoiar greves, concertos de solidariedade por esta ou aquela causa.

A mensagem política adquiria uma força inimaginável à boleia destas letras espirituais (Seeger é crente), destas frases simples e incontestáveis, de uma verdade evidente, sempre sublinhando a força da razão, a não-violência, a liberdade e a igualdade. E imaginam um protesto de estudantes, brancos e negros, cantando em conjunto o clássico folk de Woody Guthrie (amigo e mestre de Pete Seeger) “This land is your land, this land is my land/This land was made for you and me”? Haverá melhor símbolo de empowerment?

A mensagem gravada no banjo de cinco cordas e braço extralongo, que se transformou na marca registada de Seeger, diz tudo: “This machine surrounds hate and forces it to surrender” (Esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se). A frase é uma marca da influência de Guthrie, que tinha escrito na sua viola "This machine kills fascists” (Esta máquina mata fascistas). Seeger adoçou-o ao sabor da sua música e da sua vida.

Pete Seeger nasceu em Manhattan, numa família da classe média, filho de pais músicos (ele, musicólogo; ela, violinista), ambos professores na famosa Juilliard School de Nova Iorque. Os pais proporcionaram-lhe uma formação musical sólida mas relativamente livre e tentaram que Pete se dedicasse à música clássica, mas o género não o atraía especialmente. Aos dezasseis anos, num festival de música, ouviu o banjo de cinco cordas e ficou apaixonado pelo instrumento, que nunca mais deixou – apesar do seu gosto pela guitarra de doze cordas, outra preferida, e dos muitos outros instrumentos que toca episodicamente. O seu livro How to Play the Five-String Banjo, publicado em 1948, continua a ser considerado uma referência.

Seeger conseguiu uma bolsa para Harvard (onde foi colega de John Kennedy), decidido a estudar sociologia e a tornar-se jornalista, mas os estudos não o entusiasmaram e deixou a universidade para viajar pelos Estados Unidos, desenhando pelo caminho (uma paixão de sempre) e fazendo música. Foi nessa viagem pelo país que conheceu Woody Guthrie, com quem criou em 1940 os Almanac Singers, grupo de cantores-activistas itinerantes que apoiava com a sua música os movimentos sindicalistas. Durante a Segunda Guerra Mundial cantou para entretenimento das tropas e depois de sair do exército criou o People's Songs, Inc., uma associação de músicos dedicada a apoiar movimentos sindicais e preocupada com a recolha e reabilitação da música folk. Em 1948 fundaria outro grupo, os Weavers, que conheceria uma fama comercial considerável.

Em parte por influência do pai, comunista convicto, um entusiasta que acreditava que a música devia ser posta ao serviço do povo e da transformação social, Pete Seeger aderiu com 17 anos à Liga Comunista da Juventude e seis anos depois ao Partido Comunista dos EUA. Muito mais tarde, já nos anos 90, diria que começou a afastar-se do partido nos anos 50 (o pai saiu em 1938), ao tomar conhecimento das atrocidades cometidas por Estaline, mas a fama de “estalinista” manter-se-ia colada ao seu nome por muitos anos, alimentada frequentemente por conservadores que o criticavam por defender a liberdade nos EUA e a ditadura na URSS.

Forçado a testemunhar durante o McCarthyismo perante a Comissão de Actividades Anti-Americanas, em 1955, Pete Seeger recusou-se a responder às perguntas, a acusar fosse quem fosse e a invocar a Quinta Emenda – o que daria origem a uma condenação a um ano de prisão, que seria revogada e que nunca cumpriu.

“Gosto de dizer que sou mais conservador que Goldwater”, disse numa entrevista dada ao New York Times em 1995. “Ele só quer voltar ao tempo em que não havia imposto sobre o rendimento. Eu gostava de voltar ao tempo em que as pessoas viviam em aldeias e tomavam conta umas das outras”. Sobre Estaline, na mesma entrevista, lamenta “ter seguido a linha do partido como um carneiro” e “não ter percebido que Estaline era um dirigente supremamente cruel”. Em 2007, escreveria uma canção condenando explicitamente o líder soviético, Big Joe Blues ("I'm singing about old Joe, cruel Joe”). Demasiado tarde, disseram alguns.

Se há um fio condutor na mensagem das músicas de Seeger, esse fio é a paz, a não-violência, o respeito pelos outros e pela natureza, a solidariedade entre todos os seres humanos, a recusa de todas as segregações e a defesa da justiça social, da dignidade humana. Além, claro, da fé no poder da música como forma de unir as pessoas. Não há concerto de Seeger em que não diga às pessoas para cantarem consigo. Seeger não gosta de cantar sozinho.

Hoje, Pete Seeger é uma lenda viva e um repositório de algumas das mais nobres lutas políticas do último século nos Estados Unidos: os direitos dos trabalhadores e em particular o direito à greve, os direitos cívicos e em particular o fim da segregação racial – Seeger cantou This Land Is Your Land depois da tomada de posse de Obama –, a luta contra o McCarthyismo e pela liberdade de associação, a oposição à guerra do Vietname e a todas as formas de agressão internacional e a defesa do ambiente – que nos últimos anos se tornou a sua causa de eleição. Não é mau para 90 anos.

terça-feira, maio 05, 2009

Da utilidade de chamar nomes feios

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 5 de Maio de 2009
Crónica 14/2009


A tradição manda que se baptize uma doença com o nome da região onde foi descoberta ou com o nome do descobridor

Sempre houve pessoas a indignar-se com os nomes que se dão às coisas novas. E entre nós, em particular, a indignar-se quando esses nomes que se dão são estrangeiros. Lembro-me de quando se começou a falar de marketing em Portugal e de como havia pessoas que ficavam apoplécticas perante o barbarismo. Então não havia palavras portuguesíssimas que podiam ser utilizadas em substituição? Palavras como "comercialização" ou "publicidade" ou "vendas" ou lá o que era que aquilo era? E quando alguém referia que o problema era que se tratava de um conceito novo, que nenhuma palavra existente em português traduzia em toda a sua riqueza, havia sempre alguém a sugerir que então inventássemos também uma expressão nova portuguesa para essa coisa nova, como "comercializarização" ou "técnicas de vendas Mendes".

Aí era preciso explicar (com tacto) que aquela coisa que eles chamavam "marketing" não tinha sido inventada em Portugal nem tinha sido inventada pelo Mendes, mas sim por uns senhores na América que lhe tinham chamado como muito bem tinham querido e que... eles estavam no seu direito.

A contestação lusitana continuou nos anos seguintes a ser alimentada por vagas de palavras inglesas na música, na cultura popular, na tecnologia e na gestão e conheceu vários clímaxes, tendo um dos mais vivos sido causado pelo software e ao hardware, só recentemente digeridos através de naturalização.

De cada vez que isso acontecia era preciso explicar que, se os portugueses queriam dar nomes portugueses às coisas, o melhor era começar a inventá-las ou pelo menos a disseminá-las no mundo, pois essa era a regra do jogo. E a melhor prova era o facto de os italianos terem espalhado pelo planeta os seus adagios e staccati além dos seus tutti-frutti, os franceses as suas cartes blanches, os seus pliés relevés e os seus soufflés, os alemães o seu Gestalt e a sua Angst, os suecos o seu (inglesado) ombudsman e os portugueses terem deixado na língua inglesa o cuspidor em 1735 (o inglesíssimo spittoon só aparece em 1823, certamente num arroubo de nacionalismo, inverso ao que, em Portugal, faria Rafael Bordalo Pinheiro colocar John Bull no fundo dos mesmos escarradores e penicos por alturas do Ultimato).

Mas a questão é que o baptismo de uma coisa nova é um direito do seu criador ou descobridor - e um direito que serve de assunção da responsabilidade, para o bem e para o mal, o que significa que também podemos falar aqui de um dever.

A gripe que assusta o mundo começou por se chamar "suína" mas a designação - imprópria a partir do momento em que ela se torna humana - seria sempre abandonada por pressão dos criadores de porcos, preocupados (com toneladas de razão) com a sua imagem. A tradição manda que se baptize a gripe (ou outras novas doenças) com o nome da região onde primeiro foram descobertas ou com o nome do seu descobridor ou investigador. No segundo caso (Alzheimer) trata-se de uma honra, ainda que algo dúbia. No segundo, de uma distinção odiada (alguém quer dar um mergulho no rio Ebola?). Não tendo grande sentido falar de descoberta de um novo subtipo de um vírus da gripe, seguiu-se a regra geográfica e chamou-se-lhe "gripe mexicana". Mas os mexicanos não gostaram, conseguiram reunir suficientes vozes politicamente correctas e finalmente a OMS propôs a designação A H1N1 - depois de se ter brevemente considerado a "gripe norte-americana". A questão é que a designação geográfica, com o seu labéu, serve uma finalidade: como ninguém quer ter uma doença horrível baptizada com o nome do seu país, pode ser que isso constitua um incentivo para a prevenção. É que existem medidas de prevenção, nomeadamente no que diz respeito às explorações pecuárias (porcos e aves) - ainda que não sejam cem por cento eficazes para prevenir uma epidemia. Ou será que a responsabilidade dos países e das instituições só é importante quando se trata de colher louros? Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 01, 2009

Página de Rosto - Thich Quang Do, 80 anos pela paz


por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 1 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 14


Thich Quang Do, monge budista (Vietname)

O rosto, emoldurado por uma rala barba branca, não permite quaisquer dúvidas: é um monge budista. Um rosto tão característico que não pode deixar de evocar as composições que o cinema nos costuma oferecer. Lembram-se do mestre de Caine, no mosteiro Shaolin, na série de televisão Kung Fu dos anos 70? Thich Quang Do podia ter feito o papel na perfeição, apesar de ser vietnamita e não chinês.

Só que, por trás da tranquilidade deste olhar que exala uma calma confiança, da dignidade da pose, da determinação que ela denuncia, os olhos pequenos brincam e fecham-se frequentemente, ao mesmo tempo que a boca se rasga num sorriso. Às vezes quando fala de coisas terríveis, das suas inúmeras prisões, da falta de democracia no seu país. Um sorriso que vem da sua inabalável certeza de que tudo isso passará e que, um dia, os vietnamitas poderão viver em liberdade e em segurança, poderão escolher os seus líderes políticos e dizer o que pensam sem receio de represálias.

Thich Quang Do tem hoje 80 anos e viveu mais de trinta sob prisão – nas piores enxovias ou em prisão domiciliária – e conheceu a repressão durante toda a vida. Repressão oriunda de diferentes regimes, de direita e de esquerda, primeiro no Vietname do Norte, onde nasceu; depois no Vietname do Sul, para onde fugiu em 1954; e depois de 1975 no Vietname unificado, sob regime comunista. A razão? A exigência de democracia, de pluralismo político, de liberdade religiosa, de liberdade de expressão, de respeito pelos direitos humanos, uma constante actividade em prol dos mais pobres, uma infatigável denúncia pública – em reuniões, artigos, manifestos, petições – dos atropelos aos direitos humanos, dos abusos da polícia, da tortura, das prisões arbitrárias, da miséria. Sempre no respeito dos mandamentos budistas, respondendo à violência com protestos pacíficos, tentando mostrar aos seus carrascos os seus erros, com a desarmante convicção e a infinita paciência dos homens abençoados pela verdadeira fé.

Do nasceu em 27 de Novembro de 1928 e tornou-se monge aos 14 anos mas, segundo o próprio conta num relato autobiográfico, a sua vida só começou às 10 da manhã do dia 19 de Agosto de 1945, quando o poder colonial francês foi derrubado pelas forças revolucionárias comunistas no Vietname do Norte. Foi nesse dia que aprendeu como a violência mais brutal se pode abater sem sentido sobre os mais inocentes e como os homens são capazes dos mais terríveis requintes de crueldade.

“Eu tinha só 17 anos”, conta Do. “Nesse dia, vi o meu mestre, o muito venerável Thich Duc Hai, superior do pagode Linh Quang, ser executado pelas forças comunistas. Amarraram-lhe as mãos atrás das costas com arame farpado e penduraram-lhe ao pescoço dois cartazes: num deles, sobre o peito, estava escrito ’Traidor vende-pátrias’. No outro, sobre as costas, ‘Colaboracionista’. Ele estava no meio de uma multidão armada com paus e lanças, foices e ancinhos. Outro grupo de homens, que se intitulavam ‘juízes’ do tribunal popular, estava numa plataforma e conduzia o julgamento. Ordenaram ao meu mestre que se ajoelhasse e que baixasse a cabeça enquanto eram lidas as acusações contra ele. Ele recusou-se a obedecer. Um dos ‘juízes’ desceu da plataforma, postou-se à sua frente e disse-lhe ‘Tu és um traidor e não tens o direito de ser teimoso’. Começou a bater-lhe na cara até que a sua boca ficou cheia de sangue. O sangue pingava no cartaz que lhe cobria o peito. Condenaram o meu mestre à morte. Levaram-no para o campo frente à casa da aldeia. O sangue pingava sobre a sua roupa e no chão. Obrigaram-no a deitar-se e um dos homens deu-lhe três tiros na cabeça. Saiu um jorro de sangue e o meu mestre morreu. O sangue cobria a sua cara, a sua roupa, as suas pernas, a terra onde ele estava deitado, os cartazes que lhe penduraram ao pescoço. A imagem do meu mestre caído numa poça de sangue, imóvel, com as mãos atadas atrás das costas, ficou gravada para sempre na minha memória. Ainda a recordo como se fosse ontem”.

O crime de Thich Duc, oficialmente causado de ser um agente japonês, foi ter montado uma operação de auxílio para distribuir alimentos aos camponeses que estavam a ser vitimados por uma terrível fome.

“Quantos mais inocentes não terão sido mortos em nome da revolução durante estas sanguinárias campanhas de luta?” pergunta Do.

“Foi nesse dia que tomei a decisão que iria determinar o curso da minha vida. Nunca iria aceitar a violência, a crueldade, o ódio, a discriminação, por muito nobres que parecessem ser as causas que defendessem tudo isso. Naquele dia e naquele sítio, jurei que iria fazer tudo o que pudesse para combater o fanatismo e a intolerância e que iria dedicar a minha vida ao combate pela justiça, seguindo os ensinamentos budistas da não-violência, da tolerância, da compaixão. Nunca lamentei esta decisão. Mas não fazia ideia que este simples voto me iria levar ao longo de um caminho marcado pela prisão, pela tortura e pelo exílio durante tantos anos. Estive preso por vários regimes políticos e depressa aprendi que todos os tiranos receiam a verdade e que temos de estar dispostos a pagar o preço – por vezes um preço elevado – para defender as ideias e os valores nos quais acreditamos”.

As memórias de Do estão recheadas de histórias de horror como a execução do seu mestre. Um ano depois, em 1946 um irmão religioso do seu mestre foi também preso e morreu na prisão. Um mentor do seu mestre suicidou-se para não ser preso e torturado.

Em 1963, ainda durante o brutal regime do presidente Ngo Dinh Diem, no Vietname do Sul, Thich Quang Do foi preso na sequência de protestos organizados contra a morte de manifestantes budistas que agitavam bandeiras comemorativas para celebrar o nascimento de Buda, em Maio desse ano. O exército de Diem – que era um católico fanático, cujos antepassados tinham sido educados por missionários portuigueses, e que seria assassinado num golpe nesse mesmo ano – disparou sobre a multidão, causando muitos mortos e feridos.

Foi poucos dias depois, em 11 de Junho de 1963, que o monge Thich Quang Duc se imolou pelo fogo, numa rua de Saigão, em protesto contra a perseguição de que os budistas eram alvo. As fotografias do sacrifício, do jornalista americano Malcolm Browne – que ganharam o prémio World Press desse ano –, chamaram a atenção do mundo, mas a perseguição continuou.

Thich Quang Do foi preso e barbaramente torturado. “Lembro-me de ter de gatinhar quando saía da cela para ser interrogado, porque não me conseguia pôr de pé”. Mesmo assim, entre sessões de tortura, traduzia para vietnamita artigos de jornais estrangeiros em inglês que lhe eram trazidos clandestinamente, para manter informados os dissidentes da atenção que a sua luta merecia a nível internacional. O inglês tinha-o aprendido durante a sua formação universitária, feita em parte na Índia e no Sri Lanka.

Durante a guerra do Vietname, a Igreja Budista Unificada do Vietname (UBCV, na sigla inglesa), de que Do era um dos dirigentes, manifestou-se activamente contra as hostilidades.

Depois do fim da guerra e da unificação, o seu ciclo de prisões recomeçou, deste vez sob o regime comunista. Em 1977 foi preso em conjunto com outros dirigentes budistas, na sequência de um manifesto em defesa da liberdade religiosa e da sua igreja. ”Mantiveram-me fechado durante vinte meses numa cela de isolamento, com 90 centímetros de largura e 1,9 metros de comprimento. Havia um postigo com o tamanho da minha mão, que abriam só para me passar a comida. Para além disso, estava sempre fechada e era difícil suportar o ar abafado”.

Foi torturado de novo e tentaram obrigá-lo a confessar que trabalhava para a CIA. Quando foi levado a tribunal tudo o que puderam fazer foi acusá-lo de perturbar a ordem pública. Foi libertado, mas os trinta anos seguintes foram de prisão quase permanente, até à actualidade. Mesmo quando as autoridades lhe garantiam que estava livre, polícias colocados em torno do mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão, onde ainda vive, impediam-lhe a saída. Ou a entrada de visitantes que o queriam ver, como aconteceu com o deputado europeu Olivier Dupuis, que o tentou visitar em 2001, na sequência de uma das suas muitas prisões arbitrárias, sem julgamento, e que foi impedido de o fazer. De 1982 a 1992 foi condenado ao exílio interno, numa região particularmente fria e húmida, em condições horríveis, e a sua mãe, de 84 anos, foi condenada a acompanhá-lo. A mãe morreria em 1985, de frio e de fome. Pouco depois de regressar do exílio publicou um manifesto pela liberdade religiosa e condenando a perseguição da UBCV, que o levou de novo à cadeia.

Muitas dessas prisões têm como argumento a simples existência da sua igreja – que Hanói não reconhece, pois criou uma igreja budista oficial, a Igreja Budista do Vietname (VBC), dirigida por uma estrutura controlada pelo Estado, à qual tenta obrigar todos os monges a aderir. Outras devem-se a protestos em prol da democracia.

Thich Quang Do já foi nomeado várias vezes para o Nobel da Paz. Este ano havia quem jurasse que o Nobel iria para um dos dissidentes chineses (Hu Jia e a sua mulher Zeng Jinyan, ou Wei Jingsheng) ou para Do – mas todas estas hipóteses provocariam o desagrado da China, amiga do regime de Hanói.

Num vídeo gravado clandestinamente em 2007, disponível no YouTube, Do aparece a falar, no seu mosteiro. “No Vietname de hoje não somos livres”, diz. “Somos prisioneiros no nosso próprio país. Prisioneiros de um regime que decide quem tem o direito de falar e quem é obrigado a calar-se. No momento em vos falo, encontro-me em prisão domiciliária no mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão. A polícia secreta vigia-me dia e noite e estou proibido de viajar. Tenho sido vítima da repressão do regime comunista desde 1975. Não tenho receio de nada por mim, porque sei que estou a lutar pela causa justa, pela verdade. Não temos partidos de oposição, não temos liberdade de imprensa, não temos sindicatos livres, não temos sociedade civil. Todas as religiões independentes foram proibidas. Todos os cidadãos que reclamam reformas políticas, democracia e o respeito dos direitos humanos são imediatamente presos. Devemos ter pluralismo, o direito de realizar eleições livres, de escolher o sistema político que queremos, de gozar as liberdades democráticas, em suma, o direito a moldar o nosso próprio futuro, de moldar o destino da nossa nação. Há 32 anos que nos dirigimos aos outros países. O que esperamos é que vocês, estrangeiros, ouçam o nosso apelo.”

terça-feira, abril 28, 2009

Tortura nunca mais

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 28 de Abril de 2009
Crónica 13/2009

Seria um erro pensar que a recente febre de transparência compensa por si os desvios totalitários da anterior presidência

Nas últimas semanas, os americanos redescobriram que a Administração Bush autorizou o uso da tortura nos interrogatórios de prisioneiros suspeitos de pertencer a redes terroristas. Os americanos redescobriram também que a mesma Administração, através do próprio Presidente e do vice-presidente Dick Cheney, suspendeu princípios básicos do direito, como a presunção de inocência, e retirou àqueles mesmos prisioneiros o direito de defesa e o direito a um julgamento justo, além de os submeter a outros atropelos, como mantê-los em prisões secretas, de localização desconhecida para os próprios e seus familiares, de forma não só a poder negar a sua existência mas também numa tentativa algo infantil de os subtrair à protecção conferida pela lei americana ("Lei americana? Mas eles não estão numa prisão americana!")
Os americanos redescobriram tudo isto, porque há anos que já sabiam tudo isto. Os mais distraídos já o sabiam pelo menos há cinco anos. E os mais atentos já o sabiam desde o final de 2002 - através de relatos publicados na primeira página dos grandes jornais nacionais.
A imprensa americana tem coberto nos últimos anos, com apreciável profundidade, a vergonha das prisões secretas, das transferências ilegais de prisioneiros (os "voos da CIA") através de países com governos de escrúpulos flexíveis (como Portugal), da tortura que George W. Bush baptizou com o eufemismo "conjunto de procedimentos alternativos de interrogatório", num discurso famoso em 2006, e que outros chamaram "métodos reforçados" e coisas semelhantes.
É um mérito da democracia americana que tudo isto esteja a ser revisitado, que investigações estejam a ser levadas a cabo e os seus resultados publicados, que a imprensa esteja a aprofundar os dossiers, que muitos documentos estejam a ser desclassificados para poderem ser apreciados pelos cidadãos - americanos e do resto do mundo - que se viram involuntariamente envolvidos nesta vergonhosa operação. Como é um mérito do Presidente Obama o seu empenho em investigar e esclarecer este período negro da História americana - apesar do seu declarado empenho em que os Estados Unidos saibam "olhar para a frente", em vez de "olhar para trás".
É também um mérito do sistema que alguns congressistas considerem a criação de uma comissão "Verdade e Reconciliação" em nome do apuramento dos factos - independentemente das críticas que a sua proposta de amplas amnistias suscitou. E é também um inegável mérito da democracia americana que haja quem defenda a responsabilização criminal e o julgamento de todos aqueles que parecem ser culpados de crimes de guerra ou de promoção da tortura e do tratamento desumano de prisioneiros - com a sinistra figura de Dick Cheney à cabeça.

Quando se mencionam os horrores levados a cabo pela Administração Bush-Cheney em nome da "Guerra contra o Terror" e se listam os atentados conscientemente praticados por esta contra a liberdade, contra a democracia, contra o direito, há sempre quem sublinhe a vitalidade de uma democracia que permite que estes podres sejam, apesar de tudo, investigados e submetidos ao escrutínio do povo. Reconheço, sem qualquer reserva mental, essa vitalidade.

Seria, porém, um grave erro considerar que, de alguma forma, esta vitalidade democrática e esta recente febre de transparência e responsabilização compensam os desvios totalitários da anterior presidência americana, como se Obama compensasse Bush, como se a simples existência do primeiro resgatasse os crimes do segundo e pudéssemos ir dormir de novo descansados, depois deste jogo de soma zero. As vítimas de Bush - que são, antes de mais, os cidadãos americanos - merecem mais. Merecem justiça.

A vitalidade democrática do povo americano só será comprovada - e a sua democracia reavivada - se as investigações prosseguirem de forma independente, forem levadas até ao fim e se forem responsabilizados os culpados. A começar por cima, pelos que deram as ordens, pelos que mudaram clandestinamente as leis para que a tortura se tornasse admissível. Jornalista (jvm@publico.pt)