sexta-feira, maio 15, 2009

Página de Rosto - Jean Johnson: Isto não é uma escola!

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 15 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13


Jean Johnson, professora (Reino Unido)


Jean Johnson não hesita quando lhe pergunto se gostava da escola quando era miúda. “Odiava”, atira no seu tom definitivo. “Odiava a escola. Porquê? Por tanta coisa... Por tudo. Eu era esperta mas não encaixava, não tinha um grupo, não andava com a malta... Os meus colegas chamavam-me nomes… A única maneira que encontrei de enfrentar a coisa foi baixar a cabeça e mergulhar no estudo. O que não foi a maneira mais agradável de atravessar aquele período.”

Hoje, Jean Johnson, 57 anos, com um longo currículo de professora atrás de si, dirige aquele que é, segundo muitos especialistas, um dos mais inovadores e bem sucedidos programas de educação para alunos inadaptados, o Notschool, no Reino Unido. E a sua experiência de aluna inadaptada – que não a impediu de se transformar numa profissional particularmente bem sucedida e com uma reputação planetária – ajuda-a a compreender os problemas que enfrentam os 800 alunos que o programa tem neste momento. O nome de Notschool diz tudo, mas vale a pena explicar. Notschool não é uma escola. E se alguém não gosta da escola… tem boas razões para gostar de Notschool.

Notschool não tem mesmo nada a ver com a escola. A escola tem um edifício? Notschool não tem. Ou melhor: tem instalações no Essex, uns 50 quilómetros ao norte de Londres, que é onde trabalha o escasso staff de uma dezena de pessoas, mas os alunos não têm de lá ir. Os alunos estão em sua casa e trabalham através do computador. A escola tem aulas? Notschool não tem. A escola tem horário? Notschool não tem. Há alunos que passam o dia a fazer o que lhes apetece e só se ligam à noite. E há muitos que se ligam de manhã e à noite e aos fins-de-semana, principalmente nos períodos de maior actividade. A escola tem de seguir um currículo nacional, igual para todos os alunos? Notschool não tem um currículo definido. Nem disciplinas. Nem assuntos obrigatórios. E cada aluno faz o que lhe apetece. Literalmente.

Aliás, em rigor Notschool nem tem “alunos” nem “professores” – mas isso é apenas um truque para sublinhar como a cultura desta não-escola é diferente da cultura das escolas comuns. E para evitar que os nomes habituais sugiram coisas tristes aos utilizadores. Os estudantes aqui têm entre 13 e dezasseis anos e são chamados “investigadores” (“researchers”) e aqueles que noutras escolas são professores aqui são “mentores”. E depois há “peritos” e “amigos” (“experts” e “buddies”), em geral estudantes universitários que dão apoio aos alunos no que for preciso. Além de especialistas que trabalham em instituições como o Science Museum de Londres ou o World Wildlife Fund ou a BBC, que ajudam nas suas áreas de especialidade.

Como funciona um “ano lectivo”? Quando entram no programa os alunos recebem um computador, acesso de banda larga à Internet, uma máquina fotográfica digital, um scanner e ouros equipamentos digitais e recebem a necessária formação técnica para trabalhar com tudo aquilo. Depois, escolhem assuntos que lhes interessam e são ajudados pelos mentores a desenvolver um percurso – pode ser um projecto que visa atingir um dado objectivo final, pode ser apenas a exploração de uma dada área. Que áreas aparecem nas preferências dos alunos? Pode ser desenho de animação, pode ser música, motas, maquilhagem ou chinês. Claro que, para aprofundar qualquer destas áreas é necessário adquirir competências de numeracia, literacia, relacionais, é preciso estudar e discutir, escrever e fazer projectos. Os mentores ajudam o “investigador” a fazer a sua investigação e tentam encontrar quem o possa ajudar nesse percurso. Ah! E os alunos podem entrar a qualquer momento do ano. Não há um ano lectivo.

“Os mentores têm de ser pessoas um pouco especiais”, explica-nos Jean Johnson, numa conversa telefónica. “Temos imensas candidaturas. Tenho sempre o mail cheio de candidatos de todo o mundo – e os nossos mentores são de facto de todo o mundo, do Reino Unido à Nova Zelândia e à China – mas há um processo de selecção bastante exigente. Em princípio preferimos pessoas com bastante experiência de ensino e em particular com experiência a lidar com miúdos difíceis, mas além disso é fundamental que sejam pessoas com experiência de vida, que tenham tido muitas e boas experiências. Isso é que é fundamental e isso é o mais difícil”.

Jean Johnson sabe por experiência como isso é importante para um professor. Nascida por acidente na Escócia (foi com uma semana para Inglaterra) devido às constantes deslocações do pai, profissional de aviação, passou a infância e a adolescência de cidade em cidade (“era difícil fazer amizades”) e quando acabou a faculdade (“Estudei sociologia porque o meu pai queria que eu fizesse medicina”) experimentou diversos empregos (uma empresa de camionagem, uma cervejeira, uma companhia de navegação) antes de se decidir pelo ensino. A razão da escolha? “Queria viajar e o ensino parecia-me uma boa escolha. Fiz uma pós-graduação em educação, estudei ensino do inglês como língua estrangeira e pensei que com isto ia poder viajar por todo o mundo, como eu queria”. Mas a sua experiência de vinte e cinco anos de ensino seguiu outro caminho.

Johnson começou a envolver-se na utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na escola, tendo participado em inúmeros projectos pioneiros na utilização da Web para a educação, tanto no Reino Unido como a nível internacional (Web for Schools, The Virtual Classroom, Learning in the New Millennium, Schools Online). “Tivemos resultados fantásticos em praticamente tudo o que fizemos e era muito fácil ensinar os alunos a passar exames – que é, no fundo, aquilo para que o sistema educativo está virado. Nas aulas fazíamos o que era preciso para que os alunos passassem os exames e depois disso dedicávamo-nos às coisas interessantes – e havia imensas coisas que interessavam os jovens”. Jean Johnson conta com paixão uma sessão de videoconferência que fez com os seus alunos e um grupo de alunos americanos, noa anos 90. “Nunca pensei que resultasse tão bem. Foi uma experiência fantástica, os alunos entusiasmaram-se imenso, Discutimos o ensino da religião, o Thanksgiving, um dos miúdos americanos cantou uma canção… foi fantástico”.

As experiências pioneiras de utilização de TIC na escola levaram-na para a colaboração com a universidade e a participação em projectos de investigação nessa área e, quando a Universidade Politécnica de Anglia decidiu lançar um novo projecto, particularmente ambicioso, convidou-a para o dirigir.

“De início ainda não era a Notschool”, conta, “ou não era a Notschool como ele é hoje. Chamava-se Online Curriculum for Disaffected Teenagers [algo como Currículo Online para Jovens Rebeldes] e era basicamente um programa de distribuição de conteúdo online”. Só que Johnson já sabia algo que muita gente demorou muito tempo a aprender sobre a Internet: a solução tinha de passar pela criação de uma rede, de uma relação, uma comunidade. Não bastava disponibilizar conteúdo online para que os miúdos com problemas aderissem. “Havia gente maravilhosa envolvida, pessoas da BBC, investigadores da universidade, cientistas com cérebros do tamanho de um planeta, mas não era isso que ia fazer com que os miúdos aderissem.” Jean Johnson tentou durante um mês levar à prática o modelo que tinha sido desenhado, mas era inútil. E foi falar com os miúdos para tentar descobrir o que faltava. O que faltava era a comunidade, os amigos, a envolvência.

“Os miúdos vão à escola basicamente para falar aos amigos”, diz Johnson. “E vão lá porque se sentem seguros. O que era preciso era recriar online essa rede de amigos e garantir essa segurança. Aí podemos ter a coesão que existe na escola e podemos começar a fazer alguma coisa”. Foi assim que nasceu o Notschool, em 2000, que Johnson descreve sempre como “uma comunidade de pessoas que aprendem”.

Mas não se cria uma comunidade de um dia para o outro e as coisas não funcionaram bem logo de início. “É preciso escala. É como quando vamos a uma festa e há cinco pessoas. Temos vontade de ir embora, não nos sentimos à vontade. Se estiverem mais e se conhecermos alguns já ficamos. Online é a mesma coisa, é preciso atingir uma certa escala, precisamos de uma atenção personalizada e de diversidade, de pessoas diferentes”. Passados oito meses a Notschool tinha 98 pessoas e estava lançada. Desde aí não parou de crescer. Em 2004 transformou-se numa fundação e hoje consegue manter as contas equilibradas graças aos pagamentos do Estado – o Estado paga a todas as escolas um tanto por aluno e nisso a Notschool é igual às outras – e a alguns apoios de empresas.

Os jovens que estão na Notschool são aqueles para quem esta é a última oportunidade. “São miúdos que estão fora do sistema há muito tempo e que são incapazes de voltar, para quem a escola não é uma alternativa. São miúdos excluídos, fóbicos, violentos, vítimas de abusos, de violências sexuais, que estão no programa de protecção de testemunhas, doentes com fibrose cística ou com cancro”. Mais de 70 por cento foram vítimas de bullying, devido a problemas relacionais, dislexia, epilepsia, outras razões. Mas o Notschool não recebe todos os miúdos que têm problemas na escola. “Há pais que nos ligam porque o filho quer mudar de escola. As coisas não funcionam assim”, diz Johnson.

Um relatório britânico recente estimava em 100.000 o número de crianças e jovens que deviam estar inseridos no sistema de ensino – que, em teoria, estão a estudar – mas que de facto já o abandonaram.

Num documentário de promoção do projecto Jean Johnson explica que o objectivo da Notschool não é uma certificação. “O que nos guia são os estudantes, as suas necessidades. O que nós fazemos é pegar na aprendizagem que a criança fez e ver o que ela pode fazer com isso, onde é que pode chegar e a que é que corresponde no quadro actual de qualificações. E quando fazemos isso e elas seguem para o ensino superior constatamos que eles se transformaram em estudantes independentes e competentes nos campos que escolheram, que possuem competências em termos de numeracia e literacia e, frequentemente, são muito talentosos e criativos”.

O objectivo poderá não ser a certificação, mas mais de 50 por cento dos miúdos que saem da NotSchool obtêm algum tipo de acreditação e 70 por cento prosseguem para o ensino superior ou ensino tecnológico. O que prova algo que Jean Johnson gosta de dizer: "Penso que toda a gente quer aprender alguma coisa. O que precisamos de fazer é descobrir o quê”.

sexta-feira, maio 08, 2009

Página de Rosto - Pete Seeger, um banjo contra o ódio

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 8 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 8



Pete Seeger, músico (Estados Unidos)

Pode parecer estúpido, mas penso que o mundo tem uma grande dívida para com Pete Seeger. A mesma dívida que tem para com tantos outros dos seus artistas, é verdade, mas uma dívida, mesmo assim. E que é do mundo em geral – ou pelo menos daquele onde chegou a sua música e o impacto do movimento pelos direitos cívicos nos Estados Unidos dos anos 60, o que quer dizer uma grande parte dele.

Falo da música de Pete Seeger e da luta pelos direitos cívicos na mesma frase porque não é possível separar uma da outra. É impossível imaginar as suas canções sem essa razão e esse sentimento, é impossível imaginar aquelas vagas de mobilização, de reivindicação, de solidariedade, de coragem, de emoção, de juventude, de amor da liberdade e de sonho de um mundo melhor sem os hinos de Pete Seeger. Porque muitas das suas canções são os hinos da liberdade que uma geração inteira aprendeu a cantar – na América e no mundo. E se a América ainda merece um lugar especial no coração de tanta gente, é antes de mais por causa de momentos como esses, onde a liberdade parecia estar a ser inventada de novo do outro lado do Atlântico e onde os males do mundo pareciam estar à beira de ser resolvidos.

Pete Seeger comemorou 90 anos no domingo passado, a 3 de Maio, e participou num concerto-festa no Madison Square Garden de Nova Iorque, onde cantou e tocou todos os seus velhos êxitos com um entusiasmo e um vigor que surpreenderam os que lhe tinham perdido o rasto nos últimos anos. A sua voz já não é aquele tranquilo tenor serpenteante e sedutor dos anos 60 e 70, mas o simples facto de ainda conseguir cantar, tocar o banjo e aguentar a pressão de um grande espectáculo não pode deixar de se considerar notável. No concerto participaram muitas dezenas de amigos, entre os quais os velhos Joan Baez e Arlo Guthrie e o apenas ligeiramente mais novo Bruce Springsteen – responsável, com o seu disco We Shall Overcome: The Seeger Sessions, de Abril 2006, por uma vaga de redescoberta da música de Seeger.

Entre os menos-de-50-anos é raro quem saiba quem seja Pete Seeger. O nome soa familiar, mas a maioria não se lembra porquê. Mas as canções, essas, toda a gente continua a reconhecê-las, ainda que, nalguns casos, a versão que vem à memória seja a de outros intérpretes (“Ah, não era a Marlene Dietrich que cantava esta?”. Também era. Marlene gravou We Shall Overcome em inglês, francês e alemão). E muitos outros cantaram Where have all the flowers gone, Amazing Grace, If I Had a Hammer, This Little Light of Mine…

We Shall Overcome, que Seeger celebrizou mas não compôs (a letra é de um gospel com cem anos, baseada numa velha canção de escravos, a música é de um hino religioso com raízes no século XVIII), tornou-se o verdadeiro hino dos direitos cívicos e foi cantado em milhares de protestos e desfiles, às vezes com alterações na letra, para a adaptar às circunstâncias. Os seguidores de Martin Luther King, durante as jornadas de luta contra a segregação – onde Seeger esteve sempre activamente, desde antes do primeiro momento – juntaram-lhe os versos “we will walk together, someday, black and white together, someday".

Muitas das canções de Seeger, como esta, possuem letras de uma simplicidade desarmante, que lhes dão uma força insuspeita. Imaginam o que deve ter sido estar nos degraus do Lincoln Memorial em Agosto de 1963, durante a Marcha de Washington, e ouvir We Shall Overcome cantado por duzentos mil manifestantes? Ou ouvir a canção, com o acrescento de um verso improvisado (“We are not afraid… We are not afraid, today”) cantado por um grupo de jovens manifestantes negros arrebanhados pela polícia e obrigados a deitar-se no chão? Hoje parece simples e inócuo mas houve pessoas que morreram, no nosso tempo, para que uma pessoa negra pudesse andar de mão dada com uma branca.

O significado do gospel é um pouco diferente quando é cantado numa manifestação contra o apartheid e os cenários das canções de Pete Seeger eram quase sempre dessa índole: protestos contra a segregação racial nas escolas e no trabalho, manifestações contra a brutalidade da polícia, reivindicação de igualdade perante a lei, salário mínimo, segurança no trabalho, direito à greve… De outras vezes concertos para recolha de fundos para apoiar greves, concertos de solidariedade por esta ou aquela causa.

A mensagem política adquiria uma força inimaginável à boleia destas letras espirituais (Seeger é crente), destas frases simples e incontestáveis, de uma verdade evidente, sempre sublinhando a força da razão, a não-violência, a liberdade e a igualdade. E imaginam um protesto de estudantes, brancos e negros, cantando em conjunto o clássico folk de Woody Guthrie (amigo e mestre de Pete Seeger) “This land is your land, this land is my land/This land was made for you and me”? Haverá melhor símbolo de empowerment?

A mensagem gravada no banjo de cinco cordas e braço extralongo, que se transformou na marca registada de Seeger, diz tudo: “This machine surrounds hate and forces it to surrender” (Esta máquina cerca o ódio e força-o a render-se). A frase é uma marca da influência de Guthrie, que tinha escrito na sua viola "This machine kills fascists” (Esta máquina mata fascistas). Seeger adoçou-o ao sabor da sua música e da sua vida.

Pete Seeger nasceu em Manhattan, numa família da classe média, filho de pais músicos (ele, musicólogo; ela, violinista), ambos professores na famosa Juilliard School de Nova Iorque. Os pais proporcionaram-lhe uma formação musical sólida mas relativamente livre e tentaram que Pete se dedicasse à música clássica, mas o género não o atraía especialmente. Aos dezasseis anos, num festival de música, ouviu o banjo de cinco cordas e ficou apaixonado pelo instrumento, que nunca mais deixou – apesar do seu gosto pela guitarra de doze cordas, outra preferida, e dos muitos outros instrumentos que toca episodicamente. O seu livro How to Play the Five-String Banjo, publicado em 1948, continua a ser considerado uma referência.

Seeger conseguiu uma bolsa para Harvard (onde foi colega de John Kennedy), decidido a estudar sociologia e a tornar-se jornalista, mas os estudos não o entusiasmaram e deixou a universidade para viajar pelos Estados Unidos, desenhando pelo caminho (uma paixão de sempre) e fazendo música. Foi nessa viagem pelo país que conheceu Woody Guthrie, com quem criou em 1940 os Almanac Singers, grupo de cantores-activistas itinerantes que apoiava com a sua música os movimentos sindicalistas. Durante a Segunda Guerra Mundial cantou para entretenimento das tropas e depois de sair do exército criou o People's Songs, Inc., uma associação de músicos dedicada a apoiar movimentos sindicais e preocupada com a recolha e reabilitação da música folk. Em 1948 fundaria outro grupo, os Weavers, que conheceria uma fama comercial considerável.

Em parte por influência do pai, comunista convicto, um entusiasta que acreditava que a música devia ser posta ao serviço do povo e da transformação social, Pete Seeger aderiu com 17 anos à Liga Comunista da Juventude e seis anos depois ao Partido Comunista dos EUA. Muito mais tarde, já nos anos 90, diria que começou a afastar-se do partido nos anos 50 (o pai saiu em 1938), ao tomar conhecimento das atrocidades cometidas por Estaline, mas a fama de “estalinista” manter-se-ia colada ao seu nome por muitos anos, alimentada frequentemente por conservadores que o criticavam por defender a liberdade nos EUA e a ditadura na URSS.

Forçado a testemunhar durante o McCarthyismo perante a Comissão de Actividades Anti-Americanas, em 1955, Pete Seeger recusou-se a responder às perguntas, a acusar fosse quem fosse e a invocar a Quinta Emenda – o que daria origem a uma condenação a um ano de prisão, que seria revogada e que nunca cumpriu.

“Gosto de dizer que sou mais conservador que Goldwater”, disse numa entrevista dada ao New York Times em 1995. “Ele só quer voltar ao tempo em que não havia imposto sobre o rendimento. Eu gostava de voltar ao tempo em que as pessoas viviam em aldeias e tomavam conta umas das outras”. Sobre Estaline, na mesma entrevista, lamenta “ter seguido a linha do partido como um carneiro” e “não ter percebido que Estaline era um dirigente supremamente cruel”. Em 2007, escreveria uma canção condenando explicitamente o líder soviético, Big Joe Blues ("I'm singing about old Joe, cruel Joe”). Demasiado tarde, disseram alguns.

Se há um fio condutor na mensagem das músicas de Seeger, esse fio é a paz, a não-violência, o respeito pelos outros e pela natureza, a solidariedade entre todos os seres humanos, a recusa de todas as segregações e a defesa da justiça social, da dignidade humana. Além, claro, da fé no poder da música como forma de unir as pessoas. Não há concerto de Seeger em que não diga às pessoas para cantarem consigo. Seeger não gosta de cantar sozinho.

Hoje, Pete Seeger é uma lenda viva e um repositório de algumas das mais nobres lutas políticas do último século nos Estados Unidos: os direitos dos trabalhadores e em particular o direito à greve, os direitos cívicos e em particular o fim da segregação racial – Seeger cantou This Land Is Your Land depois da tomada de posse de Obama –, a luta contra o McCarthyismo e pela liberdade de associação, a oposição à guerra do Vietname e a todas as formas de agressão internacional e a defesa do ambiente – que nos últimos anos se tornou a sua causa de eleição. Não é mau para 90 anos.

terça-feira, maio 05, 2009

Da utilidade de chamar nomes feios

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 5 de Maio de 2009
Crónica 14/2009


A tradição manda que se baptize uma doença com o nome da região onde foi descoberta ou com o nome do descobridor

Sempre houve pessoas a indignar-se com os nomes que se dão às coisas novas. E entre nós, em particular, a indignar-se quando esses nomes que se dão são estrangeiros. Lembro-me de quando se começou a falar de marketing em Portugal e de como havia pessoas que ficavam apoplécticas perante o barbarismo. Então não havia palavras portuguesíssimas que podiam ser utilizadas em substituição? Palavras como "comercialização" ou "publicidade" ou "vendas" ou lá o que era que aquilo era? E quando alguém referia que o problema era que se tratava de um conceito novo, que nenhuma palavra existente em português traduzia em toda a sua riqueza, havia sempre alguém a sugerir que então inventássemos também uma expressão nova portuguesa para essa coisa nova, como "comercializarização" ou "técnicas de vendas Mendes".

Aí era preciso explicar (com tacto) que aquela coisa que eles chamavam "marketing" não tinha sido inventada em Portugal nem tinha sido inventada pelo Mendes, mas sim por uns senhores na América que lhe tinham chamado como muito bem tinham querido e que... eles estavam no seu direito.

A contestação lusitana continuou nos anos seguintes a ser alimentada por vagas de palavras inglesas na música, na cultura popular, na tecnologia e na gestão e conheceu vários clímaxes, tendo um dos mais vivos sido causado pelo software e ao hardware, só recentemente digeridos através de naturalização.

De cada vez que isso acontecia era preciso explicar que, se os portugueses queriam dar nomes portugueses às coisas, o melhor era começar a inventá-las ou pelo menos a disseminá-las no mundo, pois essa era a regra do jogo. E a melhor prova era o facto de os italianos terem espalhado pelo planeta os seus adagios e staccati além dos seus tutti-frutti, os franceses as suas cartes blanches, os seus pliés relevés e os seus soufflés, os alemães o seu Gestalt e a sua Angst, os suecos o seu (inglesado) ombudsman e os portugueses terem deixado na língua inglesa o cuspidor em 1735 (o inglesíssimo spittoon só aparece em 1823, certamente num arroubo de nacionalismo, inverso ao que, em Portugal, faria Rafael Bordalo Pinheiro colocar John Bull no fundo dos mesmos escarradores e penicos por alturas do Ultimato).

Mas a questão é que o baptismo de uma coisa nova é um direito do seu criador ou descobridor - e um direito que serve de assunção da responsabilidade, para o bem e para o mal, o que significa que também podemos falar aqui de um dever.

A gripe que assusta o mundo começou por se chamar "suína" mas a designação - imprópria a partir do momento em que ela se torna humana - seria sempre abandonada por pressão dos criadores de porcos, preocupados (com toneladas de razão) com a sua imagem. A tradição manda que se baptize a gripe (ou outras novas doenças) com o nome da região onde primeiro foram descobertas ou com o nome do seu descobridor ou investigador. No segundo caso (Alzheimer) trata-se de uma honra, ainda que algo dúbia. No segundo, de uma distinção odiada (alguém quer dar um mergulho no rio Ebola?). Não tendo grande sentido falar de descoberta de um novo subtipo de um vírus da gripe, seguiu-se a regra geográfica e chamou-se-lhe "gripe mexicana". Mas os mexicanos não gostaram, conseguiram reunir suficientes vozes politicamente correctas e finalmente a OMS propôs a designação A H1N1 - depois de se ter brevemente considerado a "gripe norte-americana". A questão é que a designação geográfica, com o seu labéu, serve uma finalidade: como ninguém quer ter uma doença horrível baptizada com o nome do seu país, pode ser que isso constitua um incentivo para a prevenção. É que existem medidas de prevenção, nomeadamente no que diz respeito às explorações pecuárias (porcos e aves) - ainda que não sejam cem por cento eficazes para prevenir uma epidemia. Ou será que a responsabilidade dos países e das instituições só é importante quando se trata de colher louros? Jornalista (jvm@publico.pt)

sexta-feira, maio 01, 2009

Página de Rosto - Thich Quang Do, 80 anos pela paz


por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 1 Maio 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 14


Thich Quang Do, monge budista (Vietname)

O rosto, emoldurado por uma rala barba branca, não permite quaisquer dúvidas: é um monge budista. Um rosto tão característico que não pode deixar de evocar as composições que o cinema nos costuma oferecer. Lembram-se do mestre de Caine, no mosteiro Shaolin, na série de televisão Kung Fu dos anos 70? Thich Quang Do podia ter feito o papel na perfeição, apesar de ser vietnamita e não chinês.

Só que, por trás da tranquilidade deste olhar que exala uma calma confiança, da dignidade da pose, da determinação que ela denuncia, os olhos pequenos brincam e fecham-se frequentemente, ao mesmo tempo que a boca se rasga num sorriso. Às vezes quando fala de coisas terríveis, das suas inúmeras prisões, da falta de democracia no seu país. Um sorriso que vem da sua inabalável certeza de que tudo isso passará e que, um dia, os vietnamitas poderão viver em liberdade e em segurança, poderão escolher os seus líderes políticos e dizer o que pensam sem receio de represálias.

Thich Quang Do tem hoje 80 anos e viveu mais de trinta sob prisão – nas piores enxovias ou em prisão domiciliária – e conheceu a repressão durante toda a vida. Repressão oriunda de diferentes regimes, de direita e de esquerda, primeiro no Vietname do Norte, onde nasceu; depois no Vietname do Sul, para onde fugiu em 1954; e depois de 1975 no Vietname unificado, sob regime comunista. A razão? A exigência de democracia, de pluralismo político, de liberdade religiosa, de liberdade de expressão, de respeito pelos direitos humanos, uma constante actividade em prol dos mais pobres, uma infatigável denúncia pública – em reuniões, artigos, manifestos, petições – dos atropelos aos direitos humanos, dos abusos da polícia, da tortura, das prisões arbitrárias, da miséria. Sempre no respeito dos mandamentos budistas, respondendo à violência com protestos pacíficos, tentando mostrar aos seus carrascos os seus erros, com a desarmante convicção e a infinita paciência dos homens abençoados pela verdadeira fé.

Do nasceu em 27 de Novembro de 1928 e tornou-se monge aos 14 anos mas, segundo o próprio conta num relato autobiográfico, a sua vida só começou às 10 da manhã do dia 19 de Agosto de 1945, quando o poder colonial francês foi derrubado pelas forças revolucionárias comunistas no Vietname do Norte. Foi nesse dia que aprendeu como a violência mais brutal se pode abater sem sentido sobre os mais inocentes e como os homens são capazes dos mais terríveis requintes de crueldade.

“Eu tinha só 17 anos”, conta Do. “Nesse dia, vi o meu mestre, o muito venerável Thich Duc Hai, superior do pagode Linh Quang, ser executado pelas forças comunistas. Amarraram-lhe as mãos atrás das costas com arame farpado e penduraram-lhe ao pescoço dois cartazes: num deles, sobre o peito, estava escrito ’Traidor vende-pátrias’. No outro, sobre as costas, ‘Colaboracionista’. Ele estava no meio de uma multidão armada com paus e lanças, foices e ancinhos. Outro grupo de homens, que se intitulavam ‘juízes’ do tribunal popular, estava numa plataforma e conduzia o julgamento. Ordenaram ao meu mestre que se ajoelhasse e que baixasse a cabeça enquanto eram lidas as acusações contra ele. Ele recusou-se a obedecer. Um dos ‘juízes’ desceu da plataforma, postou-se à sua frente e disse-lhe ‘Tu és um traidor e não tens o direito de ser teimoso’. Começou a bater-lhe na cara até que a sua boca ficou cheia de sangue. O sangue pingava no cartaz que lhe cobria o peito. Condenaram o meu mestre à morte. Levaram-no para o campo frente à casa da aldeia. O sangue pingava sobre a sua roupa e no chão. Obrigaram-no a deitar-se e um dos homens deu-lhe três tiros na cabeça. Saiu um jorro de sangue e o meu mestre morreu. O sangue cobria a sua cara, a sua roupa, as suas pernas, a terra onde ele estava deitado, os cartazes que lhe penduraram ao pescoço. A imagem do meu mestre caído numa poça de sangue, imóvel, com as mãos atadas atrás das costas, ficou gravada para sempre na minha memória. Ainda a recordo como se fosse ontem”.

O crime de Thich Duc, oficialmente causado de ser um agente japonês, foi ter montado uma operação de auxílio para distribuir alimentos aos camponeses que estavam a ser vitimados por uma terrível fome.

“Quantos mais inocentes não terão sido mortos em nome da revolução durante estas sanguinárias campanhas de luta?” pergunta Do.

“Foi nesse dia que tomei a decisão que iria determinar o curso da minha vida. Nunca iria aceitar a violência, a crueldade, o ódio, a discriminação, por muito nobres que parecessem ser as causas que defendessem tudo isso. Naquele dia e naquele sítio, jurei que iria fazer tudo o que pudesse para combater o fanatismo e a intolerância e que iria dedicar a minha vida ao combate pela justiça, seguindo os ensinamentos budistas da não-violência, da tolerância, da compaixão. Nunca lamentei esta decisão. Mas não fazia ideia que este simples voto me iria levar ao longo de um caminho marcado pela prisão, pela tortura e pelo exílio durante tantos anos. Estive preso por vários regimes políticos e depressa aprendi que todos os tiranos receiam a verdade e que temos de estar dispostos a pagar o preço – por vezes um preço elevado – para defender as ideias e os valores nos quais acreditamos”.

As memórias de Do estão recheadas de histórias de horror como a execução do seu mestre. Um ano depois, em 1946 um irmão religioso do seu mestre foi também preso e morreu na prisão. Um mentor do seu mestre suicidou-se para não ser preso e torturado.

Em 1963, ainda durante o brutal regime do presidente Ngo Dinh Diem, no Vietname do Sul, Thich Quang Do foi preso na sequência de protestos organizados contra a morte de manifestantes budistas que agitavam bandeiras comemorativas para celebrar o nascimento de Buda, em Maio desse ano. O exército de Diem – que era um católico fanático, cujos antepassados tinham sido educados por missionários portuigueses, e que seria assassinado num golpe nesse mesmo ano – disparou sobre a multidão, causando muitos mortos e feridos.

Foi poucos dias depois, em 11 de Junho de 1963, que o monge Thich Quang Duc se imolou pelo fogo, numa rua de Saigão, em protesto contra a perseguição de que os budistas eram alvo. As fotografias do sacrifício, do jornalista americano Malcolm Browne – que ganharam o prémio World Press desse ano –, chamaram a atenção do mundo, mas a perseguição continuou.

Thich Quang Do foi preso e barbaramente torturado. “Lembro-me de ter de gatinhar quando saía da cela para ser interrogado, porque não me conseguia pôr de pé”. Mesmo assim, entre sessões de tortura, traduzia para vietnamita artigos de jornais estrangeiros em inglês que lhe eram trazidos clandestinamente, para manter informados os dissidentes da atenção que a sua luta merecia a nível internacional. O inglês tinha-o aprendido durante a sua formação universitária, feita em parte na Índia e no Sri Lanka.

Durante a guerra do Vietname, a Igreja Budista Unificada do Vietname (UBCV, na sigla inglesa), de que Do era um dos dirigentes, manifestou-se activamente contra as hostilidades.

Depois do fim da guerra e da unificação, o seu ciclo de prisões recomeçou, deste vez sob o regime comunista. Em 1977 foi preso em conjunto com outros dirigentes budistas, na sequência de um manifesto em defesa da liberdade religiosa e da sua igreja. ”Mantiveram-me fechado durante vinte meses numa cela de isolamento, com 90 centímetros de largura e 1,9 metros de comprimento. Havia um postigo com o tamanho da minha mão, que abriam só para me passar a comida. Para além disso, estava sempre fechada e era difícil suportar o ar abafado”.

Foi torturado de novo e tentaram obrigá-lo a confessar que trabalhava para a CIA. Quando foi levado a tribunal tudo o que puderam fazer foi acusá-lo de perturbar a ordem pública. Foi libertado, mas os trinta anos seguintes foram de prisão quase permanente, até à actualidade. Mesmo quando as autoridades lhe garantiam que estava livre, polícias colocados em torno do mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão, onde ainda vive, impediam-lhe a saída. Ou a entrada de visitantes que o queriam ver, como aconteceu com o deputado europeu Olivier Dupuis, que o tentou visitar em 2001, na sequência de uma das suas muitas prisões arbitrárias, sem julgamento, e que foi impedido de o fazer. De 1982 a 1992 foi condenado ao exílio interno, numa região particularmente fria e húmida, em condições horríveis, e a sua mãe, de 84 anos, foi condenada a acompanhá-lo. A mãe morreria em 1985, de frio e de fome. Pouco depois de regressar do exílio publicou um manifesto pela liberdade religiosa e condenando a perseguição da UBCV, que o levou de novo à cadeia.

Muitas dessas prisões têm como argumento a simples existência da sua igreja – que Hanói não reconhece, pois criou uma igreja budista oficial, a Igreja Budista do Vietname (VBC), dirigida por uma estrutura controlada pelo Estado, à qual tenta obrigar todos os monges a aderir. Outras devem-se a protestos em prol da democracia.

Thich Quang Do já foi nomeado várias vezes para o Nobel da Paz. Este ano havia quem jurasse que o Nobel iria para um dos dissidentes chineses (Hu Jia e a sua mulher Zeng Jinyan, ou Wei Jingsheng) ou para Do – mas todas estas hipóteses provocariam o desagrado da China, amiga do regime de Hanói.

Num vídeo gravado clandestinamente em 2007, disponível no YouTube, Do aparece a falar, no seu mosteiro. “No Vietname de hoje não somos livres”, diz. “Somos prisioneiros no nosso próprio país. Prisioneiros de um regime que decide quem tem o direito de falar e quem é obrigado a calar-se. No momento em vos falo, encontro-me em prisão domiciliária no mosteiro Thanh Minh Zen, em Saigão. A polícia secreta vigia-me dia e noite e estou proibido de viajar. Tenho sido vítima da repressão do regime comunista desde 1975. Não tenho receio de nada por mim, porque sei que estou a lutar pela causa justa, pela verdade. Não temos partidos de oposição, não temos liberdade de imprensa, não temos sindicatos livres, não temos sociedade civil. Todas as religiões independentes foram proibidas. Todos os cidadãos que reclamam reformas políticas, democracia e o respeito dos direitos humanos são imediatamente presos. Devemos ter pluralismo, o direito de realizar eleições livres, de escolher o sistema político que queremos, de gozar as liberdades democráticas, em suma, o direito a moldar o nosso próprio futuro, de moldar o destino da nossa nação. Há 32 anos que nos dirigimos aos outros países. O que esperamos é que vocês, estrangeiros, ouçam o nosso apelo.”

terça-feira, abril 28, 2009

Tortura nunca mais

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 28 de Abril de 2009
Crónica 13/2009

Seria um erro pensar que a recente febre de transparência compensa por si os desvios totalitários da anterior presidência

Nas últimas semanas, os americanos redescobriram que a Administração Bush autorizou o uso da tortura nos interrogatórios de prisioneiros suspeitos de pertencer a redes terroristas. Os americanos redescobriram também que a mesma Administração, através do próprio Presidente e do vice-presidente Dick Cheney, suspendeu princípios básicos do direito, como a presunção de inocência, e retirou àqueles mesmos prisioneiros o direito de defesa e o direito a um julgamento justo, além de os submeter a outros atropelos, como mantê-los em prisões secretas, de localização desconhecida para os próprios e seus familiares, de forma não só a poder negar a sua existência mas também numa tentativa algo infantil de os subtrair à protecção conferida pela lei americana ("Lei americana? Mas eles não estão numa prisão americana!")
Os americanos redescobriram tudo isto, porque há anos que já sabiam tudo isto. Os mais distraídos já o sabiam pelo menos há cinco anos. E os mais atentos já o sabiam desde o final de 2002 - através de relatos publicados na primeira página dos grandes jornais nacionais.
A imprensa americana tem coberto nos últimos anos, com apreciável profundidade, a vergonha das prisões secretas, das transferências ilegais de prisioneiros (os "voos da CIA") através de países com governos de escrúpulos flexíveis (como Portugal), da tortura que George W. Bush baptizou com o eufemismo "conjunto de procedimentos alternativos de interrogatório", num discurso famoso em 2006, e que outros chamaram "métodos reforçados" e coisas semelhantes.
É um mérito da democracia americana que tudo isto esteja a ser revisitado, que investigações estejam a ser levadas a cabo e os seus resultados publicados, que a imprensa esteja a aprofundar os dossiers, que muitos documentos estejam a ser desclassificados para poderem ser apreciados pelos cidadãos - americanos e do resto do mundo - que se viram involuntariamente envolvidos nesta vergonhosa operação. Como é um mérito do Presidente Obama o seu empenho em investigar e esclarecer este período negro da História americana - apesar do seu declarado empenho em que os Estados Unidos saibam "olhar para a frente", em vez de "olhar para trás".
É também um mérito do sistema que alguns congressistas considerem a criação de uma comissão "Verdade e Reconciliação" em nome do apuramento dos factos - independentemente das críticas que a sua proposta de amplas amnistias suscitou. E é também um inegável mérito da democracia americana que haja quem defenda a responsabilização criminal e o julgamento de todos aqueles que parecem ser culpados de crimes de guerra ou de promoção da tortura e do tratamento desumano de prisioneiros - com a sinistra figura de Dick Cheney à cabeça.

Quando se mencionam os horrores levados a cabo pela Administração Bush-Cheney em nome da "Guerra contra o Terror" e se listam os atentados conscientemente praticados por esta contra a liberdade, contra a democracia, contra o direito, há sempre quem sublinhe a vitalidade de uma democracia que permite que estes podres sejam, apesar de tudo, investigados e submetidos ao escrutínio do povo. Reconheço, sem qualquer reserva mental, essa vitalidade.

Seria, porém, um grave erro considerar que, de alguma forma, esta vitalidade democrática e esta recente febre de transparência e responsabilização compensam os desvios totalitários da anterior presidência americana, como se Obama compensasse Bush, como se a simples existência do primeiro resgatasse os crimes do segundo e pudéssemos ir dormir de novo descansados, depois deste jogo de soma zero. As vítimas de Bush - que são, antes de mais, os cidadãos americanos - merecem mais. Merecem justiça.

A vitalidade democrática do povo americano só será comprovada - e a sua democracia reavivada - se as investigações prosseguirem de forma independente, forem levadas até ao fim e se forem responsabilizados os culpados. A começar por cima, pelos que deram as ordens, pelos que mudaram clandestinamente as leis para que a tortura se tornasse admissível. Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, abril 26, 2009

Página de Rosto - Lidia Yusupova: de Grozny, com coragem


por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 26 Abril 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 13



Lidia Yusupova, advogada, activista de direitos humanos (Rússia)


As candidaturas para o Nobel da Paz deste ano já fecharam. Geralmente, é até Fevereiro de cada ano que o Comité Nobel que escolhe o laureado com o prémio da Paz aceita nomeações. As que cheguem depois dessa data só serão consideradas para o prémio do ano seguinte. Os cinco membros do Comité, nomeados pelo Storting, o parlamento norueguês, precisam de tempo para avaliar as propostas. É em Fevereiro que o Comité reúne pela primeira vez para escolher o laureado do ano e as propostas devem estar todas em cima da mesa nessa altura. Há muitas entidades que podem enviar nomeações, de membros de governos a antigos laureados e o pacote de nomeados costuma rondar as duas centenas. E, como se imagina, existe um lobbying considerável, para convencer diferentes entidades a apresentar um mesmo nome, para apresentar os seus méritos à melhor luz, para convencer os membros do Comité da utilidade e da justiça de um dado prémio. Porque o Nobel da Paz é um instrumento político, que se pretende que não apenas reconheça os esforços de um indivíduo ou organização, mas que possa promover a causa da paz.

Mas se há lobbying para promover candidatos, também existem pressões para afastar nomes, que não são menores. Há prémios que valem antes de mais pela denúncia que fazem e que são espinhos cravados na garganta de poderosos.

O nome de Lidia Yusupova estará certamente entre os candidatos deste ano, como esteve nos anos anteriores, assim como a organização a que pertence, a Memorial, uma prestigiada organização russa de investigação histórica, criada em 1992, que faz o levantamento e denúncia de atentados aos direitos humanos.

Em 2006, quando a nomeação de Lidia (ou Lida) Yusupova para o Nobel da Paz foi noticiada pela imprensa, esta advogada, hoje com 47 anos de idade, que era então a responsável pela delegação da Memorial em Grozny, a capital da Tchetchénia, recebeu no seu telemóvel um telefonema de um homem, que falava tchetcheno, que lhe disse: “Então, está contente por saber que foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz? Mas sabe… para receber o prémio precisa de estar viva. Sabe o que seria melhor para si? Que deixasse de fazer o que está a fazer e que não ganhasse o prémio. Mesmo que viva até lá”.

A ameaça de morte surgia num contexto que lhe dava uma particular credibilidade: a jornalista Anna Politkovskaia tinha sido assassinada dias antes, quando entrava no elevador de sua casa, com vários tiros à queima-roupa, num típico assassinato contratado. Os responsáveis nunca foram identificados mas as suspeitas rondaram o Kremlin, os serviços secretos russos (mais ou menos por conta própria) e a clique dirigente tchetchena pró-russa. Três homens acusados de cumplicidade no crime de Politskaia chegaram a ser levados a tribunal, mas foram absolvidos – e nenhum deles tinha sido o assassino ou o mandante do crime. “As autoridades enviaram uma mensagem clara à sociedade civil russa”, disse na altura a organização Human Rights Watch. “Aqueles que se atreverem a criticar o governo podem ser mortos e os seus assassinos terão a sua impunidade garantida”.

Politkovskaia, como Yusupova – que colaborou inúmeras vezes com a jornalista, com quem mantinha uma estreita relação – tinha-se dedicado à causa da denúncia dos abusos dos direitos humanos na Tchetchénia, durante e depois da guerra, e escreveu artigos e livros que atacavam violentamente a presidência de Putin, a acção dos militares russos na Tchetchénia e os abusos cometidos por ambas as partes no violentíssimo conflito.
Yusupova sabia por isso que o aviso devia ser levado a sério. Mas, ainda que se tenha rodeando-se de precauções suplementares, a ameaça não a impediu de continuar o seu trabalho, investigando assassinatos e “desaparecimentos”, recolhendo depoimentos, acompanhando as vítimas ou aos seus familiares à polícia, ajudando-os a apresentar as suas queixas, fornecendo apoio jurídico e levando a tribunal acusações de violações dos direitos humanos. “Mais vale viver apenas um dia com honra, que degradada e humilhada toda a vida”, diria ao jornal norueguês Aftenposten dias depois. “Agora que a Anna [Politkovskaia] já não está connosco, temos de continuar o trabalho sozinhos”.
E este tem sido o mantra de Yusupova nos últimos anos.

Politkovskaia está longe de ter sido a única vítima mortal entre os que se atreveram a denunciar crimes e torturas cometidos pelo poder russo. A International Helsinki Federation for Human Rights relatava em 2006 que, só nos dois anos anteriores, tinham sido mortos na Rússia 13 militantes de organizações de defesa dos direitos humanos, seis tinham desaparecido e 19 tinham sido detidos e torturados. E a lista continuou a crescer. No início deste ano, o advogado de direitos humanos Stanislav Markelov, também envolvido na investigação de crimes praticados pelo exército e pelas autoridades na Tchetchénia, e a jornalista Anastasiya Baburova, que o acompanhava, foram assassinados na rua. Dias antes, o tchetcheno Umar Israilov, que tinha apresentado uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem contra o presidente tchetcheno pró-russo Ramzan Kadyrov, que acusou de o torturar, foi morto numa rua de Viena, onde vivia exilado. Há uma lista de crimes sem fim, praticados para evitar que outros crimes sejam trazidos à luz e investigados.

Lidia Yusupova sabe bem o que arrisca e não nega que tem medo, mas este é o rumo que decidiu dar à sua vida desde um dia do ano 2000, em Grozny, durante um bombardeamento russo contra a então república separatista tchetchena. Yusupova integrava então uma das muitas brigadas formadas por jovens e encarregadas de localizar e auxiliar as pessoas escondidas dos raides aéreos, levando-lhes alimentos e medicamentos. Num abrigo anti-aéreo Yusupova encontrou um grupo de crianças aterrorizadas e diz que nunca mais esqueceu a expressão de terror na sua cara. E decidiu dedicar a sua vida a lutar contra o medo e contra a violência que se exerce sobre os inocentes.
Lídia Yusupova nasceu em Grozny, na Tchetchénia, numa família de etnia russa. Começou por estudar literatura russa mas acabou por se licenciar em direito na Universidade Tchetchena de Grozny, a formação que se transformou na sua arma de eleição contra a arbitrariedade e a violência.

O seu trabalho na Memorial já lhe valeu duas distinções internacionais. Ao fim de três anos à frente da delegação de Grozny da Memorial, em 2004, Yusupova recebeu o prestigiado prémio Martin Ennals para defensores dos Direitos Humanos. E em 2005 conqusitou o prémio Thorolf Rafto de Direitos Humanos – que é considerado uma antecâmara do Nobel (quatro laureados ganharam previamente o Rafto). O prémio Martin Ennals tem o nome do primeiro secretário-geral da Amnesty International e é atribuído por um conjunto de dez ONG de defesa dos direitos humanos, entre as quais a mesma Amnesty International, a Human Rights Watch, a International Commission of Jurists e a World Organisation Against Torture.

A delegação da Memorial que Yusupova dirigia então era um pequeno escritório com apenas seis pessoas, onde muitas das vítimas de abusos dos militares ou das milícias tinham medo de bater à porta com receio de represálias das autoridades – o escritório chegou mesmo a ser atacado pelo exército –, o que obrigava Yusupova a deslocar-se pessoalmente aos locais dos crimes para recolher informações e instar as testemunhas a prestar declarações.

O prémio foi atribuído por unanimidade e o presidente do júri, no anúncio feito, onde sublinhou “os incansáveis esforços [de Yusupova] numa situação de guerra e de extremo perigo, onde as mulheres correm riscos acrescidos de violência”, considerou-a “uma das mulheres mais corajosas da Europa”.

O esforço da Memorial e a coragem de Yusupova eram (e são) tanto mais de sublinhar quanto o governo russo não se poupou a esforços para subtrair a guerra da Tchetchénia ao escrutínio internacional, proibindo o trabalho de organizações internacionais e impedindo as deslocações de observadores e jornalistas.

Hoje, a guerra da Tchetchénia – que Putin, astutamente, fez incluir na guerra global “contra o terrorismo”, apanhando a boleia de George W. Bush – acabou. O fim oficial da “operação contra-terrorista na Tchetchénia, que teve início em 1999, foi declarado há precisamente dez dias. Mas a situação está longe de estar pacificada. Há muitas feridas por sarar, milhares de mortes e desaparecimentos por esclarecer. “Todas as famílias tchetchenas estão traumatizadas” dizia Yusupova num depoimento citado pela Amnesty International. “Muitas famílias perderam dois ou três membros”.

Mas hoje são as “forças de segurança” do governo tchetcheno pró-russo, liderado pelo ditador Ramzan Kadyrov – “um homem cujos críticos são difíceis de encontrar”, diz o Los Angeles Times, “porque têm o hábito de desaparecer” -, que continuam a recorrer à tortura, às violações, às prisões arbitrárias, às execuções extra-judiciais, ao fogo posto a casas de oposicionistas. As violações, porém, ocorrem “numa menor escala”, segundo a Human Rights Watch.

As ONG humanitárias exigem que, agora que a situação oficial de guerra acabou na Tchetchénia, que os criminosos sejam levados à justiça e que as condenações do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sejam postas em prática. Mas ninguém parece alimentar esperanças sobre a questão, principalmente quando isso corresponderia a enfrentar Putin – o que ninguém na Europa parece querer. Seja como for, o papel de Lídia Yusupova continua a ser hoje tão fundamental como no passado.

E, quem sabe, se a Comissão Nobel norueguesa esquecer o peso de Putin e tiver a pequena coragem de pisar uns calos para pôr os direitos humanos à frente do gás natural, pode ser que reconheça este ano a grande coragem de Yusupova.

terça-feira, abril 21, 2009

O diabo seja surdo, cego, mudo e coxo

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 21 de Abril de 2009
Crónica 12/2009

Se a queixa tivesse chegado através de um meio menos modernaço, não teria servido para nada. Felizmente foi via Twitter

Os líderes parlamentares dos partidos representados na Assembleia da República decidiram por unanimidade excluir as expressões "autista" e "autismo" do léxico dos deputados. A decisão surgiu após uma discussão suscitada por uma mensagem enviada pela mãe de uma criança autista ao deputado socialista Jorge Seguro e o facto de essa mensagem ter sido enviada através do Twitter lançou um irreprimível frisson no meio de políticos e jornalistas. "A primeira decisão tomada no Parlamento devido ao Twitter", "Twitter alterou a Assembleia da República", "Twitter conseguiu mudar discurso da Assembleia da República", "Foi graças ao Twitter que os deputados deixaram de se chamar autistas uns aos outros no Parlamento", noticiaram, com diferentes graus de emoção, os media. E Jorge Seguro considerou este caso um "bom exemplo de como as novas tecnologias podem funcionar ao serviço da cidadania". Que emoção! Fica-se com a sensação de que, se a queixa ou sugestão tivesse sido enviada através de um meio menos modernaço, como o telefone ou o mail, não teria servido para nada. Ou de que, inversamente, se a sugestão tivesse sido no sentido de os deputados usarem todos chapéus engraçadas à sexta-feira, ela poderia ter sido aceite por ter sido enviada através de uma nova tecnologia que é ainda mais nova do que outras novas tecnologias e que é mesmo muito, muito, moderna, o que é giríssimo - e moderno, claro.

Não se sabe se a conferência de líderes tenciona interditar outras palavras politicamente menos correctas, mas é de esperar - em nome da coerência - que outras expressões mereçam a mesma condenação, mesmo sem a intervenção directa de um tweet. Aliás, uma dirigente da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo, que se manifestou "totalmente a favor" da decisão dos líderes parlamentares, exprimiu o desejo de que os deputados evitassem o uso depreciativo de outros adjectivos que correspondem a limitações físicas como "cego" ou "surdo".

Se este tipo de regras vingar, deixaremos de ter no Parlamento "políticas coxas" e "ministros surdos aos clamores do povo", mas também deixaremos provavelmente de ter "estratégias marcadas pela miopia", "autarcas que claudicam perante as pressões", "ministérios paralisados", "organismos anquilosados" e tantas outras expressões médicas que durante tantos anos enfeitaram o discurso parlamentar. Será uma mudança de fundo, pois a metáfora sanitária tem larga tradição na política (tanta que às vezes nem era matáfora). Mas não há razão para ficar por aqui. Se se pretende limpar o discurso político de incorrecção política, o que dizer do uso depreciativo de expressões como "provincianismo"? Não desagradará a provincianos? Há todo um vocabulário a espiolhar, adjectivos a proibir e certamente umas centenas de substantivos. E nem falamos ainda dos insultos - dos que o são e o podem ser - de bandalho e suas rimas a bobo, palhaço e outras insularidades. E os nomes próprios? O que dizer dos nomes próprios? Será que se deve poder chamar a alguém Bokassa? Ou Alberto João Jardim? Átila? Hitler? Não será melhor a conferência de líderes... Há toda uma bibliografia a folhear, séculos de história a peneirar a pente fino, dicionários biográficos a compulsar. E os venenos? Podemos dizer que uma diploma é peçonha, que o ambiente é sulfuroso, que um discurso é tóxico (e os activos?), que a religião é ópio, que isto já cheira mal? Pode-se dizer que esta portaria não interessa nem ao menino Jesus? E fascista? Não será insulto? E dizer que uma coisa horrível é estalinista não chocará filhos perdidos do paizinho dos povos? E dizer nazi, dizer nazi? Não devíamos proibir? A bandeira nazi sabemos que está proibida, dá para um deputado ser impedido de entrar e mesmo que os acharam mal a impedidela acharam mal a bandeirada. E se declarássemos, simplesmente, que tudo o que alguém achar mal não se devia dizer no Parlamento? Não seria mais simples?
E seria pedir de mais aos líderes parlamentares que não se esquecessem que o Parlamento tem de ser, por excelência, o lugar da liberdade de expressão, e que as normas de urbanidade podem ser sugestões às suas hostes mas nunca devem ser proibições que nada autoriza? Nem mesmo o Twitter? Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, abril 19, 2009

Página de Rosto - Craig Newmark, o anti-Cristo dos jornais

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 
19 Abril 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, pág. 14


Tímido, nerd confesso, Craig ganhou uma particular notoriedade durante a campanha eleitoral democrática de 2008 para as presidenciais, onde foi um dos arquitectos da utilização da Web

Nesta empresa está quase tudo ao contrário do que é habitual. O dono e fundador ganha milhões de dólares mas trabalha na assistência a clientes e passa os dias sentado ao computador a responder a mails com queixas e sugestões. O CEO da empresa, considerada um dos maiores exemplos de sucesso no mundo da Internet e que tem um dos sites mais visitados do planeta, é classificado com frequência como “comunista” e “anarquista” e possui uma filosofia de vida profundamente anti-sistema e anti-capitalista. Mas o mais surpreendente é que nesta empresa, a famosa Craigslist de San Francisco, que gere o site Craigslist.org, ninguém está interessado em aumentar as receitas e muito menos em maximizar o lucro ou em conquistar uma fortuna. Não é que digam que não estão: não estão mesmo. Porque têm tido inúmeras oportunidades para o fazer e têm-nas sempre recusado em termos que não estimulam novas propostas.

A Craigslist começou por ser a “Craig’s list” – a lista do Craig. Craig é Craig Newmark, um engenheiro de software de 56 anos, nascido na costa Leste dos Estados Unidos, em New Jersey, que foi trabalhar para San Francisco. Em 1994, quando estava na empresa financeira Charles Schwab a trabalhar na área da segurança informática “e a fazer evangelização em prol da Internet”, como costuma dizer, Craig decidiu criar um serviço por mail, inicialmente destinado apenas aos amigos, com a lista dos eventos mais interessantes à volta de San Francisco. Os amigos foram passando palavra e o número de destinatários foi crescendo até que, quando chegou aos 240, a qualidade do serviço começou a degradar-se. Craig decidiu então criar a Craigslist e instalá-la num servidor. Pensou inicialmente chamar-lhe “SF Events” mas os amigos convenceram-no de que não valia a pena – se toda a gente a conhecia como “Craig’s list”, por que não manter o nome?

Durante os primeiros anos, a lista foi-se expandindo com a colaboração dos próprios utilizadores, que tinham liberdade para publicar o que quisessem e que começaram a usar “a lista” para fins diferentes das intenções originais de Craig – como publicar um anúncio para vender uma mota ou para procurar um quarto, sempre de forma totalmente gratuita. O êxito foi crescendo e a San Francisco seguiram-se outras cidades dos EUA e do mundo (a lista possui uma organização geográfica, por países e cidades).

Em 1998, quando Craig já tinha deixado a Charles Schwab e trabalhava como consultor independente – nomeadamente para o Bank of America, na área do home banking – tornou-se evidente que era preciso fazer uma escolha: a lista tinha crescido tanto em conteúdo, utilizadores e reputação que era preciso dar-lhe a atenção necessária, vendê-la ou aceitar a sua degradação. Craig decidiu deixar a sua actividade de consultor e criar uma verdadeira empresa. A bola de neve não parou. Hoje, segundo dados do site, a Craigslist cobre 570 cidades de todo o mundo, com anúncios classificados que cobrem todas as áreas imagináveis, do emprego e do imobiliário a serviços de segurança, do trabalho voluntário a encontros eróticos, de restaurantes a advogados. O site tem mais de 20.000 milhões de visualizações de páginas por mês, ocupa o número 25 de todos os sites do mundo e o sétimo lugar dos sites de língua inglesa em tráfego. Tem 50 milhões de utilizadores e publica 40 milhões de novos anúncios por mês. Destes, mais de um milhão são anúncios de emprego. Para não falar dos fóruns onde são publicados mensalmente 100 milhões de posts. Craisglist é, antes de mais, uma comunidade e os utilizadores estão profundamente envolvidos na sua gestão, nomeadamente identificando anúncios de conteúdo ilegal ou ofensivo.

Só que este êxito não é bem recebido por todos. A Craigslist transformou-se na Némesis da imprensa. Estes anúncios classificados, que são publicados gratuitamente no site, foram durante anos uma receita cativa dos jornais diários e a actual crise da imprensa deve-se, em grande parte, a esta fuga de receitas publicitárias para a Internet – o que, nos EUA, significa em grande medida para a Craigslist. Uma empresa de consultoria estimou em 2005 que a Craisglist representaria uma perda de receitas para os jornais de 50 a 65 milhões de dólares por ano, apenas no domínio dos anúncios de emprego… e apenas na área da baía de San Francisco.

Não admira por isso que, quando Stephen Colbert entrevistou Craig Newmark para o seu programa Colbert Report, há cerca de um ano e meio, o tenha felicitado entusiasticamente por “estar a matar os jornais americanos”. Esses ninhos de liberais, entenda-se.

A acusação não tem muito sentido, porém: Craigslist é o site mais visível, mas a transferência ocorreria sempre. A questão é que os anúncios classificados, que representam em média 35 por cento das receitas dos jornais, se prestam muito mais a ser publicados e consultados online que num jornal em papel. O que não impede a imprensa escrita de olhar para Craig como para o anti-Cristo.
Qual é o negócio da Craigslist? Como é que um site de anúncios classificados gratuitos faz dinheiro? É que nem todos são gratuitos: os anúncios de emprego em 18 cidades e os de casas em Nova Iorque são pagos (25 a 75 dólares). Isso é suficiente para gerar receitas no valor de… ninguém sabe ao certo quanto. Como a empresa não está cotada na bolsa, Craig não é obrigado a dizer. Mas as estimativas andam pelas muitas dezenas de milhões de dólares por ano ou talvez por uma ou duas centenas. Nada mau para uma empresa que possui apenas 28 empregados e que opera a partir de uma pequena casa vitoriana de San Francisco. Quanto vale a empresa? Se Craig e Jim Buckmaster (o CEO, também sócio, que foi contratado por Craig através de um anúncio na lista), a quisessem vender, conseguiriam sem dúvida um valor acima dos mil milhões de dólares mas… nenhum deles quer. Não gostariam de ter dinheiro suficiente para poderem humilhar toda a gente à sua volta, para usar a formulação de uma pergunta feita por Jon Stewart a Craig Newmark? Ambos dizem que não precisam de mais dinheiro do que o que tem e falam mais vezes de princípios morais, de estilo de vida, da necessidade de reforçar os laços da comunidade e das suas responsabilidades para com os seus clientes que da vida de luxo que poderiam ter se vendessem. Um dia, dizem, alguém fará melhor aquilo que a Craigslist está a fazer hoje e ela será eliminada pela concorrência. Entretanto, continuam a dar o seu máximo e a investir na qualidade do serviço.
Em 2004 a EBay comprou 28,4 por cento da Craigslist, mas fê-lo através da compra da quota de um ex-empregado a quem Craig tinha dado sociedade. A princípio pensou-se que a EBay tentaria usar este passo – que lhe deu um lugar na administração - para adquirir toda a empresa, mas Craig e Buckmaster não cederam às pressões nesse sentido. As relações entre a EBay e a Craigslist azedaram, com ataques e processos judiciais mútuos: a EBay acusando a Craigslist de desvalorizar a empresa (e a sua participação, que comprou por um valor não divulgado), e a Craigslist acusando a EBay de espionagem e concorrência desleal. Após a sua entrada na Craigslist, a EBay lançou um site de classificados, o Kijiji, que a primeira diz apenas pretender a sua destruição. Mas a verdade é que concorrer com a Craigslist não é fácil. O site define-se como “um serviço público” e tem como filosofia fazer e oferecer o que os clientes querem. Um princípio simples que muitas empresas ignoram. Os utilizadores não gostam de publicidade e de pop-ups? O site não tem publicidade nem pop-ups. Os utilizadores não gostam de inquéritos? O site não faz inquéritos.

Tímido, nerd confesso (no site da empresa diz que já deixou de andar com os óculos colados com adesivo) Craig ganhou uma particular notoriedade durante a campanha eleitoral democrática de 2008 para as presidenciais, onde foi um dos arquitectos da utilização da Web (comunicação, promoção, organização das comunidades). E na fotografia que pôs no seu perfil do Facebook aparece ao lado de Obama. A identificação é “Customer Service Rep & Founder, Craigslist”

terça-feira, abril 07, 2009

Pode ser de chocolate

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 7 de Abril de 2009
Crónica 11/2009

Quando o prato chega à mesa a regra de ouro é olhar para o seu conteúdo com uma verdadeira careta de nojo

"O croissant é simples, de ovo ou de chocolate?..." O empregado espera pacientemente a decisão. Depois de um beicinho de hesitação, a resposta vem com uma careta de contrariedade. "Pode ser de chocolate, pronto..." O empregado de café, não só educado mas também sábio, com uma experiência de vinte anos a atender desde senhoras e cavalheiros a gajos e gajas, não responde aquilo que dá vontade: "Eu não faço questão que escolha o de chocolate. Também temos croissants simples. Pode nem comer croissant nenhum. E temos fruta. Não quer umas groselhas?"

A cena repete-se em todas as refeições, todas as mesas, todos os lanches. Quando o cliente faz a escolha que lhe provoca a mais profunda má-consciência dietética, age como se essa escolha lhe fosse imposta por algum poder exterior, como se estivesse apenas a ceder por delicadeza à insistência do empregado, dos vizinhos de mesa, da moda, da sociedade em geral e nada estivesse mais longe dos seus desejos.

"Quer algum molho especial para a salada?" "Molhos? Não, não. Sem tempero... acho eu... Não sei, que molhos tem?" "Vinagrete, molho de mostarda, de queijo, de pimenta, mayonnaise..." "Bom... pode ser mayonnaise, pronto!..." O tom é de algum enfado e pode até ser acompanhado de desabafos. "Estes tipos só sabem fazer mayonnaise, mayonnaise... Sempre mayonnaise, também chateia".

Mas o nariz torcido não se restringe aos molhos e aos recheios. "O que é que é mais rápido?" "Os pratos do dia estão todos prontos a sair." "E quais é que são os pratos do dia?" "Pescada cozida, salada de frango e entrecosto frito com arroz de feijão" "Sei lá... qualquer coisa... desde que seja rápido... pode ser o entrecosto, pronto...".

A expressão é displicente, às vezes decepcionada, e o tom é frequentemente condescendente - para permitir o subtexto de "estes tipos só fazem coisas gordíssimas, o que é que eu hei-de fazer?".

Outra técnica muito usada é tratar todos os excessos como excepções, liberdades que só são admitidas só lá muito de quando em quando. "Pode pôr-me só um bocadinho de molho de manteiga no linguado? Desta vez apetece-me um bocadinho", dizem em tom de confidência ao maître, juntando delicadamente as polpas do indicador e do polegar para indicar que se trata apenas de uma pitadinha de tempero, não mais, só para dar um aroma, um arzinho. "Só um bocadinho de nada. Isso. Pode pôr mais um bocadinho. Ponha também nas batatas. E nos legumes. Aqui também. Pode pôr mais um bocadinho. Pronto, assim chega. Chega! Ai que exagero, meu Deus! Pode deixar a molheira."

Além do "já que insiste" e do "só um bocadinho" temos, ainda, a "dieta na base", que consiste em pedir pratos superdietéticos e em guarnecê-los com alguma coisinha só para lhes dar um bocadinho de graça. "É só uma salada de alface, sem tempero nenhum, nenhum, nenhum. É só mesmo a alface. Tomate? Não obrigado, o tomate é fruta, sabe? Tem imenso açúcar. É só mesmo a alface. Ah... estou a ver aqui que tem aquele fromage de chèvre entier que eu gosto tanto. Portanto é a alface com o chèvre. Tem imenso cálcio. Já que não vou temperar posso fazer uma extravagância. Ah... e a entrada?... Tem de ser fruta. Abacate! Tem aquele cocktail de abacate e camarão? Com o molho Aurora. Aqui tem mesmo de ser. O abacate sem o molho é horrível. Portanto é só a saladinha de alface e o abacate. Não há nada mais dieta."

Quando o prato chega à mesa a regra de ouro é olhar para o seu conteúdo com uma verdadeira careta de nojo, do género "mas eu pedi rúcula selvagem e trazem-me alheira de Mirandela" e usar o garfo para explorar o prato sempre com a mesma expressão de repugnância mas como se se tivesse esperança de encontrar no meio daquela mixórdia algo digno de ser mastigado (se quiser representar a cena usando o Método tem de lembrar-se daquela vez que teve de recuperar o anel de diamantes que a sua gata comeu).

Finalmente há a dieta cabalística, que aposta não nos elementos isoladamente considerados mas na sua combinação, que conseguirá eliminar tudo o que de nefasto e engordante existe nas travessas. "É o pato assado mas olhe - vou-lhe pedir um favor: em vez da laranja, pode trazer-me rodelas de limão e de kiwi? O limão anula a gordura e o kiwi tem imenso ómega-3 que é óptimo. E têm aquele gelado caseiro fantástico? Se me puder arranjar umas folhinhas de hortelã-pimenta para acompanhar, quero gelado. Que sabores tem? Pode ser de chocolate." Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, abril 05, 2009

Página de Rosto - Millôr, humor sem barreiras

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 5 Abril 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, pág. 17



Millôr Fernandes, humorista (Brasil)


A aventura começa logo com a data de nascimento. Nasceu a 16 de Agosto de 1924. Ou melhor: é bem possível que tenha nascido a 16 de Agosto de 1924. Pelo menos essa é a data que ele acha mais provável, o dia em que lhe dão os parabéns e uma das mais referidas nos artigos escritos sobre ele. Só que também pode ter sido a 27 de Maio. É ele  mesmo que diz que pode. E é essa que vem no bilhete de identidade. De 1924. Ou 1923... No BI está 1924 mas também pode ser 1923. Ah, e o 16 de Agosto também pode ser de 1923. É até essa data que vem na Enciclopédia Itaú Cultural. Na curta nota biográfica que publicou no seu site diz que “há desencontros na opinião da família”. E provavelmente já é tarde para tentar o consenso.
O sítio, esse, está estabelecido: o bairro Meyer (ou Mayer, ou Méier) no Rio de Janeiro.
Depois também há uma peripécia com o nome. Nasceu Milton Viola Fernandes e usou Milton durante a infância e a adolescência. Mas um dia, aos 17 anos (às vezes diz 18) descobriu que o seu verdadeiro nome não era Milton mas Millôr. Descobriu quando consultou o seu registo de nascimento. A história é repetida em todos os perfis e no seu site está o fac simile do registo para tirar todas as dúvidas. E tira. O que lá está é um Milton caprichado, à maneira de 1924 (ou 1923) onde o traço que corta o “t” ficou por cima do “o”. E o “n” final, se não fosse um “n”, poderia ser um “r”. Millôr! Milord!
Millôr Fernandes inventou-se todo, dos pés à cabeça. E não começou só aos 17. Nasceu quase de geração espontânea, órfão de pai com um ano de idade e de mãe aos dez. A morte do pai atirou a mãe e quatro filhos da classe média “para o nível proletário”. A morte da mãe provou-lhe definitivamente a injustiça da vida e a inexistência de Deus – “a paz da descrença”, diz. Uma descrença que vai muito para lá do Além (será possível?) e que se traduziu numa pose eminentemente cínica perante a vida, genialmente sublimada na sua actividade de humorista, observador impenitente das fraquezas humanas. À morte da mãe seguiu-se “o período dickensiano, vendo o bife ser posto no prato dos primos, sem que o órfão tivesse direito. A família dispersa, os quatro irmãos cada qual pro seu lado, tentando sobreviver”.
Começou a trabalhar na imprensa aos treze anos, na revista O Cruzeiro. Como paquete mas também a ajudar na paginação e… a fazer sub-títulos. E a sua carreira descola. Em 1939, aos 15 anos (ou 16, nunca saberemos) ganha um concurso de contos organizado pela revista A Cigarra e é convidado para colaborador regular. As colaborações multiplicam-se, a sua reputação cresce. Regressa a O Cruzeiro. Aos vinte anos já é uma celebridade e ganha “um dos maiores salários da imprensa” (numa das súmulas autobiográficas surreais que escreveu diz que “aos quinze (anos) já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil”). O Cruzeiro, onde Millôr chega a ser responsável por dez secções, torna-se um extraordinário caso de sucesso e atinge uma tiragem de 750.000 exemplares. “De repente, todo o mundo que trabalhava no Cruzeiro ficou famoso”, conta Millôr numa entrevista à Época.
Conheci Millôr Fernandes nas páginas do Diário Popular, na secção Pif-Paf - que ele tinha criado em 1945 na revista brasileira O Cruzeiro (onde assinava Vão Gogo) - que já tinha tido uma vida breve como publicação independente, com apenas oito edições. Nessa altura ele já tinha abandonado as páginas de O Cruzeiro, com quem tinha entrado em conflito devido a uma sátira A Verdadeira História do Paraíso – que a igreja católica tinha considerado ofensiva e da qual a própria direcção da publicação se  tinha dessolidarizado num editorial infame. Mas quando o seu trabalho chega a Portugal o seu currículo já se tinha alargado ao cinema, ao teatro (como dramaturgo, cenógrafo, adaptador, produtor, actor); à tradução (uma das suas ocupações principais; começou com banda desenhada e passou aos clássicos), à televisão (como autor e apresentador, às vezes misturando texto e ilustração), já tinha feito inúmeras exposições, entre as quais duas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e o seu estatuto de consciência crítica, bobo incómodo e filósofo popular estava já firmemente estabelecido. Millôr já era políticamente incorrecto antes de se inventar o conceito e continuou a ser quando já era mal visto. Foi processado meia dúzia de vezes, nada de mais. “Não tê-lo sido me envergonharia”, diz-me num mail.
O Pif-Paf do Diário Popular, uma página inteira semanal, era um espaço de humor inqualificável, uma mistura de subtil mas explosiva irreverência, de sátira social e ficção surrealista, recheado de Hai-kais, aforismos e fábulas de humor finíssimo, onde as farpas voavam em todas as direcções, acompanhados pelas selvagens e iconoclastas ilustrações do Millôr, de uma força incontrolável, sempre impiedosas e às vezes pungentes, apesar de tudo. Há algo de Picasso no traço e é o lado selvagem. Millôr desenha como quer desenhar e está-se nas tintas para as convenções – sociais ou estéticas. Estão a ver o Picasso das “mulheres que choram”? A mistura daquela tragédia pungente, a capacidade de descrever aquela dor inconsolável e a evidente falta de paciênca para a aturar? É como em Millôr. Devo confessar que na altura eu achava que ele desenhava muito mal – Millôr manteve a sua página no Diário Popular de 1964 a 1974 e eu comecei a lê-lo logo em 1964, tinha eu sete anos, quando os meus padrões artísticos eram muito clássicos – mas adorava o vigor dos desenhos, a força daquele traço fascinava-me. E, à medida que o tempo foi passando, fui gostando cada vez mais. Não demorou muito até eu perceber que ele era mesmo um desenhador extraordinário – apesar, ou melhor, precisamente pelo seu desrespeito pelos cânones. Guardei durante anos recortes amarelecidos com desenhos seus.
Há aforismos do Pif-Paf de que me lembro desde essa altura e desconfio de que muitas das citações de Confúcio que andam pelas bocas do mundo saíram da pena do Millôr – ele inventou tantas que acabou por fazer um livro, Confúcio disse.
Os aforismos, provérbios, Hai-kais, citações inventadas e jogos de palavras sempre foram uma parte importante do trabalho de Millôr e há muitas pérolas por ali. Mesmo nas entrevistas as frases saem assim, fiadas de sound bites avant la lettre, concisas e certeiras, cínicas e profundamente sarcásticas (“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, “O país que precisa de um salvador não merece ser salvo”, “Quando um chato vai embora, que presença de espírito!”, “Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar”). Só A Bíblia do Caos tem mais de “5.142 pensamentos, preceitos, máximas, devaneios, elucubrações” mas a bibliografia de Millôr conta com dezenas e dezenas de obras, das de autor às traduções (Shakespeare, Tchekov, Molière, Racine, Ibsen...). Ainda que Millôr não goste que se fale da “sua obra” (“obra é coisa de pedreiro”).
Hoje, aos 85 (84?) mantém uma coluna semanal na revista Veja, depois de ter passado por muitos dos maiores títulos da imprensa brasileira, incluindo O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, o Jornal do Brasil. Os temas vão da política à literatura, passando pela língua – uma paixão de sempre, a par da praia e das mulheres, que diz que sempre o trataram muito bem.
Mas se há coisa que Millôr recuse são rótulos. “Humorista, eu não sou. Por acaso, o que escrevo é que tem humor”, diz numa entrevista à revista Continente.
Numa troca de mails com o humorista (Millôr não usa telemóvel nem cartão de crédito, mas trabalha com computador há mais de 20 anos, usa mail e dispôs-se a responder às minhas perguntas com grande simpatia, apesar de não gostar de entrevistas) as respostas mostram bem a sua recusa de qualquer classificação. Políticamente, é o que? “Eu vivo. Os outros me definem.” Mas é um anarquista ou só um liberal? “Você me diz”. Mas acrescenta logo a seguir: “Todo poder é fascista e há uma puta concorrência entre direita e esquerda pra ver quem é mais. Tudo é apenas uma questão de estilo.” Alguma vez sentiu que o poder político merecesse o benefício da dúvida? “Nunca”. Há alguma instituição em que acredite? “NÃO!”. Em maiúsculas e com ponto de exclamação, por causa das dúvidas. “[As instituições] nascem assim, deformadas. O grupo é uma deformação social gerada para proteger o grupo. Contra o indivíduo. O indivíduo, que eu represento, é responsável por tudo, não se exime de nada.”
Confessa que há muitos anos a política o interessou mas a sua relação com a política evolui “de algum entusiasmo pelo jogo, até o tédio absoluto de hoje. Tédio é a palavra. Não tenho nem raiva. Leio muito história. Que não é nem uma tragédia nem uma farsa. É uma canalhice.” Vota? “Não voto”.
Amargo? Nada. “Eu sou indecentemente feliz. Porque nasci assim. As pessoas vêem que o individuo nasce alto, baixo, homem, mulher, preto, branco. Mas não vêem o mais importante; a pessoa nasce feliz ou infeliz. Eu nasci feliz. Posso enfrentar qualquer infelicidade. Não, Malheiros, não é um paradoxo.”
E tem esperança em quê? “Em nada. Quem tem esperança é um fracassado. Eu vivo no presente.”
FIM

domingo, março 29, 2009

Página de Rosto - Jestina Mukoko, a recenseadora dos abusos

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 
29 Março 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 18

Jestina Mukoko, jornalista, activista de direitos humanos (Zimbabwe)


Eram cinco da manhã do dia 3 de Dezembro de 2008 quando dois carros sem matrículas pararam à porta do número 3940 da Gushungo Drive, em Norton, uma cidade a 40 quilómetros de Harare, capital do Zimbabwe. Seis homens e uma mulher armados, em trajes civis, desceram dos carros e entraram na casa. Passados uns minutos saíram, empurrando à sua frente uma mulher descalça e em pijama, que atiraram brutalmente para dentro de um dos carros e partiram com destino desconhecido.

A mulher era Jestina Mukoko, directora de uma conhecida organização não-governamental, a Zimbabwe Peace Project (ZPP), que nos últimos oito anos tem meticulosa e corajosamente coligido e denunciados casos de violência e atropelos dos direitos humanos por parte das autoridades do Zimbabwe.

E o rapto seria o início de um calvário de três semanas durante os quais Jestina Mukoko foi mantida em prisões secretas, submetida a interrogatórios ilegais, torturada e impedida de contactar advogados ou família.

Os indivíduos que levaram a cabo o sequestro não se identificaram perante os ocupantes da casa – uma empregada e o filho de Jestina Mukoko, de 17 anos – mas amigos de Mukoko e membros de ONG de defesa dos direitos humanos têm poucas dúvidas de que a operação foi levada a cabo por elementos da polícia secreta de Robert Mugabe, a Central Intelligence Organisation (CIO). O modus operandi é típico e idêntico quer se trate de activistas humanitários, de elementos da oposição ou sindicalistas.

Nas horas que se seguiram, o filho de Mukoko deu o alarme, várias ONG a nível nacional e internacional começaram a exigir a libertação da activista ou a formalização das eventuais acusações contra ela e os seus amigos e colegas começaram a percorrer todas as esquadras de Harare para a localizar, mas sem êxito. A polícia não tinha registo de qualquer prisão nem da existência de qualquer mandado judicial para a sua detenção. Mukoko tinha “desaparecido”. Descalça e sem que os raptores lhe tivessem dado sequer tempo para pegar nos óculos ou nos medicamentos que tomava três vezes por dia para tratar uma doença respiratória crónica.

No dia seguinte, um dos blogs de informação mais influentes do país, Metro Zimbabwe, publica uma notícia sobre o rapto com o título “Receia-se que Jestina Mukoko esteja morta”. No mesmo texto é citado um apelo lançado em Londres pela Amnistia Internacional para a sua libertação, onde aquela organização responsabiliza directamente o presidente Robert Mugabe e descreve o rapto como “parte de um padrão bem definido de intimidação dos defensores dos direitos humanos por parte das autoridades do Zimbabwe”. As notícias vão-se alastrando pelos órgãos de comunicação africanos e ocidentais, multiplicam-se as tomadas de posição, é lançada uma campanha “Save Jestina”.

A comoção nacional não é de estranhar. Jestina Mukoko, viúva e com um filho, nasceu em 1957 e começou a sua vida profissional como professora do ensino secundário, mas tornou-se conhecida do público como jornalista e apresentadora do Telejornal do canal de TV estatal Zimbabwe Broadcasting Services – uma função que lhe granjeou fama e simpatia a nível nacional. Os amigos descrevem-na como uma pessoa extremamente calma e afectuosa, conciliadora por natureza. Em 2000 passou a trabalhar para uma rádio pirata que emitia a partir da África do Sul para o Zimbabwe, a Voice of the People, e iniciou pouco depois a sua carreira de activista dos direitos humanos, primeiro no Zimbabwe Civic Education Trust e mais tarde no ZPP, onde se tornou directora executiva. Pertence ainda à direcção do Zimbabwe Human Rights NGO Forum e do Zimbabwe Elections Support Network.

Nos dias que se seguem ao rapto, o desaparecimento de Jestina Mukoko continua a mobilizar as atenções dos media. Gordon Brown e Condoleezza Rice exigem a sua libertação.

A 9 de Dezembro, uma juíza do Supremo Tribunal ordena à polícia que apresente a prisioneira, mas a polícia assegura que não a tem sob a sua custódia e que desconhece o seu paradeiro.

Finalmente, a 23 de Dezembro, novo grupo de homens não identificados apresenta-se outra vez na casa de Jestina para fazer uma busca… e a prisioneira está com eles. No dia seguinte, véspera de Natal, três semanas depois do rapto, Jestina é pela primeira vez apresentada a um tribunal – é dessa ocasião a fotografia desta página – onde se formaliza uma acusação-fantoche contra ela e outros detidos: participação no bombardeamento de uma esquadra de Harare, recrutamento de jovens para serem submetidos a treino militar no Botswana com vista a um ataque ao Zimbabwe, conspiração para derrubar pela força o presidente Mugabe.

Só então, graças às suas declarações, se conhecem os pormenores da prisão ilegal: espancamento com bastões de borracha nos pés, forçada a ajoelhar-se durante horas sobre gravilha espalhada no chão da sala de interrogatório, tentativas de a forçar a assinar uma admissão de culpa (que não assinaria) e para denunciar colegas (que não denunciou). Terá sido a inesperada pressão internacional - que incluiu uma declaração dos Elders [ver Os velhos sábios da aldeia global, P2 de 22.3.2009] instando à sua libertação –, a sua recusa em confessar crimes que não cometeu e os seus problemas de saúde, devidos aos maus tratos e à falta de medicação, que acabaram por fazer a polícia secreta ceder, receosos de um desfecho fatal que prejudicasse ainda mais a imagem do regime.

A partir da sua apresentação à polícia, Jestina Mukoko passou para uma prisão comum e foi depois transferida para um hospital, onde pôde ser tratada. Seria finalmente posta em liberdade condicional a 2 de Março – dia em que um oficial da polícia foi ao hospital retirar a algema que lhe prendia um pé à cama. Mas as acusações não foram retiradas e Jestina Mukoko deverá ser ainda sujeita a um julgamento. E, juntamente com ela, algumas dezenas de outras pessoas. Outros, porém, igualmente “desaparecidos”, nunca chegaram a ser entregues ao sistema judicial.

“Tenho imenso respeito por Jestina Mukoko e pelo seu trabalho como activista dos direitos humanos”, diz-nos Dewa Mavhinga, um advogado dedicado à defesa dos direitos humanos no Zimbabwe, que a conhece bem. “Jestina tem uma verdadeira paixão por este trabalho e em particular pelos direitos das mulheres. É preciso muita coragem para liderar uma campanha como a que o ZPP tem levado a cabo”.

Em que consiste a actividade do ZPP? Em algo de absolutamente fundamental: a organização, estritamente apartidária, faz compilações mensais de relatórios de violência política onde identifica autores de atentados contra os direitos humanos, seguindo a abordagem do “name and shame” (identificar e envergonhar). Estes relatórios baseiam-se numa extensa rede de contactos a nível local e, em pouco tempo, transformaram-se na mais importante fonte de informação rigorosa sobre os atentados contra os direitos humanos no Zimbabwe. Uma espécie de recenseamento de abusos. “Foi provavelmente devido a este trabalho que ela se transformou num alvo da polícia do Estado”, diz Mavhinga.

Há outras razões porém. Em Dezembro, as negociações para partilha do poder entre Robert Mugabe, presidente em exercício e líder do partido ZANU PF, e Morgan Tsvangirai, vencedor da primeira volta das eleições presidenciais de 2008, estavam ao rubro. Mugabe estava disposto a ceder a chefia do Governo a Tsvangirai desde que pudesse manter para si a presidência da república e indicar metade dos ministros e queria a todo o custo pressionar Tsvangirai a um acordo que este hesitava em aceitar. Há quem pense que o rapto e prisão de Mukoko e de outros – nomeadamente de muitos militantes do partido MDC de Tsvangirai – terá sido parte dessa pressão sobre o actual primeiro-ministro.

Jestina Mukoko está neste momento em sua casa, onde a pudemos contactar telefonicamente, mas preferiu não fazer declarações. Diz que ainda precisa de mais algum tempo para se restabelecer e que só depois de recuperar completamente as suas forças estará disponível para a imprensa. O Zimbabwe Peace Project, porém, continua activo, ainda que os seus activistas sejam aconselhados a redobrar de cuidados.

terça-feira, março 24, 2009

A eleição do provedor de Justiça, giroflé, giroflá

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 24 de Março de 2009
Crónica 10/2009

Considerar que o provedor de Justiça deve ser sempre uma emanação do Bloco Central é antidemocrático

O que começa por ser estranho no desgraçado folhetim da escolha do novo provedor de Justiça é que, desde Julho de 2008, não tenha havido uma única iniciativa do Parlamento para discutir a questão e que o PS e o PSD tenham tentado cozinhar entre si o novo nome com o acordo tácito do presidente da Assembleia da República, a quem compete coordenar os trabalhos da AR (o que inclui todos os deputados) e presidir à Conferência de Líderes Parlamentares (o que inclui todos os líderes).
Sabemos que é costume ser assim e que no Parlamento poucos acham isto estranho. Mas para alguém que está de fora, parece bizarro. Ainda que bastem os votos dos dois maiores partidos para a eleição, parece normal (democrático? cortês? sensato?) que a questão, de interesse nacional e cuja decisão é da responsabilidade do Parlamento (todo), seja discutida alguma vez pelo Parlamento (todo), ou pelo menos pelos líderes dos grupos parlamentares (todos), em vez de ser levada à discussão das outras forças partidárias apenas no plenário, quando a decisão já foi tomada e todas as sugestões e discussões são supérfluas.
É uma atitude prudente que a discussão seja alargada, já que, como se viu, existe mais do que uma maioria de dois terços possível. O mais básico raciocínio táctico conclui facilmente que não convém excluir ninguém à partida porque... se pode vir a precisar dos votos deles.
Mesmo que não fossem precisos, porém, seria um imperativo democrático alargar a discussão a todo o Parlamento.
Não o fazer significa que se está implicitamente a considerar que o provedor de Justiça deve ser sempre uma emanação do Bloco Central - uma posição que é antidemocrática, que fere o conceito do provedor de Justiça como parte do sistema de checks and balances e um pecado original que ameaça até a imagem e idoneidade da figura que ocupa o lugar - por muito que os homens (são sempre homens, não sei se mais uma regra não escrita) que o ocuparam até aqui tenham conseguido fugir, pelo seu prestígio pessoal, a esse risco.
Permitir que o Bloco Central cozinhe o nome do provedor em reuniões privadas é desprestigiante para o cargo e, ao impor uma limitação do universo de escolha, faz supor que o nome poderá ser o melhor do Bloco Central, mas não é forçosamente o melhor que o Parlamento poderia encontrar. O método constitui, por isso, um empobrecimento da democracia e do Estado.
É também surpreendente - e representativo da triste qualidade da nossa democracia - que não tenha havido disponibilidade ou interesse, em 34 anos de existência do cargo, para definir uma metodologia de escolha de candidatos capaz de evitar a actual disputa infantil "ele-tem-que-dizer-primeiro-o-que-é-que-pensa-do-meu-candidato-antes-de-eu dizer-o-que-é-que-eu-penso-do-candidato-dele" versus "o-meu-candidato-é-tão-bom-que-nem-preciso-de-ver-o-teu".
Paulo Portas teve o mérito de tentar dar alguma dignidade ao método de escolha e de, discretamente, explicar ao presidente da AR que lhe cabe a ele resolver a questão. Quererá Jaime Gama perceber?
Quando o porta-voz do PS, Vitalino Canas, diz que o que é preciso não é uma "metodologia" mas sim "bom senso", enuncia um oxímoro que não engana ninguém. Qualquer pessoa de bom senso vê que, nestes casos, é imperativo definir uma metodologia - se se pretende algo mais do que um pretexto para uma zaragata. Que o PS prefira deixar estes processos num flou artistique compreende-se, pois essa é a situação que lhe dá maior liberdade, que lhe permite defender hoje uma abordagem e na próxima legislatura outra. Quanto ao PSD, preocupado apenas em mostrar que existe, também não tem interesse em resolver a questão de forma civilizada.
PS e PSD comportam-se como dois meninos malcriados que vêm fazer queixinhas um do outro. O pai Jaime Gama não consegue dizer mais do que "então meninos, então...". O avô Cavaco, à distância, abana a cabeça. E assim vamos andando no Jardim da Celeste, a caminho das férias da Páscoa. Jornalista (jvm@publico.pt)

domingo, março 22, 2009

Página de Rosto - Os velhos sábios da aldeia global

por José Vítor Malheiros
Texto publicado a 22 Março 2009 no jornal Público, suplemento P2, secção Página de Rosto, Pág. 19


The Elders, grupo de defensores dos direitos humanos (vários países)


The Elders. Os Anciãos. Com maiúscula. O nome evoca o conselho supremo de uma poderosa civilização interestelar num romance de ficção científica. Ou os líderes secretos de uma seita esotérica num romance de aventuras vitoriano. Mas estes Anciãos nem são secretos nem comandam esquadrilhas galácticas. O objectivo é que eles sirvam, na aldeia global da nossa era, a mesma função que os conselhos dos venerados anciões ocupam nas aldeias africanas: dar orientação, resolver disputas, pacificar conflitos.

A ideia da criação deste grupo de sábios nasceu há dez anos, numa conversa entre Richard Branson, o dono das empresas Virgin, e o músico e activista Peter Gabriel. Por que não reunir os mais respeitados e sabedores líderes mundiais, aqueles que já estão afastados das lides políticas activas mas que se revelaram mais empenhados na causa da paz e do desenvolvimento, cuja acção merece a admiração e o reconhecimento de todos, e fazer o mundo beneficiar da sua sageza, da sua prudência, da sua ideia de justiça, da sua capacidade de mediação, da sua liderança? Branson e Gabriel foram amadurecendo a ideia e em 2001 levaram-na ao homem que ambos sentiam que deveria ser o líder natural dos Elders, Nelson Mandela.

Mandela abraçou a ideia com entusiasmo e decidiu concretizá-la com a ajuda da sua mulher Graça Machel e do seu amigo Desmond Tutu, arcebispo emérito da Cidade do Cabo. Seguiram-se muitas reuniões com Branson e Gabriel para apurar a forma que o grupo deveria adoptar, o tipo de acções em que se deveria empenhar, quem poderia fazer parte e a ideia começou a ganhar corpo.

Os Elders foram apresentados ao mundo a 18 de Julho de 2007, em Joanesburgo, na festa do 89º aniversário de Mandela, numa emotiva cerimónia onde Desmond Tutu chorou ao ouvir Gabriel cantar “Biko”, a famosa canção que compôs em memória do militante anti-apartheid Steve Biko. E onde Mandela apresentou o grupo de veteranos “quase como se estivesse a falar de uma banda desenhada de super-heróis” – nas palavras de uma jornalista do canal de televisão ABC News que cobriu o evento –, descrevendo-o como “uma positiva e ferozmente independente força em defesa do bem”.

A verdade é que nunca no mundo nenhum grupo de pessoas com este prestígio se tinha reunido para formar um corpo permanente, para cooperar num empreendimento que vai para além da habitual participação num evento ou numa missão internacional. O grupo inclui como fundadores, além de Mandela (que ocupa a liderança honorífica), de Machel e de Tutu (que é o presidente), mais nove personalidades: o ex-presidente americano Jimmy Carter, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan, a antiga presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária para os Direitos Humanos Mary Robinson, o fundador do Banco Grameen e Nobel da Paz Mohammed Yunus, a ex-primeira-ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland, a activista indiana dos direitos das mulheres Ela Bhatt, o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o diplomata argelino Lakhdar Brahim e um membro especial que não pôde comparecer, contra sua vontade, a birmanesa Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz, há longos anos em prisão domiciliária, em memória de quem foi deixada uma cadeira vazia na cerimónia de lançamento. Todas as vezes que o grupo se reúne, a tradição da cadeira vazia continua a ser respeitada, pois Suu Kyi é um membro de pleno direito e a sua presença é esperada com ansiedade.

Mas o clube não está ainda fechado: no site theelders.org há um formulário onde qualquer pessoa pode sugerir situações que considera que o grupo deve abordar e aí podem também propor-se novos Elders. O grupo gostaria de convidar não muitas mais, mas talvez “mais umas duas pessoas”, segundo um elemento da organização, mas o processo de selecção tem de se rodear de particular prudência.

Por que razão é que Branson, Gabriel e os próprios Elders pensam que eles podem fazer mais do que as muitas instâncias internacionais que já se preocupam com o fim dos conflitos, a fome e a pobreza? Porque, como Mandela explicou no seu discurso inaugural, as instâncias existentes “estão muitas vezes limitadas na sua acção, por razões políticas, económicas e geográficas”. Os Elders, esses, não têm contas a prestar a ninguém, nada a provar, nenhum interesse particular a defender, nenhuma lealdade que não seja para com a Humanidade em geral, podem agir com rapidez em caso de conflito e podem correr o risco de não ser bem sucedidos – tal como nada os pressiona a reclamar para si os louros de eventuais sucessos.

“Este grupo pode falar com liberdade e ousadia, pode agir aos olhos de todos ou nos bastidores e empreender qualquer acção que considere necessária”, disse Mandela na cerimónia de apresentação. “Juntos, vamos trabalhar para apoiar a coragem onde há medo, vamos promover o entendimento onde há conflito, inspirar esperança onde há desespero”.

Os Elders identificaram três áreas de acção: a resolução pacífica de conflitos, a procura de novas abordagens para resolver problemas globais (clima, epidemias) e aquilo que chamam “partilhar a sabedoria”: estabelecer laços com os “Anciãos” existentes nas comunidades e com a futura geração de líderes. Como? “Ouvindo e ajudando a amplificar as vozes que falam em nome do bem em todo o mundo”.

O grupo tem uma sede em Londres, onde trabalha um escasso staff de seis pessoas, mas os Elders reúnem-se duas vezes por ano, em Maio e Outubro, em diferentes países, para decidir os próximos passos. Nas reuniões, o consenso natural é a regra. Não há votações, apenas conversas. E a articulação entre os esforços dos Elders e as iniciativas dos vários actores nacionais ou internacionais, para evitar atropelos contraproducentes, é feita usando um dos mais poderosos instrumentos diplomáticos do mundo: as agendas telefónicas dos membros. Quanto ao financiamento, ele vem de dadores particulares e institucionais, entre os quais se contam Branson e Gabriel.

Até agora, a sua acção tem-se centrado na resolução de conflitos, com missões ao Zimbabwe, a Chipre e ao Sudão – para além de tomadas de posição difundidas na imprensa sobre muitos outros temas quentes da agenda internacional. A missão que, em Novembro do ano passado, foi enviada ao Zimbabwe, formada por Annan, Carter e Machel, nem sequer foi autorizada a entrar no país – mas o facto não só não impediu a publicação de um relatório sobre a terrível situação no país, como acabou por se transformar no maior golpe publicitário que os Elders poderiam desejar, enchendo dias a fio páginas de jornal e telejornais.

Foi a primeira vez que Carter viu um visto ser-lhe recusado e a segunda vez para Graça Machel (a vez anterior tinha também sido pelo Zimbabwe). E os três Elders passaram três dias em Joanesburgo a receber elementos da sociedade civil do Zimbabwe, dirigentes de ONG, líderes africanos e simples cidadãos que permitiram fazer um retrato terrível da situação do país não só do ponto de vista político e de segurança mas também em termos alimentares, sanitários, económicos.

“Penso que a missão ao Zimbabwe deve ser considerada um enorme êxito”, diz-nos Katy Cronin, porta-voz da organização, numa conversa telefónica. “Robert Mugabe fez sem querer um enorme favor aos Elders. A situação no Zimbabwe já tinha perdido uma parte do interesse dos media e o que era falado era apenas a crise política. A missão recolocou a tónica na enorme catástrofe humanitária, com a falta de água, a escassez de alimentos, a super-inflação, e transformou-a de novo numa história com enorme impacto mediático”.

A intervenção dos países da região, forçando Mugabe à partilha do poder com a oposição, na opinião dos Elders, terá ficado em parte a dever-se à sua intervenção.

Houve também uma missão a Chipre e outra ao Sudão, cuja dramática violência não sofreu melhorias nos últimos tempos, mas seria preciso uma grande dose de imaginação para sonhar que estes Anciãos podem ser também Feiticeiros. Todo o prestígio destes homens e mulheres de boa-vontade dificilmente demove pessoas como Robert Mugabe ou Omar al-Bashir. Mas a sua voz e as suas acções vêm juntar-se às de outros, despertam consciências, fazem surgir iniciativas e fornecem mais um impulso, que pode ser decisivo para vencer um obstáculo. E, como diz Peter Gabriel, dão realidade ao sonho “de que ainda haja um grupo de pessoas em quem o mundo pode confiar”.

Os Elders porém, têm consciência de que são um grupo jovem (como grupo, não individualmente) e de que têm ainda muito a aprender para tornar a sua acção mais eficaz: “We are still learning how to elder”, diz Desmond Tutu, com o seu humor habitual.

terça-feira, março 17, 2009

De que esquerda é que eles estão a falar?

por José Vítor Malheiros

Texto publicado no jornal Público a 17 de Março de 2009
Crónica 9/2009

A esquerda não se sente interpelada pelos velhos clichés usados pela direita para a descrever. A esquerda já não está aí

Já ouviu dizer que as pessoas de esquerda sentem a sua identidade profundamente abalada pela queda do Muro de Berlim e pela dissolução da URSS, fenómeno que até hoje não conseguiram digerir e que lhes terá causado um generalizado e paralisante sentimento de orfandade e frustração? Ou que a ideologia de esquerda consiste em esperar que o Estado resolva todos os seus problemas? Ou que a esquerda, quando defende o apoio do Estado à cultura, à saúde ou à educação, na realidade o que pretende é disseminar uma cultura de desresponsabilização dos cidadãos? Ou, se defende o empenhamento do Estado no combate à pobreza, pretende generalizar uma cultura de subsidiodependência? Ou que, quando defende a regulação dos mercados financeiros, na realidade o que pretende é destruir o mercado?
Quando ouço generalizações deste tipo, pergunto-me de quem estarão a falar. É evidente que estas caricaturas podem representar alguns grupos - há capitalistas que fumam charuto -, mas pensarão de facto estes comentadores que estas imagens de Épinal representam a esquerda plural que existe na sociedade?
Mas o que é igualmente surpreendente é como, perante este tipo de proposições, lugar-comum de textos de opinião e blogues de direita, não há actualmente ninguém à esquerda que responda. E muito menos existe um lugar-comum de resposta.
Ao nível partidário há razões que se podem considerar institucionais para essa ausência de resposta. O PCP não responde porque se coloca fora de qualquer discussão ideológica e, em particular, fora de qualquer discussão com a direita. Para os comunistas, os problemas ideológicos já foram todos resolvidos e, se alguém tem dúvidas ou hesitações, isso deve-se apenas ao facto de não ter ainda acabado a lista de leituras recomendadas. O PS não responde porque só recentemente se relembrou de que era de esquerda e, até há poucos dias, nem sequer saberia se estava interessado em defender essa estranha ideia que não sabe bem o que é. O Bloco de Esquerda não responde por alguma arrogância intelectual e também devido a uma pluralidade que, se tem resquícios do sectarismo dos grupos que lhe deram origem, quer hoje equilibrar interna e externamente com diplomacia.
Mas há também razões de fundo (e boas razões) para esta ausência de resposta: ela deve-se, antes de mais, à pluralidade da esquerda e a um muito menor dogmatismo do que aquele que existia há 30 anos. Talvez se deva também, em parte, à orfandade do "socialismo real" sentida por algumas minorias na esquerda. Mas deve-se muito mais a uma procura de soluções que é hoje evidente, a um debate que está em curso e aos múltiplos caminhos abertos que emergem nessas discussões (a nível nacional como internacional). Se há inúmeros porta-vozes que não hesitam em falar em nome do "mercado" e do statu quo político, não há quem fale em nome da esquerda. O dogmatismo nas soluções políticas, hoje, está muito mais do lado da direita e essa é uma sua fragilidade evidente. Pode dizer-se que a esquerda não responde porque não tem respostas - mas procura-as. E não se sente minimamente interpelada pelos velhos clichés usados pela direita para a descrever. A esquerda já não está aí.
É verdade que a esquerda está hoje, como sempre esteve, preocupada com a questão da igualdade e da justiça social. É verdade que à esquerda se sente uma insatisfação crescente com uma situação que a informação global nos mostra cada vez mais claramente como insustentável e indigna e que se sente hoje uma responsabilidade social planetária que, apesar de não estar corporizada, não é menos forte por essa razão. Mas à esquerda, de uma forma geral, não repugnam nem os instrumentos estatais nem os privados ou sociais para reduzir desigualdades e promover o bem-estar. A direita ainda não percebeu isso e fala ainda de uma esquerda estereotípica que não existe ou que existe cada vez menos e pode acabar a falar sozinha. Jornalista (jvm@publico.pt)