por José Vítor Malheiros
Texto publicado no Público de 13 de Fevereiro de 2001
Crónica x/2001
Há uma pergunta que pode ser declinada de inúmeras maneiras, mas que condiciona todas as outras. Como é que devemos viver? Que princípios nos devem conduzir nos nossos actos? O que é que está certo e o que é que está errado?
A pergunta é particularmente difícil porque não tem uma resposta, mas milhões. Intuímos que deve haver uma forma simples de responder, uma fórmula universal, mas a nossa experiência ensina-nos que essa resposta é diferente para cada caso, cada época, cada país. É uma pergunta a que não se responde apenas com uma receita, com um preceito, mas com os actos que praticamos todos os dias, a cada momento — é uma pergunta à qual não se consegue fugir com a batota das declarações de princípio.
No tempo em que as regras de comportamento e a definição do bem e do mal eram ditadas pelos deuses, as coisas eram mais simples. Havia uma doutrina e sacerdotes capazes de a interpretar, recompensas e castigos que marcavam claramente a escolha certa e o caminho da danação. Nas sociedades democráticas e laicas, a lei é o que mais se aproxima desse corpo normativo, mas preocupa-se apenas em definir interditos ou em impor regras convencionais — que são práticas, mas não se podem confundir com a ética.
As escolhas raramente são evidentes (ou pelo menos nunca o são quando já nos surgem como questões éticas) porque nos obrigam quase sempre a equilibrar valores que são todos importantes mas que não deixam por esse facto de ser contraditórios. Seria demasiado fácil.
Como devemos viver? Não há manuais que nos possam responder. Os códigos deontológicos que existem nalgumas profissões são isso mesmo, deontológicos, definem deveres profissionais.
A ética não tem códigos, vive da jurisprudência. Vive de analogias, de comparações, de exemplos, da análise das consequências. As suas referências são os exemplos vivos, ao nosso lado, os exemplos mortos da História.
Para saber como devemos viver, não é possível ignorar como viveram os que viveram antes.
Vem tudo isto a propósito da polémica sobre a colaboração da IBM com o regime nazi. Que a IBM colaborou com os nazis, está para além da dúvida. Os documentos citados no livro de Edwin Black provam-no (mesmo que nos atenhamos apenas às citações desses documentos). Mas é importante saber até que ponto colaborou, saber o que sabiam os administradores em Nova Iorque sobre o fim dos recenseamentos, sobre o uso dado às máquinas que se encontravam nos campos da morte, o que sabiam os responsáveis das várias filiais da empresa, saber por quanta eficiência (por quantas mortes) a tecnologia IBM foi responsável, conhecer a verdadeira dimensão desse envolvimento.
A IBM tem o dever de abrir os seus arquivos, de permitir o escrutínio de cada guia de remessa, de cada nota de encomenda, de cada carta e de cada factura, porque as pessoas tem o direito de saber. Têm direito a saber todos os que foram vítimas do nazismo, todos os familiares dos exterminados e todos os outros. Temos o direito de saber porque precisamos de saber. Precisamos de saber porque precisamos de poder julgar, de poder avaliar, perdoar e condenar. Precisamos de poder julgar porque a equidade do tratamento é uma das bases da nossa ética, que impõe a reciprocidade e a equidade como uma norma. Porque não podemos condenar uns e perdoar outros que tenham cometidos os mesmos actos.
Precisamos de saber o que fizeram essas pessoas da IBM, há 60 anos, porque as instituições (e as marcas) transportam valores (e bens) para além do período de vida das pessoas e têm de ser julgadas não apenas pelos actos das pessoas que as compõem mas também pelos actos que praticaram como instituições. Ou não são as empresas as primeiras a invocar a sua tradição e os seus actos passados quando se trata de afirmar as qualidades de uma marca?
Neste novo século, não queremos ter de tornar de novo a descrever o indescritível, não queremos ter de encarar o insuportável, de sofrer o inexplicável. Para isso, é preciso que possamos aprender com os nossos erros. E, para isso, é preciso que os conheçamos.
Mais ainda neste novo mundo onde nos dizem que a concorrência global é o único caminho para o bem-estar, onde só pode haver vencedores, onde a ideologia da vitória parece querer tornar-se o único critério de decisão.
terça-feira, fevereiro 13, 2001
terça-feira, fevereiro 06, 2001
Vivam as escadas
por José Vítor Malheiros
Texto publicado no Público de 6 de Fevereiro de 2001
Crónica x/2001
Se perguntássemos aos moradores do município de Lisboa quais são os problemas que consideram que a sua Câmara deveria resolver com mais urgência encontraríamos uma lista de onde constariam certamente a mediocridade dos transportes públicos, o trânsito, o estacionamento sobre os passeios (três faces da mesma moeda); a falta de simples passeios e espaços de lazer criados para o uso os peões; a falta de segurança nalgumas zonas da cidade (que é outra maneira de dizer desertificação urbana); a sujidade das ruas; a degradação dos imóveis; a falta de convivialidade da cidade; os inúmeros perigos que a cidade oferece aos peões em geral e aos idosos em particular; o desaparecimento do pequeno comércio; as ruas alagadas quando chove, etc.
Penso que seria altamente improvável que alguém pusesse numa lista desse tipo acima da trigésima posição o difícil acesso do Martim Moniz ao castelo de S. Jorge.
A solução encontrada para facilitar o acesso da Mouraria ao Castelo é, assim, pelo menos estranha, pois parece uma solução para um problema que não existia, ou existia mas não era urgente e que, de qualquer forma, podia ser solucionado de outras formas.
Pode dizer-se que a gestão de uma cidade não se resume a resolver os problemas urgentes e que há outros aspectos que têm de merecer a atenção dos autarcas, como a necessidade de prever e evitar problemas futuros ou o embelezamento e melhoramento geral da cidade.
O problema é que, também aqui, não se encontra razão para a decisão da Câmara, pois o elevador proposto parece ser a forma mais cara e menos prática de resolver qualquer problema de acesso (cuidar das ruas de acesso ao Castelo e, eventualmente, criar um vaivém de dimensão adequada às ruas parece mais sensato) e tem-se alguma dificuldade em imaginar que ele possa constituir um embelezamento, com o seu ar de mostruário de betão, típico dos anos 50, e o seu design industrial (aceitável para a correia transportadora de uma fábrica) mas certamente nem elegante, nem ousado.
João Soares, na pequena exposição patente nos Paços do Concelho sobre o elevador, faz uma imodesta comparação com a torre Eiffel — de quem também pouca gente gostava no início. A analogia não é das melhores. A torre foi uma proeza técnica, teve o mérito de não se propor desfear Notre Dame e... não servia para nada.
A Câmara de Lisboa não gosta de peões. Os peões chateiam, muitos deles são velhos e andam na estrada porque os passeios escorregam, alguns até nem gostam de buracos nem de andar na lama. O elevador tem o mérito de os concentrar num tubo, o que permite que não seja preciso preocuparmo-nos com eles nas encostas do Castelo.
O arquitecto e ensaísta Paul Virilio diz que, quando se inventa o elevador, perdem-se as escadas. Lisboa tem direito às suas escadas, ao seu relevo, às suas colinas. E a uma autarquia que resolva problemas reais de forma sensata.
Crónica
$Vivam as escadas
José Vítor Malheiros
Se perguntássemos aos moradores do município de Lisboa quais são os problemas que consideram que a sua Câmara deveria resolver com mais urgência encontraríamos uma lista de onde constariam certamente a mediocridade dos transportes públicos, o trânsito, o estacionamento sobre os passeios (três faces da mesma moeda); a falta de simples passeios e espaços de lazer criados para o uso os peões; a falta de segurança nalgumas zonas da cidade (que é outra maneira de dizer desertificação urbana); a sujidade das ruas; a degradação dos imóveis; a falta de convivialidade da cidade; os inúmeros perigos que a cidade oferece aos peões em geral e aos idosos em particular; o desaparecimento do pequeno comércio; as ruas alagadas quando chove, etc.
Penso que seria altamente improvável que alguém pusesse numa lista desse tipo acima da trigésima posição o difícil acesso do Martim Moniz ao castelo de S. Jorge.
A solução encontrada para facilitar o acesso da Mouraria ao Castelo é, assim, pelo menos estranha, pois parece uma solução para um problema que não existia, ou existia mas não era urgente e que, de qualquer forma, podia ser solucionado de outras formas.
Pode dizer-se que a gestão de uma cidade não se resume a resolver os problemas urgentes e que há outros aspectos que têm de merecer a atenção dos autarcas, como a necessidade de prever e evitar problemas futuros ou o embelezamento e melhoramento geral da cidade.
O problema é que, também aqui, não se encontra razão para a decisão da Câmara, pois o elevador proposto parece ser a forma mais cara e menos prática de resolver qualquer problema de acesso (cuidar das ruas de acesso ao Castelo e, eventualmente, criar um vaivém de dimensão adequada às ruas parece mais sensato) e tem-se alguma dificuldade em imaginar que ele possa constituir um embelezamento, com o seu ar de mostruário de betão, típico dos anos 50, e o seu design industrial (aceitável para a correia transportadora de uma fábrica) mas certamente nem elegante, nem ousado.
João Soares, na pequena exposição patente nos Paços do Concelho sobre o elevador, faz uma imodesta comparação com a torre Eiffel — de quem também pouca gente gostava no início. A analogia não é das melhores. A torre foi uma proeza técnica, teve o mérito de não se propor desfear Notre Dame e... não servia para nada.
A Câmara de Lisboa não gosta de peões. Os peões chateiam, muitos deles são velhos e andam na estrada porque os passeios escorregam, alguns até nem gostam de buracos nem de andar na lama. O elevador tem o mérito de os concentrar num tubo, o que permite que não seja preciso preocuparmo-nos com eles nas encostas do Castelo.
O arquitecto e ensaísta Paul Virilio diz que, quando se inventa o elevador, perdem-se as escadas. Lisboa tem direito às suas escadas, ao seu relevo, às suas colinas. E a uma autarquia que resolva problemas reais de forma sensata.
Texto publicado no Público de 6 de Fevereiro de 2001
Crónica x/2001
Se perguntássemos aos moradores do município de Lisboa quais são os problemas que consideram que a sua Câmara deveria resolver com mais urgência encontraríamos uma lista de onde constariam certamente a mediocridade dos transportes públicos, o trânsito, o estacionamento sobre os passeios (três faces da mesma moeda); a falta de simples passeios e espaços de lazer criados para o uso os peões; a falta de segurança nalgumas zonas da cidade (que é outra maneira de dizer desertificação urbana); a sujidade das ruas; a degradação dos imóveis; a falta de convivialidade da cidade; os inúmeros perigos que a cidade oferece aos peões em geral e aos idosos em particular; o desaparecimento do pequeno comércio; as ruas alagadas quando chove, etc.
Penso que seria altamente improvável que alguém pusesse numa lista desse tipo acima da trigésima posição o difícil acesso do Martim Moniz ao castelo de S. Jorge.
A solução encontrada para facilitar o acesso da Mouraria ao Castelo é, assim, pelo menos estranha, pois parece uma solução para um problema que não existia, ou existia mas não era urgente e que, de qualquer forma, podia ser solucionado de outras formas.
Pode dizer-se que a gestão de uma cidade não se resume a resolver os problemas urgentes e que há outros aspectos que têm de merecer a atenção dos autarcas, como a necessidade de prever e evitar problemas futuros ou o embelezamento e melhoramento geral da cidade.
O problema é que, também aqui, não se encontra razão para a decisão da Câmara, pois o elevador proposto parece ser a forma mais cara e menos prática de resolver qualquer problema de acesso (cuidar das ruas de acesso ao Castelo e, eventualmente, criar um vaivém de dimensão adequada às ruas parece mais sensato) e tem-se alguma dificuldade em imaginar que ele possa constituir um embelezamento, com o seu ar de mostruário de betão, típico dos anos 50, e o seu design industrial (aceitável para a correia transportadora de uma fábrica) mas certamente nem elegante, nem ousado.
João Soares, na pequena exposição patente nos Paços do Concelho sobre o elevador, faz uma imodesta comparação com a torre Eiffel — de quem também pouca gente gostava no início. A analogia não é das melhores. A torre foi uma proeza técnica, teve o mérito de não se propor desfear Notre Dame e... não servia para nada.
A Câmara de Lisboa não gosta de peões. Os peões chateiam, muitos deles são velhos e andam na estrada porque os passeios escorregam, alguns até nem gostam de buracos nem de andar na lama. O elevador tem o mérito de os concentrar num tubo, o que permite que não seja preciso preocuparmo-nos com eles nas encostas do Castelo.
O arquitecto e ensaísta Paul Virilio diz que, quando se inventa o elevador, perdem-se as escadas. Lisboa tem direito às suas escadas, ao seu relevo, às suas colinas. E a uma autarquia que resolva problemas reais de forma sensata.
Crónica
$Vivam as escadas
José Vítor Malheiros
Se perguntássemos aos moradores do município de Lisboa quais são os problemas que consideram que a sua Câmara deveria resolver com mais urgência encontraríamos uma lista de onde constariam certamente a mediocridade dos transportes públicos, o trânsito, o estacionamento sobre os passeios (três faces da mesma moeda); a falta de simples passeios e espaços de lazer criados para o uso os peões; a falta de segurança nalgumas zonas da cidade (que é outra maneira de dizer desertificação urbana); a sujidade das ruas; a degradação dos imóveis; a falta de convivialidade da cidade; os inúmeros perigos que a cidade oferece aos peões em geral e aos idosos em particular; o desaparecimento do pequeno comércio; as ruas alagadas quando chove, etc.
Penso que seria altamente improvável que alguém pusesse numa lista desse tipo acima da trigésima posição o difícil acesso do Martim Moniz ao castelo de S. Jorge.
A solução encontrada para facilitar o acesso da Mouraria ao Castelo é, assim, pelo menos estranha, pois parece uma solução para um problema que não existia, ou existia mas não era urgente e que, de qualquer forma, podia ser solucionado de outras formas.
Pode dizer-se que a gestão de uma cidade não se resume a resolver os problemas urgentes e que há outros aspectos que têm de merecer a atenção dos autarcas, como a necessidade de prever e evitar problemas futuros ou o embelezamento e melhoramento geral da cidade.
O problema é que, também aqui, não se encontra razão para a decisão da Câmara, pois o elevador proposto parece ser a forma mais cara e menos prática de resolver qualquer problema de acesso (cuidar das ruas de acesso ao Castelo e, eventualmente, criar um vaivém de dimensão adequada às ruas parece mais sensato) e tem-se alguma dificuldade em imaginar que ele possa constituir um embelezamento, com o seu ar de mostruário de betão, típico dos anos 50, e o seu design industrial (aceitável para a correia transportadora de uma fábrica) mas certamente nem elegante, nem ousado.
João Soares, na pequena exposição patente nos Paços do Concelho sobre o elevador, faz uma imodesta comparação com a torre Eiffel — de quem também pouca gente gostava no início. A analogia não é das melhores. A torre foi uma proeza técnica, teve o mérito de não se propor desfear Notre Dame e... não servia para nada.
A Câmara de Lisboa não gosta de peões. Os peões chateiam, muitos deles são velhos e andam na estrada porque os passeios escorregam, alguns até nem gostam de buracos nem de andar na lama. O elevador tem o mérito de os concentrar num tubo, o que permite que não seja preciso preocuparmo-nos com eles nas encostas do Castelo.
O arquitecto e ensaísta Paul Virilio diz que, quando se inventa o elevador, perdem-se as escadas. Lisboa tem direito às suas escadas, ao seu relevo, às suas colinas. E a uma autarquia que resolva problemas reais de forma sensata.
terça-feira, janeiro 02, 2001
Observados
por José Vítor Malheiros
Texto publicado no Público de 2 de Janeiro de 2001
Crónica 1/2001
Uma das maravilhas tecnológicas do comércio electrónico que a Web prometeu às empresas foi a capacidade de monitorizar o comportamento dos seus clientes de forma automática. Navegar na Internet é, de facto, saltar de computador em computador, e todos sabemos que os computadores têm o obsessivo hábito de registar tudo o que lhes fazemos.
Não é possível fazer uma compra na Internet sem que esse acto fique registado numa base de dados e, à medida que as nossas compras vão crescendo, essas bases de dados vão guardando informações cada vez mais detalhadas sobre os nossos hábitos, as nossas preferências, os nossos gostos, sobre nós.
Hoje, para conhecer os gostos de uma clientela potencial, basta um programa que analisa as cascatas de cliques que saem dos nossos ratos.
É evidente que este conhecimento tem um lado positivo tanto para os vendedores como para os consumidores: as empresas podem desta forma fazer ofertas compatíveis com as preferências e necessidades dos seus clientes potenciais, aumentando as suas vendas e a satisfação dos compradores.
Porém, é conveniente não perder de vista as implicações sociais de um tal sistema.
À medida que a Web se vai tornando um espaço cada vez mais vigiado, o grau de liberdade de que gozamos nesse espaço sofre uma restrição. É irrelevante que a informação que é recolhida sobre nós vise vender-nos cada vez mais produtos e não o controlo autoritário dos nossos gestos. O fundo da questão é que, cada vez mais, cada gesto que fazemos na Web é seguido por um programa e essa monitorização, só por si, é uma redução da nossa liberdade.
A liberdade não é só o direito e a possibilidade de agir segundo a nossa consciência moral, as nossas escolhas racionais e as nossas preferências emocionais. É também o direito de o fazer secretamente, sem que ninguém o possa saber. A liberdade está ligada ao anonimato de que podemos gozar, à protecção da nossa esfera privada.
A física quântica ensinou-nos que a observação altera os eventos observados, a antropologia confirma que alguém que é observado age de forma condicionada.
Quando estamos protegidos dos olhares exteriores estamos também protegidos de pressões, de censuras, de represálias.
Sentimo-nos mais livres numa cidade estrangeira porque nos sentimos livres do escrutínio dos nossos pares, da atenção dos nossos vizinhos, porque somos mais anónimos.
O sufrágio nos países democráticos é secreto por se considerar que a vontade dos eleitores só se pode exprimir de forma verdadeiramente livre se for feita de forma anónima, no segredo de uma cabine de voto.
A Web e o comércio electrónico precisam da confiança dos utilizadores, mas essa confiança só existirá se cada internauta puder saber, em cada momento, que informação está a ser colhida sobre o seu comportamento e se puder controlar facilmente essa informação e recusar o seu processamento. Os cidadãos devem exigir esse controlo, as empresas devem proporcioná-lo e as autoridades devem garanti-lo.
Texto publicado no Público de 2 de Janeiro de 2001
Crónica 1/2001
Uma das maravilhas tecnológicas do comércio electrónico que a Web prometeu às empresas foi a capacidade de monitorizar o comportamento dos seus clientes de forma automática. Navegar na Internet é, de facto, saltar de computador em computador, e todos sabemos que os computadores têm o obsessivo hábito de registar tudo o que lhes fazemos.
Não é possível fazer uma compra na Internet sem que esse acto fique registado numa base de dados e, à medida que as nossas compras vão crescendo, essas bases de dados vão guardando informações cada vez mais detalhadas sobre os nossos hábitos, as nossas preferências, os nossos gostos, sobre nós.
Hoje, para conhecer os gostos de uma clientela potencial, basta um programa que analisa as cascatas de cliques que saem dos nossos ratos.
É evidente que este conhecimento tem um lado positivo tanto para os vendedores como para os consumidores: as empresas podem desta forma fazer ofertas compatíveis com as preferências e necessidades dos seus clientes potenciais, aumentando as suas vendas e a satisfação dos compradores.
Porém, é conveniente não perder de vista as implicações sociais de um tal sistema.
À medida que a Web se vai tornando um espaço cada vez mais vigiado, o grau de liberdade de que gozamos nesse espaço sofre uma restrição. É irrelevante que a informação que é recolhida sobre nós vise vender-nos cada vez mais produtos e não o controlo autoritário dos nossos gestos. O fundo da questão é que, cada vez mais, cada gesto que fazemos na Web é seguido por um programa e essa monitorização, só por si, é uma redução da nossa liberdade.
A liberdade não é só o direito e a possibilidade de agir segundo a nossa consciência moral, as nossas escolhas racionais e as nossas preferências emocionais. É também o direito de o fazer secretamente, sem que ninguém o possa saber. A liberdade está ligada ao anonimato de que podemos gozar, à protecção da nossa esfera privada.
A física quântica ensinou-nos que a observação altera os eventos observados, a antropologia confirma que alguém que é observado age de forma condicionada.
Quando estamos protegidos dos olhares exteriores estamos também protegidos de pressões, de censuras, de represálias.
Sentimo-nos mais livres numa cidade estrangeira porque nos sentimos livres do escrutínio dos nossos pares, da atenção dos nossos vizinhos, porque somos mais anónimos.
O sufrágio nos países democráticos é secreto por se considerar que a vontade dos eleitores só se pode exprimir de forma verdadeiramente livre se for feita de forma anónima, no segredo de uma cabine de voto.
A Web e o comércio electrónico precisam da confiança dos utilizadores, mas essa confiança só existirá se cada internauta puder saber, em cada momento, que informação está a ser colhida sobre o seu comportamento e se puder controlar facilmente essa informação e recusar o seu processamento. Os cidadãos devem exigir esse controlo, as empresas devem proporcioná-lo e as autoridades devem garanti-lo.
segunda-feira, janeiro 01, 2001
Crónicas e Cª
Este blog irá incluir textos já publicados no Público sob a forma de crónicas, comentários ou críticas.
sábado, junho 26, 1999
Como contar um escândalo e melhorar a sua imagem
por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 26 de Junho de 1999
Suplemento Mil Folhas - Crítica do livro "Truth to Tell" de Lanny Davis
"Truth to Tell" conta-nos como escândalos na Casa Branca foram "geridos" e os danos foram "controlados". Sempre na defesa dos interesses do presidente Bill Clinton - a quem Lanny Davis se refere como "o seu cliente".
Os livros mais ou menos memorialistas dos assessores dos presidentes norte-americanos sobre as respectivas passagens pela Casa Branca não são uma raridade. Não há praticamente ninguém que tenha vivido um momento de intimidade ou cumplicidade na Sala Oval que resista a contá-lo ao mundo. O consulado de Clinton tem sido rico neste tipo de produção, de Dick Morris ("Behind the Oval Office") a George Stephanopoulos ("All Too Human") e da história de Gennifer Flowers ("Sleeping With the President") à de Monica Lewinsky ("Monica's Story").
O que o livro de Lanny Davis ("Truth to Tell") tem de particular é o facto de abordar um tema particularmente restrito e que raramente é tratado de forma tão explícita (os americanos diriam "cândida") pelos assessores dos políticos: as relações entre o poder e a imprensa em situações de crise.
Lanny Davis é um advogado de Washington que foi contratado pela Casa Branca em Dezembro de 1996 com um mandato simples: gerir as relações com a imprensa em casos de escândalo. Uma especialidade no domínio da comunicação institucional a que se dá o nome de "gestão de crises e controlo de danos".
É verdade que também existem muitos livros no mercado sobre a gestão de crises, mas trata-se de manuais assépticos que é impossível ler sem algumas dúvidas quanto à exequibilidade dos seus princípios no mundo real.
"Truth to Tell", pelo contrário, conta-nos a história de alguns casos reais onde a crise foi "gerida" e onde os danos foram "controlados". Sempre na defesa dos interesses do empregador de Davis, o presidente Bill Clinton - a quem Davis se refere como "o seu cliente" -, explicando-nos pelo caminho algumas evidências sobre a forma como a imprensa e o público podem ser manipulados... sem ferir a verdade.
"Truth to Tell" tem um "handicap": o seu autor entrou na Casa Branca em Dezembro de 1996, quando o período mais quente de Whitewater já tinha passado (ainda que o caso estivesse longe de ter acabado) e saiu em Janeiro de 1998, quando o caso Lewinsky tinha acabado de rebentar (Davis garante que não há relação de causalidade entre o caso e a sua saída, motivada por razões pessoais).A maior parte dos casos que Davis conta no seu livro dizem respeito ao chamado escândalo do financiamento do Partido Democrata - financiadores pouco transparentes, suspeita de atropelo de várias normas legais, suspeita de venda de certos favores (noites na Casa Branca, viagens no Air Force One) em troca de donativos - mas é fascinante ver como a aplicação de certas normas de "controlo de danos" pelo pessoal da Casa Branca conseguiu anular por completo o impacto de histórias que, noutro contexto, seriam desastrosas.
O truque de Davis? Nem mais nem menos do que uma velha receita na qual é difícil acreditar: contar a verdade, mas fazê-lo de forma a controlar o resultado. O livro traz aliás na capa a epígrafe "Tell it early, tell it all, tell it yourself" (Conte tudo, faça-o cedo e faça-o você próprio).
Como é que se consegue fazer isso e proteger a imagem do seu cliente? Davis explica em pormenor. Quando um assessor de imprensa está perante a iminência da publicação de uma história potencialmente desastrosa, deve tentar antes de mais conseguir a publicação de um artigo de referência sobre essa história, num órgão de comunicação respeitado, de onde constem todas as informações potencialmente prejudiciais.
Para quê? Para que nem o mesmo órgão de informação nem qualquer outro tenha matéria para continuar a explorar a história. O objectivo, em resumo, é esgotar a história ou, como diz Davis, "transformar as más notícias em notícias velhas".
Se houver factos verdadeiramente negativos na história, a opinião pública e os opositores políticos poderão explorá-los durante algum tempo, mas eles acabarão por cair no esquecimento - afogados pelo quotidiano dos jornais, da televisão e da política, por factos novos, que se vão sobrepondo aos outros e nos vão fazendo esquecer as notícias de ontem para impor as de hoje.
Se não se conseguir a publicação da história de referência ou se não se fornecerem todas as informações aos jornalistas, o que acontece é que um escândalo dará origem não a uma história mas a uma série de histórias, exploradas por vários jornais, que se empenharão em cavar mais fundo, para bater os seus concorrentes - com a agravante suplementar que cada jornal não deixará de sublinhar que os visados tentaram sonegar informação ao público. Com a publicação da história de referência, tudo morre à nascença. E Davis tem um currículo para provar a tese.
Como é que se consegue que um órgão de comunicação sério escreva a história que convém? Oferecendo-lhe um exclusivo. Garantindo-lhe que terá toda a informação que os outros nunca terão, que poderá falar com toda a gente com que os outros nunca poderão falar. E garantindo desta forma que os pontos de vista do seu cliente serão ouvidos, compreendidos e referidos.É claro que, depois, o assessor de imprensa verdadeiramente eficaz usa outros truques: por exemplo, tenta publicar a história no dia em que ela possa ter menos impacto (uma manhã de sábado é uma boa ocasião) e - truque supremo - oferece-a a uma agência noticiosa como a Associated Press, sabendo que jornais como o "New York Times" ou o "Washington Post" jamais publicarão uma história da AP na primeira página se não lhe puderem acrescentar absolutamente nenhuma informação nova.
Sublinhe-se que não há aqui qualquer venalidade: os jornalistas que Davis escolhe como seus interlocutores privilegiados são excelentes profissionais, independentes e rigorosos, dos melhores jornais, que tentam dar aos seus leitores a melhor informação possível. Mas, devido às idiossincrasias da prática dos jornais (que valorizam mais uma história própria do que uma descoberta pela concorrência; a história de hoje em detrimento de uma história com três dias, independentemente da sua importância relativa) é possível manobrar o noticiário de forma a servir os interesses do inquilino da Casa Branca ou de qualquer outro que pague o salário de Lanny Davis.
Como é que se pode ter a certeza de que um jornalista distraído não voltará a publicar a história, se se faz tudo o que é possível para que ela passe despercebida? Graças à gigantesca base de dados Lexis-Nexis, que reúne os artigos da imprensa norte-americana e que os repórteres consultam sempre antes de começar a escrever sobre algum assunto, para ver o que já foi dito sobre a questão. Se o assunto já foi objecto de uma história de referência, a consulta da Lexis-Nexis revelará que não há nada, absolutamente nada, que possa ser acrescentado à questão. E, por muito quente que o tema seja (ou tenha sido), ele irá para o cesto dos papéis.
Depois de ler "Truth to Tell" e de termos visto como o caso Lewinsky viveu do facto de Clinton ter tentado escondê-lo (e como ele se esvaziou depois de conhecermos tudo) é impossível não pensar no que (não) teria acontecido se Lanny Davis tivesse sido encarregado de o controlar.
Texto publicado no jornal Público a 26 de Junho de 1999
Suplemento Mil Folhas - Crítica do livro "Truth to Tell" de Lanny Davis
"Truth to Tell" conta-nos como escândalos na Casa Branca foram "geridos" e os danos foram "controlados". Sempre na defesa dos interesses do presidente Bill Clinton - a quem Lanny Davis se refere como "o seu cliente".
Os livros mais ou menos memorialistas dos assessores dos presidentes norte-americanos sobre as respectivas passagens pela Casa Branca não são uma raridade. Não há praticamente ninguém que tenha vivido um momento de intimidade ou cumplicidade na Sala Oval que resista a contá-lo ao mundo. O consulado de Clinton tem sido rico neste tipo de produção, de Dick Morris ("Behind the Oval Office") a George Stephanopoulos ("All Too Human") e da história de Gennifer Flowers ("Sleeping With the President") à de Monica Lewinsky ("Monica's Story").
O que o livro de Lanny Davis ("Truth to Tell") tem de particular é o facto de abordar um tema particularmente restrito e que raramente é tratado de forma tão explícita (os americanos diriam "cândida") pelos assessores dos políticos: as relações entre o poder e a imprensa em situações de crise.
Lanny Davis é um advogado de Washington que foi contratado pela Casa Branca em Dezembro de 1996 com um mandato simples: gerir as relações com a imprensa em casos de escândalo. Uma especialidade no domínio da comunicação institucional a que se dá o nome de "gestão de crises e controlo de danos".
É verdade que também existem muitos livros no mercado sobre a gestão de crises, mas trata-se de manuais assépticos que é impossível ler sem algumas dúvidas quanto à exequibilidade dos seus princípios no mundo real.
"Truth to Tell", pelo contrário, conta-nos a história de alguns casos reais onde a crise foi "gerida" e onde os danos foram "controlados". Sempre na defesa dos interesses do empregador de Davis, o presidente Bill Clinton - a quem Davis se refere como "o seu cliente" -, explicando-nos pelo caminho algumas evidências sobre a forma como a imprensa e o público podem ser manipulados... sem ferir a verdade.
"Truth to Tell" tem um "handicap": o seu autor entrou na Casa Branca em Dezembro de 1996, quando o período mais quente de Whitewater já tinha passado (ainda que o caso estivesse longe de ter acabado) e saiu em Janeiro de 1998, quando o caso Lewinsky tinha acabado de rebentar (Davis garante que não há relação de causalidade entre o caso e a sua saída, motivada por razões pessoais).A maior parte dos casos que Davis conta no seu livro dizem respeito ao chamado escândalo do financiamento do Partido Democrata - financiadores pouco transparentes, suspeita de atropelo de várias normas legais, suspeita de venda de certos favores (noites na Casa Branca, viagens no Air Force One) em troca de donativos - mas é fascinante ver como a aplicação de certas normas de "controlo de danos" pelo pessoal da Casa Branca conseguiu anular por completo o impacto de histórias que, noutro contexto, seriam desastrosas.
O truque de Davis? Nem mais nem menos do que uma velha receita na qual é difícil acreditar: contar a verdade, mas fazê-lo de forma a controlar o resultado. O livro traz aliás na capa a epígrafe "Tell it early, tell it all, tell it yourself" (Conte tudo, faça-o cedo e faça-o você próprio).
Como é que se consegue fazer isso e proteger a imagem do seu cliente? Davis explica em pormenor. Quando um assessor de imprensa está perante a iminência da publicação de uma história potencialmente desastrosa, deve tentar antes de mais conseguir a publicação de um artigo de referência sobre essa história, num órgão de comunicação respeitado, de onde constem todas as informações potencialmente prejudiciais.
Para quê? Para que nem o mesmo órgão de informação nem qualquer outro tenha matéria para continuar a explorar a história. O objectivo, em resumo, é esgotar a história ou, como diz Davis, "transformar as más notícias em notícias velhas".
Se houver factos verdadeiramente negativos na história, a opinião pública e os opositores políticos poderão explorá-los durante algum tempo, mas eles acabarão por cair no esquecimento - afogados pelo quotidiano dos jornais, da televisão e da política, por factos novos, que se vão sobrepondo aos outros e nos vão fazendo esquecer as notícias de ontem para impor as de hoje.
Se não se conseguir a publicação da história de referência ou se não se fornecerem todas as informações aos jornalistas, o que acontece é que um escândalo dará origem não a uma história mas a uma série de histórias, exploradas por vários jornais, que se empenharão em cavar mais fundo, para bater os seus concorrentes - com a agravante suplementar que cada jornal não deixará de sublinhar que os visados tentaram sonegar informação ao público. Com a publicação da história de referência, tudo morre à nascença. E Davis tem um currículo para provar a tese.
Como é que se consegue que um órgão de comunicação sério escreva a história que convém? Oferecendo-lhe um exclusivo. Garantindo-lhe que terá toda a informação que os outros nunca terão, que poderá falar com toda a gente com que os outros nunca poderão falar. E garantindo desta forma que os pontos de vista do seu cliente serão ouvidos, compreendidos e referidos.É claro que, depois, o assessor de imprensa verdadeiramente eficaz usa outros truques: por exemplo, tenta publicar a história no dia em que ela possa ter menos impacto (uma manhã de sábado é uma boa ocasião) e - truque supremo - oferece-a a uma agência noticiosa como a Associated Press, sabendo que jornais como o "New York Times" ou o "Washington Post" jamais publicarão uma história da AP na primeira página se não lhe puderem acrescentar absolutamente nenhuma informação nova.
Sublinhe-se que não há aqui qualquer venalidade: os jornalistas que Davis escolhe como seus interlocutores privilegiados são excelentes profissionais, independentes e rigorosos, dos melhores jornais, que tentam dar aos seus leitores a melhor informação possível. Mas, devido às idiossincrasias da prática dos jornais (que valorizam mais uma história própria do que uma descoberta pela concorrência; a história de hoje em detrimento de uma história com três dias, independentemente da sua importância relativa) é possível manobrar o noticiário de forma a servir os interesses do inquilino da Casa Branca ou de qualquer outro que pague o salário de Lanny Davis.
Como é que se pode ter a certeza de que um jornalista distraído não voltará a publicar a história, se se faz tudo o que é possível para que ela passe despercebida? Graças à gigantesca base de dados Lexis-Nexis, que reúne os artigos da imprensa norte-americana e que os repórteres consultam sempre antes de começar a escrever sobre algum assunto, para ver o que já foi dito sobre a questão. Se o assunto já foi objecto de uma história de referência, a consulta da Lexis-Nexis revelará que não há nada, absolutamente nada, que possa ser acrescentado à questão. E, por muito quente que o tema seja (ou tenha sido), ele irá para o cesto dos papéis.
Depois de ler "Truth to Tell" e de termos visto como o caso Lewinsky viveu do facto de Clinton ter tentado escondê-lo (e como ele se esvaziou depois de conhecermos tudo) é impossível não pensar no que (não) teria acontecido se Lanny Davis tivesse sido encarregado de o controlar.
sexta-feira, junho 25, 1999
A vida é sonho?
por José Vítor Malheiros
O tema da irrealidade do mundo material que nos rodeia não é novo. Ele está presente há milénios em religiões que tentam libertar-nos das misérias da realidade e compensar-nos no futuro pelas insuficiências do presente.
A grande diferença entre estas teorias e o mundo que nos oferece "The Matrix" é que, para as primeiras, aquilo a que chamamos "mundo" é uma ilusão provisória, oferecida aos sentidos enquanto esperamos a verdadeira e eterna existência, num mundo talvez sem substância mas que é o único dotado de realidade e que nos pode oferecer a completa felicidade - um Paraíso. No filme, a única coisa que se esconde por trás da ilusão da nossa realidade é o Inferno sem apelo.
Como "eXistenZ", de David Cronenberg, também actualmente em exibição (com quem as comparações são inevitáveis), "The Matrix" aborda um tema que já foi pura filosofia mas a que as descobertas das neurociências vieram trazer uma dimensão física (uma expressão só aparentemente mais segura do que "realidade"): a realidade é um mundo construído pelo nosso cérebro, a partir dos elementos que lhe são fornecidos pelos sentidos e com base em regras de coerência interna.
Dito de outra forma: ninguém sabe como as coisas são; sabemos apenas como elas nos parecem. E sabemos hoje que, quando essa percepção é alterada, o nosso cérebro cria com facilidade visões alternativas do mundo, de forma a integrar nelas de forma coerente as novas mensagens que lhe chegam.Um exemplo simples disso é o que acontece quando uma pessoa coloca uns óculos prismáticos que invertem as imagens que vê. Depois de algumas horas a ver as coisas de pernas para o ar (o que contraria tudo aquilo que ela sabe sobre o funcionamento do mundo), o cérebro da pessoa que é objecto da experiência inverte a imagem recebida e coloca o mundo no seu sítio, de pés no chão, sem que tenha sido preciso tirar os óculos. A imagem que se forma na retina é a mesma, o seu processamento pelo córtex visual mudou. A visão do mundo volta a ser coerente com a história pessoal do indivíduo, com as restantes experiências e as restantes mensagens dos seus sentidos. Se, passados uns dias, os óculos forem retirados, o mundo volta a estar de pernas para o ar, mas tudo se recomporá de novo (não sem umas náuseas ou enxaquecas) passadas umas horas.
Os míopes tem uma experiência quotidiana destas experiências: apesar de os seus óculos mostrarem uma imagem muito mais pequena do que a vista sem óculos, uns dias depois de colocar pela primeira vez umas lentes à frente dos olhos, os míopes passam a ver as coisas das suas verdadeiras dimensões: as suas mãos parecem-lhes da mesma dimensão vistas através dos óculos ou não, porque o seu cérebro sabe que elas não mudam de dimensão e faz, por isso, o necessário ajustamento.
Ou seja: o mundo é fabricado pelo cérebro e a sensação da sua "realidade" não é mais do que o resultado da coerência das várias mensagens recebidas pelos nossos sentidos ao longo do tempo. Sabemos que o filme que vemos no ecrã não é real porque sentimos a cadeira em que estamos sentados e o nosso cérebro atribui uma maior pontuação na escala da realidade a essa sensação. Mas o que acontecerá quando não a sentirmos?
As tecnologias de informação permitem hoje criar mundos virtuais e injectar no nosso cérebro (via órgãos dos sentidos) um grande número de sensações artificiais (imagens, sons, pressão, vibrações). E a ficção científica imagina há décadas o momento em que essa injecção poderá ser feita directamente no cérebro, sem a perturbação da tradução pelos sentidos, e ser tão rica de pormenores como a realidade. Mas o que nos dizem as experiências de realidade virtual, curiosamente, é que não é o aspecto realista do mundo virtual que nos faz acreditar mais nele, mas sim a sua coerência com a nossa experiência, a capacidade de reagir aos nossos gestos. Um mundo de realidade virtual com uma estética de "desenho animado" mas onde as portas se abrem quando rodamos a maçaneta parecer-nos-á mais real que um cenário hiperrealista onde nada reage como devia.
"The Matrix" é, à boa maneira americana, um filme de citações (ou de "clichés", se se quiser), onde o espectador pode reconhecer em cada passo referências estéticas e narrativas, da ficção científica dos Humanoïdes Associés aos contos infantis e aos jogos de computador (as sequências de luta são puro "Mortal Kombat" e é impossível não pensar no jogo de simulação "SimCity"). No entanto, oferece algo de mais interessante: as histórias de ficção científica só costumam ser verosímeis (quando o são) se aceitarmos as premissas do mundo que nos é proposto - e que podem ser muito difíceis de aceitar -, mas a história de "Matrix", sendo a mais fantástica e fantasmagórica que se possa imaginar, é surpreendentemente verosímil no nosso mundo, para aquilo que sabemos hoje.
Em termos de verosimilhança científica, há porém um problema (que não é menor): a ausência de corpo. Ao contrário do que acontece no filme, não seria possível a um corpo que teve durante anos apenas uma existência puramente cerebral, "acordar" e aprender em dias o que nunca aprendeu, de forma a poder viver num mundo real. É que, se para ver é preciso ter cérebro e olhos, isso não basta: é também preciso uma longa, lenta e sedimentada aprendizagem. Um ratinho nascido e mantido num mundo de riscas verticais não consegue ver linhas horizontais: é cego para o que não aprendeu a ver, ainda que os seus olhos e o seu córtex visual funcionem.
Da mesma maneira, um cérebro que não aprendesse a receber sinais do seu corpo (não se trata apenas dos sinais dos sentidos, mas de toda a "paisagem hormonal" que retrata as emoções, de que fala o neurologista António Damásio) não poderia aprender a funcionar nalguns dias e não poderia ser senão um catálogo de psicoses. Por outras palavras: se é possível imaginar que os humanos vivam na Matriz e estejam mergulhados numa vida imaginária, de forma a poderem continuar a experimentar as emoções sintéticas que lhes permitem manter-se vivos, é mais difícil imaginar que eles possam algum dia sair dessa escravidão.
O tema da irrealidade do mundo material que nos rodeia não é novo. Ele está presente há milénios em religiões que tentam libertar-nos das misérias da realidade e compensar-nos no futuro pelas insuficiências do presente.
A grande diferença entre estas teorias e o mundo que nos oferece "The Matrix" é que, para as primeiras, aquilo a que chamamos "mundo" é uma ilusão provisória, oferecida aos sentidos enquanto esperamos a verdadeira e eterna existência, num mundo talvez sem substância mas que é o único dotado de realidade e que nos pode oferecer a completa felicidade - um Paraíso. No filme, a única coisa que se esconde por trás da ilusão da nossa realidade é o Inferno sem apelo.
Como "eXistenZ", de David Cronenberg, também actualmente em exibição (com quem as comparações são inevitáveis), "The Matrix" aborda um tema que já foi pura filosofia mas a que as descobertas das neurociências vieram trazer uma dimensão física (uma expressão só aparentemente mais segura do que "realidade"): a realidade é um mundo construído pelo nosso cérebro, a partir dos elementos que lhe são fornecidos pelos sentidos e com base em regras de coerência interna.
Dito de outra forma: ninguém sabe como as coisas são; sabemos apenas como elas nos parecem. E sabemos hoje que, quando essa percepção é alterada, o nosso cérebro cria com facilidade visões alternativas do mundo, de forma a integrar nelas de forma coerente as novas mensagens que lhe chegam.Um exemplo simples disso é o que acontece quando uma pessoa coloca uns óculos prismáticos que invertem as imagens que vê. Depois de algumas horas a ver as coisas de pernas para o ar (o que contraria tudo aquilo que ela sabe sobre o funcionamento do mundo), o cérebro da pessoa que é objecto da experiência inverte a imagem recebida e coloca o mundo no seu sítio, de pés no chão, sem que tenha sido preciso tirar os óculos. A imagem que se forma na retina é a mesma, o seu processamento pelo córtex visual mudou. A visão do mundo volta a ser coerente com a história pessoal do indivíduo, com as restantes experiências e as restantes mensagens dos seus sentidos. Se, passados uns dias, os óculos forem retirados, o mundo volta a estar de pernas para o ar, mas tudo se recomporá de novo (não sem umas náuseas ou enxaquecas) passadas umas horas.
Os míopes tem uma experiência quotidiana destas experiências: apesar de os seus óculos mostrarem uma imagem muito mais pequena do que a vista sem óculos, uns dias depois de colocar pela primeira vez umas lentes à frente dos olhos, os míopes passam a ver as coisas das suas verdadeiras dimensões: as suas mãos parecem-lhes da mesma dimensão vistas através dos óculos ou não, porque o seu cérebro sabe que elas não mudam de dimensão e faz, por isso, o necessário ajustamento.
Ou seja: o mundo é fabricado pelo cérebro e a sensação da sua "realidade" não é mais do que o resultado da coerência das várias mensagens recebidas pelos nossos sentidos ao longo do tempo. Sabemos que o filme que vemos no ecrã não é real porque sentimos a cadeira em que estamos sentados e o nosso cérebro atribui uma maior pontuação na escala da realidade a essa sensação. Mas o que acontecerá quando não a sentirmos?
As tecnologias de informação permitem hoje criar mundos virtuais e injectar no nosso cérebro (via órgãos dos sentidos) um grande número de sensações artificiais (imagens, sons, pressão, vibrações). E a ficção científica imagina há décadas o momento em que essa injecção poderá ser feita directamente no cérebro, sem a perturbação da tradução pelos sentidos, e ser tão rica de pormenores como a realidade. Mas o que nos dizem as experiências de realidade virtual, curiosamente, é que não é o aspecto realista do mundo virtual que nos faz acreditar mais nele, mas sim a sua coerência com a nossa experiência, a capacidade de reagir aos nossos gestos. Um mundo de realidade virtual com uma estética de "desenho animado" mas onde as portas se abrem quando rodamos a maçaneta parecer-nos-á mais real que um cenário hiperrealista onde nada reage como devia.
"The Matrix" é, à boa maneira americana, um filme de citações (ou de "clichés", se se quiser), onde o espectador pode reconhecer em cada passo referências estéticas e narrativas, da ficção científica dos Humanoïdes Associés aos contos infantis e aos jogos de computador (as sequências de luta são puro "Mortal Kombat" e é impossível não pensar no jogo de simulação "SimCity"). No entanto, oferece algo de mais interessante: as histórias de ficção científica só costumam ser verosímeis (quando o são) se aceitarmos as premissas do mundo que nos é proposto - e que podem ser muito difíceis de aceitar -, mas a história de "Matrix", sendo a mais fantástica e fantasmagórica que se possa imaginar, é surpreendentemente verosímil no nosso mundo, para aquilo que sabemos hoje.
Em termos de verosimilhança científica, há porém um problema (que não é menor): a ausência de corpo. Ao contrário do que acontece no filme, não seria possível a um corpo que teve durante anos apenas uma existência puramente cerebral, "acordar" e aprender em dias o que nunca aprendeu, de forma a poder viver num mundo real. É que, se para ver é preciso ter cérebro e olhos, isso não basta: é também preciso uma longa, lenta e sedimentada aprendizagem. Um ratinho nascido e mantido num mundo de riscas verticais não consegue ver linhas horizontais: é cego para o que não aprendeu a ver, ainda que os seus olhos e o seu córtex visual funcionem.
Da mesma maneira, um cérebro que não aprendesse a receber sinais do seu corpo (não se trata apenas dos sinais dos sentidos, mas de toda a "paisagem hormonal" que retrata as emoções, de que fala o neurologista António Damásio) não poderia aprender a funcionar nalguns dias e não poderia ser senão um catálogo de psicoses. Por outras palavras: se é possível imaginar que os humanos vivam na Matriz e estejam mergulhados numa vida imaginária, de forma a poderem continuar a experimentar as emoções sintéticas que lhes permitem manter-se vivos, é mais difícil imaginar que eles possam algum dia sair dessa escravidão.
sábado, março 06, 1999
A centenária aspirina
José Vítor Malheiros
A 6 de Março de 1899, faz hoje 100 anos, a marca comercial "Aspirina" é registada na Alemanha. Conta a história que o ácido acetilsalicílico foi sintetizado por um químico do laboratório Bayer, chamado Felix Hoffman, quando procurava um remédio para acalmar as dores de reumatismo do pai. Hoje, as cefaleias que infernizam a vida de cada um, vergam-se ao conhecido comprimido branco. E passado um século, é a vez da super-aspirina, mais amiga do estômago, subir ao palco.
Se fosse uma divindade, Aspirina seria a deusa da Saúde e o seu nome grego seria Panaceia. Uma divindade doméstica, com um sorriso pacificador, umas mãos frescas e mornas como as mãos das mães e para a qual todos os homens se voltariam num momento ou noutro.
A história oficial diz que o ácido acetilsalicílico foi sintetizado por um químico do laboratório Bayer no dia 10 de Agosto de 1897, quando procurava um remédio para acalmar as dores de reumatismo do pai.
O nome do homem era Felix Hoffmann (não confundir com o Albert Hofmann que em 1943 sintetizou o LSD) e a foto que o imortalizou mostra-o empertigado e olhando a câmara a três quartos, como era da praxe, de chapéu de coco, exibindo um sorriso satisfeito consigo mesmo, um brilhozinho nos olhos e uma barba de evocação pasteuriana.
A descoberta do ácido acetilsalicílico não foi feita por acaso, nem foi o resultado de uma intuição genial, nem sequer era surpreendente - como seria adequado para aquela que pode reivindicar sem grande contestação o título de "droga do século". A substância fabricada por Hoffmann, que o químico tinha conseguido estabilizar de forma a poder ser usada como medicamento, era apenas uma variação de outra, o ácido salicílico, que já era usado desde 1875 para aliviar a febre e cujo uso tinha raízes na Antiguidade. De facto, Hipócrates (em 200 a.C.) descreve e receita extractos de casca e folhas de um tipo de salgueiro (Salix alba), que são ricas em salicina - uma substância natural rica em ácido salicílico - para aliviar dores e febre.
A Bayer de início não deu grande importância à descoberta mas Hoffmann continuou a trabalhar na sua droga e, em 1899 a empresa estava suficientemente convencida da validade do medicamento para iniciar a sua comercialização em grande escala. A 6 de Março deste ano a marca comercial "Aspirina" é registada na Alemanha.
Os médicos que começam a usar o pó nos seus doentes relatam melhorias espantosas e a droga torna-se famosa de um dia para o outro.No fim do século, em 1900, a droga encarna a invasão da vida quotidiana pela indústria farmacêutica: o pó branco passa a ser vendido sob a forma de comprimidos solúveis em água, acondicionados em práticos tubinhos de vidro. É a primeira droga de uso geral a ser vendida sob a forma de comprimidos e o público adere entusiasticamente. Até aí, a preparação de cada receita exigia uma visita ao boticário - frequentemente duas: uma para deixar a receita e outra, horas depois, para ir buscar o medicamento, preparado na oficina das traseiras da loja - mas a aspirina permite a popularização do uso de medicamentos.
O pré-acondicionamento da droga em comprimidos (o pó branco é "comprimido" em pequenas pastilhas) reduz para metade o custo do medicamento, o que ajuda à sua vulgarização.
O novo século começa com a promessa do fim das dores e a esperança da vitória sobre a doença. Em 1915 a aspirina entra com os dois pés no domínio público e passa a ser um produto de venda livre, impondo as farmácias domésticas como presença obrigatória em todas as casas de banho - "aspirina" passa a ser sinónimo de "comprimido", como "Kodak" é de "máquina fotográfica".
A imagem da aspirina, cuidadosamente desenhada, ajuda à invasão: o comprimido branco, com o seu sabor amargo q.b. e com o nome da Bayer formando uma cruz de cada lado, lembra o escudo de um cruzado em campanha contra a doença.
A generalização e a eficácia da aspirina, aliada aos seus raros efeitos secundários, é reforçada pelo aparecimento dos antibióticos no pós-guerra. A doença, em meados do século, começa a ser vista apenas como um desequilíbrio químico, para cuja cura basta encontrar o comprimido certo, a bala mágica que matará o dragão, a solução química que devolverá a saúde.
A procura de balas mágicas nem sempre é bem sucedida - Richard Nixon, quando quer imitar a promessa de Kennedy de 1961 de pôr um homem na Lua antes do fim da década, promete no início dos anos 70 uma cura do cancro antes do fim da década, com os resultados que se conhece - mas a aspirina continua a acumular sucessos ao longo do século.
Em 1948, descobre-se que a aspirina protege contra ataques cardíacos - ironicamente, nos anos 20 receou-se que a aspirina atacasse o coração e a publicidade empenhava-se em desfazer essa ideia. O uso do medicamento pelos cardíacos demora bastante anos mas acaba por se generalizar. Hoje, dos cinquenta mil milhões de aspirinas vendidas, mais de um terço (37 por cento) é usado na prevenção de ataques cardíacos - as dores de cabeça só aparecem em terceiro lugar (14 por cento), antecedidas da artrite (23 por cento) e seguidos das dores em geral (12 por cento).
A aspirina combate a dor, mas também a inflamação, a febre e melhora a circulação sanguínea - uma vantagem cujo reverso é a razão da principal contra-indicação da droga: o risco de hemorragias. O rol de indicações da aspirina não pára de crescer e ainda continua: da artrite às tromboses, da diabetes à doença de Alzheimer, a aspirina contribui para o tratamento de dezenas e dezenas de doenças.
O seu uso regular poderia salvar ainda 100.000 pessoas por ano, que têm ataques cardíacos mortais mas evitáveis, dizem os estudos, mas a aspirina é vítima do seu próprio êxito: tornou-se demasiado vulgar, é demasiado barata e tem uma imagem demasiado modesta para ser levada a sério por muitos utilizadores. Apesar da história do século XX ser a história da sua conquista do mundo.
A 6 de Março de 1899, faz hoje 100 anos, a marca comercial "Aspirina" é registada na Alemanha. Conta a história que o ácido acetilsalicílico foi sintetizado por um químico do laboratório Bayer, chamado Felix Hoffman, quando procurava um remédio para acalmar as dores de reumatismo do pai. Hoje, as cefaleias que infernizam a vida de cada um, vergam-se ao conhecido comprimido branco. E passado um século, é a vez da super-aspirina, mais amiga do estômago, subir ao palco.
Se fosse uma divindade, Aspirina seria a deusa da Saúde e o seu nome grego seria Panaceia. Uma divindade doméstica, com um sorriso pacificador, umas mãos frescas e mornas como as mãos das mães e para a qual todos os homens se voltariam num momento ou noutro.
A história oficial diz que o ácido acetilsalicílico foi sintetizado por um químico do laboratório Bayer no dia 10 de Agosto de 1897, quando procurava um remédio para acalmar as dores de reumatismo do pai.
O nome do homem era Felix Hoffmann (não confundir com o Albert Hofmann que em 1943 sintetizou o LSD) e a foto que o imortalizou mostra-o empertigado e olhando a câmara a três quartos, como era da praxe, de chapéu de coco, exibindo um sorriso satisfeito consigo mesmo, um brilhozinho nos olhos e uma barba de evocação pasteuriana.
A descoberta do ácido acetilsalicílico não foi feita por acaso, nem foi o resultado de uma intuição genial, nem sequer era surpreendente - como seria adequado para aquela que pode reivindicar sem grande contestação o título de "droga do século". A substância fabricada por Hoffmann, que o químico tinha conseguido estabilizar de forma a poder ser usada como medicamento, era apenas uma variação de outra, o ácido salicílico, que já era usado desde 1875 para aliviar a febre e cujo uso tinha raízes na Antiguidade. De facto, Hipócrates (em 200 a.C.) descreve e receita extractos de casca e folhas de um tipo de salgueiro (Salix alba), que são ricas em salicina - uma substância natural rica em ácido salicílico - para aliviar dores e febre.
A Bayer de início não deu grande importância à descoberta mas Hoffmann continuou a trabalhar na sua droga e, em 1899 a empresa estava suficientemente convencida da validade do medicamento para iniciar a sua comercialização em grande escala. A 6 de Março deste ano a marca comercial "Aspirina" é registada na Alemanha.
Os médicos que começam a usar o pó nos seus doentes relatam melhorias espantosas e a droga torna-se famosa de um dia para o outro.No fim do século, em 1900, a droga encarna a invasão da vida quotidiana pela indústria farmacêutica: o pó branco passa a ser vendido sob a forma de comprimidos solúveis em água, acondicionados em práticos tubinhos de vidro. É a primeira droga de uso geral a ser vendida sob a forma de comprimidos e o público adere entusiasticamente. Até aí, a preparação de cada receita exigia uma visita ao boticário - frequentemente duas: uma para deixar a receita e outra, horas depois, para ir buscar o medicamento, preparado na oficina das traseiras da loja - mas a aspirina permite a popularização do uso de medicamentos.
O pré-acondicionamento da droga em comprimidos (o pó branco é "comprimido" em pequenas pastilhas) reduz para metade o custo do medicamento, o que ajuda à sua vulgarização.
O novo século começa com a promessa do fim das dores e a esperança da vitória sobre a doença. Em 1915 a aspirina entra com os dois pés no domínio público e passa a ser um produto de venda livre, impondo as farmácias domésticas como presença obrigatória em todas as casas de banho - "aspirina" passa a ser sinónimo de "comprimido", como "Kodak" é de "máquina fotográfica".
A imagem da aspirina, cuidadosamente desenhada, ajuda à invasão: o comprimido branco, com o seu sabor amargo q.b. e com o nome da Bayer formando uma cruz de cada lado, lembra o escudo de um cruzado em campanha contra a doença.
A generalização e a eficácia da aspirina, aliada aos seus raros efeitos secundários, é reforçada pelo aparecimento dos antibióticos no pós-guerra. A doença, em meados do século, começa a ser vista apenas como um desequilíbrio químico, para cuja cura basta encontrar o comprimido certo, a bala mágica que matará o dragão, a solução química que devolverá a saúde.
A procura de balas mágicas nem sempre é bem sucedida - Richard Nixon, quando quer imitar a promessa de Kennedy de 1961 de pôr um homem na Lua antes do fim da década, promete no início dos anos 70 uma cura do cancro antes do fim da década, com os resultados que se conhece - mas a aspirina continua a acumular sucessos ao longo do século.
Em 1948, descobre-se que a aspirina protege contra ataques cardíacos - ironicamente, nos anos 20 receou-se que a aspirina atacasse o coração e a publicidade empenhava-se em desfazer essa ideia. O uso do medicamento pelos cardíacos demora bastante anos mas acaba por se generalizar. Hoje, dos cinquenta mil milhões de aspirinas vendidas, mais de um terço (37 por cento) é usado na prevenção de ataques cardíacos - as dores de cabeça só aparecem em terceiro lugar (14 por cento), antecedidas da artrite (23 por cento) e seguidos das dores em geral (12 por cento).
A aspirina combate a dor, mas também a inflamação, a febre e melhora a circulação sanguínea - uma vantagem cujo reverso é a razão da principal contra-indicação da droga: o risco de hemorragias. O rol de indicações da aspirina não pára de crescer e ainda continua: da artrite às tromboses, da diabetes à doença de Alzheimer, a aspirina contribui para o tratamento de dezenas e dezenas de doenças.
O seu uso regular poderia salvar ainda 100.000 pessoas por ano, que têm ataques cardíacos mortais mas evitáveis, dizem os estudos, mas a aspirina é vítima do seu próprio êxito: tornou-se demasiado vulgar, é demasiado barata e tem uma imagem demasiado modesta para ser levada a sério por muitos utilizadores. Apesar da história do século XX ser a história da sua conquista do mundo.
quarta-feira, janeiro 01, 1997
Ciência e Investigação - Anuário Janus 1997
por José Vítor Malheiros
Artigo publicado no "Anuário Janus 1997" (http://www.janusonline.pt/1997/1997_3_21.html)
Edição do jornal Público e do Observare - Observatório de Relações Exteriores da Universidade Autónoma de Lisboa
Os principais elementos que caracterizam o Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN) são a sua pequena dimensão e produção quando comparados com a maioria dos países europeus, características que decorrem da escassez crónica dos recursos que têm sido dedicados em Portugal à investigação e desenvolvimento (I&D).
Segundo as últimas estatísticas oficiais disponíveis para o sector, referentes a 1992, Portugal dedicou ao investimento em l&D nesse ano apenas 0,63 por cento do seu Produto Interno Bruto (PIB). Essa percentagem foi mesmo inferior nos anos anteriores — 0,40 por cento em 1986, 0,43 em 1988, 0,54 em 1990 (as percentagens podem ser respectivamente de 0,71; 0,61; 0,50 e 0,45 mediante a utilização de um método diferente para cálculo do PIB). Nos últimos anos, porém, verificou-se um aumento significativo do investimento em I&D no país, de tal forma que o Governo estima, nas Grandes Opções do Plano para 1997, que ele tenha atingido em 1996 o valor de 0,9 por cento do PIB — o que é particularmente relevante em termos relativos, tanto mais que o PIB também cresceu de forma acentuada nos últimos anos. Apesar disso, esse valor mantém-se ainda muito longe da média de investimento em I&D da União Europeia (1,9 por cento do PIB) ou da OCDE (2,2 por cento).
O investimento público em I&D, graças nomeadamente aos dinheiros da UE, tem no entanto sofrido um significativo aumento nos últimos anos. De 1995 para 1996, por exemplo, verificou-se um aumento de 34 por cento na parte do Orçamento de Ciência e Tecnologia pela qual o Ministério de Ciência e Tecnologia é directamente responsável — de 19,6 para 26,2 milhões de contos, se se comparar o orçamento executado em 1995 com o previsto para 1996.
Quanto ao investimento público total em I&D, ele representou em 1996, segundo as actuais estimativas do Governo, cerca de 0,6 por cento do PIB. Uma das principais fragilidades do SCTN consiste no diminuto investimento em I&D feito pelas empresas. Estas representavam, segundo as estatísticas de 1992, pouco mais de um quinto (22 por cento) do investimento nacional em I&D e as estimativas mais recentes consideram que esse valor não deve ter aumentado de forma muito significativa. Como termo de comparação, diga-se que as empresas realizam 50 por cento da investigação no total da UE e 60 por cento no total da OCDE.
Esta situação deve-se, além das razões estruturais, à quase inexistência de mecanismos formais de apoio à realização de investigação nas empresas por parte do Estado. O Estado português financiava apenas 9 por cento da I&D feita nas empresas em 1992, enquanto essa participação é de 15 a 20 por cento noutros países da Europa. O XIII Governo anunciou, porém, a entrada em vigor, para 1997, de incentivos fiscais às empresas que fizerem I&D.
Existem, apesar de tudo, indícios de que este sector se terá robustecido ao longo dos últimos anos. Assim, no Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional de 1992, realizado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) apenas 203 empresas declaravam realizar actividades de I&D, mas esse número era já de 700 no Inquérito às Empresas do Instituto Nacional de Estatística de 1993. Por outro lado, um estudo feito em 1994 refere a existência de 1000 engenheiros que desenvolvem actividades de I&D em empresas, dos quais 100 possuem um doutoramento. Apesar dos recentes aumentos do investimento, a debilidade crónica do financiamento em I&D traduz-se num reduzido número de investigadores e de pessoal implicado em tarefas de investigação e desenvolvimento experimental.
Portugal possui apenas 9.800 investigadores (em equivalente a tempo inteiro, correspondentes a um total de 16.000 pessoas, estimativa para 1995) o que representa 2,1 por mil elementos da população activa. O mesmo ratio é de 5,5 por mil na OCDE e 4,6 por mil na UE. Quando se compara o peso do total de trabalhadores envolvidos em actividades de I&D, que era de 13.448 em 1992 (em equivalente a tempo inteiro) chega-se às mesmas conclusões: o ratio era então de 2,8 por cada mil elementos da população activa em Portugal, enquanto era, no mesmo ano, de 14,3 no Japão, 12,3 na Alemanha e em França, 9,3 na Holanda, 4,7 em Espanha (1991) e 6,1 na Irlanda (1991).
Baixos índices de produção
Esta situação traduz-se, como seria de esperar, numa baixa produção científica, estimada em 0,2 por cento da produção mundial de artigos publicados em revistas científicas com avaliação prévia ("peer review") nos cinco anos de 1991 a 1995 (ver Quadro 1).
Esta produção mostra-se particularmente baixa quando se compara com a de países como a Holanda ou a Bélgica que, com populações da ordem da portuguesa (quinze e dez milhões de habitantes, respectivamente) representam, respectivamente, 2,42 e 1,13 por cento da produção científica mundial. A Dinamarca e a Finlândia, com cerca de metade da população portuguesa, representam, por seu lado, 0,93 e 0,81 por cento da produção mundial de artigos científicos. A Irlanda, com um terço da população de Portugal, produz mais artigos: 0,26 por cento. E a Grécia, com uma população da ordem da portuguesa e um PIB "per capita" apenas ligeiramente superior ao de Portugal (7700 ecus anuais contra 7500 ecus) consegue produzir duas vezes mais artigos: 0,44 por cento da produção mundial nos cinco anos considerados.
A comparação internacional não é mais lisonjeira quando se tenta avaliar o impacto dessa produção — uma avaliação que contém já um elemento qualitativo —, através do número de citações referentes a esses artigos na literatura internacional. De facto, o número médio de citações obtidas por cada artigo português (2,28) é inferior ao de todos os outros países-membros da UE com a excepção da Grécia (1,85). Quando se faz esta avaliação por áreas científicas o resultado é mais claro: os artigos portugueses apresentam, em quase todas as áreas, um número médio de citações por artigo substancialmente inferior à média mundial de citações por artigo para a área considerada. Esta proporção, a que se dá o nome de "impacto relativo", está representada numa das colunas do Quadro 2. Um impacto relativo de 0,50, por exemplo, significa que os artigos portugueses nessa área têm um número médio de citações que é metade do número médio de citações por artigo nessa área a nível mundial.
O grau de desenvolvimento tecnológico nacional pode, por sua vez, ser avaliado de forma comparada graças a uma análise do número de patentes registadas por Portugal junto do Gabinete Europeu de Patentes (EPO). No ano passado, Portugal foi o país que menos patentes registou nesta organização: apenas três, o que representa 0,01 por cento do total de patentes concedidas pelo EPO (ver Quadro 3).
A cooperação internacional
Um dos factores que tem sido mais fortemente defendido como forma de ultrapassar a fragilidade crónica da investigação portuguesa tem sido o estreitamento da cooperação internacional. E este estreitamento, de facto, tem sido uma das principais características da evolução recente do Sistema Científico e Tecnológico Nacional. Enquanto no biénio 1980/81 apenas 28 por cento da produção científica nacional envolvia uma colaboração com o estrangeiro, em 1990/95 essa percentagem era já de 42 por cento, aparecendo como principais parceiros, por ordem decrescente, o Reino Unido, os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Espanha, a Itália, a Holanda e a Bélgica.
O Reino Unido, a França e os Estados Unidos continuam a ser os principais parceiros de Portugal mas, após a adesão à União Europeia, países como a Alemanha, a Espanha e a Itália começaram a representar um papel cada vez mais relevante para a ciência portuguesa. Se tomarmos como base apenas os projectos do Quarto Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento da União Europeia aprovados em 1995, por exemplo, a Alemanha ocupa já o primeiro lugar como parceiro de Portugal, seguida do Reino Unido, França, Itália, Espanha, Grécia, Bélgica, Holanda, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Irlanda, Áustria e Luxemburgo.
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Artigo publicado no "Anuário Janus 1997" (http://www.janusonline.pt/1997/1997_3_21.html)
Edição do jornal Público e do Observare - Observatório de Relações Exteriores da Universidade Autónoma de Lisboa
Os principais elementos que caracterizam o Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN) são a sua pequena dimensão e produção quando comparados com a maioria dos países europeus, características que decorrem da escassez crónica dos recursos que têm sido dedicados em Portugal à investigação e desenvolvimento (I&D).
Segundo as últimas estatísticas oficiais disponíveis para o sector, referentes a 1992, Portugal dedicou ao investimento em l&D nesse ano apenas 0,63 por cento do seu Produto Interno Bruto (PIB). Essa percentagem foi mesmo inferior nos anos anteriores — 0,40 por cento em 1986, 0,43 em 1988, 0,54 em 1990 (as percentagens podem ser respectivamente de 0,71; 0,61; 0,50 e 0,45 mediante a utilização de um método diferente para cálculo do PIB). Nos últimos anos, porém, verificou-se um aumento significativo do investimento em I&D no país, de tal forma que o Governo estima, nas Grandes Opções do Plano para 1997, que ele tenha atingido em 1996 o valor de 0,9 por cento do PIB — o que é particularmente relevante em termos relativos, tanto mais que o PIB também cresceu de forma acentuada nos últimos anos. Apesar disso, esse valor mantém-se ainda muito longe da média de investimento em I&D da União Europeia (1,9 por cento do PIB) ou da OCDE (2,2 por cento).
O investimento público em I&D, graças nomeadamente aos dinheiros da UE, tem no entanto sofrido um significativo aumento nos últimos anos. De 1995 para 1996, por exemplo, verificou-se um aumento de 34 por cento na parte do Orçamento de Ciência e Tecnologia pela qual o Ministério de Ciência e Tecnologia é directamente responsável — de 19,6 para 26,2 milhões de contos, se se comparar o orçamento executado em 1995 com o previsto para 1996.
Quanto ao investimento público total em I&D, ele representou em 1996, segundo as actuais estimativas do Governo, cerca de 0,6 por cento do PIB. Uma das principais fragilidades do SCTN consiste no diminuto investimento em I&D feito pelas empresas. Estas representavam, segundo as estatísticas de 1992, pouco mais de um quinto (22 por cento) do investimento nacional em I&D e as estimativas mais recentes consideram que esse valor não deve ter aumentado de forma muito significativa. Como termo de comparação, diga-se que as empresas realizam 50 por cento da investigação no total da UE e 60 por cento no total da OCDE.
Esta situação deve-se, além das razões estruturais, à quase inexistência de mecanismos formais de apoio à realização de investigação nas empresas por parte do Estado. O Estado português financiava apenas 9 por cento da I&D feita nas empresas em 1992, enquanto essa participação é de 15 a 20 por cento noutros países da Europa. O XIII Governo anunciou, porém, a entrada em vigor, para 1997, de incentivos fiscais às empresas que fizerem I&D.
Existem, apesar de tudo, indícios de que este sector se terá robustecido ao longo dos últimos anos. Assim, no Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional de 1992, realizado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) apenas 203 empresas declaravam realizar actividades de I&D, mas esse número era já de 700 no Inquérito às Empresas do Instituto Nacional de Estatística de 1993. Por outro lado, um estudo feito em 1994 refere a existência de 1000 engenheiros que desenvolvem actividades de I&D em empresas, dos quais 100 possuem um doutoramento. Apesar dos recentes aumentos do investimento, a debilidade crónica do financiamento em I&D traduz-se num reduzido número de investigadores e de pessoal implicado em tarefas de investigação e desenvolvimento experimental.
Portugal possui apenas 9.800 investigadores (em equivalente a tempo inteiro, correspondentes a um total de 16.000 pessoas, estimativa para 1995) o que representa 2,1 por mil elementos da população activa. O mesmo ratio é de 5,5 por mil na OCDE e 4,6 por mil na UE. Quando se compara o peso do total de trabalhadores envolvidos em actividades de I&D, que era de 13.448 em 1992 (em equivalente a tempo inteiro) chega-se às mesmas conclusões: o ratio era então de 2,8 por cada mil elementos da população activa em Portugal, enquanto era, no mesmo ano, de 14,3 no Japão, 12,3 na Alemanha e em França, 9,3 na Holanda, 4,7 em Espanha (1991) e 6,1 na Irlanda (1991).
Baixos índices de produção
Esta situação traduz-se, como seria de esperar, numa baixa produção científica, estimada em 0,2 por cento da produção mundial de artigos publicados em revistas científicas com avaliação prévia ("peer review") nos cinco anos de 1991 a 1995 (ver Quadro 1).
Esta produção mostra-se particularmente baixa quando se compara com a de países como a Holanda ou a Bélgica que, com populações da ordem da portuguesa (quinze e dez milhões de habitantes, respectivamente) representam, respectivamente, 2,42 e 1,13 por cento da produção científica mundial. A Dinamarca e a Finlândia, com cerca de metade da população portuguesa, representam, por seu lado, 0,93 e 0,81 por cento da produção mundial de artigos científicos. A Irlanda, com um terço da população de Portugal, produz mais artigos: 0,26 por cento. E a Grécia, com uma população da ordem da portuguesa e um PIB "per capita" apenas ligeiramente superior ao de Portugal (7700 ecus anuais contra 7500 ecus) consegue produzir duas vezes mais artigos: 0,44 por cento da produção mundial nos cinco anos considerados.
A comparação internacional não é mais lisonjeira quando se tenta avaliar o impacto dessa produção — uma avaliação que contém já um elemento qualitativo —, através do número de citações referentes a esses artigos na literatura internacional. De facto, o número médio de citações obtidas por cada artigo português (2,28) é inferior ao de todos os outros países-membros da UE com a excepção da Grécia (1,85). Quando se faz esta avaliação por áreas científicas o resultado é mais claro: os artigos portugueses apresentam, em quase todas as áreas, um número médio de citações por artigo substancialmente inferior à média mundial de citações por artigo para a área considerada. Esta proporção, a que se dá o nome de "impacto relativo", está representada numa das colunas do Quadro 2. Um impacto relativo de 0,50, por exemplo, significa que os artigos portugueses nessa área têm um número médio de citações que é metade do número médio de citações por artigo nessa área a nível mundial.
O grau de desenvolvimento tecnológico nacional pode, por sua vez, ser avaliado de forma comparada graças a uma análise do número de patentes registadas por Portugal junto do Gabinete Europeu de Patentes (EPO). No ano passado, Portugal foi o país que menos patentes registou nesta organização: apenas três, o que representa 0,01 por cento do total de patentes concedidas pelo EPO (ver Quadro 3).
A cooperação internacional
Um dos factores que tem sido mais fortemente defendido como forma de ultrapassar a fragilidade crónica da investigação portuguesa tem sido o estreitamento da cooperação internacional. E este estreitamento, de facto, tem sido uma das principais características da evolução recente do Sistema Científico e Tecnológico Nacional. Enquanto no biénio 1980/81 apenas 28 por cento da produção científica nacional envolvia uma colaboração com o estrangeiro, em 1990/95 essa percentagem era já de 42 por cento, aparecendo como principais parceiros, por ordem decrescente, o Reino Unido, os Estados Unidos, a França, a Alemanha, a Espanha, a Itália, a Holanda e a Bélgica.
O Reino Unido, a França e os Estados Unidos continuam a ser os principais parceiros de Portugal mas, após a adesão à União Europeia, países como a Alemanha, a Espanha e a Itália começaram a representar um papel cada vez mais relevante para a ciência portuguesa. Se tomarmos como base apenas os projectos do Quarto Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento da União Europeia aprovados em 1995, por exemplo, a Alemanha ocupa já o primeiro lugar como parceiro de Portugal, seguida do Reino Unido, França, Itália, Espanha, Grécia, Bélgica, Holanda, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Irlanda, Áustria e Luxemburgo.
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