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segunda-feira, setembro 08, 2014

Uma crise, muitas crises. Um desafio, muitos desafios - Um novo jornalismo para servir a democracia

Texto escrito a pedido do Gustavo Cardoso para o "Projecto Jornalismo e Sociedade"

José Vítor Malheiros
Agosto 2014


A crise do negócio

Parece claro que o maior problema que afecta o jornalismo hoje na Europa e EUA - e, de forma especialmente aguda, em Portugal - diz respeito à sua sustentabilidade econ ómico-financeira. Os modelos de negócio do passado morreram e o jornalismo encontra hoje uma enorme dificuldade para vender o seu produto, mesmo que não peça mais aos seus clientes do que o preço de custo.
Durante cem anos quase não foi preciso imaginação para equilibrar as contas de um jornal. Somando vendas em banca, assinaturas, anúncios classificados e anúncios comerciais, era possível cobrir os custos da uma redacção, de uma estrutura empresarial e os custos industriais de produção de um jornal. E, se a empresa não tinha sucesso, era simplesmente por insuficiências da gestão ou porque o jornal não tinha conseguido encontrar o seu público, gerador de todas as receitas. Mas onde um jornal fracassava, outro era bem sucedido. O modelo funcionava.
Com o aparecimento da Internet e a profusão de oferta de informação, algo mudou de forma radical. Os jornais, as revistas, as rádios e as televisões perderam o seu monopólio de informar, que foi disseminado por milhões e milhões de produtores e difusores de informação, públicos e privados, amadores e profissionais, particulares e empresas, individuais e colectivos, com ou sem fins lucrativos, de todas as cores e credos, que começaram a disputar a atenção e o tempo dos leitores e lhes ofereciam informação e opinião grátis, muitas vezes de boa qualidade.
O público que cada órgão de comunicação social perdia "para a Internet" foi alimentando um círculo vicioso para o negócio: menos leitores significava menos publicidade e publicidade vendida mais barata, o que significava menos receitas, o que significava menos jornalistas e menos jornalismo, o que significava um produto menos atractivo e menos relevante, o que significava menos leitores...
As tentativas de fazer cobrar o acesso às versões online dos jornais, por seu lado, só muito raramente foram bem sucedidas, com uma maioria de leitores a recusar o pagamento e a prescindir do acesso. Afinal, quando se tem toda a Internet, o que representa um jornal a mais ou a menos?
Muitos jornais continuam, tristemente, a não perceber isto. A não perceber que o seu concorrente deixou de ser "o outro jornal" e "a outra televisão" e passou a ser "toda a Internet" e que a diferenciação se tem de conseguir hoje em relação a "toda a Internet" ou, para ser mais rigoroso, em relação a toda a Internet do mesmo espaço linguístico.
O facto de o jornalismo não gerar suficientes receitas para se financiar a si próprio não é um problema novo. Uma parte considerável das receitas dos jornais sempre se deveu a outros tipos de conteúdos. Comprava-se o jornal não só para ler as notícias mas também para ver o cartaz de cinema ou a programação da televisão, para procurar emprego ou para alugar casa, para ver que tempo faria amanhã e para saber que farmácia estava de serviço. E os anunciantes publicavam anúncios no jornal porque sabiam que iam chegar a todos estes segmentos do público. Só que o jornalismo estava colado aos outros conteúdos. Mas de repente, com a Internet, os jornais clássicos desagregaram-se e surgiram serviços que forneciam toda essa informação por todo o lado, 24 horas por dia, em actualização constante, sem ser preciso comprar um jornal ou pagar a informação. Os compradores diminuíram e, sem essas receitas, o jornalismo tornou-se dificilmente sustentável.
Não cabe aqui tentar encontrar a solução para o problema do novo modelo de negócio dos jornais. Penso que não há uma solução mas muitas soluções. Há jornais bem sucedidos em muitos países, com diferentes modelos, provavelmente não reprodutíveis. Mas é claro que muitos jornais continuarão a desaparecer e que já não há lugar para o "jornal  transatlântico" do passado, uma cidade flutuante com secções para toda a família, para todos os gostos e todos os momentos. Penso que olharemos em breve para esses grandes jornais como olhamos para os dinossauros.

A crise de auto-estima

A crise do negócio trouxe consigo uma crise da auto-estima dos jornalistas. Numa sociedade onde o sucesso se mede em grande medida pelo poder e pelo poder económico, viver com um estatuto de fragilidade, à beira da falência e do risco de extinção, ser incapaz de garantir a independência financeira das suas empresas, tentar sobreviver contrariando um mercado que nos considera irrelevantes e dispensáveis (como organização e como profissionais, apesar da manutenção de uma certa aura social) não era fácil. Para mais quando a esta perda de poder e perda de estatuto como profissionais se somava uma violenta perda de estatuto como trabalhadores, vivendo sob a ameaça da despromoção, do despedimento e do desemprego.
De arrogantes representantes do quarto poder, independentes e influentes, capazes de fazer ouvir a sua voz e de fazer tombar poderosos, os jornalistas 
começaram a sentir-se transformados em entidades negligenciáveis no mundo saturado de informação da Internet.
Por outro lado, os profissionais mais conscientes tinham a perfeita noção de que este não era o jornalismo que tinham sonhado fazer quando escolheram a profissão nem, na maioria dos casos, os jornalismo que tinham aprendido a fazer.

A crise da organização

A crise do negócio teve outras consequências graves ao nível das empresas. As empresas de comunicação social adoptaram estratégias de redução de custos que foram até ao osso: as redacções encolheram drasticamente, geralmente através do despedimento dos jornalistas mais experientes e mais caros; os salários médios desceram; os contratos precários tornaram-se a regra, assim como o abuso de "estágios" não pagos; os gastos da redacção foram reduzidos ao mínimo, nomeadamente em deslocações e reportagens; a formação profissional desapareceu; os jornalistas especializados foram pressionados a tornar-se generalistas, usando o argumento de que um "verdadeiro" jornalista tanto escreve sobre crime como entrevista o ministro das Finanças e foi imposto um ritmo de cadeia de montagem nas redacções. Foi tudo feito em nome da eficiência e da competitividade, da sobrevivência das empresas e da salvação do jornalismo, mas esta revolução produtivista teve duas consequências maiores: a proletarização dos jornalistas, com tudo o que isso significa de descida do nível de vida e de fragilização da classe, e a instauração de um modo de produção industrial naquilo que, durante um século, tinha sido uma actividade eminentemente intelectual.
Em termos simples: nas redacções deixou de haver tempo para pensar, para discutir, para trocar ideias, para investigar, para confirmar, para criticar, para estudar, para ler, num momento onde as apostas deveriam ter sido feitas precisamente num aumento do rigor, na capacidade de análise e na investigação como factores de diferenciação e de competitividade num mundo cada vez mais complexo e submerso em cada vez mais informação. Em vez disso, víamos jornais a disputar ao segundo quem publicava primeiro uma notícia fútil que, passado um minuto, todos os jornais teriam.
A qualidade do jornalismo ressentiu-se, o jornalismo tornou-se mais igual e os leitores castigaram os jornais deixando cada vez mais de os ler. Porquê ler um jornal que traz a mesma notícia que todos os outros, que comete os mesmo erros que todos os outros e que cita as mesmas fontes que todos os outros?
A redacção, por seu lado, amputada no seu papel de rede social, com secções desarticuladas para reduzir o poder reivindicativo dos jornalistas e chefias intermédias desautorizadas e reduzidas a uma função de capatazes, perdeu em grande medida a sua autoridade, o seu papel de comunidade de prática, de entidade formadora, de instância de validação de procedimentos e de reconhecimento de méritos, de repositório de histórias de referência, de lugar de todas as discussões e de fonte da cultura jornalística.
Mesmo nas raras redacções onde estes problemas não se colocaram de forma tão violenta e que não sofreram desestruturações por razões económicas, não foi fácil encontrar soluções organizativas que respondessem aos novos desafios. Como articular a produção para o papel e para o online? Que importância dar ao vídeo? Como proporcionar aos profissionais as novas competências necessárias? Todos os jornalistas devem produzir histórias multimedia? Que tipo de workflow serve melhor uma empresa que produz informação a diferentes ritmos e para diferentes suportes? Como envolver os leitores? Como usar as redes sociais? 
As redacções viram-se assim mergulhadas num absoluto caos onde nenhuma referência (técnica, cultural, ética) parecia segura.

A crise da ética jornalística

O modo de produção industrial impõe as suas leis. Se o que se exige aos jornalistas acima de tudo é que escrevam muito em pouco tempo, verifica-se uma inversão dos critérios jornalísticos e uma corrupção das boas práticas. A importância e a relevância são subalternizados como critérios para dar lugar à facilidade de produção. A facilidade de acesso à informação, a disponibilidade dos dados, a proximidade da fonte e a redução ao mínimo do contraditório tornam-se os critérios por excelência. Se todos os elementos relativos a um dado assunto me caírem no mail, é sobre esse assunto que vou escrever. Quando se recebe uma informação bem preparada, bem formatada, sem erros de português, que para mais cita "dados oficiais", quando a fonte institucional está disponível do outro lado do telefone, essa informação terá precedência sobre outra história, talvez muito mais importante para os leitores mas mais confusa, com mais imponderáveis, com hipóteses por confirmar, dados por desenterrar, mais polémica, com diferentes intervenientes com interesses opostos e que será muito mais difícil de confirmar e de escrever.
O modo de produção industrial do jornalismo promove assim um "jornalismo" institucional, sempre ligado ao poder, que foge de problemas que fazem desperdiçar tempo e recursos, um jornalismo de fontes oficiais e dados oficiais, de narrativas pré-formatadas, de "exclusivos" de gabinetes de comunicação, de meetings "off the record" com membros do governo, de comunicados de imprensa e de "conferências de imprensa" com declarações oficiais e sem perguntas. Não se trata de corrupção dos jornalistas, ainda que ela possa existir. Trata-se da corrupção do jornalismo. Trata-se de criar restrições de tempo e de despesa ao trabalho jornalístico, de fragilizar jornais e jornalistas a um ponto tal que estes receiem qualquer confronto, receiem criar inimigos, trata-se de incutir nos jornalistas uma "disciplina profissional" que é de facto um manual de obediência e de prudência, quando não de respeitinho. E de o fazer de forma insidiosa, em nome da "boa gestão", da "produtividade", das boas relações com as fontes.
Muitos jornalistas aprendem assim a sua profissão, como operários de uma cadeia de montagem onde tudo o que possa perturbar o ritmo de produção será mal visto, onde "parem as rotativas" é um crime de sabotagem económica e não um grito de independência e um apelo à cidadania. Onde um jornalista céptico que verifica o que lhe dizem e que gosta de perceber o que se passa antes de escrever dificilmente tem lugar. Chegamos assim à era do fast journalism.

A crise de reputação 

O problema do fast journalism é que não oferece nada de novo nem nada de subtantivo aos leitores/ouvintes/espectadores. Tem algum valor de entretenimento mas não oferece nada daquilo que constitui a razão de ser do jornalismo: informação independente e crítica que nos ajuda a compreender e a agir sobre o mundo.
O cidadão comum pode consumir este jornalismo desde que lho seja oferecido sem custo, mas o cidadão exigente interroga-se. Para que lhe serve este jornalismo que apenas consegue fornecer algum sentido ao mundo se for complementado com a leitura de sites de organizações cívicas, de blogues de comentadores amadores, de publicações académicas, de discussões nas redes sociais? Para que serve um jornalismo que pode ser substituído com vantagem por todas aquelas fontes?
Para que serve um jornalismo que, seja por simpatia ideológica ou por manifesta falta de meios, apenas repete a narrativa do poder?  Para que serve um jornalismo que repete a narrativa do poder mesmo quando é manifesto que ela é falsa?
Para que serve um jornalismo que apenas desmascara os escândalos que já se tornou impossível manter secretos? Para que serve um jornalismo cujo poder, de tão reduzido, nunca atinge os poderosos? Para que serve um jornalismo que distrai mais do que mobiliza, que bajula mais do que critica?
A reputação do jornalismo tem vindo assim a cair. Nos EUA, a guerra do Iraque  ou a crise do subprime marcam dois momentos de descalabro da reputação da imprensa. Dois enormes escândalos que a imprensa deixou passar incólumes, durante anos, até que eles rebentassem por si sós ou desencadeados por instituições do mundo político, policial ou económico mas não pela imprensa. Uma parte da sociedade americana percebeu só nestes momentos que o "balanced reporting"; de que a boa imprensa americana se orgulha tanto, não é mais do que oferecer tempo de antena às duas forças mais poderosas do establishment e abandonar qualquer preocupação de chegar à verdade.
No Portugal recente podemos dar o exemplo da mentira da "sustentabilidade" da dívida pública, apenas desmontada pela imprensa após inúmeras movimentações de organizações cívicas.
Para que serve um jornalismo que não quer chegar à verdade?
Continuamos a ver o "jornalismo" fazer o seu relato "equilibrado" espetando o microfone à frente do Governo e da Oposição e esquecendo os factos, que ficam do lado de fora, a espreitar pela janela. Para que serve um jornalismo pé-de-microfone? Para que serve um jornalismo que não questiona? Para que serve um microfone que só questiona quem está na mó de baixo? Para que serve um jornalismo que ignora as minorias e os atropelos aos direitos? Para que serve um jornalismo que se entende como a voz do "arco do poder" e que se contenta com o pluralismo dos vários elementos do "arco do poder", mesmo quando é evidente que todos mentem? Estas questões, que todos os cidadãos começam a colocar, ferem de morte a reputação do jornalismo, envenenam a dignidade que lhe resta. E os media passam a fazer parte daquelas instituições em que ninguém (ou quase) confia, como os partidos políticos, o Governo, a Justiça, já não watchdog dos poderes mas cão de regaço dos poderosos.

A crise de credibilidade

E não se trata apenas de uma crise de reputação (que pode ser devida a mil factores e até ter razões honrosas) mas especificamente de uma crise de credibilidade. O problema é que não se pode acreditar no jornalismo. O problema é que a informação transmitida pelo jornalismo é tão sectária, tão propagandística, tão subserviente, tão classista, tão sexista, tão sensacionalista, tão pouco rigorosa ou tão descuidada que não merece mais credibilidade que o rumor que se ouve na praça. Não quer dizer que não haja imensas verdades nos jornais. Quero apenas dizer que essas verdades estão imersas num tal mar de mentiras que lhe retiram toda a credibilidade, toda a autoridade moral.
Os jornalistas dão-se conta disto com particular acuidade e sofrimento.

A crise de identidade

Há muito, entre os jornalistas, quem se ofenda com este estado de coisas. Com a redução do papel de fiscalização dos poderes que compete ao jornalismo, com a standardização e a plastificação do fast journalism, com a inexistência de meios para fazer outra coisa. Uma maioria de jornalistas sabe que o infotainment e os faits-divers que enchem os jornais e os telejornais não são o seu trabalho e gostaria de fazer outra coisa.
Mas qual é afinal o papel do jornalista neste mundo? O que é ser jornalista? Qual é o papel do jornalista numa empresa onde o classificam como "produtor de conteúdos" e onde a sua função parece resumir-se a encher um continente chamado "página" ou "site" ou qualquer outra coisa? Qual é o papel do jornalista numa empresa onde lhe dizem que a sua principal responsabilidade é contribuir para a solidez financeira do jornal, mesmo que para isso seja preciso pôr o jornalismo na gaveta, pois sem jornais não haverá jornalismo? Qual é o papel do jornalista quando lhe dizem que, na actual situação de incerteza, um jornal não se pode dar ao luxo de fazer demasiados inimigos?
Qual é papel do jornalista num mundo onde, de repente, todos parecem ser jornalistas e onde a fiscalização dos poderes é feita por organizações como a Wikileaks e onde as reputações se constroem e destroem no YouTube? E como fiscalizar os poderes sem cometer o pecado mortal de parecer militante?
Qual é o papel do jornalista num mundo onde se pode encontrar excelente informação sobre todos os temas em milhões de sites institucionais ou amadores? Para que servimos? Em que somos diferentes dos outros? Ainda somos indispensáveis? Somos sequer relevantes? Somos melhores que os amadores, que os bloggers? Se desaparecêssemos alguém daria por isso? A quem faríamos falta?
A situação de fragilidade das empresas jornalísticas espalhou a confusão no seio dos jornalistas. Em vez de se concentrarem no essencial, muitas empresas jornalísticas começaram a disparar em todas as direcções, fascinadas pelas possibilidades da tecnologia. Outras, sentindo-me ameaçadas pela avalanche de informação, tentaram ganhar o campeonato da quantidade e da rapidez, mesmo quando não tinham meios para tal.
E a esmagadora maioria continuou a fazer sensivelmente a mesma coisa que fazia antes, ignorando um mundo que se alterava radicalmente à sua volta.
Qual deve ser o papel do jornalista hoje em dia é uma pergunta mais urgente do que nunca e, sem encontrar a resposta, não vai ser possível devolver ao jornalismo a alma que ele se arrisca a perder. 

A crise narrativa

As novas possibilidades abertas pelo online, pelo multimédia, pelas redes sociais, pelo acesso à massa de informação da Internet trouxeram novos problemas aos jornalistas, independentes de todos os outros mas não menos graves.
Como se escreve uma história quando se têm todas estas ferramentas ao alcance dos dedos? Textos longos ou curtos? Ou diaporamas? Como se escreve um texto quando sabemos que os jovens vêem mais vídeos do que lêem textos e que o telemóvel está a suplantar o computador como suporte de acesso à informação? Como se atrai um leitor (espectador?) quando se sabe que a principal via de acesso a uma notícia é através da referência de um amigo no Facebook? Como usar o Facebook? Que suporte escolher? Como falar com os leitores? Como aproveitar as suas contribuições? Como se explora o acesso às bases de dados para fazer um melhor jornalismo? Usar o Twitter ou fazer dossiers multimédia exaustivos? Tell it first ou tell it better? Textos que façam vender o jornal ou que expliquem o mundo?
Perante uma tal crise de modelo narrativo e perante tantas possibilidades, seria de esperar uma explosão de experiências e elas tiveram lugar de facto... mas só raramente nas empresas jornalísticas. Estrangulados por demasiadas urgências, os jornalistas mais uma vez se deixaram ultrapassar por outros profissionais talentosos (artistas, informáticos) e outras organizações, perdendo uma oportunidade de mostrar ao mundo para que serviam as suas competências próprias.

A crise da verdade

O modelo do jornalismo anglo-saxónico, adoptado como referência na Europa, apostado numa abordagem profissional e não política, preocupado com os "factos" e com a "objectividade" e fugindo do pecado mortal da opinião, acabaria, com a profissionalização dos gabinetes de comunicação em todas as organizações, por evoluir para o modelo do jornalismo "equilibrado", que pretende que a descrição justa de um acontecimento e das suas consequências é a que resulta da combinação dos pontos de vista dos diferentes intervenientes e utiliza ao mínimo as capacidades de interrogar a realidade do próprio jornalista.
Esta visão resulta do debate filosófico sobre a inexistência da objectividade, mas também da visão da democracia como o regime do confronto de interesse e da negociação. O problema com esta visão é que nem todos os interesses possuem a mesma voz e a mesma visibilidade, que nem todos possuem o mesmo peso e nem todos são fáceis ou sequer possíveis de identificar. Tentar explicar a crise financeira através de entrevistas com o ministro das Finanças, o Governador do Banco de Portugal e (em nome do "contraditório") com o porta-voz da oposição, não é o mesmo que tentar explicar a crise citando um sem-abrigo, um desempregado e um sindicalista. A versão "equilibrada", com "contraditório", acaba por ser uma versão institucional de onde se torna flagrantemente evidente, em momentos de crise, que a verdade está ausente.
Com a crise financeira, por exemplo, tornou-se evidente que a versão que mais rigorosamente correspondia ao desenrolar dos acontecimentos (na crise do subprime nos EUA, na crise do euro na UE, na crise do BPN ou do BES em Portugal) era uma narrativa marginal, de sectores de esquerda, que foi sistematicamente abafada na narrativa mediática predominante ou apresentada com uma encenação que a identificava como uma bizarria sem credibilidade.
Este sentimento do jornalismo como uma actividade que, em momento cruciais, não esteve do lado da verdade mas do lado do poder, põe em causa de uma forma particularmente dolorosa a sua razão de ser e obriga-nos a revisitar problemas éticos e técnicos que o jornalismo pensava estarem resolvidos.
O jornalismo tem de correr o risco de tentar apurar factos mesmo (ou principalmente) quando eles não coincidem com as verdades oficiais e tem de correr o risco de construir uma narrativa própria, integrando todos os elementos que honestamente considere relevantes e contrariando as verdades oficiais sempre que necessário.

A crise democrática

A institucionalização de um pensamento hegemónico que o jornalismo não só não combate mas tende a impor ou a tratar com benevolência, mesmo perante a evidência dos seus malefícios, constitui uma das consequências e uma das causas mais graves das crises do jornalismo.
Afinal, a informação serve para fazer escolhas e para formar opinião. Mas, se não é possível uma verdadeira escolha, se o leque de opções é tão estreito como é apresentado pelo jornalismo, se apenas se pode alternar entre dois partidos que são primos direitos, se apenas se pode escolher entre o lume a frigideira, se há tantas escolhas sem alternativa, por que razão me devo incomodar? 
Se o jornalismo não me informa sobre o leque de escolhas, se não alarga o leque de escolhas mas antes o estreita, se não me dá informação para escolher de entre todas as opções possíveis, para que serve?
Por que razão preciso de me informar se, pense eu o que pensar, não posso alterar de forma alguma o que se passa à minha volta?
A ideia hegemónica "there is no alternative" que o jornalismo (activa ou passivamente) tem contribuído para difundir transporta uma sentença de morte para o jornalismo e para a democracia.
Se o jornalismo não dá voz aos que não têm voz, se não conta as histórias que alguns querem silenciar mas antes participa no silenciamento, para que serve?
Se o jornalismo é apenas uma caixa de amplificação das vozes que já se fazem ouvir por todo o lado, para que serve?
A ideia de que o jornalismo é uma asséptica ferramenta de informar as massas e não um instrumento fundamental para a democracia, uma actividade cívica por excelência e política por definição, tem colaborado em larga medida para a degradação do jornalismo.
A ideia do jornalista como mediador entre a realidade e os leitores, entre a sociedade e os cidadãos, foi substituída por uma ideia do jornalismo como mediador entre as organizações e os consumidores. O desejo de fazer um jornalismo de onde o conflito está ausente, um jornalismo defensivo que "apenas relata o que lhe dizem" e não corre riscos é contrária ao próprio jornalismo.

O que fazer?

O que se pode extrair daqui, deste panorama catastrófico?
Penso que a consciência desta situação de grave crise traz consigo um mar de possibilidades e muito mais do que uma réstia de esperança.
Penso que, para os cidadãos, é hoje mais evidente do que há dez anos que há escolhas fundamentais que não podemos deixar de fazer e que o jornalismo é fundamental para as podermos fazer de forma informada.
Gosto de dizer que "o objectivo do jornalismo é produzir democracia" (em geral para pasmo das assistências) e penso que é necessário retomar essa chama.
O objectivo do jornalismo é produzir democracia porque a democracia é o regime das escolhas e apenas se pode escolher quando se sabe quais são as possibilidades, quais são as consequências, os custos e os benefícios de cada uma, quando se sabe quem defende o quê e porquê e quando é possível debater tudo isto. Não se podem fazer escolhas sem ter informação, sem ter opinião, sem ter debate público. E tudo isto são os deveres do jornalismo: informação, opinião, debate público. O papel do jornalismo não é fazer de moço de recados dos poderosos.
O jornalismo é também uma máquina de produção de racionalidade porque interroga e obriga a sustentar um discurso em factos e na razão. Não basta repetir o que diz o Governo, mas é preciso saber por que o diz, porque só o diz agora, porque diz agora o contrário do que disse, porque diz o mesmo que Fulano e o contrário de Sicrano. O papel do jornalismo não é repetir, mas interrogar, confrontar, contrapor, confirmar, desmentir.
E, mais importante, o papel do jornalismo não é apenas perguntar e citar, mas ver, investigar e explorar no terreno.
Este papel interveniente, cívico, activo do jornalismo é esperado por toda a sociedade.
Mas isso não significa tomar partido? Deverá o jornalista fazer isso?
Significa e deve. Deve tomar partido pela verdade, pelos factos, pela democracia, pelos direitos, pelos cidadãos (por todos os cidadãos, mesmo os esquecidos) contra a mentira, contra a propaganda, contra os abusos, contra a manipulação.
Significa correr riscos? Certamente. Nem sempre será fácil escolher o que se diz e o que se publica, mas aqui, como sempre, terá de ser a consciência e a transparência de procedimentos a ditar o curso das acções.
O momento que vivemos, com as ferramentas tecnológicas fascinantes (e também perigosas) que temos na ponta dos dedos, mostram-nos todos os dias que o jornalismo está a mudar de forma drástica. Mas mostram-nos também que é hoje possível fazer muito mais e melhor do que fazíamos há dez anos. É hoje possível envolver o público neste novo jornalismo, apostando no trabalho colaborativo, no citizen journalim, no data journalism. O jornalismo nunca foi tão necessário porque a democracia nunca foi tão urgente como agora. As ferramentas estão aí e o público espera isso dos jornalistas. Não de forma passiva como no passado, mas de forma participativa, o que é melhor. O que esperamos?
FIM

terça-feira, abril 01, 2014

Os jornalistas não podem ser cúmplices de encobrimento

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 1 de Abril de 2014
Crónica 19/2014


A não identificação das fontes deve servir para proteger os mais fracos, não os mais fortes.

“Pois, pois, eu sei, os jornalistas nunca revelam as suas fontes…” A frase é em geral dita ao jornalista com um sorriso sabido e acompanhada de uma piscadela de olho em sinal de cumplicidade. Na verdade, a frase é um disparate absoluto.

A regra e o dever do jornalista é, pelo contrário, identificar as fontes, como se escreve no Código Deontológico do Jornalista. Porquê? Porque o compromisso dos jornalistas é, antes de mais e acima de tudo, com os seus leitores (e não com as suas fontes, e não com o Governo, e não com os seus patrões) e os cidadãos têm tanto direito a conhecer a informação como a conhecer a sua fonte. Porquê? Para poderem avaliar eles próprios da credibilidade da informação e porque os cidadãos devem ter a possibilidade de responsabilizar a fonte, se se verificar que a informação prestada é afinal falsa ou malévola.

Há ainda outra razão para a identificação das fontes quando se trata de actos de agentes políticos ou de responsáveis da administração pública: o facto de o jornalista ter o dever de promover a responsabilização dos poderes.

Há casos em que o jornalista deve proteger a identidade da sua fonte? Há, mas a não identificação é uma excepção e apenas deve ser usada para proteger a fonte de eventuais represálias. É o caso de um funcionário de uma organização que denuncie ilegalidades praticadas por essa organização e que não deve ser penalizado por cumprir um dever de cidadania. O anonimato deve servir para proteger os mais fracos, não os mais fortes.

Há outros casos onde o jornalista deve garantir o anonimato a uma fonte mesmo que esta não corra perigo? Há, mas são excepções que deveriam ser ainda mais raras: quando a informação oferecida ao jornalista em troca da garantia de anonimato é muito relevante para o público e quando não é possível obter essa informação sem esse compromisso. Trata-se de uma cedência feita pelo jornalista em nome do superior interesse dos leitores.

Se o anonimato das fontes dos jornalistas deve ser uma excepção porque é que vemos tantos filmes com jornalistas que juram proteger a identidade das suas fontes anónimas? Porque os filmes contam histórias com situações excepcionais.

Mas então os jornalistas que foram ao briefing do secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, fizeram bem ou mal em não o identificar? Pode-se pensar que fizeram bem, porque se tinham comprometido a não o identificar e as pessoas honestas cumprem os seus compromissos. Só que o próprio Código Deontológico abre uma excepção para os casos em que o jornalista garante o anonimato da fonte: quando a fonte mente. Nesse caso, o jornalista deixa de estar preso ao seu compromisso e pode identificá-la. Ora, segundo Passos Coelho, terá sido isso o que Leite Martins fez. Ao desmentir o secretário de Estado, Passos Coelho desvinculou os jornalistas de qualquer promessa de confidencialidade que tivessem feito.

Só que isto está longe de ser o cerne da questão.

O cerne da questão é que um grupo de jornalistas aceitou um convite de um membro do Governo para uma reunião onde lhes seriam dadas informações sobre as quais poderiam escrever e onde até poderiam fazer citações da fonte desde que não a identificassem (não é a isso que se chama off the record, mas isso é outra história). Não poderiam dizer que se tratava do secretário de Estado da Administração Pública José Leite Martins, mas poderiam citar as suas palavras atribuindo-as a uma “fonte oficial”. E os jornalistas aceitaram, antes mesmo de saber o que lhes iriam contar.

Ao aceitar esta restrição ao seu dever de informar, os jornalistas (e os seus órgãos de comunicação) cometeram uma falha grave. Ao prometer o anonimato, os jornalistas tornaram-se cúmplices do encobrimento de um membro do Governo que tem a obrigação moral e legal de assumir responsabilidades pelo que faz e pelo que diz. E colocaram-se numa posição a partir da qual será difícil exigir futuramente transparência e assunção de responsabilidades aos membros do Governo.

Havia uma razão para os jornalistas aceitarem o anonimato? O membro do Governo correria algum risco? Não. Queria apenas evitar responder à oposição e poder negar tudo o que dissera se as reacções fossem muito negativas (como foram), fiando-se na promessa dos jornalistas de que não o identificariam. Tratou-se apenas de uma operação de balão de ensaio comhigh deniability que é duvidoso que não fosse do conhecimento da ministra das Finanças e do PM.

Só que os jornalistas não existem para ser cúmplices destas manobras. Não era difícil fazer a coisa certa. A regra é simples: os jornalistas não são megafones nem testas-de-ferro do Governo. Se um membro do Governo quiser dizer alguma coisa, que diga e que assuma o que diz. É isso que os cidadãos lhe exigem. E, se por alguma razão inconfessável, não quer assumir o que diz, que se cale em vez de mandar uns jornalistas fazer o seu trabalho. E os jornalistas, quando um membro do Governo lhes manda escrever alguma coisa e ainda lhes diz como o devem escrever, devem simplesmente dizer não. (jvmalheiros@gmail.com)


Artigo no Público: http://www.publico.pt/portugal/noticia/os-jornalistas-nao-podem-ser-cumplices-de-encobrimento-1630495 

terça-feira, janeiro 14, 2014

O sonho evanescente de um jornalismo independente

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 14 de Janeiro de 2014
Crónica 2/2014


Quem quiser saber quais são os impactos desta ou daquela política tem hoje de se dedicar a um trabalho insano

Uma piada que corre há uns anos nos EUA diz que os americanos vêem programas de humor como o “Daily Show” do humorista Jon Stewart para ficarem informados e programas de informação como os da Fox News para se rirem. É verdade que os programas de Jon Stewart são particularmente informativos e fazem uma atenta leitura crítica da realidade poilítica americana e que os programas da reaccionária Fox News são particularmente manipuladores e desonestos, mas o aforismo é verdade em geral e não apenas para os EUA. Humoristas como os americanos Jon Stewart e George Carlin, como os britânicos Monty Python ou Ricky Gervais, como o francês Coluche ou como os portugueses Mário Viegas, Bruno Nogueira ou Ricardo Araújo Pereira tiveram ou têm um papel mais importante na visão crítica da sociedade e na denúncia de injustiças ou de absurdos do que a esmagadora maioria dos media de informação e dos jornalistas profissionais.

Mas não se trata só dos humoristas. Uma das grandes alterações do panorama mediático dos últimos anos, em Portugal e não só, foi a relevância conquistada pelos artigos de opinião. Hoje em dia, uma percentagem elevada de leitores de jornais e sites começa a sua leitura diária pela secção de Opinião e dedica a estes textos um tempo muito superior ao que dedica aos textos noticiosos. O êxito dos blogs na primeira década do século ou das redes sociais nesta década é aliás um reflexo desta valorização da opinião, ainda que produzida por autores muitas vezes comprometidos ou mesmo fortemente sectários. Porque é que essa parcialidade dos pontos de vista não reduz de forma dramática a audiência e a credibilidade dos opinadores? Porque a parcialidade é compensada pela enorme riqueza e variedade de pontos de vista disponível na Internet e pelo controlo que o sistema de comentários consegue fazer, corrigindo erros e compensando exageros.

Nada disto seria um problema se não se desse o facto de que estes cidadãos procuram cada vez mais as crónicas humorísticas e os artigos de Opinião não só para saber o que os seus autores pensam mas principalmente para “saber o que aconteceu”, ou “o que aconteceu de importante” ou “o que quer dizer aquilo que aconteceu” - num cenário onde essa informação já não pode, ou quase não pode, ser extraída da actividade jornalística e das notícias em particular.

De facto, assistimos nos últimos trinta anos (desde o consulado de Margaret Thatcher, também conhecida pelo petit nom “TINA”, de “There Is No Alternative”) a uma investida da agenda neoliberal que se tem traduzido não só na imposição de visões ideológicas da extrema-direita económica pela propaganda partidária mas também numa captura da actividade jornalística, de forma a censurar de facto qualquer veleidade de discurso independente. Este cerco e subsequente conquista do jornalismo (com raras excepções pontuais) foi possível devido ao uso combinado de diferentes armas e ao concurso de algumas circunstâncias fortuitas, mas hoje está quase completamente concluído. Quem quiser saber o que se passa de facto na política portuguesa ou europeia, quais serão os impactos desta ou daquela política, tem hoje de dedicar um tempo insano à leitura de blogs de especialistas e comentadores independentes, de textos de organizações partidárias e profissionais, de estudos académicos. O jornalismo costumava fazer-nos poupar tempo mas deixou de o fazer. O que o grosso do jornalismo hoje nos oferece (e a televisão tem aqui o principal papel) não é mais do que a repetição de um discurso hegemónico, de carácter propagandístico, de direita (defensor da desigualdade), que nos repete que não há alternativa (TINA) ao crescimento da pobreza, à desigualdade, ao enriquecimento dos mais ricos, à destruição do estado social, à degradação do trabalho, à exclusão dos pobres.

Isto não significa que a função de fact checking do discurso do poder não seja feita (esporadicamente) por alguns jornalistas e órgãos de imprensa, mas significa que essa função é silenciada por uma enxurrada de propaganda, que os media repetem, com a desculpa de que estão “a citar o primeiro-ministro” ou outra semelhante e com o argumento (verdadeiro) de que não possuem meios para verificar tudo o que o homem diz.

Veja-se o que se passa com a invenção do “aumento do emprego” do discurso de Passos Coelho, ou com a aldrabice da “retoma económica” que o Governo tem vindo a repetir, ou com a ficção do “programa cautelar” delicodoce que Cavaco Silva elogia ou com a abjecção da “insustentabilidade das pensões” que PSD e CDS apregoam. Não há pessoas a denunciar estas e outras aldrabices? Há, e há-as da esquerda radical à direita democrata-cristã (a sério) e as vozes que o dizem são reconhecidamente competentes e respeitadas. Mas são vozes singulares num mar de discurso propagandístico avassalador que repete a voz do dono e onde as televisões ocupam a parte de leão. Este é o cancro que se encontra no centro do problema político das sociedades actuais. (jvmalheiros@gmail.com)

domingo, novembro 24, 2013

Escrever para viver melhor - Prefácio do livro “Os leitores também escrevem”

Prefácio do livro “Os leitores também escrevem”, lançado no dia 24 de Novembro de 2013

Por José Vítor Malheiros

Autores: António Catita, Maria Clotilde Moreira, José Amaral, Fernando Cardoso Rodrigues, João Fraga de Oliveira, Francisco José Ramalho Nunes, Augusto Küttner de Magalhães, Joaquim Abílio Pinto de Moura, Vítor Colaço Santos, Ana Santos, Rogério Gonçalves e Céu Mota. Nota de Fábio Ribeiro


É um lugar-comum dizer que “os leitores são a razão de ser dos jornais”. A frase foi repetida milhões de vezes por jornalistas de ar grave e foi sempre ouvida com um sorriso de contentamento pelos leitores.

A expressão pretende ser um reconhecimento formal dos direitos dos leitores, mas acontece com ela o mesmo que com o tratamento cavalheiresco das mulheres pelos homens:  tem um perfume de lisonja sedutor, mas esconde um perigoso lastro de paternalismo.

Dizer que “os leitores são a razão de ser dos jornais” quis dizer simplesmente durante décadas que os leitores eram os utilizadores finais do jornal, os leitores dos seus artigos, os consumidores dos seus anúncios. Mas há uma unidireccionalidade escondida na frase que condena os leitores a uma situação de meros receptores da mensagem. Quando um jornal diz que “os leitores são a razão de ser dos jornais” está a dizer que faz tudo a pensar nos seus leitores e que são os interesses dos leitores (tal como o jornal os concebe) que determinam as suas escolhas. Mas não que os leitores devam ter maior influência no jornal ou mais espaço nas suas páginas. A relação de poder sempre foi assimétrica e o aforismo reflecte essa assimetria. Afinal, o jornal sabe coisas que os leitores não sabem e esse ascendente justifica a relação de poder - é aliás por causa disso que os leitores compram o jornal. É para ficarem a saber mais, para receber a informação que  o jornal recolheu, trabalhou e publicou em sua intenção.

Claro que os leitores nunca foram consumidores passivos e sempre fizeram conhecer as suas críticas, os seus comentários e sugestões, usando mecanismos mais ou menos tradicionais para influenciar os jornais, os directores, os jornalistas: fazendo chegar dicas e sugestões aos jornalistas, escrevendo Cartas ao Director, artigos de opinião, cartas ao Provedor,  fazendo queixas e reclamações ou, mais drasticamente, deixando de comprar o jornal.

Mas a questão é que, apesar de tudo isso, durante séculos, a imprensa escrita foi uma plataforma onde o jornal falava e os leitores ouviam.

A Internet veio agitar de forma radical este status quo, tornando evidentes verdades conhecidas mas que durante muitos anos estiveram escondidas. A primeira descoberta foi que havia afinal muitos mais leitores exigentes do que deixavam antever as escassas dezenas de pessoas que se davam ao trabalho de enviar cartas ao director. A segunda, e mais traumática para muitos jornalistas, foi a constatação de que os leitores sabiam afinal mais, muito mais, do que os jornais que liam e eram capazes de uma análise crítica do que lhes era oferecido. Esta constatação não devia ser uma surpresa. Afinal, esse “grande público” de que falamos reúne todos os especialistas de todas as áreas e não há domínio do conhecimento que lhe escape e sobre o qual não tenha algo a dizer. Mas a dificuldade em reagir - o facto de ter de usar outro meio de comunicação, como a carta, muito mais pesado e lento, para enviar ao jornal as suas reacções - e o escasso feedback dos leitores que ele causava alimentou durante décadas esta ideia de um público que, apesar das honrosas excepções, era largamente passivo e expectante, admirativo e ignorante.

A explosão da blogosfera a partir do ano 2000 foi o primeiro sinal evidente de que as coisas estavam a mudar na relação entre leitores e jornais. De súbito, pessoas que eram simples leitores num dia, tornavam-se autores no dia seguinte (jornalistas, críticos, colunistas) e encontravam um público sequioso e uma influência inesperada. As discussões sobre a concorrência entre bloggers e jornalistas tornaram-se comuns e a pergunta “irão os blogs substituir os jornais?” tornou-se central nessas discussões. Os blogs não eram (não são), porém, apenas a transformação de leitores em autores com a correspondente multiplicação do número de palestras: eram principalmente um espaço onde o diálogo entre autores e leitores-comentadores encontrava um novo estatuto. A palestra começava a transformar-se numa conversa, para usar a expressão cunhada por Dan Gillmor no seu livro “We the media” (2004). As redes sociais como o Facebook e o Twitter viriam depois ampliar desmesuradamente este fenómeno, ao transformar os leitores nas principais fontes de recomendação dos sites de informação e ao dar ao “conteúdo gerado pelos utilizadores” o primeiro lugar no consumo de informação.

E, no entanto, as consequências deste empoderamento dos leitores estão ainda largamente por extrair, em Portugal e no resto do mundo, apesar de experiências pioneiras levadas a cabo por todo o lado.

Penso que uma das revoluções mais profundas que está a abalar o jornalismo tem a ver com esta nova relação com os leitores, ainda mal digerida e mal gerida, com este novo poder que os leitores possuem não só de criticar a informação dos jornais, mas de lançar as suas próprias discussões, de impor os seus temas e até de participar na produção de informação com um nível elevado de complexidade - através de projectos de crowdsourcing, por exemplo, onde milhares de cidadãos podem recolher informação, validá-la e difundi-la em parceria com órgãos de comunicação tradicionais.

Timidamente, os jornais abriram os seus sites a comentários de leitores, mais ou menos controlados, mas é evidente que isso é demasiado pouco, demasiado tarde. A conversa que os leitores querem é uma conversa entre adultos, sem tutelas, e os jornais, pura e simplesmente, não possuem ainda ferramentas (culturais, narrativas, organizacionais) para a levar plenamente a cabo.

É verdade que o espaço do comentário nos sites de jornais portugueses foi ocupado, na generalidade dos casos, por desabafos anónimos de baixo nível e não por exercícios de cidadania responsável, mas isso não se deve apenas à falta de qualidade dos leitores mas, também, à falta de qualidade do próprio espaço, cuja gestão exige um investimento que os jornais não possuem condições para fazer. Mas essa necessidade de diálogo existe e os jornais terão de encontrar meios para a satisfazer se não quiserem seguir o caminho da irrelevância.


“Os leitores também escrevem” é uma prova da vitalidade submersa que os leitores dos jornais possuem e que estes escassamente aproveitam - para não dizer que a desperdiçam.
Reunião de textos de doze leitores compulsivos de jornais, publicados como Cartas ao Director ou artigos de opinião, este livro é, antes de mais, uma declaração de amor aos jornais, exemplificando todos os matizes por que passa uma relação passional.

Para os autores de “Os leitores também escrevem”, os jornais (nas suas versões em papel ou online) são locais de encontro e de confronto. Encontro de ideias mas também de pessoas, confronto de leituras e de propostas. São locais de cidadania, de inscrição e de agência que têm de ser ocupados pelos cidadãos. São os locais onde as discussões racionais e emocionais acontecem, onde a história e o desejo têm lugar e que, por isso, são o lugar natural por onde passam as escolhas da cidade.

Há em todos estes textos uma urgência, uma exigência, uma generosidade e uma persistência que espantam. O que nos dizem estes textos e o gesto de os reunir em livro, para assim os expor a outro nível de discussão, é que podemos viver melhor, que queremos viver melhor e que sabemos viver melhor. E que a melhor maneira de o conseguir é incluir na conversa todos os cidadãos.


José Vítor Malheiros

Lisboa, Julho 2013

terça-feira, novembro 19, 2013

Quando o discurso jornalístico reproduz a propaganda

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 12 de Novembro de 2013
Crónica 42/2013


Usar a expressão “arco da governabilidade” é equivalente a proclamar um direito natural do PS, PSD e CDS a governar


É interessante fazer uma pesquisa. “Arco da governação”: 132.000 resultados no Google. “Arco da governabilidade”: 90.300 resultados.

O que quer dizer “arco da governação”? A expressão foi inventada por Paulo Portas e representa os três partidos políticos mais à direita no espectro parlamentar: o CDS, o PSD e o PS. Os três partidos que assinaram o memorando da troika.

Para o CDS a expressão vale ouro. Num sistema que funciona garantindo a alternância entre PS e PSD, o “arco da governação” foi a sua maneira de meter o pé na porta e garantir a entrada na primeira divisão. “Eu também! Eu também sou da governação!” E é verdade. O CDS tem estado em coligação em vários governos, ajudando o PSD ou o PS a garantir a maioria que lhes forneceu apoio parlamentar.

Depois do “arco da governação“ Portas lançou o “arco da governabilidade”, esticando um pouco mais a corda. Se o “arco da governação“ podia ser definido como o conjunto dos partidos que “têm governado” nos últimos anos, o “arco da governabilidade” é o conjunto dos partidos que “podem governar”, os partidos que podem garantir que o país é governável.

O problema com estas expressões é que são ambas expressões de propaganda, que têm o objectivo de excluir do panorama político e mediático as forças mais à esquerda.

Usar a expressão “arco da governabilidade” para representar a tríade PS-PSD-CDS é equivalente a proclamar um direito natural destes partidos a governar e a proclamar a não-naturalidade da participação de outros partidos no Governo. Um Governo com o PCP? Com o BE? Hmmm… não sei… não fazem parte do “arco da governação”, pois não?

A colagem de epítetos aos partidos sempre fez parte do debate político, com o intuito de criar divisões ou forçar alianças, de promover ou atacar esta ou aquela força. O que é novo e surpreendente é o facto de expressões deste tipo, politicamente marcadas, criadas para ser usadas no combate político, carregadas de uma intenção de segregação de uma parte do espectro político, serem usadas por pivots de telejornais, por jornalistas e comentadores de jornais, por académicos e responsáveis políticos mesmo quando possuem um dever de neutralidade e mesmo quando pensam estar a ser equidistantes. A questão é que, por banalizada que a expressão esteja, ela continua a transmitir os seus valores e a condicionar de forma subconsciente o comportamento e as atitudes dos cidadãos. Quando um jornalista refere o “arco da governação” está a manipular os seus leitores.

O jornalismo está cada vez mais cheio destes chavões. Expressões curtas, às vezes bem gizadas, que instilam um insidioso pensamento sectário e disseminam uma determinada visão do mundo.
Uma que nos últimos dias (a propósito do chamado “Guião para a reforma do Estado”) encheu os jornais foi “a regra de ouro”. Quem é que não gosta de uma regra de ouro? Não é evidente que uma regra de ouro é sempre absolutamente boa e perfeita e nos orienta no caminho do bem, da verdade e da felicidade? Não é a regra de ouro da moral (“faz aos outros como queres que te façam a ti”) que se encontra na base da ética de reciprocidade sobre a qual construímos o nosso direito e as nossas sociedades?

Só que esta “regra de ouro” que agora emergiu é a “regra de ouro orçamental” e representa a inscrição de limites à dívida e ao défice na Constituição. Quem teve a desfaçatez de lhe chamar “regra de ouro”? Os estrategas que inventaram o tratado orçamental claro, ou os publicitários ao seu serviço. Mas isso não evita que, para a maioria dos jornalistas e comentadores, esta “regra de ouro”, altamente discutível para não dizer criminosa, que representa uma opção política com riscos cada vez mais claros, que serve determinados interesses e espezinha direitos, seja… a “regra de ouro”. Para quê pensar quando se tem um computador à frente que faz copy-paste? E neste momento há milhões de portugueses sem perceber por que razão há pessoas que são contra algo tão bom como tem de ser uma “regra de ouro”.

É também assim que os media nos dizem que o “PS recusa participar em qualquer diálogo com a maioria” (esquecendo-se de acrescentar “à margem do Parlamento”) só porque o líder parlamentar do PSD usou aquelas mesmíssimas palavras.

Ou dizem que os “Pais aprovam serviços mínimos nos exames“ só porque a direcção de uma associação de pais o disse. Pequenas simplificações que nos convencem de que o mundo é um sítio diferente daquele que é na realidade.

Os jornalistas devem usar as palavras das suas fontes quando fazem citações. Mas apenas quando fazem citações. Quando relatam acontecimentos ou os comentam, têm, por imperativo deontológico, de se distanciar do discurso das suas fontes porque este é sempre parcial e frequentemente manipulador. A imposição do léxico da direita no discurso mediático é a maior vitória que essas forças políticas poderiam almejar. Mas estão a consegui-lo. Utilizar o discurso do Governo para fazer notícias não é fazer notícias, mas sim fazer propaganda. Se o jornalista o faz conscientemente, comete uma falha ética grave. Se não o faz intencionalmente faltam-lhe competências técnicas básicas para fazer jornalismo. (jvmalheiros@gmail.com)

terça-feira, julho 23, 2013

Temos dinheiro para pagar os juros, mas não sobra para uma democracia

por José Vítor Malheiros
Texto publicado no jornal Público a 23 de Julho de 2013
Crónica 28/2013



Lembram-se daquela página dos primeiros tempos da Internet chamada "The End of the Internet"? Se procurarem agora no Google, há imensas e há até um site com esse nome onde se vendem T-shirts, mas esta era a primeira e a verdadeira, a única "The End of the Internet". Era uma página branca, com umas linhas de texto que diziam: "This is the end of the Internet. There are no more links. You can turn off your computer."

A política portuguesa parece-se cada vez mais com esta página. "There are no more links."

A política é, necessariamente, algo que nos deveria conseguir levar daqui para ali. Deveria ser a arte de nos oferecer diferentes links a clicar e de nos levar para onde queremos ir, a arte de escolher os links sem nos obrigar a desviar demasiado dos nossos interesses colectivos, tornando possível o que é desejável e fornecendo-nos ideias para desejarmos cada vez melhor.

Em vez disso, encontramo-nos num beco de onde ninguém parece ter a mínima ideia de como se sai e de onde os principais actores políticos não parecem sequer ter interesse em sair. Como uma caravela em calmaria, esperam que o vento se levante de novo e os leve algures, seja onde for, mesmo que seja para o naufrágio.

Como se dizia há anos a respeito do Brasil, o problema não é que Portugal esteja a atravessar uma crise. O problema é que não está a atravessar a crise, está parado no meio da crise. E o que é ainda pior é que a crise não está parada. Ela aprofunda-se, levando cada vez mais pessoas para o fundo, para o desemprego, a miséria e o desespero.

Porque é que as coisas até nem parecem estar pior? Porque os pobres não aparecem no telejornal, a não ser que seja para gritar no meio da rua quando há um acidente, um incêndio, um tiroteio. Os desempregados também não, a não ser que seja para ilustrar a estatística do INE, filmados à porta do centro de emprego, a dizer que "isto está mau". E a esquerda que está à esquerda do centro do PS também não, a não ser nos anos bissextos. Quantas pessoas explicam na televisão que a dívida não é pagável, como o sabemos todos? Quantas pessoas explicam na televisão que a recusa dos cortes de 4700 milhões é uma questão de mero bom senso e que Passos Coelho e a troikadevem estar loucos para insistir neles? Por que razão continuam os media (e as televisões em particular) a participar nesta enorme operação de ocultamento?

A descrição do país continua a ser feita nas mesas-redondas da televisão, nos comentários dos comentaristas, nos discursos dos ministros e dos dirigentes partidários do arco da governação, seguidos em matilha por uma pequena floresta de microfones. Será que um dia aqueles jornalistas todos, que repetem as mesmíssimas palavras dos ministros, que falam de "requalificação" em vez de despedimentos na função pública, de "reformas estruturais" em vez de cortes no Estado social, de "ajustamento" em vez de empobrecimento, do arco da governação como se fosse um artigo da Constituição, será que um dia todos estes jornalistas vão fazer dos tripés coração?

A função dos jornalistas não é repetir as declarações dos políticos. A função do jornalismo é produzir democracia. Porque a democracia é o regime das escolhas e a função do jornalismo é identificar opções, esclarecê-las, confrontá-las e colocá-las em discussão. Há demasiada retórica por explicar na política portuguesa, demasiada língua de trapos repetida por jornalistas, demasiadas perguntas por responder, demasiados discursos sem perguntas, demasiado respeito perante um poder que não respeita leis nem direitos.

Ao contrário do que se diz, não estamos em crise há três semanas por causa das demissões no Governo, nem há nove meses por causa das divisões no Governo. Estamos numa crise política profunda porque o Governo não sabe o que faz e vai continuar a fazer o que não sabe até ao fim, custe o custar, até à miséria final. Como se pagarão os juros em 2014? E em 2015? E por aí fora? Ninguém sabe. Mas pagar-se-ão custe o que custar. Mesmo que isso nos custe a vida, a democracia, o país. Afundamo-nos, mas pagamos primeiro os juros. Só depois as mulheres e as crianças. Como se governa assim? Segue-se o script que a troika escreveu e repete-se sempre a mesma coisa à frente do microfone com ar sério.

E a democracia? A soberania não reside no povo? O povo podia desempatar isto. Quando vai o povo escolher? O mais tarde possível. A democracia, já explicaram Cavaco Silva e Passos Coelho, é muito cara. As eleições fariam subir os juros, dariam uma ideia de instabilidade, obrigariam a um segundo "resgate". Só caloteiros é que fazem eleições, gente inconsciente, sem a noção do poder dos mercados. Um novo governo assustaria os credores. Para comprar uma democracia ficávamos sem dinheiro para pagar pensões. Não temos dinheiro para comprar mais democracia. Temos de ficar com esta democracia de plástico comprada na loja chinesa, com este manequim que faz de primeiro-ministro, com esta marioneta que faz de Presidente, com esta boneca de trapos que faz de oposição, com estes pés-de-microfone que fazem de jornalistas. (jvmalheiros@gmail.com)

quinta-feira, outubro 18, 2012

Manifesto: Pelo jornalismo, pela democracia

Manifesto

17 de Outubro de 2012

A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática.
O jornalismo não se resume à produção de notícias e muito menos à reprodução de informações que chegam à redacção. Assenta na verificação e na validação da informação, na atribuição de relevância às fontes e acontecimentos, na fiscalização dos diferentes poderes e na oferta de uma pluralidade de olhares e de pontos de vista que dêem aos cidadãos um conhecimento informado do que é do interesse público, estimulem o debate e o confronto de ideias e permitam a multiplicidade de escolhas que caracteriza as democracias.  O exercício destas funções centrais exige competências, recursos, tempo e condições de independência e de autonomia dos jornalistas. E não se pode fazer sem jornalistas ou com redacções reduzidas à sua ínfima expressão.
As lutas a que assistimos num sector afectado por despedimentos colectivos, cortes nos orçamentos de funcionamento e precarização profissional extravasa, pois, fronteiras corporativas.
Sendo global, a crise do sector exige um empenhamento de todos - empresários, profissionais, Estado, cidadãos - na descoberta de soluções.
A redução de efectivos, a precariedade profissional e o desinvestimento nas redacções podem parecer uma solução no curto prazo, mas não vão garantir a sobrevivência das empresas jornalísticas. Conduzem, pelo contrário, a uma perda de rigor, de qualidade e de fiabilidade, que terá como consequência, numa espiral recessiva de cidadania, a desinformação da sociedade, a falta de exigência cívica e um enfraquecimento da democracia.
Porque existe uma componente de serviço público em todo o exercício do jornalismo, privado ou público;
Porque este último, por maioria de razão, não pode ser transformado, como faz a proposta do Governo para o OE de 2013, numa “repartição de activos em função da especialização de diversas áreas de negócios” por parte do “accionista Estado”;
Porque o jornalismo não é apenas mais um serviço entre os muitos que o mercado nos oferece;
Porque o jornalismo é um serviço que está no coração da democracia;
Porque a crise dos média e as medidas erradas e perigosas com que vem sendo combatida ocorrem num tempo de aguda crise nacional, que torna mais imperiosa ainda a função da imprensa;
Porque o jornalismo é um património colectivo;
Os subscritores entendem que a luta das redacções e dos jornalistas, hoje, é uma luta de todos nós, cidadãos.
Por isso nela nos envolvemos.
Por isso manifestamos a nossa solidariedade activa com todos os que, na imprensa escrita e online, na rádio e na televisão, lutando pelo direito à dignidade profissional contra a degradação das condições de trabalho, lutam por um jornalismo independente, plural, exigente e de qualidade, esteio de uma sociedade livre e democrática.
Por isso desafiamos todos os cidadãos a empenhar-se nesta defesa de uma imprensa livre e de qualidade e a colocar os seus esforços e a sua imaginação ao serviço da sua sustentabilidade.


Proponentes

  1. Adelino Gomes - Jornalista
  2. Agostinho Leite - Lusa
  3. Alexandre Manuel - Jornalista e Professor Universitário
  4. Alfredo Maia - JN (Presidente do Sindicato de Jornalistas)
  5. Ana Cáceres Monteiro -  Media Capital
  6. Ana Goulart - Seara Nova
  7. Ana Romeu - RTP
  8. Ana Sofia Fonseca - Expresso
  9. Anabela Fino - Avante
  10. António Granado - RTP; Professor Universitário
  11. António Navarro - Lusa
  12. António Louçã - RTP
  13. Avelino Rodrigues - Jornalista
  14. Camilo Azevedo - RTP
  15. Carla Baptista - Jornalista e Professora Universitária
  16. Catarina Almeida Pereira - Jornal de Negócios
  17. Cecília Malheiro - Lusa
  18. Cesário Borga - Jornalista
  19. Cristina Margato - Expresso
  20. Cristina Martins - Expresso
  21. Daniel Ricardo - Visão
  22. Diana Andringa - Jornalista
  23. Diana Ramos - Correio da Manhã
  24. Elisabete Miranda - Jornal de Negócios
  25. Fernando Correia - Jornalista e Professor Universitário
  26. Filipa Subtil - Professora Universitária
  27. Filipe Silveira - SIC
  28. Filomena Lança - Jornal de Negócios
  29. Francisco Bélard - Jornalista
  30. Frederico Pinheiro - Sol
  31. Hermínia Saraiva - Diário Económico
  32. João Carvalho Pina - Kameraphoto
  33. João d’Espiney - Público
  34. João Paulo Vieira - Visão
  35. Joaquim Fidalgo - Jornalista e Professor Universitário
  36. Joaquim Furtado - Jornalista
  37. Jorge Araújo - Expresso
  38. Jorge Wemans - Jornalista
  39. José Luís Garcia - Docente e Investigador (ICS-UL)
  40. José Luiz Fernandes - Casa da Imprensa
  41. J.-M.  Nobre-Correia - Professor Universitário
  42. José M. Paquete de Oliveira - Docente, cronista, ex-provedor do telespectador (RTP)
  43. José Manuel Rosendo - RDP
  44. José Mário Silva - Jornalista freelancer
  45. José Milhazes - SIC / Lusa (Moscovo)
  46. José Rebelo - Professor  Universitário e ex-jornalista
  47. José Vitor Malheiros - Cronista, consultor
  48. Leonete Botelho - Público
  49. Liliana Pacheco - Jornalista (investigadora)
  50. Luciana Liederfard - Expresso
  51. Luis Andrade Sá - Lusa (Delegação de Moçambique)
  52. Luis Reis Ribeiro - I
  53. Luísa Meireles - Expresso
  54. Manuel Esteves - Jornal de Negócios
  55. Manuel Menezes - RTP
  56. Manuel Pinto - Professor Universitário
  57. Margarida Metelo - RTP
  58. Margarida Pinto - Lusa
  59. Maria de Deus Rodrigues - Lusa
  60. Maria Flor Pedroso - RDP
  61. Maria José Oliveira - Jornalista
  62. Maria Júlia Fernandes - RTP
  63. Mário Mesquita - Jornalista e Professor Universitário
  64. Mário Nicolau - Revista C
  65. Martins Morim - A Bola
  66. Miguel Marujo- DN
  67. Miguel Sousa Pinto - Lusa
  68. Mónica Santos - O Jogo
  69. Nuno Aguiar - Jornal de Negócios
  70. Nuno Martins - Lusa
  71. Nuno Pêgas - Lusa
  72. Oscar Mascarenhas - Jornalista
  73. Patrícia Fonseca - Visão
  74. Paulo Pena - Visão
  75. Pedro Caldeira Rodrigues - Lusa
  76. Pedro Manuel Coutinho Diniz de Sousa - Professor Universitário
  77. Pedro Pinheiro - TSF
  78. Pedro Rosa Mendes - Jornalista e escritor
  79. Pedro Sousa Pereira - Lusa
  80. Raquel Martins - Público
  81. Ricardo Alexandre - Antena 1
  82. Rosária Rato - Lusa
  83. Rui Cardoso Martins - Jornalista e escritor
  84. Rui Nunes - Lusa
  85. Rui Peres Jorge - Jornal de Negócios
  86. Rui Zink - Escritor e Professor Universitário
  87. Sandra Monteiro - Le Monde diplomatique (edição portuguesa)
  88. São José Almeida - Jornalista
  89. Sara Meireles - Docente Universitária e Investigadora (ESEC-Coimbra)  
  90. Sofia Branco - Lusa
  91. Susana Venceslau - Lusa
  92. Tiago Dias - Lusa
  93. Tiago Petinga - Lusa
  94. Tomás Quental - Lusa
  95. Vitor Costa - Lusa


Este é apenas o primeiro passo duma iniciativa que pretende ser mais ampla.
Nos próximos dias todos os jornalistas, bem como todos os cidadãos vão ser convidados a assinar e a participar.

Pelo jornalismo, Pela democracia